Atemporalidade e nostalgia: os 30 anos de ‘O Serviço de entregas da Kiki’

Atemporalidade e nostalgia: os 30 anos de ‘O Serviço de entregas da Kiki’

Trinta anos. Esta é a idade do filme O Serviço de Entregas da Kiki (Kiki’s Delivery Service, 1989) que, apesar de já ter três décadas, é um filme completamente atemporal. De longe, já dá para sentir qual a origem da obra: Studio Ghibli. Os elementos característicos do diretor Hayao Miyazaki são facilmente encontrados: protagonista feminina forte, nostalgia, ambientação europeia e, claro, elementos voadores. O cineasta é um fascinado pelo espaço aéreo, por isso, dirigíveis são objetos que exercem um papel importante.

Comparado aos outros longas do estúdio, este talvez seja o mais realista. Tem magia, mas ela acaba sendo um elemento secundário.

Kiki, personagem principal do filme, ao lado de seu gato preto.

O enredo é bem simples: Respeitando a tradição do mundo das bruxas, Kiki sai da casa dos pais e procura uma cidade em que não haja nenhuma outra bruxa. Lá, Kiki deve morar sozinha por um ano. É uma espécie de treinamento para desenvolver seus poderes.

Em companhia de seu gato preto, Jiji, a menina acha um lugar para morar, e não demora a criar um serviço de entregas: com ajuda da vassoura voadora, Kiki realiza o trabalho de forma rápida. Mas trabalhar e cuidar da vida, e da magia, acabam sendo tarefas árduas demais para a bruxa, que se sente sobrecarregada. O corpo não aguenta o peso da rotina e cede: Kiki perde seus poderes.

Se compararmos aos problemas do mundo real, a perda de poderes parece significar sacrifício. Não conseguimos fazer tudo que queremos, e se fazemos coisas demais, temos que sacrificar algo. No caso do filme, a personagem não teve chance de escolha. Mas, se nos atentarmos aos detalhes da vida, Kiki perdeu a magia porque perdeu seu propósito. Ursula, a pintora, explica que já passou por um momento delicado parecido: esqueceu os motivos de por que amava pintar e simplesmente a criatividade a abandonou. Mas lá estava ela novamente: pintando. E Ursula garante que, nas condições certas, os poderes da bruxa irão retornar.

Kiki ao lado de Ursula, com uma pintura ao fundo.

A jornada de Kiki é de autodescoberta e autoconhecimento, porém não só isso. É também sobre como as tradições podem ser mantidas, ou não. E sobre amadurecimento.

E amadurecer, às vezes, custa caro. No caso de Kiki, ela recupera os poderes, mas não recupera a habilidade de falar com Jiji. Ela passa a ouvir o gato como todas as outras pessoas ouviam: apenas miados. Jiji talvez fosse o resquício de inocência e infância que restava à Kiki, e agora se foi. As responsabilidades e a maturidade chegaram de vez.

Essas reviravoltas na vida da personagem são acompanhadas de cenas belíssimas, com os toques únicos do Studio Ghibli, e com muita poesia espalhada pelas cenas. E os personagens são cativantes: além de Jiji e Ursula, Tombo tem um papel importante na vida da garota, trazendo doses de paixão e primeiro amor para ela. Cada personagem é crucial no crescimento de Kiki. Em contrapartida aos momentos de solidão, Kiki encontra nos companheiros um lar e bastante aprendizado.

Apesar de ter sido lançado lá em 1989, O Serviço de Entregas da Kiki é tão atual que poderia ter sido lançado ontem. Caso você ainda não conheça a obra, então sim, o filme foi lançado ontem e você vai correr para assistir. E para quem já viu, vale a pena entrar no modo nostalgia e relembrar cenas como a bicicleta com hélice e a cena final com o dirigível. E claro, acompanhar com entusiasmo o desenvolvimento de Kiki.

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