Nossas Redes

Crítica

Crítica | Cape God – Allie X

Allie X resgata experiências passadas e entrega um pop sombrio em seu novo trabalho.

Rodeada por troncos secos de árvores; um céu coberto por um véu escuro, permitindo que a luz solar adentre o espaço de forma contida; além de uma névoa que realça uma atmosfera marcada pela solidão; Alexandra Ashley Hughes caminha de forma perdida, observando cada detalhe do cenário como uma extensão dos sentimentos amargos vividos ainda quando muito nova. A cada passo dado por ela, as folhas secas em seus pés despertam reminiscências nada agradáveis, como lembretes pontuais de que toda a dor do passado continua ali.

Allie X, em seu mais novo trabalho, Cape God, faz um convite sutil ao ouvinte para adentrar no universo criada para si mesma. São fragmentos das próprias inseguranças e medos sentidos durante a adolescência, fase em que a cantora ainda não se expressava liricamente. Assim, o que restou à canadense foi transportar-se a um mundo paralelo, cuja o cenário macilento reflete um espírito juvenil machucado e confuso. E o ouvinte tem acesso a essa dimensão tão particular da cantora por meio de um pop sombrio e sorrateiro, que o fisga pelas beiradas.

No novo catálogo, os sintetizadores e batidas tão característicos do pop construído pela canadense cedem espaço para arranjos mais orgânicos. Guitarra, baixo, cordas e percussão assumem a responsabilidade de conduzirem boa parte do registro, como se Alexandra guiasse o seu som para tornar sua lírica mais evidente e tangível. “Fresh Laudry” abre o disco de forma gradativa, instantes em que as batidas percorrem os minutos de audição de forma amena, realçado pelos back vocals, e se encaminha a um refrão quase introspectivo, onde os vocais de Allie reverberam como ecos.     

Já em “Devil I Know”, faixa seguinte, há um tom traiçoeiro, em que o baixo destacado do arranjo cria uma atmosfera de expectativa. É nessa canção que a compositora confessa a complicada relação consigo mesma, em que se vê dominada pela autossabotagem. “Toda vez que eu assumo sua liderança, parece uma maldição / E toda vez que tento parar, me sinto ainda pior”, canta. “Regulars” segue o mesmo direcionamento instrumental, com exceção dos sintetizadores que despontam no início do refrão. E é em meio aos acordes de baixo, que o ouvinte se depara com o conflito da busca pelo pertencimento e uma Allie que adota comportamentos que não refletem seu próprio estado de espírito. “Na multidão, porque agora eu aprendi um novo truque / Veja, eu estou rindo, não pareço tão feliz agora?”.

O escapismo é outro tema recorrente na nova leva de faixas. “Life Of The Party” é uma pequena narrativa em que Hughes encontra nas festas, bebidas e na falsa sensação de atenção os escapes necessários da realidade acinzentada que enfrentou. “Eu fiz tantos amigos ontem à noite/ Todos eles queriam me conhecer”, canta nos versos iniciais. “Madame X”, guiada por um piano e cordas que vão delimitando uma atmosfera funesta, mergulha nas experiências da cantora com o uso de drogas, uma declaração de dependência de Allie aos efeitos de entorpecentes. “Pegue meu dinheiro, meu respeito próprio/ Quando você chega, nada dói/ Você e eu, não precisamos de palavras.”

Mesmo que tenha optado por dar menos destaque às roupagens sintéticas, Allie X não deixa de destacá-las em Cape God. É o caso de “Sarah Come Home”, que traça um percurso instrumental quase erudito nos minutos iniciais até mergulhar o ouvinte em um refrão lapidado pelas batidas típicas da EDM. Já “Super Duper Party People” resgata o eletro-pop tão bem trabalhado pela cantora em registros anteriores, momento em que as bases sintéticas dominam e preenchem cada lacuna do arranjo entregando um pelo exemplar para as pistas de dança.   

Com o novo direcionamento instrumental, Cape God permite que os vocais da canadense sejam melhores explorados. Em “Love Me Wrong”, parceria com o cantor Troy Sivan, Allie aproveita do pop cru da canção para detalhar suas nuances vocais, desde tonalidades mais baixas até o romper das notas altas. Já a canção “Susie Save Your Love”, parceria com Mitski, propõe o encontro de dois universos líricos parecidos, em que os versos relatam um amor juvenil não correspondido. Contudo, a surpresa fica para a harmonia vocal das cantoras, tornando difícil o trabalho de identificá-las durante os minutos de execução.

Não tão distante do que já vem produzindo nos últimos anos, em Cape God, Allie X  resgata o diário de sua adolescência. Aqui, a cantora não adota uma postura de distanciamento sobre o que confessa nos versos das 12 canções que compõe o álbum. Ela retoma ao ambiente sombrio sustentado pela vergonha, dor e insegurança ocasionados pela doença autoimune e debilitante diagnosticada no ensino médio, e que ela evitou de falar durante tanto tempo. São canções marcadas por paletas soturnas, mas, claro, sem deixar de manter a sonoridade pop construída por Allie.   

Ouça.