Connect with us

Crítica de TV

Crítica | Bleach (Live Action)

Filme é versão adaptada do primeiro arco do mangá.

A adaptação de um mangá (ou um animê) nem sempre é bem vista pelos fãs e casos anteriores já deixaram mágoas que jamais serão superadas. Em contrapartida há casos que foram ovacionados e se tornaram verdadeiros exemplos de “é assim que se faz”.

Entre erros e acertos a Netflix ganhou pontos positivos em 2018 ao trazer para seu catálogo o longa-metragem Bleach, adaptação cinematográfica do mangá homônimo de Tite Kubo (2001-2016) lançada durante a alta temporada de verão no Japão. O diretor Shisuke Sato faz uso de uma linguagem recorrente à mitologia da série para encarnar os melhores e mais específicos detalhes que a saga tem e conduz uma narrativa com facilidade e sem buracos exagerados ou prejudiciais ao filme em si.

Somos introduzidos ao personagem Ichigo Kurosaki (Sota Fukushi) de uma forma bem particular do filme – que ganha nesse aspecto em foco narrativo – ao presenciarmos o momento marcante para uma criança dotada de poderes especiais. Embora tal cena de abertura não construa em si a base da justificativa para os acontecimentos do live action, sua carga dramática e sua fotografia ambientam o espectador em algo que é bem mais do que uma adaptação, mas um filme de acasos que se complementam. Algo sempre interessante num filme de aventura.

Em termos narrativos, Bleach é um filme que atende as suas demandas com uma Jornada do Herói bem embasada e um Clímax convicente. Quanto aos critérios de adaptação, pode-se dizer que Bleach possui uma fidelidade ao mangá original em 90%. Exceções bem específicas são encontradas em personagens como Isshin Kurosaki (Yousuke Eguchi), o pai de Ichigo. Na série ele é um médico e tem um consultório particular em casa. No filme isso não é apresentado. Também há uma personagem que não aparece. É o caso de Mizuiro Kojima, um dos amigos de classe de Ichigo. O caso mais expressivo de diferença entre o mangá e o filme está na luta entre o protagonista e o hollow Grand Fisher. A criatura não é enfrentada por Ichigo na trama original, cabendo a outra personagem vingar a morte de Misaki Kurosaki.

Tanto em fotografia quanto em direção de arte a produção – que é coordenada pela Warner Bros. Pictures Japan – executa um trabalho minucioso na construção de iluminação e cenários. Destaque para os figurinos dos shinigamis (na versão dublada PT-BR chamados “ceifadores” devido ao licenciamento ocidental) Renji Abarai (Taichi Saotome) e Byakuya Kushiki (Miyavi), que se apresentaram fiéis aos traços de Tite Kubo em diversos aspectos visuais e também narrativos. O Byakuya do ator japonês Miyavi se difere de seu referencial original por ser uma personagem um pouco mais expressiva. Mérito do ator já rodado por produções hollywoodianas como Kong: Ilha da Caveira.

A animação e os efeitos visuais dos hollows, zanpakutous e outras armas e magias usadas na história são de extrema fidelidade ao universo narrativo de Tite Kubo e garantem uma sustentação imediata ao expectador enquanto fã a espera de referências bem feitas. Um easter-egg que justifica tais referências é o número 15 pendurado na porta do quarto de Ichigo. Os mais aprofundados saberão identificar na hora que o número na verdade trata-se do nome do dono do quarto (um costume japonês), pois Ichi (um) Go (cinco) é a forma de escrita por extenso do numeral representado.

O ponto alto do filme fica por conta de sua trilha sonora. Yutaka Yamada traz um repertório bem provocativo onde elementos mais pop se confluem com sonoridades mais densas em referência ao estilo da trilha da animação de Bleach. Outro ponto interessante é o hard-rock original da banda ALEXANDROS, que marca presença nas duas canções tema do filme: Mosquito Bite e Milk.

Sem prometer grandes situações (com apenas quatro cenas de luta ao longo de sua duração), Bleach não tenta ser um filme de fãs, mas a inserção de uma franquia em nova mídia. O encerramento do longa-metragem apresenta-o como o “Arco do Ajudante de Ceifador de Almas” assim como na trama original e deixa – mesmo que não tão evidente – que há sim pretensões para a continuidade da saga do ceifador de cabelos laranjas por mais um tempo nas telonas.

