Connect with us

Artigo Otaku

Artigo Otaku | Pokémon e o Cool Japan

Relatório aponta franquia japonesa como a mais rentável do mundo.

Nesta semana repercute o relatório divulgado pelo site de gestão financeira Title Max que aponta as 25 maiores franquias de entretenimento do mundo em termos de arrecadação monetária. Um total de 11 itens foram levados em consideração nessa avaliação, que apontou a marca japonesa Pokémon como a maior de todos os tempos reunindo uma receita de US$ 92,1 bilhões.

Talvez você possa se surpreender ao ver o quão valiosa é a marca japonesa que tem a captação de recursos distribuídos entre merchandise, videogames, trading card game, comics/mangás, bilheteria de cinema e entretenimento em casa (homevideo e streaming). Mas se há espanto aqui é porque de fato não conhece ou reconhece a relevância de Pokémon para toda uma geração.

Ao observarmos o TOP 05 desse relatório percebe-se de imediato que Pokémon é a marca mais nova. Criada em 1996 por Satoshi Tajiri, Ken Sugimori e Junichi Masuda (Game Freak) e lançado pela Nintendo, o game que se desmembrou em uma narrativa cross-media de largo alcance surpreende por dialogar com diversos públicos em diferentes níveis de interação.

Dentre as produções recentes da franquia, Pokémon GO é o jogo mais interativo já apresentado pela The Pokémon Company.

Desde as animações, os campeonatos, os colecionáveis até os surpreendentes jogadores de Pokémon GO. Surpreendentes sim, pois você às vezes se espanta ao descobrir que um amigo próximo joga o mobile game mesmo não dando aquela pinta de ser fã da franquia.

Mas se fosse apenas o fato de Pokémon estar em primeiro que espantou a web encerraria esse artigo aqui. Ainda entre esses cinco primeiros outra marca de origem japonesa se destaca. Ocupando a segunda opção, Hello Kitty (Sanrio) acumula US$ 80 bilhões e deixa para trás Winnie The Pool, Mickey Mouse e Star Wars, todas da Walt Disney Company.

Uma olhada mais cautelosa pelo relatório aponta mais oito marcas oriundas do Japão entre as 25+. São elas: Anpanman, Mario, Shounen Jump, Gundam, Dragon Ball, Hokuto no Ken (Fist of the North Star), One Piece e Yu-Gi-Oh!.

As demais franquias são em sua maioria produtos da Walt Disney Company. Um total de sete pertencem a outras empresas famosas como DC Comics, Marvel Comics, Sony Pictures, Warner Bros. e Hasbro sendo que em algumas ocasiões uma mesma franquia tem seus produtos licenciados por diferentes empresas por questões de contrato comercial.

Foquemos-nos nas dez marcas originalmente japonesas que figuram nessa lista. A de menor expressão econômica entre elas, Yu-Gi-Oh!, é baseada no mangá de Kazuki Takahashi e tem seus direitos de mídia distribuídos entre a editora Sueisha (mangá original) e a empresa de entretenimento Konami (TCG, videogames e colecionáveis). Com tudo isso, arrecadou cerca de US$ 19,8 bilhões, sendo que quase 60% disso vem do Trading Card Game (TCG) que tem o campeonato mundial mais popular do mundo e, a cada seis meses, realiza a atualização dos cromos disponíveis em jogo com boosters, limitações nas regras e realização de torneios regionais e continentais classificatórios.

Relatório aponta as 25 franquias de entretenimento de maior valor arrecadado e chama a atenção para o domínio Disney e de mídias japonesas.
(Fonte: titlemax.com)

Essa globalização visível em franquias como Pokémon e Yu-Gi-Oh! são um retrato do Cool Japan. Desde de 1986, a agenda política do Japão busca apostar nas “medias arts” como ferramentas de internacionalização do mercado do país a fim de fugir das constantes estagnações econômicas vividas desde o pós-Segunda Guerra. A ideia defendida era que quanto mais se popularizavam os produtos advindos da mídia de entretenimento local mais o público exterior se interessaria em investir no país, seja de forma individual por meio do comércio e turismo ou de forma coletiva com conglomerados de mídia investindo no produto local para exportação em massa.

