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Crítica de Filme

Crítica | Black Mirror: Bandersnatch

Apesar do formato inovador, longa não consegue superar a superficialidade.

Foto: Divulgação/Netflix

É complicado analisar um roteiro que se desdobra em diferentes rotas, de acordo com as ações dos espectadores. Contudo, após encarar os principais desfechos de Bandersnatch, o filme-interativo e inédito de Black Mirror, todas as peças deste quebra-cabeça foram devidamente reunidas para definir o veredito final sobre a nova obra da Netflix.

E, com isso, vamos ao que realmente interessa!

Em Bandersnatch, seguimos a trajetória de Stefan (Fionn Whitehead), um jovem programador que se dedica a adaptar um livro de fantasia em um jogo, mas que logo começa a questionar o próprio conceito de realidade. Nessa premissa, os espectadores entram como coautores da trama, realizando as escolhas que determinam o destino de Stefan.

Para costurar as diferentes versões da realidade de Bandersnatch, David Slade, o responsável pelo amargo Metalhead (quinto episódio da última temporada de Black Mirror), assume a direção. Dessa vez, portanto, para surpreender algumas expectativas, a sua direção é primorosa e com eficiência, Slade conduz os espectadores pela trama sem perdê-los entre os diversos trajetos da história (quase) ousada do filme.

De inicio soa um meio de entretenimento adequado, aliás, o formato inovador, que preenche o evento com escolhas da trama realizadas por nós, soa tentadora aos olhos inocentes. Contudo, logo encaramos a verdadeira face de Bandersnatch: um ciclo de eventos vazios e degenerativos, que tornam a experiência, inicialmente agradável, em um evento repetitivo e desinteressante.  

Cabe destacar que a opção de nos oferecer a oportunidade de redefinir nossas decisões, para explorar novos eventos, é ousada, visto que o gênero interativo se propõe, normalmente, a seguir em uma linha contínua, sem segundas chances, com o intuito lógico de fornecer ainda mais peso às nossas decisões.  

Neste caso, porém, a intenção é evidenciar que a ideia do livre-arbítrio é inexistente, um conceito visto e discutido por alguns momentos durante o filme. Assim como nos jogos que exploram o gênero, e livros, onde a decisão cabe a nós, independente dos rumos tomados em Bandersnatch, tudo está predeterminado, ou esquematizado por um sistema superior.

Ou seja, somente chegaremos onde eles (aka Netflix feat. Black Mirror) nos permitirem chegar.

Nesse sentido, cabe validar (um pouco) a abordagem interativa como uma autocrítica sobre si mesma. Soa confuso, mas o formato serve apenas como uma ferramenta para dialogar-se sobre ele mesmo. E no meio dessa equação, há nós, os espectadores, que somos utilizados para provar este ponto.

Em termos tecnológicos, o ponto alto e central da série, a inovação reside somente em seu formato interativo, já que as críticas sobre o uso frenético e indevido das tecnologias, somado aos seus efeitos na sociedade em vigência, não encontram o seu destino nesse mar de eventos. Aliás, não há nada de ameaçador em um gênero de narrativa que ainda sequer é popular. Mas caso a crítica se direcionava às demais tecnologias, ela não as alcança devidamente.

Soma isto a uma narrativa que não nos poupa em uma repetitividade irritante, e a equação logo aponta para um resultado negativo.

Por fim, acima da interação com o espectador, a metalinguagem e a quebra contínua da quarta parede, Bandersnatch apenas mascara um enredo que almeja ser genial, mas que não consegue ir muito além da superficialidade. Salvo também pela discussão breve do livre-arbítrio e a montagem excepcional das cerca de 5 horas de cenas, que em momento algum soam confusas para o espectador, não nada de interessante em seu enredo, muito menos nos seus personagens, que apesar de garantirem boas atuações, por parte dos seus intérpretes, não conseguem carregar a trama multifacetada da Netflix.

Se a ideia era provar um ponto, um textão na rede social azul já servia.

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Crítica de Filme

Crítica | Sonic – O Filme

Live-action entrega história simples, mas divertida na telona.

Todo aquela história de que o próprio Yuji Naka (ex-presidente da Sonic Team e um dos criadores do ouriço azul) ficou chocado com a aparência de Sonic nas primeiras imagens divulgadas pela Paramount Pictures pode até ser verdade, mas o resultado do longa-metragem nas telonas me fez pensar se no fim tudo não passou de estratégia de marketing.

