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Críticas

Crítica | Aquaman

Imponente e divertido, Aquaman merece título de melhor filme da DC Universe.

Foto: Divulgação/Warner

Talvez até demore para que os lançamentos da DC nos cinemas deixem de estar cercados por desconfiança, já que quase todas as últimas experiências tiveram lá seus problemas de aceitação. Mas, ironias do destino à parte, eis aqui um representante digno para afastar essa suspeição e elevar a reputação do estúdio nos cinemas: Aquaman, de James Wan e Jason Momoa.

Passado depois de Liga da Justiça, o filme conta a história de origem do meio-humano, meio-Atlante Arthur Curry, levando-o na jornada de sua vida — uma jornada que vai forçá-lo a não só encarar sua verdadeira identidade, mas também a descobrir se ele tem o que é necessário para ser… um rei. Para a nossa alegria, a introdução de quem Aquaman é e o que pode fazer foi inteligentemente resumida por uma narração do próprio herói, que logo entra em cena com seus longos cabelos molhados e peito de fora.

O enredo que leva Arthur Curry de herói à rei não é tão difícil de entender. A mãe era rainha, o pai era humano e ele filho de um relacionamento proibido. Tão proibido que Atlanna foi punida pelo próprio reino, que logo ganhou o desprezo do herói. O fato de que ele também fazia parte de Atlântida, no entanto, não poderia mudar e uma disputa pelo trono impactaria ferozmente o futuro das profundezas do oceano. Arthur leva vantagem por ter o sangue de sua mãe, mas essa não parecia ser uma vontade dele. O diálogo mediado por Mera (Amber Heard) e as credenciais que precisa conquistar para isso, completam os argumentos para a aventura.

Entre os pontos altos estão a força e estilo de Aquaman, tanto em terra quanto na água, embalado pelos extraordinários planos sequências que acompanham as perseguições e lutas entre personagens, que já empolgam o suficiente para esquecer que algum dia as habilidades o rei dos mares foram ridicularizadas por falar com peixes ou respirar debaixo d’água. Tudo acontece em um cenário que não se envergonha das cores e reforça a personalidade estética da produção. Vale ressaltar a melhora no quesito efeitos especiais – há uma batalha subaquática impecável que contrasta com cenas no deserto que gritam CGI.

Aqui, não temos um grande vilão. Só uma escada. Orm (Patrick Wilson), irmão puro e atlante de Arthur, briga pelo trono de Atlântida por puro ego. Arthur, não. Arthur é apresentado como a perfeita escolha para abrandar os conflitos entre os sete mares e a raça humana, que passou as últimas décadas matando animais e poluindo o oceano. Uma briga ecológica grande, mas que passa longe de parecer uma preocupação de Aquaman por enquanto. A briga aqui é por ter alguém digno reinando Atlântida e não alguém possuído pela intolerância e pela ganância.

Momoa, é importante carimbar, vendeu muito bem a nova estética para Aquaman. Com um jeitão rústico e muito atual, trouxe sensualidade e imponência muito importantes para a construção do personagem. Essa personalidade soma forças ao senso de humor acentuado para incrementar essa aventura fosforescente que vale totalmente o preço do ingresso e que cresce a cada surpresa sem deixar a peteca cair no final. Portanto, saúdem o rei de Atlântida, pois, sem dúvidas, merece o título de melhor filme da DC Universe nos cinemas.

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Crítica | Capitã Marvel

Com uma saída conveniente para a ameaça de Thanos, a Marvel dá conta do básico e organiza o tabuleiro para o capítulo final dos Vingadores

O primeiro filme solo de uma heroína no MCU chegou sob o rufo dos tambores e com alta voltagem de expectativa depois da sinuca de bico deixada pelo estúdio em Vingadores: Guerra Infinita. A estreia da Capitã Marvel (Captain Marvel, 2019) encara o desafio de indicar as diretrizes para o que virá adiante no capítulo definitivo de Vingadores, explorar a retranca Krees vs. Skrulls e apresentar a heroína e suas motivações. Vai vendo.

O problema é que sendo um filme de origem que tenta fugir das atribuições de um filme de origem para funcionar mais como um filme de “condução” da narrativa-macro, Capitã Marvel acaba trupicando na teia ultracomplexa de acontecimentos que transformaram a personagem na heroína mais poderosa da Casa das Ideias. E aí não tem como fugir: o resultado é uma narrativa que precisa recorrer a certo didatismo e exposição.

Um exemplo disso é a ocorrência de personagens como as do núcleo Maria Rambeau (Lashana Lynch) muito convenientemente explicando quem é Carol Danvers, quando o ideal é que o filme nos mostrasse isso em ação. Parece inofensivo, mas o efeito colateral é que esse recurso acaba fragilizando o impacto visual e transformando boa parte das cenas num mero manual para entender a Capitã – o que é a intenção básica do estúdio, claro, mas a Marvel não ganhou esse prestígio priorizando texto e deixando a forma pra escanteio, certo? O grande lance é encontrar essa afinação e talvez seja o que infelizmente deixou a desejar aqui.  