Já sabemos que isso, de alguma maneira, deu muito certo. O relatório da TitleMax só prova isso. Ninguém no mundo, em valores de mercado, compete de forma tão intensa com a mídia estadunidense como o Japão. É óbvio que se somarmos todas os acumulados de marcas Disney apresentados no relatório, a empresa do camundongo facilmente triplica seu valor de mercado diante da franquia dos monstrinhos de bolso. A Walt Disney Company está em outro patamar comercial seja para o bem ou para o mal.

Esse interesse do Japão em ser conhecido pelas marcas originadas por lá é o mote do Cool Japan, que busca apresentar o país como superpotência cultural. Em 1997, inspirado nos pensamentos do professor de Harvard, Joseph Nye, a nação deu um pontapé para debater as ações de influência política através de conteúdos culturais e ideológicos materializando assim o soft power japonês, que conhecemos como Cool Japan, com diversos projetos que buscavam evidenciar a força midiática do entretenimento local.

Contudo, é em 2004 que esse Cool Japan ganha novas proporções após a implantação do Programa Estratégico de Propriedade Intelectual (IPSP) que ficou responsável por desenvolver ações que popularizassem o mercado local para o mundo de forma efetiva. Vieram daí ações como: o International Manga Awards, concurso de talentos aberto para não-japoneses, e a nomeação de personagens famosos da indústria manganime para cargos simbólicos de embaixadores do país (Astro Boy como embaixador da Defesa, Doreamon como embaixador dos Animês e Hello Kitty como embaixatriz do Turismo).

Em 2008, Doreamon foi nomeado Embaixador do Animês numa ação promocional do Cool Japan. Na foto: Masashiro Komura, ex-ministro de Relações Exteriores (esquerda), Doreamon (centro) e Nobita Nobi (direita). Foto: divulgação.

Mesmo com o bom desempenho do Cool Japan, não se pode afirmar que ele por si só é o reflexo da presença de dez franquias nipônicas entre as 25+. A exceção de Pokémon, Hello Kitty, Mario, Dragon Ball e Yu-Gi-Oh!, todas as demais marcas tem um apelo comercial no ocidente relativamente menor (o que levou o relatório a ser , de forma absurda e equivocada, questionado por alguns membros do fandom otaku).

Franquias como Anpanman tem seu faturamento advindo quase que exclusivamente de merchandise. Só que esses valores amplamente são advindos do próprio Japão, onde a série é sucesso absoluto entre crianças de até 12 anos. Algo bem parecido acontece com Mobile Suit Gundam, embora esse seja um pouco mais popular fora do Japão.

Querendo ou não, o consumidor ocidental ainda tem acesso limitado a muitos itens e produtos pertencentes as franquias japonesas, que dividem seu público entre os dois mercados e atua com conteúdo exclusivo para os dois nichos. Pokémon, a franquia título desse artigo é prova disso.

Quando do seu lançamento em 1996 os japoneses puderam contar com Pokémon Red & Pokémon Green, enquanto o ocidente, em 1998, jogou Pokémon Red & Pokémon Blue. Uma versão exclusiva para o Japão com o Venusaur na capa e uma versão diferente para o ocidente com o Blastoise na capa. E aqui há sabedoria! Talvez esse seja um dos motivos que popularizaram tanto Charizard, tornando-o o segundo mais amado da franquia.

