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Críticas de Séries

Crítica | Altered Carbon – Temporada 1

Já disponível na Netflix; assista!

A nova grande série da Netflix. Essa pode ser uma das descrições para Altered Carbon. É vaga, mas as mais próximas também não fazem jus ao emaranhado de estilos presentes nessa específica produção da Netflix.

Baseada no romance homônimo de Richard Morgan (2002), a série traz 10 episódios misturando romance policial, cyberpunk e com pitadas de sátira gótica, entregues por ninguém menos que uma AI de Edgar Alan Poe, para contar a história de Takeshi Kovacs, um homem obrigado a viver em um mundo moldado sobre seu fracasso.

Mas uma coisa  que não se pode afirmar sobre a produção de Laeta Kalogridis é que tenha sido econômica. É dispendiosa, não mede em ninharias na hora da violência, sexo, nudez, famílias disfuncionais, amores disfuncionais, complexos de divindade, degradação social, debate filosófico e humor seco.

Outro lado em que também não economiza é nos clichês do cyberpunk. Sempre chove no futuro distópico, seja porque se espera que a humanidade tenha destruído o equilíbrio ambiental de vez, seja porque nada dá à uma história tanta melancolia, ou mesmo porque nenhum outro efeito climático mostra tão bem a quantidade absurda de neon usado nas cidades.

As portas dos carros abrem para cima, claro. É sempre noite, também por conta do neon e da prostituição. Há ringues de briga até a morte comandados por empresários de cabelo colorido e sorriso traiçoeiro, que também só podem funcionar a noite. O protagonista usa, sim, um sobretudo preto com a gola levantada o tempo todo, como não poderia faltar em uma espécie de policial noir.

Mesmo nas cenas à luz do dia, não há luz natural. Apenas nos flashbacks de 250 anos há luz do sol. Nem sobre as nuvens o sol brilha.

Um homem sem alma

Altered Carbon é uma história sobre a humanidade, questionando a vida, a morte, o que faz de alguém humano? O que faz você ser você? Seu corpo? Suas memórias? Seu gênero? Ser capaz de amar? Ou é apenas a certeza de ser perene, de um dia não mais existir? É ter uma alma imortal? Mas o que é essa alma?

Vemos Takeshi Kovacs primeiro em seu segundo corpo, asiático, para depois entrar a versão branca, a versão que ele não escolheu. Era de se esperar que em uma história talvez mais direta, que Kovacs desenvolvesse uma enorme crise de identidade, mas ele já havia sido despido desse luxo quando ainda criança foi posto no corpo de um homem adulto. As crises de identidade são reservadas para aqueles que ainda tem sentimentos.

Para alguém que já preencheu tantos corpos, Kovacs é seco, quase sem alma. Alguém que não se importa com nada além de si mesmo. Ainda que isso mude aos poucos, em um primeiro momento nosso herói é uma máquina de matar, transformado em bicho de estimação (com garras).

Ele é contratado por Laurens Bancroft (James Purefoy), um dos Meths (pessoas ricas que vivem centenas de anos apenas trocando de corpos) para solucionar o seu assassinato. Daí para a frente a história segue uma rede de intrigas e pessoas entrando e saindo de corpos e fazendo os piores usos deles.

As memórias, essas são o bem mais precioso que alguém pode ter. Mantê-las em um stack, espécie de cartão de memória feito com tecnologia alienígena, é caro. Mais caro ainda é colocar de volta em um corpo humano, sintético ou clonado, à escolha do freguês.

Deuses entre os homens

Em dado momento todo o futurismo de Altered Carbon encontra Frankenstein, um dos clássicos da ficção científica, que assim como a história de Morgan, trata um lado mais orgânico do desenvolvimento tecnológico.

Mas a fonte de referências clássicas vai ainda mais distante no tempo. Homens de centenas de anos, os Matusaléns, vivem em casas sobre as nuvens, vestindo na maioria das vezes o branco dos deuses do Olimpo e dos romanos. A partição entre essas pessoas e os pobres não é apenas psicológica e simbólica, mas física, colocando muito mais que bairros de distância entre eles, mas literalmente o céu.

Um milionário que de noite paga para bater em prostitutas, mas que pela manhã salva da fome uma colônia de infectados, cujo contato o leva a nada menos que a morte temporária. É o próprio Cristo, cordeiro em sacrifício por aquele povo desgraçado, voltando dias depois para repetir o ciclo messiânico, e expurgar seus próprios pecados.

