Crítica | Caça-Fantasmas





16/07/2016 - Atualizado às 22:02


Caça-Fantasmas (Ghostbusters, 2016) é resultado de uma leva interminável de especulações e reviravoltas que trouxe esperança e frustração (não exatamente nessa ordem) aos fãs da franquia original de 1984 e 1989, que trazia Bill Murray, Dan Aykroyd, Harold Ramis e Ernie Hudson como o quarteto que perseguia fantasmas pela cidade de Nova York a bordo de um rabecão envenenado.

Depois de repetidas negações de Murray sobre uma continuação, a resposta veio em 6 letras: REBOOT. E após a divulgação do primeiro trailer, estrelando quatro mulheres como os “Ghostbusters”, uma aura de incerteza (e misoginia) aguardou a estreia do filme – incerteza (e misoginia!) que termina agora.

Paul Feig dirige e co-escreve a aventura cuja estrutura evita reproduzir o original, desviando de um recurso recorrente em remakes e reboots da atualidade: percorrer um caminho familiar aos espectadores mais antigos, sem com isso aborrecer as novas plateias.

as caça-fantasmas 01

Consciente da ansiedade do público em ver a matéria-prima da obra (os fantasmas!), a nova versão mantém o clássico prólogo com os espectros em ação para chacoalhar as poltronas já no começo da projeção. No entanto, a apresentação de personagens a seguir se dá de uma maneira particularmente engessada até que a formação do quarteto enfim aconteça.

Sobre isso, a familiaridade de Feig com fortes protagonistas femininas (são dele “Missão Madrinha de Casamento” e “As Bem-Armadas”, por exemplo) certamente o beneficiou aqui, já que um arsenal de enfrentamentos ao universo masculino é pontilhado ao longo do filme de maneira orgânica, sem jamais soar forçado.

E esse é um trunfo admirável do roteiro: realizar uma comédia de ficção científica que aborde temas feministas com a naturalidade que convém, sem parecer doutrinário ou enfadonho. Pelo contrário, através de inteligentes gags visuais (o golpe no saco do fantasma é óbvio na medida) e do uso de personagens masculinos na narrativa (como na fala de Melissa McCarthy sobre a virgindade do antagonista e a incursão de um Chris Hemsworth incrivelmente decorativo).

as caça 02

Porém, embora as protagonistas sejam divertidas e interessantes de forma individual, rendendo momentos verdadeiramente engraçados, a força da comédia não brota aqui com o vigor de outros trabalhos de Paul Feig.  E é surpreendente notar que o timing cômico parece escapulir em alguns diálogos, deixando a sala em silêncio (fatalmente, algumas das melhores piadas estão no trailer).

Faz falta, principalmente, um conflito que inspire perigo real aos personagens, de modo a fazer o espectador de fato temer pelo desfecho do arco dramático. Ninguém efetivamente teme pelo futuro de Nova York, sabemos que a cidade será salva. Mas o que os personagens têm a perder?

De todo modo, o principal mérito deste Caça-Fantasmas é apresentar a franquia a uma geração apta a notar gradualmente que não há nada excepcional em ter como protagonistas mulheres fortes, heroínas, donas da rua e bem capazes de resolver problemas – ainda que isso envolva uma terrível infestação de almas inquietas.

Não é justo, porém, usar os notáveis acertos da obra para camuflar problemas estruturais que ela inegavelmente apresenta. Pelo menos de um fato podemos estar seguros: há bons motivos para aguardar as sequências. “Who ya gonna call?”.