O certo – se é que há – é que o entretenimento japonês deixou a muito tempo de ser algo de nicho hardcore. É de senso comum que muita coisa boa (simbólica e economicamente) vem de lá. Todavia, é impossível afirmar também que não exista muita resistência a esses conteúdos – por diversos fatores que prolongariam mais esse texto – e talvez por isso há quem fique chocado ao ver mídias japonesas tendo tanto retorno monetário. O mercado é intenso meu amigo! Ele não se importa com o que o consumidor pensa sobre as mídias (pelo menos não na esfera que você imagina). Se o produto é potencialmente rentável e as brechas existentes nas relações internacionais tornando-o vendável (sem macular características culturais, sociopolíticas e religiosas do outro ao ponto de gerar crise) toda e qualquer franquia pode ser bem sucedida.

E Pokémon é bem isso! Um retrato de todo o interesse do Cool Japan, a franquia se desenvolve em múltiplos segmentos atendendo assim um gama maior de possíveis consumidores, num esquema de engajamento e popularidade como um bom hit deve ser. Fazendo todo mundo desejar um dia ir ao arquipélago asiático para viver tudo isso mais de perto. Bem, os Jogos Olímpicos Tóquio 2020 vem vindo aí!

Até a próxima e… Sayonara!

Artigo Otaku

Artigo Otaku | Sete animês para apaixonados

Confira sete dicas para celebrar com quem se ama vendo um bom animê!

Diferente de nós e a nossa data mais que comercial do Dia dos Namorados, os japoneses celebram a união dos apaixonados no Dia de São Valentim (Valentine Day) em 14 de fevereiro. De forma similar a nós, mas ainda assim bem peculiar com a troca de chocolates entre colegiais e colegas de trabalho sendo uma tradição, a celebração nipônica é marcada por chocolates de “agradecimento”, “amizade” e “obrigação” entre os presentes mais comuns,embora não falte também a troca entre os apaixonados ou mesmo a sugestão de gostar de alguém quando se presenteia com um chocolate especial.

Tudo isso, visto por meio da mídia de entretenimento sugere um povo muito tímido e delicado no que trata o quesito romance. Qual nada! Pode até ser em público, mas as narrativas que acompanhamos não dizem muito sobre isso ao revelar os inúmeros fetiches e as psicologias às avessas dos apaixonados nos animês. Enfim, a discussão é muito peculiar, pois toca na construção social de um povo que se irrita com a autora de um mangá por seu final trazer um relacionamento onde o protagonista – dividido a trama toda entre duas paixões – tem uma filha com uma e casa com a outra.

Foi o que aconteceu recentemente com a mangaká Sasuga Kei e sua obra Domestic Girlfriend (Domestic na Kanojo), que lhe rendeu ofensas e ameaças no Twitter. Ao que parece, o japonês – e os estrangeiros – não podem aceitar esse final, mesmo que em sua maioria não se importarem de consumir algo um pouco mais intensos em seus doushinjins (fanfics) e/ou hentais (quadrinhos pornô). Só posso dizer que esperto foi Taichi Tsutsui, autor de We Never Learn ~Bokuben, que desenhando um mangá harém (subgênero onde há relacionamentos românticos ou não entre um garoto e várias garotas ou vice-versa) optou por fazer finais alternativos para cada heroína e assim se livrar das críticas.

Mas por que estou falando disso? Para dizer que o japonês tem uma visão muito única sobre como conduzir romances em suas narrativas e com certeza você já deve ter percebido isso. Dependendo da demografia, do gênero literário ou mesmo do estilo de criação de cada autor, podemos ter relacionamentos que não avançam, enrolados, confusos ou relacionamento até que bastante diretos. Isso porque podemos observar que esse é um povo que encara a prática de expor sentimentos como um espécie de fraqueza e suas personagens muitas vezes transmitem isso. Se é verdade ou não só convivendo para saber. Mas o fato de que há um falso moralismo construído nisso (haja visto os fetiches estranhos) isso eu não posso negar. Talvez só o filósofo e sociólogo polonês Zygmunt Bauman pudesse explicar com suas abordagens a respeito do amor líquido e o conceito grego de poliamor.