 

Continue lendo
Advertisement Image Map

Crítica

Crítica | Watchmen (piloto da série)

Derivado da famosa HQ, o piloto de Watchmen vai na onda de Coringa e entrega uma obra intensa e realista

Watchmen

O piloto de Watchmen termina e você entende exatamente qual é a proposta de Damon Lindelof: a fidelidade pelo conceito criado no universo da clássica HQ de Alan Moore e Dave Gibbons e promover uma trama envolta no mistério característico, marca registrada do diretor e roteirista, criador de Lost e The Leftovers.

De cara, vai chamar a atenção também o visual arrojado e a edição ousada, mas será na atualização relevante da narrativa – com comentários políticos e sociais diretos que podem ser lidos como críticas ao ultaconservadorismo atual – e a abordagem bastante realista a chave que atingirá mentes e corações. E, mesmo que a série se passe em uma realidade alternativa, assim como no filme de Zack Snyder, ela é muito mais semelhante à nossa.

Trinta anos após os eventos finais da HQ (e do filme), os vigilantes mascarados ainda estão nas ruas e ajudam a polícia. Eles são heróis anônimos, mas agora são pessoas comuns, que tem vidas normais, sem o culto de personalidade que outrora tinham Coruja, Comediante e Spectral. Os fãs certamente irão vibrar com a precisão dos detalhes e as referências – um tanto diferente da opção pela estilização do longa assinado por Snyder – onde está explícita a paixão de Lindelof pela obra de Alan Moore. Porém, aos não iniciados no universo da HQ, Watchmen também funciona muito bem como uma série derivada e independe, ainda que possam se sentir interessados a entender certas excentricidades.

Em um momento em que, as obras baseadas em quadrinhos podem entreter a partir de um novo conceito, embaladas pela visceralidade real de Coringa, Watchmen é brilhante na medida em que entrega uma experiência nessa mesma intensidade. Com momentos impactantes, ótimas atuações (Regina King, Jeremy Irons e Don Johnson excelentes) e elementos técnicos irrepreensíveis, a série da HBO sustenta uma história promissora cujo caminho ninguém faz ideia onde vai dar mas, de forma inteligente, instiga a pensar, mantendo a audiência interessada e atenta. 

Expectativa altíssima para os próximos 8 episódios.


Continue Reading

Crítica de TV

Crítica | (Des)encanto – 2ª temporada

Quando a primeira temporada de (Des)encanto chegou à Netflix, o hype e a ansiedade atingiram níveis gigantescos. Primeiro, porque se tratava da nova animação de Matt Groening – o criador de Os Simpsons e Futurama – segundo porque o novo universo, um reino místico cuja protagonista era uma princesa má educada e beberrona, parecia promissor para os que adoram um humor ácido e adulto. Dito e feito. A primeira temporada, apesar de alguma inconsistência na narrativa, conseguiu entregar exatamente o que os fãs queriam: irreverência e boas piadas. 

Com a chegada da segunda temporada, era preciso reconectar o público depois de um final curioso, porém um pouco mais dramático do que aquele tom de descaso inicial dos primeiros episódios. Mais do que isso: como retomar aquela maravilhosa química entre o trio de protagonistas? Sem muita surpresa, os primeiros episódios já respondem as pontas soltas e amarra tudo já logo nos dois primeiros capítulos. E a química volta lindamente. É visível, inclusive, que prevalecerá no desenrolar da história uma condução mais confortável e pé no chão, porém não menos descontraída. 

No decorrer da série é possível notar que, nessa temporada, há uma menor predisposição de dialogar apenas com a fantasia. Apesar de ainda beber nessa fonte, há boas referências de outros gêneros que intensificam novas boas ideias como, por exemplo, alguns óbvios paralelos com Game of Thrones. Embora isso não signifique que mantenha-se engajada naquele discurso (interessantíssimo) de como a sociedade medieval se assemelha ao nosso atual modelo de política – democrática, porém cruel para os que não se encaixam nos padrões de normalidade. 

O visual continua sendo uma delícia. Tanto a iluminação quanto o sombreamento distribuem bem a atenção, seja nos momentos de ação ou nos de mais calmaria. E o toque de mestre são as sutilezas digitais que se somam ao estilo tradicional das animações de Matt Groening. 

