Crítica | Bridgerton – 1ª temporada

Cativante, a série ambientada no século 19, se desvia um pouco dos padrões de narrativas de época ao apresentar reflexões profundas sobre amor, feminismo e sociedade.

Às vezes, um romance aristocrata tradicional bem água com açúcar, ajuda a deixar bem mais leve o fim de um ano complicado como foi 2020. A série Bridgerton, lançada pela Netflix no fim de dezembro, fez com nos últimos minutos do ano, que o público mergulhasse em uma realidade totalmente diferente da qual vivemos e nos permitiu, em meio ao caos, a entrar de cabeça em um universo de castelos, bailes, casamentos e romances inesperados.

Bridgerton é uma adaptação da série literária de Julia Quinn, publicada em 2000, que conta com nove livros. A trama foi roteirizada por Chris Van Dusen (Grey’s Anatomy) tem como produtora executiva, ninguém menos que Shonda Rimes (Grey’s Anatomy), deixando o título bem atraente e a sensação de: o que será que vem por ai? E acreditem, veio muita coisa interessante.

A série gira em torno da família Bridgerton, em especial, a jovem Daphne (Phoebe Dynevor), que após debutar na alta sociedade, começa a incessante busca de encontrar um marido para se casar e ter filhos. Entretanto, o que parecia bem fácil para os moldes da época, se torna um verdadeiro tormento para ela, que se apaixona pelo duque Simon Basset (Regé-Jean Page), que diferente dela, não pensa em nada disso.

O enredo é impulsionado pela misteriosa personagem Lady Whistledown, narrada por Julie Andrews, e que, no maior estilo Gossip Girl do século 19, faz comentários em um jornal sobre a movimentada vida da aristocracia britânica e acaba influenciando a vida dos personagens. A narração é repleta de muito humor, leveza e principalmente, pelo mistério que envolve a identidade secreta da personagem. Sem dúvidas, um selo de qualidade de Shonda Rimes.

Uma das características marcantes, são as diferentes camadas que acompanham a jovem Daphne durante o enredo. No início, ela se apresenta como uma jovem sonhadora, romântica, prestes a alcançar um grande feito na vida. Com os passar dos episódios e os problemas que envolvem o romance, Daphne se mostra frágil, confusa e por fim, mais madura, confrontando situações nas quais ela jamais imaginou que pudesse viver, principalmente por se tratar de algo tão simples, aos olhos dela.

Destaque também para o personagem do Duque, que assim como a jovem, tem nuances interessantes. Por trás de um charme e carisma irresistível, há um homem frágil, traumatizado pelo seu passado com o pai e que ao se ver apaixonado pela jovem, fica dividido em permanecer firme às promessas que fez a si mesmo ou a ceder a elas em nome do amor, sentimento esse que até pouco tempo, não fazia parte da sua vida.

Entretanto, por outro lado, Bridgerton traz olhares distintos, causando ao público reflexão sobre temas mais atuais do que nunca, como o machismo e o feminismo. A exemplo disso, a personagem de Marina Thompson (Ruby Barker), uma jovem negra recém-apresentada à sociedade e que descobre uma gravidez na juventude.

As mulheres, sem dúvidas, são os destaques da série, principalmente pela força e vitalidade, algo não muito comum para produções de época. Uma dessas mulheres, é a jovem Eliose Bridgerton (Claudia Jessie), que diferente da sua irmã Daphne, não vê o casamento como o grande ideal da sua vida. Destemida, sua maior vontade é estudar e conseguir ocupar lugares que, até naquele momento, não eram ocupados por mulheres, já que apenas os homens tinham acesso à educação. De forma bem leve, os desejos de Eloise nos levam a refletir o quão foi importante a luta do movimento feminista, para que hoje, nós mulheres pudéssemos ocupar espaços, expandir nossas ideias e mostrar que a capacidade e competência não tem nada a ver com sexo.

A diversidade de abordagens não é exclusiva somente para os assuntos nos quais a série retrata. Um dos pontos que Bridgerton acerta, é levar um pouco da diversidade para o elenco, quando acrescenta minorias para a alta sociedade, algo muito fora da realidade. Além do Duque, há também a personagem da Rainha Charlotte, vivida por Golda Rosheuvel, que também é negra. Algo muito interessante é que a rainha existiu na vida real, entretanto, não chegou a ser retratada pela série de livros de Julia Quinn.

O romance que a série possui é incontestável, entretanto, a sensualidade é algo que chama bastante atenção, também pelo fato de se tratar de uma trama de época. Sensualidade essa que causou uma polêmica entre os espectadores, por conta da riqueza de detalhes nos momentos mais íntimos.

O enredo finaliza, com muita maestria, arcos importantes, mas deixando em aberto, o gostinho de segunda temporada, ainda não foi confirmada pela Netflix. Caso aconteça, Bridgerton precisa continuar trazendo, à sua maneira, o debate para temas importante somado a profundidade de seus personagens, para que o passado retratado por ela, continue trazendo reflexões e mudanças mais positivas para o presente.

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