Essas discussões à parte, japoneses sabem cativar muito bem quando querem falar de amor. Segue aqui sete dicas do que assistir nesse Dia dos Namorados com a pessoa amada. Informo que cada uma das dicas está disponível em serviços de streaming como Amazon Prime Video, Crunchyroll e Netflix. Vamos a elas!

Na Netflix…

Sussuros do Coração (1995) – Studio Ghibli

Embalado pelo som de “Take me Home, Country Roads” * na voz de Olivia Newton-John (Let Me Be There, 1973) escrevo esse artigo otaku especial de Dia dos Namorados. Ok, a canção em si não é nada romântica e está mais para um ode a um lugar especial (no caso Virgínia Ocidental, para ser mais específico). Mas o que um clássico do country norte-americano tem a ver com apaixonados e cultura otaku? Simples! A canção é o tema de abertura e o leitmotiv de Sussurros do Coração (1995), filme de Yoshifumi Kondou para o Studio Ghibli.

Sussurros do Coração é um dos primeiros filmes do Ghibli não dirigidos por Hayao Miyazaki ou Isao Takahata (embora tenha roteiro de Miyazaki) e marca não só por essa diferente cena de abertura ao som do country, como também pela abordagem singela e cativante de um romance adolescente. Temas como decisões e a dor da guerra seguem na narrativa (lembre-se, Miyazaki é o roteirista), mas Yoshifumi Kondou nos presenteia com um drama enxuto e bastante interessante para acompanhar ao lado da pessoa amada.

Your Name (2016) – Comix WaveFilms

Também inspirado numa narrativa de romance adolescente, o filme de Makoto Shinkai perpassa pelo dilema juvenil de Mitsuha e Taki a partir de um acontecimento que transita entre o cósmico e o sobrenatural. Com certeza esse é um filme para se assistir no aconchego de um abraço sem se preocupar com nada e apenas torcer para que tudo acabe bem.

A trilha sonora conta com a banda Radwimps e canções como “zenzenzense” como leitmotiv, o que dá mais ritmo a trama que encantou milhares de pessoas ao redor do mundo e ainda é fenômeno entre os otaku.

No Amazon Prime Video…

InuYasha the Movie: The Castle Beyond the Looking Glass (2002) – Sunrise

O segundo filme baseado no mangá de Rumiko Takahashi é uma das produções em audiovisual que mais recomendo para a data especial. Carregando muito elementos que conquistaram os fãs de InuYasha e Kagome, o longa-metragem é cheio de momentos marcantes entre o casal protagonista e não tem como não se arrepiar com o final onde…, Opa! Quase um um spoiler!

Com plot inspirado no conto popular japonês da “Princesa Kaguya”, o filme entrega uma boa história que anima não só pelo romance, mas pela aventura. Os outros três filmes da franquia também estão no catálogo do Prime Video então, se ao terminar quiser ver mais é só dar o play!

Wotakoi: Love Is Hard for Otaku (2018) – A-1 Pictures

Se a ideia é curtir o Dia dos Namorados com muita alegria sugiro a comédia romântica baseada no mangá da autora Fujita. Dois casais, um escritório empresarial e um segredo: os quatro são otaku! Juntos eles vivenciam o dia a dia como namorados e otaku e vão perceber que não é tão simples assim manter um relacionamento quando os gostos uns dos outros parecem tão estranhos.

Embora possa não parecer, Wotakoi é cheio de momentos fofos que fazem o coração disparar e que não tem como não assistir os dez episódios em um tiro só, além de se identificar (caso seja otaku) com Nifumi e Narumi ou Kabakura e Koyanagi em um relacionamento gostoso de cumplicidade e bem querer.

Na Crunchyroll…

Tsuredure Children (2017) – Studio Gokumi

Também na pegada da comédia romântica, Tsuredure Children retrata o dia a dia de jovens estudantes que estão despertando para o romance e mostra diversas cenas engraçadas provocadas pela falta de experiência deles. São diversos casais das mais diferentes personalidades que convivem num mesmo ambiente escolar.