A família Bancroft, inclusive, é um desfile de referências às contendas dos deuses. Há uma deusa mesquinha e manipuladora, um deus mais jovem que tenta se provar para o pai, que por sua vez tem os maiores complexos de divindade de todos, uma filha que usa o corpo da mãe. Não há limites morais quando se tem a eternidade e recursos ilimitados

Ouroboros, a serpente do infinito não foi esquecida, está no braço do herói, no de sua irmã, no colar da mãe, na abertura da série. O anjo da punição também aparece, nascido da tragédia de uma mulher cujo fruto lhe foi arrancado.

Anjos da Morte

Os personagens de Altered Carbon são complexos, uma boa parte deles é extremamente mesquinha, outra parte são pessoas pelas quais se torce com todas as forças, ainda que meçam de forma muito pouco justa quem vive e quem morre.

Poucas séries matam tantas prostitutas e funcionários de empresas sem ética quando Altered Carbon. Terríveis longos minutos são dedicados a mostrar como as ações de pessoas que só estão fazendo o seu trabalho (sujo), e esperando o sinal de ir para casa, ganham como retribuição um massacre.

Mas outras coisas vem a passos mais lentos, como as motivações da antagonista e par romântico de Kovacs, a detetive Kristen Ortega (Martha Higareda), ou quem é de fato o grande vilão dessa história.

Aliás, as voltas que se dá para apresentar o vilão (como tal) e descortinar seu plano diabólico. Plot Twist é outra coisa em que AC não economiza.

O elenco é outro tiro certeiro. Um dos mais diversificados já apresentados em uma produção de alto nível. Casais interraciais, amizades interfaciais, mulheres vilãs e heroínas, nem o protagonista branco é mesmo branco. Mas não há dúvidas de que os Meths sejam.

Altered Carbon, neste ponto, é sobre o agora, sobre uma comunidade mista lutando para que homens brancos não sejam imbuídos de poder divino, e, mesmo falhando, para que mais tarde paguem pelo seu distanciamento da humanidade.

Uma das passagens mais especiais é quando a série volta para o passado de Kovacs em alguns episódios e mostra a luta da resistência, o treinamento físico e ideológico proporcionado por Quellcrist Falconer (Renee Goldsberry), a mentora e amor da vida de Kovacs.

É talvez a primeira vez em que uma série da Netflix entregou de forma equilibrada o passado e o presente de um protagonista, sem fazer com que um dos tempos passasse a ser enfadonho.

Altered Carbon é, nas palavras de suas prostitutas, a realização de todos os seus sonhos, incluindo seus pesadelos.

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Review | She-Ra e as Princesas do Poder (2ª Temp.)

De tiro curto, segunda temporada foca nos segredos dos primeiros.

Bastante aguardada, a segunda temporada da animação She-Ra e as Princesas do Poder veio em tiro curtíssimo – apenas sete episódios -, mas trouxe elementos bem significativos para a trama.

Se na primeira temporada comentei a respeito do resgate bem feito da personagem e sua mitologia reescrita, para a continuação o destaque fica por conta do aprofundamento de toda essa novidade. Em sete episódios, Adora é apresentada de forma sutil buscando entender um pouco mais sobre si e sobre o segredo da She-Ra. Encontramos uma adolescente bastante compenetrada com seu destino/missão e ao mesmo tempo sem noção sobre o que de fato deve fazer.

Para falar a verdade, o foco desta temporada não é Lua Clara ou a Floresta dos Sussurros e sim a Zona do Medo. Felina, Sombria e Hordak estão no centro de 6 de 7 das partes apresentadas e é nosso momento de melhor conhecermos um pouco sobre cada um.

Sobre o vilão Hordak o que se deu para aproveitar é que ele esconde informações importantes para entendermos Etheria e o universo onde está inserido o planeta. Claramente se declarando um viajante do espaço, o vilão – ao lado da Princesa Entrapta – realiza experimentos com a tecnologia dos primeiros em busca pela criação de portais dimensionais.

Hordak e Imp, tiveram mais tempo de cena na segunda temporada.

É essa tecnologia ancestral que dá o mote dos confrontos ao longo da animação. De verdade, quem são os primeiros? E o que eles tem a ver com o poder de GraySkull? Essas são perguntas sem respostas que prontamente guiarão os paços da showrunner Noelle Stevenson para a continuação da trama.

Quem realmente teve o passado contado, ao menos que um pouco, é a maligna Sombria. Durante o episódio 6 somos guiados a um flashback solo da vilã e conhecemos seu passado como a Feiticeira Luminosa; sua queda para as forças do mal e como ela conheceu Adora. A figura das sombras revela ter uma personalidade dúbia que transita entre os instintos humanos maternos e a sede de poder consumidora, o que pode render em desafios amargos para a She-Ra e também para a Capitã da Força, Felina, que está presa numa psiquê fraternal de amor e ódio às outras personagens.