Isso explica algumas desacelerações no ritmo da narrativa, onde alguns fatos inevitavelmente ganham mais atenção que outros – o que termina criando algumas ‘barrigas’ no desenvolvimento da história. E aquela reviravolta na abordagem dos Skrulls talvez seja a maior ponta desse problema. Isso também explica o fato de que o filme não tem uma identidade visual tão impactante ou fácil de identificar, exceto por algumas cenas como a da batalha em neon no início e a sequência da explosão que origina os poderes da Capitona. Paciência, irmão. Paciência.

De todo modo, seja por conta dos dilemas comuns que criam elos de identificação com a protagonista ou pela dobradinha com o jovem Nick Fury e seus ataques de fofura com a gatinha Goose, o filme acaba dobrando o espectador aos poucos, na base do carisma. E mais papo, menos papo: é sempre lindo ver uma mulher dando uns tapa na cara dos folgado. E tome diálogos com as tiradas infalíveis de humor, assinatura clássica da Marvel. Cabe aqui o destaque para o trabalho do elenco que ajuda a tornar crível aquele universo, mesmo com seus poréns.

Corre por fora o recurso fácil de sapecar hits musicais dos anos 90 que calçam a atmosfera da época e ajudam a embalar as sequências que se passam na Terra: flertes com a nostalgia do VHS e de uma época em que Tom Cruise arrancava suspiros pilotando caças endiabrados.

O ponto é que ao apresentar problemas daqueles difíceis de relativizar, um filme que poderia ser mais um ponto alto depois de acertos como Pantera Negra, surge apenas como uma peça conveniente demais na engrenagem dos Vingadores: para um vilão de força sobrecomum, um reforço a altura. E aí, vá lá, o filme que poderia ir mais alto, mais longe e mais veloz se limita a cumprir o prometido: já sabemos quem é a Capitã Marvel e mal podemos esperar pra vê-la dando um sarrafo no Thanos. Vai que é tua, Capitona!

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Crítica | Alita: Anjo de Combate

Criativa, adaptação consegue captar essência do original e se reinventa.

Alimentando a ideia de que o transumanismo pelo qual caminhamos nos dias atuais irá se colapsar na metade do terceiro milênio, o filme de Robert Rodriguez traz um argumento compactado sobre diferentes atuações do ser humano diante do seu próprio caos que se constitui em ordem.

Tal como um anjo que caiu por se rebelar contra seu criador e depois aponta suas armas em busca do Éden perdido, Alita: Anjo de Combate traduz-se em um deus ex machina na forma como seus elementos são costurados e dispostos diante da tela. Não que isso seja ruim – no caso desse filme -, mas é necessário abrir esta crítica afirmando esta posição considerando o fato de se tratar de mais um filme adaptado de uma obra japonesa.

Robert Rodrigues (direção), Laeta Kalogridis (roteiro), Jon Landau (produção) e James Cameron (produção e roteiro) traduzem de maneira ímpar a obra de Yukito Kishiro após longos anos de espera. Reconstruindo o universo de GUNM – Hyper Future Vision somos apresentados a uma Gally… Ops! Corrigindo… Um Alita cativante, sensível e forte que encanta mesmo com aqueles olhos gigantes, que por sinal são um charme à parte.

O conflito de fundo que ambienta a trama original do mangá é mantido e Zalem retrata o sonho para muitos decadentes da Cidade de Ferro e ao mesmo tempo é a maldição que os prende a uma vida tênue entre a moralidade e a insanidade. No meio disso, Alita é literalmente um anjo para muitos que sobrevivem a essa tempestade. Ingênua, gentil e – acima de tudo – guerreira. Só que não se enganem, tal como um anjo ela também pode ser um demônio que vive a adrenalina da batalha.

E já que o assunto é batalha, Alita: Anjo de Combate tem bom momentos de ação e movimentos de câmera ensaiados com maestria transparecendo o bom labor de toda a equipe envolvida na produção. Talvez a realidade nas mortes é que tenham sido pouco efetivas só que discutir isso num mundo onde homem e máquina vivem em perfeita simbiose é um pouco demais.

Falar detalhe por detalhe sobre o filme é desnecessário. Importante mesmo é saber que a adaptação constrói uma boa relação entre os quatro primeiros volumes da HQ japonesa e relaciona elementos como o motorball e o envolvimento entre Alita e Hugo para amenizar o peso do discurso sombrio da narrativa transumanista e cyberpunk.

A adaptação, contudo, mantém uma consistência frágil e deixa o fã do mangá decepcionado em muitos momentos. A morte do vira-lata, a utopia psicológica de Chiren e o dilema de Hugo são explorados em intensidade inferior ao que se espera e deixa um leve gosto de insatisfação, que é superado pelo competente trabalho dos atores em especial o de Rosa Salazar (Alita), que mesmo em meio a tanto efeito visual sobressai-se com bastante eficiência no papel principal enquanto figura humana em cena. Talvez por isso os responsáveis pelo filme resolveram tirar o batismo da protagonista da relação entre Ido e um velho gato e assumir algo mais aproximador como o amor de um pai por uma filha já não mais viva.