A série tem 12 divertidos episódios com short stories e se divide entre os momentos de flerte e a comicidade da vida adolescente.

Science Fell in Love, So I tried to Prove it (2020) – Zero G

Talvez uma das sensações da primeira metade de 2020, Science Fell in Love é uma comédia divertida que gira em torno dos universitários do Laboratório Ikeda na Universidade de Saitama. Para ser mais preciso, a história destaca o relacionamento amoroso dos mestrandos Shiniya Yukimura e Ayame Himuro que se descobrem apaixonados um pelo outro, mas como verdadeiros cientistas embarcam numa série de experimentos malucos para provar que o sentimento entre eles é real e não algo imaginado.

Também com 12 episódios a série tem um bom clímax na sua reta final que nos faz torcer bastante pelo casal de protagonistas e rir em muitos momentos de suas pesquisas absurdas sobre a comprovação científica do amor e da paixão.

Sing “YESTERDAY” to Me (2020) – Doga Kobo

Em lançamento desde o segundo trimestre do ano, o animê foca nas vivências amorosas de Rikuo Uozumi, Shinako Morinome, Haru Nonaka e Rou Hayakawa. Os quatro são conectados por motivos diversos e precisam se entender para terem seus sentimentos correspondidos. Entre as dúvidas e memórias cada um deles tem motivo para amar outro e mesmo assim parece que nada é fácil para eles quando se pensa em expressar os sentimentos ou ser correspondido.

Embora ainda esteja em lançamento – e com previsão de 18 episódios – indico esse porque é um drama sem tanta comicidade assim (embora um ou outro alívio cômico apareça em alguns episódios) que te faz criar sua torcida pelo personagem que gosta e antipatizar outros por suas indecisões que frustam tanto a si como aos que estão ao redor.

Concluindo…

Com essas sete indicações já da para montar uma rotina bacana para maratonar não só no Dia dos Namorados, mas no fim de semana que se segue. Ah, e mesmo que no momento esteja distante do seu amor por causa da pandemia, basta montar aquela transmissão em grupo e assistirem juntos. O que importa é manter o sentimento vivo e aguardar pelo momento maravilhoso do abraço quando o novo normal se estabelecer.

Até a próxima e… Sayoanara!

————

* Essa canção foi composta por John Denver, Bill Danoff e Taffy Nivert em 1971 e lançada na voz de Denver no álbum “Poems, Prayers and Promises”. A faixa ganhou diversas releituras incluindo a versão de 1973 na voz de Olivia Newton-John e uma versão em japonês para Sussurros do Coração (1995) rearranjada por Yuji Nomi com letras de Mamiko Suzuki (filha de Toshio Suzuki) e Hayao Miyazaki, sendo interpretada pela seiyuu Yoko Honna, que dubla a protagonista Shizuku.

Leia Mais

Artigo Otaku

Artigo Otaku | Shounen no Brasil e dados da Crunchyroll

Empresa divulgou dados da audiência do 1º trimestre de 2020.

Nessa semana a Crunchyroll divulgou dados de suas audiência referente à Temporada de Primavera 2020 (que diz respeito aos período Janeiro-Fevereiro-Março) e é possível levantar hipóteses ou constatar algumas coisas ao analisar os os dados compartilhados.

Entre as hipóteses: 1) o consumo não legalizado de animê influencia na métrica; 2) ou o otaku brasileiro ainda não se acostumou a consumir o que vai para além do senso comum no que diz respeito aos animês disponíveis no mercado.

Já entre as constatações: 1) título advindos da demografia shounen seguem sendo muito populares no mundo; 2) o brasileiro não foge a regra e ama muito o shounen.

Vamos entender isso.