Dois lados de uma mesma mulher: Sombria (acima) e Luminosa (abaixo).

Outro episódio que chama a atenção é o último, quando somos apresentados aos pais do Arqueiro, George e Lance. Ali a trama deixa o gancho para a nova aventura no Deserto Vermelho à procura por revelações sobre o passado de Etheria e também sobre a suposta traição de Mara, a She-Ra anterior. Sem falar sobre o leve toque de diversidade, que já é marca registrada da DreamWorks em suas animações.

O ponto alto, no entanto, fica por conta do episódio 4. Num belo ato de presente aos fãs mais abnegados da franquia dos anos 1980, as princesas de Etheria estão reunidas para debater sobre estratégias de guerra e nos levam a um passeio pelo universo das referências. Num ato mágico dos pensamentos de Arqueiro, somos levados a encarar todas as personagens em cena vestindo as mesmas fantasias da versão original com direito a bigodes em Arqueiro, transformação da Felina em uma pantera e a trilha sonora original do programa como background. Um ode! A versão dublada deixa isso mais acentuado na representação da Felina. Os mais antigos entendem!

A data para a terceira temporada de She-Ra e as Princesas do Poder deve ser anunciada em breve, ainda mais se contar com a boa receptividade da atual. O certo é que She-Ra veio mesmo para ficar e consegue cativar não mais pelo afetivo providenciado pelo saudosismo, mas por ter deixado um plano de fundo bem elaborado para sua continuação com dilemas e aventuras certeiras sendo esperadas pela Grande Rebelião, a Horda e toda Etheria. Tudo isso, é claro, sem perder o respeito “Pela Honra de GraySkull!

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Crítica | The Walking Dead – 9ª temporada

Nova trama política e inteligente revive zumbis como ameaça e sacode The Walking Dead.

A nona temporada de The Walking Dead acabou e com ela uma constatação: apostar na morte de protagonistas não foi o que trouxe a queda de prestígio para a ficção pós-apocalíptica. A má construção do suspense, sim. Sintomas começaram a ser sentidos na sexta temporada, profundamente agravados na sétima, uma reação de melhora na oitava e, apesar de tudo, devidamente contornados na nona temporada.

Marcada pela mudança de showrunner, nova vinheta cheia de códigos e despedida do protagonista Rick Grimes (Andrew Lincoln), a temporada nove parecia uma bomba relógio. Antes de tudo acontecer, muitas notícias já apontavam a saída de personagens cruciais e abalavam a confiança dos walkers (fãs da série) numa reviravolta positiva. E não é que a direção de Angela Kang conseguiu driblar essas baixas e apresentar uma temporada tão boa quanto a quinta? Menino, pois foi.

Olhando para trás, o arco dos Salvadores (7ª e 8ª temporada) foi uma decepção. Um potência mal aproveitada. O arco dos Sussurradores (9ª temporada) tinha potência igual ou maior. E o medo do fã, que inicialmente era da série não funcionar, foi substituído pelo medo real da ameaça que os vilões liderados por Alpha apresentaram. Vilões que estrearam chocando a audiência e apontando um caminho muito mais violento para o futuro de The Walking Dead.

Um dos maiores méritos do conflito com os Sussurradores foi reviver a insegurança em relação aos zumbis. Com o passar do tempo, as guerras entre sobreviventes assumiram os picos emocionais da franquia e os zumbis figuravam apenas como alegorias, parte do cenário da série. Agora, toda desconfiança sobre os caminhantes é pouca.

Mesmo sem peças-chave como Andrew Lincoln e Chandler Riggs, que ainda fazem muita falta, o elenco deu um show. Samantha Morton, que interpreta a vilã Alpha, foi assustadora e impecável. Agora com mais espaço, Norman Reedus e Danai Gurira conseguiram evoluir, respectivamente, Daryl e Michonne. Como não era feito desde a inserção do grupo de Rosita, novos personagens carismáticos foram introduzidos: Magna (Nadia Hilker), Luke (Dan Fogler), Kelly (Angel Theory), Connie (Lauren Ridloff) e Yumiko *Eleanor Matsuura). Judith Grimes (Cailey Fleming) também foi uma grata surpresa.

O elenco inchado, aliás, ainda segue como característica consequente do volume das comunidades. Subtramas continuam sendo apresentadas e pouco desenvolvidas, o que dá a impressão de um problema de gestão dessas histórias em prol da narrativa central. A gravidez de Rosita, por exemplo, parece cumprir uma cota de easter eggs das HQ’s, apenas.