Resultado de imagem para disenchantment season 2

A parte não tão legal é uma menor inserção de memes nos diálogos da versão dublada, coisa que a primeira temporada deitou e abusou de forma criativa e inteligente. Mesmo assim, o humor nessa segunda temporada parece se encaixar de uma maneira mais natural, até porque as características dos personagens já foram exploradas e a graça agora é, justamente, ver como eles reagem em situações que exigem uma maior intimidade entre si. 

E como a terceira temporada já está confirmada, a tendência é que (Des)encanto siga com sua faceta insana, mas bem mais espontânea e que, assim como em Os Simpsons e Futurama, nesse ritmo, possam ter episódios que funcionem bem de forma isolada. 


Continue Reading

Crítica de TV

Crítica | Carnival Row – S1 (Prime Video)

Série é uma admoestação sobre imperialismo recorrendo mais à didática que à arte de contar histórias.

A nova série de Fantasy do Amazon Prime, Carnival Row, e uma empreitada dos produtores Travis Beacham e René Echevarria, através da Lionsgate, convergindo em oito episódios uma combinação de Romance Vitoriano – de terror e de exploração -, Police Noir e Fantasy.

Em sua premissa, as consequências da invasão de uma terra recém descoberta por duas nações imperialistas, a República de Burgue e o Pact. Com a tomada das terras do reino feérico de Anoun, criaturas antes tidas apenas como fruto da imaginação humana se tornam refugiados na capital de Burgue, uma mímica da Londres Vitoriana.

As tensões entre as populações humanas e feéricas se acirram quando um – segundo – assassino em série deixa um rastro de sangue de homens e fada. Amarrando tudo, o romance entre um investigador de polícia, Philo, (Orlando Bloom) e uma fada, Vignette (Cara Delevigne) interrompido pela guerra.

É inevitável não comparar Carnival Row com Penny Dreadful, ambas fantasias neo-vitorianas, que flertam com o steampunk. Mas enquanto a série do Starz bebia apenas dos clássicos romances de terror do século XIX, Carnival Row traz um escopo muito mais variado de referências, tais como Shakespeare e a mitologia judaica.

Um ponto a se considerar sobre a série do Prime é a completa falta de sutileza, seja em repetir um foreshadowing à exaustão seja em como trabalha seu subtexto, se é que se pode chamar de subtexto a forma como fala sobre temas do mundo real.

A produção é digna, nada espetacular, mas não se envergonha do que tem a oferecer. Suas cenas mais no escuro são as que menos demandam efeitos especiais, estranhamente. Fadas voam à luz do dia e kobolds atuam no equivalente daquele mundo à um teatro de marionetes de rua. Mais especificamente pode-se apontar as asas das fadas (que certamente não aguentariam seu peso na vida real) e os pucks (uma espécie de Minotauro retirada de Sonho de uma Noite de Verão) como os pontos fortes na caracterização do povo feérico.

É preciso notar o excelente, e diversificado, elenco de Carnival Row. São ótimas as atuações das estrelas Orlando Bloom, Tamzine Merchant, Jared Harris e Indira Varma. É apenas uma pena que, tomando novamente Penny Dreadful como norte, Cara Delevigne ande longe de ser uma Eva Green.

O romance policial é o gênero que leva as coisas para frente, e de uma forma muito acertada, apesar dos foreshadowings excessivos. Os plot twists são até bem amarrados, deixando ainda um bom espaço para um segundo ato – com cara de nazismo -, que esperamos seja confirmado em breve.

No quesito bizarrice, notamos Philo (Bloom) sendo ordenhado por uma bruxa idosa. É só isso mesmo.

Carnival Row é, em resumo, uma admoestação sobre imperialismo, colonialismo, racismo, fundamentalismo religioso e imigração que usa uma miríade de personagens feéricos como metáfora. O faz de uma forma extremamente didática, mesmo em detrimento de qualquer poética, não perdendo apenas a capacidade de entreter.

No entanto, longe de ser uma mancha na série, isso nos faz questionar se em um mundo onde fã de Star Wars e Pink Floyd é também acólito de figuras totalitaristas, a subjetividade artística seja algo superestimado quando se precisa de discursos efetivos.

Tayna Abreu é jornalista de entretenimento e também fala sobre ficção especulativa em seu IGTV @oftay_ 

Continue Reading

Em alta agora