Artigo Otaku | The Lion King e Dectetive Pikachu: uma técnica, dois contextos

Artigo Otaku | The Lion King e Dectetive Pikachu: uma técnica, dois contextos

O mais recente trailer de The Lion King (2019), live-action que reconta a história do jovem leão Simba aclamado nos anos 1990 graças à animação homônima, provocou um enorme frenesi entre muitos fãs. Só que há quem ainda tenha seus receios com o filme e não gostou de ver as personagens clássicas como Scar, Timão e Pumba representados no estilo real CG3D.

Tal reação é parecida quando se trata de Dectetive Pikachu. Também saindo do universo 2D para o Real 3D em computação gráfica, os monstros de bolso da franquia japonesa despertam tanto a paixão pela fofura (可愛い, kawaii, em bom japonês) quanto o espanto com aspecto próximo ao grotesco de algumas personagens.

Nessa proximidade de duas franquias famosas – uma ocidental e uma oriental – na mídia Cinema nos meses que virão, desperta-se em nós uma curiosidade sobre como cada um recebe/interpreta a forma como as adaptações de animações são realizadas.

Transpor o 3D para o 2D sempre foi algo bastante presente no cotidiano das narrativas midiáticas audiovisuais, afinal de contas essa tradução do mundo real para o ficcional visual existe em longa data graças às representações rupestres nas paredes de cavernas e de forma mais qualificada nas artes plásticas e nas bandas desenhadas (quando se fala de mídia de massa).

Em contrapartida, fazer o movimento reverso é bastante desafiador. Embora todo o universo 2D seja pautado no mundo real, ele por si só é um universo próprio com linguagem e perspectivas únicas que se enraizaram no seu leitor (tanto no contemplativo quanto no interativo). Dito isso, revisitar o 2D num ambiente 3D pressupõe materializar elementos pertencentes somente à magia das duas dimensões.

O usuário do Twitter @nekoama lançou nesta quarta-feira (10) uma thread bem descritiva sobre essa forma de encarar a tradutibilidade do 2D para o 3D nos dois filmes citados no início deste artigo. Com o título “Detective Pikachu vs Real Simba: A Discussion of Animation, Acting and Character vs Realism. Thoughts no one asked for.”, o twitteiro – que é ilustrador profissional e quadrinista amador (como se define) – expõe seu ponto de vita acerca das reações que ele percebeu em seu círculo de trabalho, amizade e seguidores a respeito dos dois longas-metragens que irão estrear.

Em dezenove tweets ele propõe que o principal referencial para que haja diferença entre as duas produções está na categoria emoção. @nekoama apresenta a justificativa de que embora seja esteticamente bonito em seu visual, The Lion King caminha para ser um filme sem graça. O ilustrador lembra que o filme não deixará de impactar seu público e também deve dar o retorno esperado por seus produtores, mas acredita que a trama terá repercussão com críticas negativas justamente por ter no CG3D das personagens uma busca pelo real.

“The main issue here is that TLK was an extremely emotional movie and it’s difficult to get this across with the limitations of realistic design. Animals DON’T emote the way we do, especially not facially so the film will have to rely on script and limited animal body language.”

(A questão principal aqui é que The Lion King foi um filme extremamente emocional e é difícil lidar com as limitações do design realista. Animais NÃO se emocionam do mesmo modo que nós, especialmente não em termos faciais, então o filme terá que se basear em roteiro e linguagem corporal limitada do animal.)

Segundo ele, essa é a principal razão para que haja um estranhamento entre o público da animação clássica e o remake em live-action. Sua comparação toma como base cenas do trailer e ele é categórico ao dizer que em muitos momentos sentiu-se vendo um documentário da vida animal.

Ele lembra ainda que no conceito de concepção de personagens no universo 2D os olhos e sobrancelhas são os elementos mais significativos para a construção de personalidades e emoções. Num filme que retrata a figura animal como no mundo real, esses traços – de importante valor simbólico para as personagens de The Lion King – sãos descontinuados e isso só será percebido a partir de nossas relações com as características fisiológicas e comportamentais de cada animal selvagem representado.

Bom, se na animação essa relação entre personagem e telespectador já é única, no live-action ela tende a ser não apenas individualizada como limitada, pois muito de nós não somos capazes de perceber os aspectos físicos e emocionais desses seres vivos sem contato direto ou em longo tempo, como com cães e gatos, por exemplo.