Digo isso porque embora não seja mais do que o esperado para um filme adaptado de videogame, Sonic é um live-action divertido e que consegue contemplar a essência da personagem mais famosa da SEGA e um dos ícones dos jogos eletrônicos entre todas as épocas.

Temos nos 99 minutos de filme um roteiro bem humorado e contemplativo sobre a figura do ouriço, afinal de contas protagonismo é isso e precisa ser bem executado. Por mais surpreendente que pareça, a trama amarra muito bem diversos elementos da franquia sem abrir mão de certa originalidade em seus desdobramentos. É o caso da origem de Sonic e os poderes dos Anéis, que ganham uma conotação mais universal e que vão para além de evitar que o personagem chegue ao game over.

Por falar nisso, o filme tem muitos easter eggs bem criativos como a adaptação da famosa primeira fase Green Hills na cidade cenário da aventura. Entre os outros tantos, protagonizados nas falas e ações de Sonic, nada é tão divertido do que vê-lo chamar seu antagonista pelo nome original (Dr. Eggman) numa referência às armas usadas por ele, já que na versão em live-action a personagem vivida por Jim Carrey não é um homem em forma de ovo como nos jogos.

E já que Dr Eggman/Dr. Robotnik está em evidência, o que dizer de Jim Carrey? Novamente uma atuação memorável e que coloca a personagem na nossa memória afetiva como um dos bons trabalhos do ator. O duelo entre o ouriço azul e o gênio do mal é dinâmico durante todo o filme e satisfaz na medida do possível.

Reúne-se a isso a trilha sonora que reúne temas clássicos de Sonic the Hedgehog com hits famosos dos anos 1990 e scores bem elaboradas por Junkie XL, que contam a história do filme em momentos que misturam a linguagem do audiovisual e elementos do jogo eletrônico com um bom resultado.

Por fim, a deixa criada desde o começo do filme com personagens similares a Knuckles, a promessa de vingança de Robotnik e a aparição de Tails nos levam a crer que poderemos ver em breve um Sonic 2 com quem sabe um “Sonicverso”.

É por isso que termino esse texto levantando a mesma hipótese do início: E se o “Sonic deformado” não passou de estratégia de marketing para nos convencer a ir ver Sonic nos cinemas? Se for isso, os envolvidos estão muito enganados ao pensar que não iríamos ao cinema ver o ouriço mais famoso do mundo em ação. Antes isso que comprar a história de que os estúdios responsáveis pelo visual do Sonic se inspiraram no urso Ted para dar realismo ao herói velocista. Quanta bobagem! Não tinha como o Sonic do cinema ser diferente do que esse que aparece na telona.

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Crítica de Filme

Crítica | Parasite (2019)

Filme nos provoca sobre nosso próprio parasitismo social.

Planejar é um ato falho. Bong Joon-ho propõe uma reflexão – em cima de uma crítica – ao nos contar a história da família Ki-taek. Talvez eles possam ser encarados como a escória da sociedade, talvez ele sejam mesmo (ou talvez não). Isso porque se compararmos sua afetividade em relação aos Park, a outra família retratada em Parasite (2019), é nítido que o laço construído entre os Ki-taek é correspondente entre todos os membros.

Retratando duas facetas da sociedade sul-coreana, naquilo que seu repertório lhe proporciona, o diretor entrega um diálogo audiovisual muito intenso. A todo momento os Ki-taek estão aplicando ou revisando conceitos pragmáticos filosóficos e sociológicos em seus atos sórdidos de charlatanismo que não nos horrorizam (embora devessem), mas sim arrancam gargalhadas nas primeiras horas do longa-metragem. A parte mais engraçada nisso tudo é que você não consegue terminar o filme rindo (com exceção de um único personagem que na contramão do nosso estado havia iniciado o filme sem esboçar sorrisos).

Para a Biologia o parasitismo é a “interação entre duas espécies, na qual uma delas, o parasita, se beneficia da outra, o hospedeiro, causando-lhe danos de maior ou menor importância, mas raramente a morte“. Bong Joon-ho entrega a nós uma história que não escapa em nenhum momento dessa definição, a não ser pelo fato do parasita (ou dos parasitas) serem racionais o suficiente para conceber a própria imoralidade, julgá-la e aceitá-la. E aqui fica um questionamento sobre quem de fato é o parasita: o pobre que vive sobre a sobra dos sobejos dos ricos, ou os ricos que nem se dão conta do qual organizados são os pobres dentro de seu próprio território.

