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Crítica de Filme

Crítica | Abominável

Falando sobre saudade, animação emociona em dose certa por meio da música.

Exatamente um ano depois do filme Pé Pequeno (Warner Animation) um yeti volta a ser protagonista em uma animação do cinema ocidental. Desta vez, em Abominável da DreamWorks, o ser mítico é um bebê reunido a uma jovem musicista, um adolescente descolado futuro estudante de medicina e um garotinho que sonha em ser um sucesso no basquete (mesmo sendo baixinho).

Reúnem-se assim alguns dos estereótipos mais comuns quando o assunto é China: tradição milenar, artes, ciências e esportes. Esses clichês ao qual recorremos sempre que falamos do gigante asiático, mesmo sendo um erro nosso, são bem retratados na animação escrita e dirigida por Jill Culton, a animadora que após anos de Pixar e quase desde na nova casa faz seu debut como diretora.

Simples, mas bonito, o filme gira em torno de uma temática: saudade. E a forma como isso é retratado comove quem se senta diante da tela grande. A jovem Yi expressa sua saudade por meio da música e esses elementos não só é bem presente como bem aproveitado. As melhores cenas do filme envolvem justamente os momentos em que Yi toca seu violino e vemos a magia literalmente acontecer. Magia, esse é outro elemento forte e de simbolismo bem marcado ao longo da animação.

Ganhando força e forma de acordo com os sentimentos de Yi e Everest (o yeti), percebemos que de fato é a magia fruto das nossas emoções. Considerando isso, a saudade é o sentimento mais complicado de controlarmos. Muitas vezes nos deixamos consumir por ela (principalmente quando se trata de alguém querido que se foi). Só que quando isso acontece nos deixa vulneráveis e ignorantes sobre o que está ao nosso redor.

Yi vivia justamente essa situação. Mesmo com mãe e avó ali, presentes, a saudade do pai impedia-a de viver o agora – e por consequência o futuro. Foi preciso uma jornada ao longo de seu país natal até o Himalaia para aprender a lidar com sua saudade. Esteticamente bem organizado (em sua estrutura de atos), Abominável é mais uma obra-prima da DreamWorks.

Ter uma protagonista de origem asiática também é um ponto positivo em diversos fatores. Principalmente no quesito discurso promovido. Mesmo sendo produzido desde 2010, o filme chega em bom momento aos cinemas quando temos uma crise geopolítica entre Estados Unidos e China colocando em xeque o relacionamento das duas nações. Por falar nisso, o cinema vem sendo uma válvula de escape para ao menos amenizar essas circunstâncias evidenciando mais e mais o valor cultural chinês (e asiático de modo geral) e sua importância para a história do mundo, embora ainda velada em muitos clichês.