Sustentando essa crítica de perda do apelo emocional nos aspectos faciais e corporais presentes na antropomorfização dos seres no universo 2D, @nekoama defende que The Lion King – por sua procura ao realismo – pode não fracassar graças ao fato de ser um remake de um grande clássico, mas deixará a desejar justamente por não se valer da principal arma do original: a expressividade.

Diante disso, o ilustrador segue seu raciocínio destacando que é justamente essa expressividade exacerbada que faz de Detective Pikachu um filme com possibilidades de ser memorável.

Sua principal contribuição para o debate é o fato de as personagens pokémon não existirem no mundo real. Ele conclui que elas sim sofrem um processo de tradutibilidade completo, pois apenas se materializam em formas tridimensionais sem perder a essência do que são: monstros.

“Instead of full realism they went with ‘rendered good enough to be beside a live human’. Pikachu looks more like a toy than an animal. But Pikachu EMOTES. We can tell how he feels just by looking at his face.”

(Em vez de total realismo eles foram “renderizados o suficiente para estar ao lado de seres humanos”. Pikachu se parece mais com um brinquedo que com um animal, Mas Pikachu tem emoções. Nós podemos falar como ele se sente apenas olhando para seu rosto.)

Levantando mais uma vez o aspecto facial de olhos e sobrancelhas, @nekoama define que o filme baseado na franquia japonesa consegue ser bem mais emotivo em sua proposta justamente por revelar nas personagens não humanas formas de perceber seus sentimentos e inquietações.

“And that’s how we get the comparison trouble – one is a reimagining of the design while still true to the character, and the other is a reimagining of the character entirely. In order to stay ‘realistic’ Simba will have to act differently to fit the limitations of lion bodies.”

(E é assim que obtemos o problema da comparação – uma é uma releitura do design enquanto ainda é fiel ao personagem, e a outra é uma releitura do personagem inteiramente. A fim de permanecer “realista”, o Simba terá que agir de maneira diferente para se ajustar às limitações dos corpos dos leões.)

É interessante perceber que mesmo a Disney e a Legendary (em parceria com The Pokémon Company e Toho) tendo trabalhado com a mesma tecnologia de materialização do universo 2D em 3D, elas tomam caminhos distintos. É apenas uma analogia pífia, mas se pode dizer que – na linguagem clássica do teatro – uma opta por um realismo pautado em tragédia e a outra num realismo pautado em comédia para sustentar as bases de seus argumentos e escolhas visuais.

O bom é perceber que há um movimento real de tornar vivo em “carne e osso” as criaturas e tramas que ambientam o imaginário. No mundo onde a Realidade Aumentada e a Realidade Virtual se tornam cada vez mais parte do cotidiano humano, construir esse universo fílmico que anseia a materialização do 2D num retorno à terceira dimensão é a concretização de uma abordagem mais específica para a linguagem da adaptação cinematográfica.

Esta, por sua vez, sempre existiu e só era limitada por sua própria condição técnica junto aos grandes estúdios. O movimento mais intenso de tornar quadrinhos e desenhos verossímeis no mundo real vai muito além das clássicas tentativas como em: Mary Poppins (1964), Se Minha Cama Voasse (1971), Uma Cilada para Roger Rabbit (1988) e Space Jam: O Jogo do Século (1996) para citar alguns.

Enquanto nestes os dois mundos (2D e 3D) coexistem e se convergem, nessa nova dinâmica da adaptação cinematográfica eles são um só. A figura humana já não é mais o centro e sim o bestiário vivo que se torna parte do processo de aceitação do que consideramos real.

The Lion King (2019) estreia em julho. Já Detective Pikachu está mais próximo e estreia no mês que vem. Como será a recepção de ambos na tela gigante? Bom, o tempo dirá, mas o fato é que suas propostas não são novidade – ao menos para a Disney – e é bom ver como cada um se sai junto de seu público afetivo.

Não que o crítico em você não possa se expressar, mas esse é o momento para a criança em você tomar de contar e se manifestar, não o adulto pessimista que apenas vê o óbvio a procura do que reclamar.

Até a próxima e… Sayonara!

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