Divergências de lado, Alita: Anjo de Combate é um sucesso. Não admitir isso é de infantilidade por parte de quem o faz. A escolha fílmica para a trama nos dá uma narrativa de origem bem convincente, atrativa. Quem diz ser mais do mesmo no “gênero filme de herói” se esquece ou faz-se desentendido a respeito da Jornada do Herói onde a exaltação do protagonista após o infortúnio é mais do que válida.

Ponto de virada para o dilema do fracasso das adaptações de animês e mangás (e games!), Alita agora será parâmetro para seus sucessores como Detetive Pikachu ainda em 2019 e outros anúncios um tanto quanto preocupantes como Sonic e Your Name para momentos seguintes.

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Crítica | A Favorita

Um deboche da monarquia, solitária e triste, que de forma irônica e embaraçosa aponta para a falta de limites da ambição humana

Quando A Favorita (The Favourite, 2018) chega ao fim e sobem os créditos ao som de “Skyline Pigeon”, de Elton John, fica uma certa sensação de constrangimento. Nenhuma relação com a qualidade do filme, ao contrário. Incomoda o público ter sido testemunha de longos minutos de egoísmo, do aproveitar-se de outra pessoa, de uma ambição tamanha das protagonistas que embaraça mesmo em se tratando de uma narrativa cômica. Absoluto mérito do jovem e talentoso cineasta grego Yorgos Lanthimos, que se debruça em uma tentativa de ironizar não só a monarquia da Grã-Bretanha do século XVIII, mas, principalmente, a figura da rainha Anne (Olivia Colman) do ponto de vista dos que vivem a rotina na corte – sejam aliados ou oposição. A sacada, porém, está no drama vergonhoso que se apresenta a partir de como começamos a perceber o quanto a personalidade da rainha é extremamente imperfeita, auto destrutiva e de um amor próprio (quase) nulo.

Parte de um processo político confuso, Anne chegou ao trono em 1702 e teve que lidar com questões determinantes sobre a Guerra da Sucessão Espanhola e as ferrenhas inimizades com os franceses.  Sempre ao lado da rainha está Lady Sarah Churchill (Rachel Weisz), a Duquesa de Marlborough, conselheira transformada na pessoa de maior confiança à sua alteza e, por sua vez, aproveitando-se da fragilidade real, quem verdadeiramente governa. Então, chega à corte Abigail Masham (Emma Stone), historicamente conhecida como Baronesa Masham que se aproxima da monarca e, com tanta ambição quanto Sarah, vai ganhando espaço na preferência de Anne como a companhia favorita. Resta a Sarah posicionar-se com maior agressividade contra Abigail e encontrar um melhor plano de manipulação, apelando para os sentimentos mais íntimos da depressiva e instável Anne. Mas parece não funcionar.

Como as duas principais personagens são históricas e reais, e que realmente dividiram o favoritismo da rainha, Lanthimos se aproveita desse toque de fidelidade do enredo para inserir as fofocas da corte que costuram e formam um perfeito ambiente de intrigas – tanto políticas quanto amorosas – de abordagem convincente, mesmo que sejam situações bem inusitadas. Soma-se a isso as atuações absolutamente impecáveis de Weisz e Stone, capazes de conduzir toda a trama de forma poderosa, transformando todos os homens do filme em meros sonsos descartáveis, escadas para diálogos cômicos e maliciosos.

Impossível não destacar também as aplicações técnicas de A Favorita. A fotografia é deslumbrante e busca capturar boa parte dos eventos com enquadramentos e cores (em um tons mais quentes, em função da escuridão vista pela luz de velas) que remetem a pinturas. Algumas dessas tomadas, filmadas em lentes grandes angulares, remetem a uma breve inspiração em Barry Lyndon (clássico de Stanley Kubrick que usou câmeras que a NASA usou em missões lunares para ampliar a iluminação). O figurino é outro ponto valioso do longa e favorito (sem trocadilho) ao Oscar, assim como a trilha sonora, adequada a cada capitulo da história, que acompanha o tom de ironia e crueldade a medida em que a trama avança. 

A Favorita narra uma passagem histórica em que mostra o lado extremo do sentimento de ambição atrás de poder. Os laços entre o triângulo são alegorias sobre os diferentes tipos de comportamento humano e o quanto cada indivíduo se importa com o outro quando se trata de conseguir o que quer. E mesmo com o tom cômico, diálogos divertidos e situações engraçadas, assistir a depreciação de uma outra pessoa depressiva e frágil, por mais poderosa que fosse, dá um gosto amargo e triste de como o ser humano, por várias vezes, é um mero instrumento da condição a qual ele se coloca. Afinal, pombos de tiro ao alvo podem até tentar voar, mas serão abatidos por seu algoz sem piedade.

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