PAÍSES COM MAIS VIEWS POR USUÁRIO

O primeiro dado disponibilizado pela Crunchyroll relata que no 1º trimestre de 2020 os dez paízes com o maior número médio de views por usuário foram:

Sistematizando os dados temos 4 países da América do Sul e 2 da América Central (contabilizando 6 da América Latina), 2 países da Europa (Itália e Polônia) e 2 da Ásia (índia e Filipinas). Infelizmente, sem números que quantifiquem o debate e nos ajudem a avaliar isso em relação ao comparativo populacional dos próprios países, o que se pode concluir – ao menos – é que estando disseminado em muitos países e culturas os animês fazem parte da rotina de muita gente.

No entanto, como é o perfil desses consumidores? Provavelmente esses dados levem em conta views por episódio, assim um único usuário pode render muitos views assistindo Naruto, Naruto Shippuden e Boruto: Naruto Next Generation, que juntos ultrapassam a marca de 800 episódios. Da mesma forma, outro usuário pode assistir dez títulos diferentes com número médio de 13 episódios (1 cour predefinido para um trimestre) e contabilizar 130 episódios assistidos sem contar com séries completas maiores ou série grandes ainda em exibição (One Piece, por exemplo).

Sem saber com exatidão quanto usuários há por país ficamos apenas na expectativa de perceber que diferente de nós brasileiros esse público listado gasta muito mais tempo na plataforma, o que pode ser traduzido de duas formas também: a) ou o público brasileiro ainda usa muito pouco o catálogo da Crunchyroll disponível (mesmo com exibição de conteúdo dublado e etc.) e se limita a ´poucos títulos (falaremos disso mais a frente!); 2) ou no fim, comparado ao sempre presente debate de fãs nas redes sociais, o número de assinantes não é tão expressivo como deveria ser para o nosso país.

Prefiro acreditar na opção “a”. Segundo dados da própria empresa sua comunidade de usuários gasta aproximadamente 85 minutos por dia assistindo séries na plataforma. Considerando que um episódio de animê tem em média 23 minutos de duração isso significa que por dia 3,7 episódios são vistos por pessoa (isso pode ser tanto de uma mesma série ou de séries diferentes). Se arrendondarmos para 4 podemos dizer que cerca de 120 episódios são vistos em um mês por uma única pessoa, o que chega bem perto do exemplo citado acima onde um único usuário acompanha no mínimo dez séries diferentes. Mesmo assim não dá para precisar isso já que temos infinitas possibilidades de consumo disponíveis num universo de 50 milhões de usuários para mais de 700 títulos disponíveis.

ANIMES MAIS VISTOS NO INVERNO 2020

Antes de entrar no mérito do Brasil em si, temos um segundo dado que diz respeito aos vinte animês mais vistos pelo plúbico assinante da Crunchyroll (o que inclui os mais de 200 países onde a plataforma está inserida).

Entre os vinte títulos acima listados é imperativo dizer que somente um não pertence a demografia shounen: Re:Zero -Starting Life in Another World-. O título, que entra na lista muito devido a recente disponibilização da versão de corte do diretor Masaharu Watanabe e que conta com episódios com duração aproximada de 50 minutos cada (mais que o dobro da versão inicial), é listado como seinen desde a sua primeira publicação oficial com a light novel lançada pela Media Factory.

Além de Re:Zero cabe destacar que: That Time I Got Reicarnated as a Slime e The Rising of The Shied Hero também são originalmente web novel ou light novel. Além disso, Darling in the Franxx é um animê original (Cloveworks/Studio Trigger), Radiant é baseado em um quadrinho francês (o primeiro a ser publicado no Japão), Welcome to Demon School! Iruma-kun é baseado em um mangá publicado pela Akita Shoten e Mob Psycho 100 é baseado em um mangá publicado pela Shogakukan. Por fim, Attack on Titan é baseado em mangá publicado pela Kodanha. Todos os demais são baseados em mangás licenciados pela editora Shueisha publicados ou em publicação pela revista Weekly Shounen Jump (com exceção de Boruto: Naruto Next Generations, que era publicado na Weekly Shounen Jump até julho do ano passado quando foi transferido para a revista V-Jump também pertencente a editora).

