Crítica | Bacurau


Dependendo de por onde você olha, é até fácil entender a avalanche de prêmios que Bacurau (2019) vem recebendo pelos festivais mundo a fora. Com uma história intrigante até não ter mais como e meio mundo de possibilidades interpretativas, o filme dirigido por Kleber Mendonça Filho (Aquarius, 2017) e Juliano Dornelles cativa, revolta, intriga e diverte um bocadinho – mas guarda muito mais embaixo de sua tapeçaria narrativa do que é possível ver na superfície.   

A abertura já joga as expectativas pro alto e reordena tudo: lá da estratosfera, a câmera vem descendo enquanto Gal Costa canta “Não Identificado”. Dali a uma estrada esburacada do Oeste pernambucano, pra já esfregar um tanto de realidade na face do espectador. No carro-pipa a caminho de Bacurau (a cidadezinha que batiza o filme) um casal observa o acidente que tombou um caminhão, espalhando caixões pela estrada; chegada auspiciosa. Em Bacurau, o funeral da matriarca do povoado termina de completar o clima lúgubre.

Mas o imperativo dali não é a tristeza e sim a resistência. O filme vai calmamente nos apresentando à dinâmica do lugar e a seus tipos clássicos de interior: o tio da viola, a senhorinha patrulheira de calçada, o professor, a quitanda, o eixo do entretenimento adulto, os valentões, as crianças. Tudo conduz ao lugar-comum da leitura de Nordeste que o Cinema costuma fazer. No entanto a intenção de Filho e Dornelles aqui é expandir as possibilidades através de provocações que vem do texto e de quebras propositais de paradigmas cinematográficos solidificados por filmes que vão desde ‘O Auto da Compadecida’ a ‘Cinema, Aspirinas e Urubus’.

Nesse sentido, Bacurau, apesar de recorrer a trejeitos estéticos facilmente detectáveis, também procura se esquivar de convenções narrativas como, por exemplo, imaginar um povoado harmônico e pacato que aos poucos assume contornos trágicos. Bacurau é caótica desde a apresentação que expõe seus conflitos fatais por falta d’água e o desamparo de forças governamentais que levam a comunidade a funcionar num sistema de quase autogestão. E essa consciência de Unidade é um conceito fundamental ao filme.

A consciência de unidade e também a valorização da memória, como fica evidente não apenas pela liturgia do funeral na abertura, mas através do “Museu Histórico de Bacurau”, um espaço que recolhe artefatos das chacinas do cangaço e do ranho do coronelismo – mais tarde, uma personagem faz questão de que as paredes sujas de sangue permaneçam como estão.

Sendo assim é justificável que Bacurau não tenha um protagonista específico, mas que toda a malha de habitantes do povoado componha um protagonista coeso em sua heterogeneidade. O que deixa a desejar, mesmo assim, é o desenvolvimento da narrativa, que se permite desaceleradas incômodas e até dispersam a empolgação inicial pelos desdobramentos da trama. Felizmente o terceiro ato retoma o ritmo.

Bom, se não ficar evidente através de todas as alegorias pontilhadas pelo filme, o letreiro final que diz que mais de 800 trabalhos foram gerados nesta produção, termina de passar a régua. Bacurau deixa seu recado de um jeito ou de outro.