Com planos lentos e câmeras com movimentação contemplativas, a fotografia do filme está sempre ressaltando as diferenças entre as duas famílias (os Ki-taek e os Park), por meio de ângulos e linhas “invisíveis” na tela reforçando os esteriótipos delineados no filme. Obviamente que a proposta aqui não é a a aceitação desses esteriótipos, mas sim torná-los nítidos para o espectador. Cabe então a este fazer a observação do quão as diferenças preexistentes escondem semelhanças nos dois grupos, que se julgam distantes por maniqueísmos construído pelo status e o dinheiro. Enquanto um julga por considerar inferior e sujo, o outro julga por considerar superior e limpo demais. Não apenas na aparência, mas no comportamento. Julgar é o ato falho de maior semelhança entre humanos.

Parasite (2019), embora não seja sobrenatural, dialoga com o elemento da causa e efeito e nos entrega uma montagem que dinamiza a ação quando é necessário que vivenciemos ela. É na cena da inundação na casa dos Ki-taek, no porão de um prédio no subúrbio, que essa montagem fica mais acentuada a partir do link desagradável entre os vasos sanitários dos dois porões (o dos Park e dos Ki-taek). Uma montagem que remete ao mórbido quando tomamos o clímax do filme.

É nessa balança entre cômico e suspense, lentidão e ação, limpo e sujo, que Parasite (2019) se constitui num conjunto reflexivo sobre nós mesmos, que parasitamos os outros e nós mesmo a partir de um canal universal: os planos. O tragicômico dá lugar a um realismo introspectivo, pois não há momento algum após a experiência de ver o filme que você não se pergunte o quanto já se tornou o parasita de alguém.

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Crítica | Frozen II

Sequência do sucesso da Disney é boa, mas não tanto.

“Você quer brincar na neve?”. Talvez esse não fosse o tipo de situação que se esperava da sequência de Frozen (2013). Pelo menos os trailers já nos levavam a crer nisso. Contudo, mesmo com a expansão da trama e as muitas referências, Frozen II (2019) nem de longe é tão bom quanto o primeiro (e veja bem, esse que vos escreve não gostou do primeiro filme).

Há aqui um certo conflito na hora de escrever essa crítica, pois não dá para dizer que o longa-metragem animado é um fiasco. Muito pelo contrário! O filme é lindo, fluido e em certa medida emocionante. O problema é que ao esperarmos pelo fascínio que fez de Frozen um fenômeno mundial não percebemos a mesma sensação ou mesmo algo de novo.

A fórmula Disney está ali e a originalidade do roteiro (em cima do clássico A Rainha da Neve de Hans Christian Andersen) evoca muito bem as protagonistas Elsa e Anna em suas próprias jornadas. Seus tempos de tela são muito bem equilibrados e suas façanhas e dilemas balanceados com êxito. Tanto que a pouca presença de Kristoff e Sven não diminui em nada os seus papéis na trama. Olaf, como sempre é um ótimo escape cômico (e Fábio Porchat nos deleita com sua atuação icônica na versão dublada). Contudo…

Naquilo que se tornou o ponto alto da franquia Frozen, as canções, o sentimento deixa muito a desejar e nenhuma chega a impactar como Let it Go (Elsa) ou Do Want to Build a Snowman? (Olaf) fizeram se tornando hits. Está certo que ainda é cedo para afirmar isso, mas se considerarmos que o filme chegou ao Brasil mais de um mês depois da estreia nos Estados Unidos é possível medir a pouca atenção dada pelo público às faixas do novo filme e tentar cravar essa ideia de que a trilha sonora não cativou. Mas não é uma perda total!

Pela minha experiência posso afirmar que a canção mais legal do novo filme (Lost in the Woods) é justamente daquele com menos tempo de tela (Kristoff) que possui um forte elemento romântico a la Peter Cetera ou Bryan Adams (ao menos é a impressão que fiquei). É um dos momentos mais legais das cenas musicais da animação.

Assim, Frozen II entrega uma história bem profunda e que fortalece as suas protagonistas, mas não consegue manter a essência do primeiro filme quanto ao envolvimento do público com as canções e a própria trama em si (mesmo sendo reveladora de segredos). Antes do clímax a história acelera demais e não se sustenta muito. Também não deixa a certeza de que teremos um terceiro filme, que caso venha pode ser mais um erro que um acerto para a franquia.

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