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Artigo Otaku | The Rising of the Shield Hero, desconforto e empatia midiática

Animê vem sendo pivô de polêmica na web.

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A base de uma comunidade de fãs é sua constante volatilidade em debater temas e assuntos pertinentes ao seus ídolos e ritos. A efervescência do debate é a mais gratificante premissa para alguém se sentir parte pertencente de uma fanbase, um fandom.

Em contrapartida, quando esse debate em nada é gratificante o que vemos surgir diante de nós são reações que promovem desprezo, ódio e intolerância.

2019 mal começou e a comunidade otaku apresenta mais uma intrigante situação que envolve o debate acalorado a respeito de como cada um enxerga/se posiciona sobre um tema dento do fandom.

A animação The Rising of the Shield Hero (Tate no Yuusha no Nariagari) iniciou exibição em janeiro e por aqui pode ser acompanhada pelo Crunchyroll Brasil. Com apenas três episódios até o momento já provocou uma mobilização espantosa. Em resumo da situação, sabe-se que o animê conta a história de um jovem (Naofumi) que vai parar em um outro mundo – com estilo de jogos de RPG – onde é considerado um dos quatro heróis de uma certa lenda.

Usuário do escudo, Naofumi é ridicularizado por isso. Só que esse em si não é o destaque inicial do plot. Para cumprir seu destino como herói ele precisa de ajudantes. Nessa situação uma combatente se junta a ele com aparente boas intenções, mas depois lhe rouba tudo o que tinha ainda o acusando de estupro. Algo que sabemos que ele não praticou.

O detalhe está no fato de o reino alternativo ter uma lei marcial que condena qualquer crime contra a figura da mulher. Naofumi só não é morto por causa do seu papel de Herói do Escudo. Abandonado a própria sorte ele precisa se preparar para a batalha contra o que quer que seja o Mal e assim ele faz uso de uma escrava semi-humana como sua “arma” pessoal, visto que sua habilidade com o escudo o impede de usar outras armas.

A discussão começa justamente nesse ponto de virada que é a compra da escrava. Aos olhos de muitos, Naofumi vem sendo um “bom senhor” para sua escrava e aí na internet vem aparecendo comentários como “nessas situações a escravidão é o melhor para ela”. Ela, no caso, é Raphtalia, uma semi-humana híbrida de guaxinim que é escrava desde a infância.

Para refutar essa afirmação sem nexo de “boa escravidão”, outras pessoas foram mais a fundo na obra e trouxeram o que eles chamam de “verdade sobre Naofumi”. Na light novel de Aneko Yusagi o garoto, irritado pela forma como sua vida vem sendo conduzida desde a mentira contada, passa a se revoltar contra todos e usa a escrava para justamente expressar seu ódio (em muitos momentos revela sua lascívia em comentários que só o leitor tem acesso). O fato de ser uma garota evidencia ainda mais sua raiva pela outra que o traiu, traçando assim uma personalidade suja, doentia ao seu perfil.

O certo é que instaurou-se agora uma discussão infinita que se divide entre a opinião de quem acha o animê bom e de quem acha ruim. Sendo que quem acha bom não consegue entender o porquê o outro lado não aceita a animação, e que acha ruim não consegue aceitar que tem quem goste desse tipo de coisa.

A Psicologia Social, a Literatura Moderna, a Pedagogia e áreas afins, desde o início da década vem trabalhando com um conceito duplo denominado desconforto e empatia literária. Tal assunto – em seus muitos nuances – aponta que a prática da leitura ajuda-nos a conectar com o próximo, a entendê-lo. Algo que, convenhamos, o bom leitor sempre soube.

De forma ampliada se pode dizer também que há um desconforto ou uma empatia midiática naquilo que consumimos. Cinema, TV, música e também animação são alguns dos muitos recursos do entretenimento disponíveis ao consumo humano, que por sua vez não é homogêneo.

Se deve ter em mente que toda obra tem um significante com seu significado, mas cabe ao apreciador interpretar a mensagem. Em The Rising of the Shield Hero, Naofumi é uma pessoa comum que vai a um mundo alternativo. É um cidadão como nós com suas bem-aventuranças e pecados. O que a fanbase não consegue entender é que o que o torna interessante é a “linha tênue entre Deus e o Diabo” que todos nos encontramos.

Por questões de civilidade, o homem costuma se organizar socialmente debaixo de conceitos e regras prevenindo-se de ferir o direito de qualquer quem seja. Dessa maneira, há práticas consideradas boas e outras tais condenáveis.

No animê em questão – é bom ressaltar – que a sociedade do reino se considera um matriarcado, contudo seu poder está nas mãos do rei e não de uma rainha. Com base nisso detém uma lei que protege a mulher de qualquer que seja a violência. É correto até dizer que é abominação aos olhos daquela sociedade o desrespeito a figura tão importante como a da mulher.

Entretanto, o mesmo reino descarta não só essa condição social (como outras) ao ter no seus domínios a prática da escravidão para com as demais raças daquele mundo. É essa dubiedade que choca na obra!

Muitos fãs alegam que Naofumi é um péssimo protagonista justamente por não respeitar a vida de sua escrava (como fica explícito na light novel) e aí determinam que o animê não deveria ser visto por esse mesmo motivo. Ressalto que na animação esse caráter mais áspero e sadista da personagem é um pouco mais mascarado. As queixas chegam ao ponto de conjecturar sobre o olhar do autor da obra acusando-o de ser machista e tantas outras coisas atuais hoje.

A grande incógnita nisso tudo é que ninguém realmente sabe quem é o autor, pois Aneko Yusagi é o pseudônimo de alguém que nunca apareceu na mídia. Não se sabe nem se ele é um homem ou uma mulher (talvez por causa do próprio nome, que usa os kanjis de “gato [neko]” e “coelho [usagi]” revelando quem sabe um lado feminino).

Aqui também há um dualogismo sem vergonha de que o “mocinho” sempre é bonzinho. Quem determinou que uma obra deve acompanhar o protagonista em busca de redenção ou praticando o bem?

Essas acusações, disparates e opiniões abertas nos levam ao clímax desse texto: realmente é necessário que toda obra seja feita buscando a premissa da empatia? Ou o desconforto também não é uma síntese de discurso?

Combater a escravidão, a violência contra as mulheres e/ou LGBTs, intolerância religiosa é socialmente correto e deve ser pessoalmente aplicável na formação do caráter e da personalidade. Apoiar essas condutas é desprezível seja para quem for.

E é aí que a fanbase se perde! Pois não entende que mesmo próxima e falando uma para a outra, ficção e realidade não são iguais. Uma emula a outra para abordar um olhar catártico e também um olhar crítico. Assim os membros intelectualizados e os menos intelectualizados (pois existem!) digladiam-se num combate onde o que fala mais alto é o “minha verdade é mais verdade que a sua” e se esquecem que o ideal é trazer as lições da ficção e aplicar na realidade para torná-la ideal, e não ficar com discursos vazios sobre uma narrativa fantasiada e que faz do excesso (embora isso seja um ponto válido a ser debatido).

Não custar falar que não estou passando pano para malfeitores. Quem defende escravidão e violência deve ser alertado que isso não é sadio, não é humano!

Seja para o bem ou para o mal, The Rising o the Shield Hero vem desempenhando um bom papel. Se foi adaptado para animê é porque é uma boa light novel e se o animê vem repercutindo é porque de algum modo também é. Tal como tantos outros poderia ser mais um na multidão do manganime exportado pelo globo só que cumpriu mais cedo do que se espera seu papel de produto de empatia/desconforto social.

Até a próxima e… Sayonara!