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Críticas de Séries

Crítica | Black Mirror – 4ª Temporada

A mais fraca temporada até hoje já está disponível na Netlflix.

Divulgação/Netflix

Black Mirror é uma contradição desde que chegou à Netflix, e uma cópia de si mesmo. Uma narrativa antológica sobre o mal uso que a humanidade faz das tecnologias, que saiu de uma relativamente inexpressiva emissora do Reino Unido para se hospedar (com selo de original) na maior distribuidora de conteúdo por streaming do mundo.

Ao longo dos seus 18 episódios, o que deveria ser sempre uma surpresa se desmancha agora em tramas previsíveis e de execução que deixa a desejar (poxa, Jodie Foster!).

Mas estaria exatamente ai o trunfo de Charlie Brooker? Criticar a si mesmo, criticar toda uma indústria repetitiva e que parece estar dentro de nossas cabeças e olhando com nossos olhos, fazendo isso de dentro dela?

A repetição de conceitos de uma indústria de enlatados audivisuais, o universo compartilhado, apenas um pouco mais interessante que da Marvel, e uma obsessão com easter-eggs de dar inveja na Pixar.

Olhar dentro da cabeça alheia é um dos temas recorrentes em Black Mirror, de “The Entire History of Your Life”, na primeira temporada, passando por não um, mas três dos seis episódios da quarta.

Tomando do próprio veneno, aliás, esta é a temporada em que foi possível olhar pelos olhos de Brooker e antecipar todo o plot dos novos episódios.

Estaria Black Mirror se tornando muito Black Mirror? (Peço desculpas por escrever isso).

USS Callister – o ataque nada furtivo à narrativa do homem dominante

No primeiro episódio da quarta temporada, Black Mirror explora a vingança de um cara passado pra trás e abusado pelo sócio, um gênio programador fascinado por uma versão de Star Trek, que clona digitalmente os colegas de trabalho de quem não gosta ou que acha que lhe fizeram algum mal.

Em sua versão particular da aventura espacial ele é o capitão da nave, beija todas as mulheres e usa o segundo em comando (seu primeiro em comando na vida offline) como mesa de centro. Sem falar na perda dos genitais e o momento boneco Ken.

É interessante a escolha de Star Trek para simular a narrativa do homem dominante, uma vez que a série ficou conhecida por ser uma das mais inclusivas da TV desde os anos 60. Mas a questão está fora da TV, está nas pessoas. Black Mirror nunca culpa as corporações, nem as máquinas, mas os humanos, afinal somos nós os responsáveis pelos outros dois. É o fã ortodoxo e cego o ponto de crítica.

Quando os oprimidos enfim se livram no opressor, a saga espacial ganha uniformes da Star Trek de J.J. Abrams, com direito a muitos flares e uma capitã que deixa que a tripulação a chame pelo primeiro nome.

Tudo isso seria maravilhoso, se o episódio não tivesse dado de bandeja para o público. É exatamente no momento final deste episódio que Brooker parece não confiar na própria audiência, como se ela não fosse capaz de entender o que ele quer dizer, colocando um jogador aleatório para desenhar a crítica que estava sendo feita em mais de uma hora de história. Ele repetirá a mesma coisa nos próximos cinco.

Arkangel – o extremamente previsível conto sobre a lenda da super-mãe

O segundo episódio poderia ser o mais badalado da temporada, já que dirigido por ninguém menos que Jodie Foster. Mas longe disso, foi o segundo mais previsível dos seis. Aliás, previsível é o resumo da ópera.

O argumento é: e se fosse possível acompanhar os passos de um filho e ver literalmente tudo que ele vê? Para uma mãe ser um anjo poderoso de guarda da filha? Para a segurança da criança, claro.

Era óbvio que em qualquer sociedade moderna o sofware que permite isso seria proibido de venda uma vez que extrapola toda e qualquer ética sobre privacidade.

É cômodo para uma mãe vigiar a filha pequena, o bebê no berço (já vimos essa cena outras vezes na série), mas não é nada cômodo para uma adolescente que não pôde desenvolver escolhas até o final da segunda infância, ser vigiada pela mãe enquanto comete os erros (escolhas) que todo mundo comete.

Todo o plot estava escancarado com os primeiros cinco minutos, parece brincadeira dizer isso, mas Black Mirror está repetitivo. Uma hora cansa.

Crocodile – o mais fraco episódio até hoje

Crocodile teve a capacidade de tomar o posto de mais previsível de Arkangel. Quando a primeira morte acontece você sabe que ela assombrará o futuro da protagonista.

Quando a segunda acontece você sabe onde a espiral de destruição vai levar. Estava lá, escancarado, não é preciso mais se esforçar. Onde está a crítica deste episódio? Talvez sobre narrativas que se antecipam.