No entanto, se havia alguma dúvida se The Walking Dead ainda tinha fôlego, muitas delas foram eliminadas pelos últimos episódios. A ausência de Rick e Maggie jogam contra a trama – a audiência tem caído a cada semana -, que tentou compensar entregando um arco bem amarrado e levantando questões a serem respondidas por outros produtos da franquia. Para quem parecia estar com tudo dando errado, até que o futuro de The Walking Dead parece interessante…

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Crítica | Love, Death + Robots

Para as mentes mais abertas, a série é um convite para uma viagem transcendental entre a morte e o amor.

Foto: Divulgação/Netflix

Para o diretor Tim Miller (Deadpool), a série Love, Death + Robots, que ele comandou ao lado do renomado cineasta David Fincher (Clube da Luta, Se7en, O Curioso Caso de Benjamin Button), é nada mais que “uma carta de amor aos nerds”. E ele não poderia estar mais correto.

Do passado ao futuro, entre a guerra e a extinção, os 18 contos animados apresentados na série exploram todos os temas de fascínio ao jovem geek. Aliás, como uma produção antológica, que funciona de maneira semelhante a Black Mirror, cada história é marcada por sua particularidade, tendo consigo, tramas e universos muito mais do que distintos.

Uma ideologia também presente nos traços das animações. Pois, enquanto alguns episódios bebem de fontes japonesas ou poderiam facilmente ocupar a grade da TV aberta americana (se não fosse a sua classificação para maiores), outros parecem sair diretamente do mundo dos quadrinhos ou das telas do Playstation 4.

As inspirações e técnicas vêm de toda a parte do globo. Fato atestado por sua produção mundial, que teve como berço os Estados Unidos, França, Hungria, Polônia, entre outros países.

Talvez por tais razões, as tramas também variam e transitam entre o complexo e o simplório. Quando não surpreendem por suas reviravoltas impactantes e inesperadas, causam impacto com uma narrativa simples, mas intensa e eficiente.

Dito isso, prepare-se para encontrar, aqui, histórias psicodélicas, de drama, horror e sobrevivência, oras triunfadas sobre as verossimilhanças visuais, ora abstratas e cartunistas, seja em 2D ou em 3D. O steampunk e o gênero heist também fazem à festa em alguns episódios divertidos e muito bem executados. E o humor, ainda que breve e amargo, também garante um espaço tímido e satisfatório entre algumas animações.

Outro ponto importante é que apesar de curtos, com durações variando entre 6 e 17 minutos, os episódios nos fisgam quase que de imediato. São, em geral, intuitivos, e nos guiam com facilidade entre mundos fantásticos e repletos de detalhes a cada canto da tela. Enquanto os personagens, além de (quase sempre) fugirem dos estereótipos padrões da sociedade, são carismáticos e fáceis de serem interpretados, desde as suas motivações pessoais até os objetivos dentro de suas mini-histórias. Não a ponto de decidirmos decorar os seus nomes para todo o sempre, mas eles cumprem o seu papel e conseguem nos fazer sentir na pele as suas experiências nada usuais.

Por outro lado, o problema de uma série antológica, que abarca contos e estilos distintos em cada episódio, é que algumas coisas podem funcionar e outras não. Além disso, as três palavras-chaves da série (Amor, Morte e Robôs) sugerem e possibilitam uma infinidade de histórias. Por esta razão, os temas explorados nos episódios variam, indo de um ponto a outro em poucos instantes. Consequentemente, nem todas as histórias irão agradá-los. Não que isso seja necessariamente uma regra, isto dependerá do ponto de vista de cada espectador.

Aliás, Love, Death + Robots reúne propositalmente diferentes tribos em uma só produção. Aqui, gamers, otakus, nerds e cinéfilos terão a chance de aproveitar o deleite visual que os contos proporcionam em um curto período de tempo. Para as mentes mais abertas, a série é um convite para uma viagem transcendental entre a morte e amor (e a robótica) em universos ricos e singulares.

Por outro lado, certos episódios (para alguns) podem facilmente serem resetados da mente logo após serem executados. E parte da culpa é da própria produção. Aliás, a sucessão e a transição entre jornadas intensas e poéticas para outras que são nada mais que narrativas visuais muito bem construídas, fazem as expectativas dos espectadores irem por água abaixo.

No final, a principal dica para navegar pela série é manter-se aberto às experiências e ter em mente que cada uma das animações o guiará por um mundo espetacular de maneira totalmente adversa as aventuras anteriores. Quase nada, digo com tranquilidade, se repete ou torna-se habitual aqui.

Assim, além dos temas centrais, a diversidade, o senso da descoberta e a surpresa são as únicas variáveis imutáveis do show e cabe somente a você decidir o quão positivo ou negativo isto é.

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