Podemos constatar que o shounen, a partir da premissa Esforço-Amizade-Vitória, mundialmente popularizada pela Weekly Shounen Jump, ainda rende bons frutos no que diz respeito à recepção do público. Saber o porquê dessa preferência não sabemos (e acredito que nem a própria Crunchyroll tenha feito pesquisas junto ao seu público para isso), mas é interessante perceber que mesmo que vejamos essas narrativas serem constantemente questionadas pelas suas repetições, fanservices e demais elementos genéricos ainda são bastantes populares pelo planeta.

Outros fatos interessantes aqui são a presença de Demon Slayer – Kimetsu no Yaiba, que mesmo tendo sido exibido no inverno passado segue sendo popular um ano depois (o que é óbvio dado o hype construído em torno da obra desde então). O mesmo vale para The Rising of Shield Hero que também é do inverno passado e segue popular. Aqui atribuo muito ao fato de a série ser co-produzida pela própria Crunchyroll e propositalmente ter mais material de marketing envolvido nisso em suas plataformas e redes sociais. O comentário sobre essa série em específico se dá pelo fato dela ter sido alvo de muita polêmica durante sua exibição original que dividiu o público entre prós e contrários à animação.

OS MAIS VISTOS DO BRASIL

Mas e no Brasil? O que nosso público assistiu nos três primeiros meses de 2020? Bom, não poderia ser muito diferente do que se viu nos dados mundiais. O shounen segue sendo o preferido dos brasileiros também.

O que se percebe ao avaliar esses dados é que algumas fanbases bem específicas ajudam a construir o cenário do consumo de animês em nosso país ainda com muita propriedade (o que pode ou não ser interessante). É quase que natural que alguns conteúdos considerados hits dentro do metiê otaku se destaquem sobre aqueles mais de nicho (pegando emprestado conceitos usados por Chris Anderson em seu livro A Cauda Longa). No entanto, como isso se torna efetivo para a manutenção do fandom?

A Crunchyroll investe – assim como outras empresas de entretenimento em streaming – em novos títulos diversificados e talvez ainda esteja faltando algo a mais para impulsionar isso. Dentre os dez títulos acima listados apenas quatro estavam com episódios inéditos durante o Inverno 2020 (One Piece, Boruto, My Hero Academia e Black Cover). Isso indica muitos fatores.

Em títulos mais recentes como Demon Slayer – Kimetsu no Yaiba pode significar que a popularização da obra (e aproximação de seu fim no mangá) tenham levado mais pessoas que não viram durante a exibição original verem agora. Mas e no caso de títulos como Naruto Shippuden? O animê encerrou há três anos e mesmo assim segue em alta. É óbvio que esse é um movimento natural onde teremos novos espectadores e mais ainda espectadores antigos revisitando sempre que possível (a questão da afetividade). Só que isso aponta também para uma certa necessidade de se encontrar algo motivador nas novidades lançadas.

A Crunchyroll e as outras até se esforçam trazendo versões dubladas e extras (recentemente muitos OVAs passaram a ser disponibilizados na empresa da princesa ninja), mas ainda depende muito do público despertar para outros caminhos para seu consumo. Nem toda a publicidade e o marketing do mundo vão vencer o boca a boca (ou aquele tweet maroto) que se repete entre indicar sempre os mesmo títulos ou descartar outros.

Nosso mercado editoral, mesmo em crise, contribue bastante para uma mudança de hábitos ao tentar introduzir novos tipos de narrativas advindas do Japão (Boa Noite PunPun, Beastars e a Rosa de Versalhes são alguns exemplos fáceis). Mesmo assim, no Brasil ainda é o animê quem leva o público para o fandom. Sem dúvida nenhuma shounen é bom (não pretendo entrar no mérito de suas tramas genéricas e outras discussões possíveis), contudo é preciso que encaremos uma realidade: se ficarmos consumindo somente isso estaremos sempre na ponta do iceberg do mercado de entretenimento de mídia japonesa.