A tecnologia é mais da mesma. É a mesma do segundo episódio, é a mesma de episódios de temporadas passadas. É como se Black Mirror tivesse achado o fundo do poço em matéria de inovação tecnológica aplicada à segurança e ao arquivo de memórias e esteja batendo com a pá (ou com o martelo) nesse fundo, tentando arrancar lições de moral sobre isso.

Hang the DJ – Sim, é o novo San Junipero (só que pior)

San Junipero é o episódio mais amado de Black Mirror, nem sempre pelos motivos mais desafiadores, mas é. O final feliz é uma subversão de toda a série até então. A repetição disso deixa de ser uma subversão, passa a ser comodidade.

Hang the DJ mais uma vez recorreu ao “vou desenhar aqui para a audiência não ter trabalho”. Um episódio sem surpresa alguma. O que deveria ser uma crítica ao uso dos aplicativos de relacionamento acaba reforçando a ideia de que o sistema está correto e que tentar fugir dele é perda de tempo.

Metalhead – o melhor curta de Brooker

Faltava algo em Black Mirror, e ele foi entregue nessa temporada (uffa): um episódio pós apocalíptico. Não havia nenhum, por incrível que pareça, em uma série sobre a perda da humanidade, usando a tecnologia como facilitador de atos bárbaros.

Chegamos lá. A humanidade finalmente se desintegrou após a criação de máquinas com o único propósito de “caçar e destruir”, sendo inclusive capaz de improvisar no caminho. Máquinas essas que tem nada menos que a configuração do melhor amigo do homem.

Em Metalhead, um grupo de sobreviventes invade um armazém para cumprir uma promessa a uma mulher morta e levar um presente para uma criança doente. No local, dois deles são mortos por um cachorro robô vindo direto dos piores pesadelos. Bella, a terceira sobrevivente consegue escapar e é isso que tenta fazer por todo o resto da história contada em preto e branco: escapar.

O plot aparentemente mais simples da temporada, é também o que mais prende. É possível sentir o medo de Bella, a dor, o desespero, gritar “pega a faca, olha, se a câmera tá me mostrando as facas, é pra você pegar”! Mas Metalhead pode ser mais intrincado que a primeira camada deixa transparecer, um universo alternativo ou uma versão ainda mais desgraçada da vida eterna, em vez de apenas um conto pós apocalipse das máquinas.

Black Museum – o museu de horrores dos easter eggs

Antes de mais nada: não, ninguém tem 60% do cérebro sobrando para emprestar para outra consciência. O cérebro funciona todo o tempo todo, fazendo o que é que a Ciência ainda precisa entender. E isso é de conhecimento geral há pelo menos 20 anos.

Tirado o elefante branco da sala… Mas que show de easter-eggs! Black Museum encerra no nome dois significados, o de ser um museu de coisas sombrias e de ser o museu da própria série. Apenas um show-off de auto-referências enquanto conta nada menos que quatro contos de horror.

Uma moça britânica dirige por uma paisagem desértica dos Estados Unidos, quando pára para recarregar a bateria do carro em um posto próximo à um museu de horrores, o Black Museum. Ela resolve então fazer o tour macabro enquanto espera pela carga que iria demorar.

Recebida por um anfitrião convenientemente passado do ponto da sanidade há algum tempo, a jovem começa a ouvir as histórias dos experimentos realizados pela equipe da qual ele fazia parte no hospital St. Juniper, de propriedade das empresas TCKR Systems, a mesma que faz “upload de idosos para a nuvem”.

Um médico viciado em dor, um mãe presa no brinquedo do filho e um suspeito de assassinato condenado à reprisar milhares de vezes o momento de sua execução na cadeira elétrica; esses são os contos que servem de base para o episódio.

A protagonista em si é uma referência ao próprio Black Mirror, que começou britânico e se transformou nos Estados Unidos. O dono do museu e seus visitantes é a nanifestação do sádico que há em cada um de nós meros expectadores, que nos divertimos com uma série tão sombria. O médico também somos nós, que sentimos prazer na dor alheia, nos convencendo de que tudo bem quando é encenado. A mãe presa no brinquedo da criança é a última vítima do desejo de burlar a morte que há em todos nós, condenada à passar a eternidade em completa consciência, mas podendo expressar apenas frases infantis.

Black Museum é um dos mais interessantes episódios, onde Black Mirror critica a si mesmo, referencia a si mesmo, repete como uma franquia de universo compartilhado sempre faz, abraças as próprias limitações enquanto continua se recusando a por a culpa nas corporações e colocando ela em nós, meros mortais que sempre desejam um final feliz, mas que sentem prazer em sentir medo de um futuro que na verdade já chegou.

Um futuro onde Black Mirror se reproduz infinitamente.

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