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Críticas de Séries

Crítica | Big Fish & Begonia

Animação chinesa está disponível desde a última sexta-feira (17) na Netflix.

Pense em doze anos de produção para um filme de animação. Reflita sobre. Pondere mais um pouco (se possível com alguém) e depois chegue a uma conclusão. Esse é o desafio que Xuan Liang e Chun Zhang apresentam aos cinéfilos amantes dos traços asiáticos em movimento com Big Fish & Begonia (no original Da Yu Hai Tang), uma narrativa fantástica que reúne dois elementos muito apreciados pela escola chinesa de animação: folclore nativo e drama.

Lançado em 2016, a animação de 105 minutos é um poema trágico que se constrói por meio da composição sempre remetendo a traços curvilíneos e enquadramentos com planos abertos e detalhes cheios de informação narrando o inusitado encontro entre a jovem Chun e o alegre Kun. Um encontro nada feliz. Ela, um espírito da natureza que atravessa as dimensões para cumprir um ritual de passagem que resume-se numa visita ao mundo humano durante sete dias. Ele, um jovem pescador que cuida de sua irmã caçula às margens da costa do mar.

Inspirados em contos e lendas do folclore chinês retratados em narrativas como Classics of Mountain and Seas e In Search of the Supernatural os diretores transpiram vivacidade ao apresentarem uma trama com reviravoltas e que segue uma crescente pautada no básico do ciclo do herói. A protagonista Chun carrega sobre si muitos olhares e ao longo do filme conhecemos ela com mais propriedade. Uma menina de 16 anos criada em um mundo surreal ao conhecimentos naturais e que amadurece de repente. Muito devido ao ter que comparar as diferenças entre seu povo e a humanidade (principalmente no quesito cuidado com o ambiente), como também nos valores sentimentais como o amor.

É esse sentimento, por sinal, que dá a deixa para os desfechos do longa-metragem. Tomando como referência obras já consagradas do Cinema de Animação Asiático e Mundial como Princesa Mononoke (1997) e A Viagem de Chiriro (2001) e Ponyo – Uma amizade que veio do mar (2008), ambos de Hayao Miyasaki, a dupla chinesa não só constrói uma protagonista forte e indomável, como também revelam-na mais feminina. Liang e Zhang já confirmaram em diversas entrevistas ao longo dos últimos anos que se inspiram na construção surrealista de Miyasaki para a ambientação de temas sociais em conjunto com os saberes culturais de seu povo. Repetindo a fórmula os dois tornam sua narrativa impactante por também dialogar com filosofias e religiões de origem chinesa. O Taoismo é dentre estas a mais perceptível. A natureza, a não comunhão com deuses e a constante moralidade no ciclo da vida onde maus espíritos reencarnam como ratos e bons espíritos como golfinhos, no momento em que alcançam o mundo espiritual, trata sobre o contexto dual entre yin e yiang. Onde nem todos são sempre bons ou maus, mas todos buscam alcançar determinado fins através de diversos meios.

Outro ponto chave da narrativa – que difere de suas referências oriundas do cinema japonês – é o fato de termos um triângulo amoroso. A jovem Chun divide-se entre amar o pobre Kun, que ela julga sofrer por causa das ações dela no mundo humano, e Qiu, seu amigo de infância que a ama como se fosse a própria vida. O desenrolar desse triângulo pontua os destinos das três personagens e as consequências de cada uma em um clímax que embora com a aparência de um resultado feliz é carregado de um triste desfecho para quem não está preparado.

Amarrando todos esses nuances destaca-se aqui também a trilha sonora composta por Kiyoshi Yoshida (o mesmo de Toki no Kakeru Shoujo, de Mamoru Hosoda). O japonês que empresta seu talento a dupla chinesa apresenta um compasso melódico carregado de sentimentalismo e tensão ao utilizar-se de uma orquestra mesclada com diversos instrumentos musicais folclóricos do sudeste asiático. Em especial a ocarina moldada em conchas do Mar da China, que é no próprio filme um elemento narrativo visualmente presente.

Disponível desde a última sexta-feira (17) no catálogo da Netflix, o filme é a segunda aposta do serviço de streaming em longa-metragens animados chineses em menos de um mês. No Brasil, o filme conta com dublagem do estúdio Alcateia Audiovisual, que em nada contribui e leva-me a sugerir que se assista com o áudio original em mandarim. Desconsiderando isso, Big Fish & Begonia é mágico e já pode ser considerado um grande trabalho do gênero. Pena ter sido lançado no mesmo ano de Your Name (Kimi no Na Wa) do japonês Makoto Shinkai. Isso acabou ofuscando o brilho de uma produção de longa data e carregada de sentimentos e expressões artísticas onde uma aquarela de tons vivos e vibrantes parecem conduzir nossos olhos por uma seda rara chinesa dos períodos da Dinastia Han.

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