Quanto as hipóteses listadas no início desse texto, a primeira não tem muita inferência sobre isso. Mesmo quem consome de maneira ilegal deve ter o mesmo perfil. É só considerar que quem fomenta o mercado legalizado um dia já esteve na informalidade (ou ainda está dado diferentes motivos). Já a segunda é mais plausível. O brasileiro ainda não saiu do senso comum e talvez isso possa se dar também por não entender a questão das demografias. Lembre-se: shounen não é um gênero e sim um categoria de mercado adotada no Japão*. Muitas histórias boas podem ser encontradas fora do chapéu denominado shounen sem ferir a personalidade ou maneirismos de ninguém. Se algumas editoras nacionais nos ajudassem a não piorar essa confusão isso seria muito mais fácil (assunto para outra hora!).

Por fim cabe dizer que cada um sabe o que faz com seu dinheiro, tempo e motivação. Quem agradece sempre serão os serviços de streaming, que no fundo querem mesmo é lhes ser úteis não importa para qual finalidade.

Até a próxima e… Sayonara!

—————–

* No episódio #02 do Podcast Otaku eu (Saylon Sousa), Lucas Nash e Otávio de Morais tratamos sobre o tema “Demografias de animês e mangás”. Ouça e entenda mais sobre o assunto. Siga o canal Volts Podcasts no Spotify, Google Podcasts, Apple Podcasts e diversas plataformas.

Leia Mais

Artigo Otaku

Podcast Otaku #03 – O mundo do Mahou Shoujo

Podcast quinzenal debate os assuntos mais quentes do universo otaku.

Por

PELO PODER DO PRISMA LUNAR! No terceiro episódio do Podcast Otaku, nossos jornalistas mágicos resolveram invocar seus poderes para falarem sobre um dos gêneros mais empoderados do universo de animes e mangás: o mahou shoujo (garotas mágicas). Qual é o fascínio que as garotas mágicas despertam no público e por que ainda há tanto preconceito com o gênero? Ouça e descubra.

O terceiro episódio do Podcast Otaku contou com a participação dos jornalistas Saylon Sousa, Lucas Nash e Otávio de Moraes e convidados.

Nossos podcasts

“Com Elas” é o podcast do Volts sobre ficção especulativa na televisão. É derivado do sucesso programa “GOT com Elas”, também apresentado por Alessandra Medina e Tayna Abreu, que teve até evento de transmissão dos episódios de Game of Thrones e um viral mundial. Agora, o papo se estendeu e você vai adorar!

“220 Podcast” é o primeiro podcast do Volts, lançado em 2017, para debater os temas mais quentes da cultura pop e também sobre cotidiano da equipe Volts. Nesse programa você encontra muita informação e risada garantida.

O “Podcast Otaku” é o primeiro podcast do Maranhão a debater cultura pop japosesa com jornalistas especializados no assunto. Animes, mangás e tudo que é destaque nesse universo passa pela análise do nosso podcast.

O “LiteraPOP” é o nosso podcast, em parceria com o Litera Clube, voltado para literatura e cotidiano de leitores. Todo mês um tema em que nossos apresentadores e convidados compartilham suas experiências e promovem um intercâmbio de universos literários, diminuindo as fronteiras entre a solidão dos leitores.

Onde ouvir

Todos os podcasts do Volts são disponibilizados em uma mesma conta intitulada Volts Podcasts no Spotify. Para ouvir, é só buscar o termo “Volts Podcasts” no sistema de buscas do aplicativo e clicar em “seguir”. Lá, você pode ouvir os episódios via streaming ou fazer o download para escutar depois.

Leia Mais