Crítica | Bingo: O Rei das Manhãs





26/08/2017 - Atualizado às 18:30


“Conga La Conga! Conga! Conga! Conga!” A TV brasileira nos anos 80 era surreal. Um festival de piadas de duplo sentido, apresentadoras infantis semi-nuas, sacanagem moderada, malandragem, escárnio. Bingo – O Rei das Manhãs é muito mais que um fascinante passeio por esse universo, é um estudo de personagem com força de catarse e um daqueles filmes que ficam marinando na nossa mente por um bom tempo.

Preocupados com a liberdade criativa, os realizadores de Bingo cuidadosamente alteraram todos os nomes de seus personagens, afim também, claro, de evitar tretas judiciais. Baseado livremente na trajetória de Arlindo Barreto (rebatizado no filme como Augusto Mendes) que entre 82 e 86 interpretou um sucesso estrondoso da TV americana, o palhaço Bozo – sabiamente importado por Silvio Santos para o SBT.

Augusto Mendes é um ator profissional que, completamente ciente do próprio potencial, vê seu talento subaproveitado em pornochanchadas e miseráveis pontas em novelas. Quando o teste para interpretar Bingo surge diante dele, por obra do acaso, ele enxerga ali sua oportunidade de ouro. A cena de teste, diante do sisudo Peter Olsen, o executivo americano, é brilhante. Mas os roteiros do programa vieram da gringa traduzidos palavra-por-palavra, engessando o desempenho do ator e condenando o sucesso do show em terras tupiniquins.

A genialidade de Augusto estava, não somente no excelente desempenho na pele do palhaço, mas em compreender o ingrediente que faltava na mistura: a Brasilidade. Para conquistar as crianças, Bingo não podia ser uma tradução perfeita do que acontecia na TV americana, precisava ser um brasileiro. E assim o filme ganha uma camada extra, sociológica mesmo, que nos ajuda a compreender a algazarra que era a TV brazuca naquela década – e a entender a própria identidade do nosso país. “I don’t understand you, brazilian people!” vocifera o executivo. Bom, a gente entende.

Mas é quando Augusto remove a maquiagem de Bingo que o filme ganha o escopo capaz de fazer a plateia silenciar. Uma cruel cláusula no contrato impedia o ator de revelar sua identidade, em nome de manter a “magia” do personagem. Assim, embora recebendo um salário astronômico e batendo recordes de audiência, Augusto jamais poderia colher os louros de seu sucesso. Um astro diante das câmeras e um completo anônimo fora delas.

Nesse sentido, a maneira com que Vladmir Brichta e o roteiro de Luis Bolognesi desenham o personagem é dilacerante. Permitem uma janela ao homem, pai devotado, divorciado, à sombra da mãe ex-diva da TV. Há ali toda a fragilidade, a vulnerabilidade, doçura, vontade de provar-se a si mesmo e aos outros, o instinto auto-destrutivo. E é este último que faz com que Augusto se afunde no abuso de álcool e drogas.

De outro lado, o Desenho de Produção se mostra muito atento aos detalhes: estão lá as ombreiras gigantes, os cortes de cabelo armados, muitas cores nas roupas e cenários, luzes neon, fitas cassete, caracteres de VHS, a deliciosa breguice dos anos 80. Acrescentam ainda às camadas do filme, as metáforas visuais que realizam a imaginação ou os delírios do protagonista, como um certo jantar entre ele e a diretora do programa interpretada pela sempre competente Leandra Leal. A trilha sonora excelente corre por fora pra completar a viagem no tempo.

A despeito de todo o interesse que a trajetória de vida de Augusto desperta por si só, a história de Bingo: O Rei das Manhãs guarda um potencial imenso de identificação com o espectador porque traduz nossos desejos e frustrações, guardadas as devidas proporções, em relação ao que fazemos com a nossa própria trajetória de vida. Ao abrir possibilidades para que o público se reconheça naquele personagem, Daniel Rezende, montador premiado e estreante na direção, acerta bem no meio do alvo e entrega um dos melhores filmes do ano até agora.