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Artigo Otaku | Pokémon e o Cool Japan

Relatório aponta franquia japonesa como a mais rentável do mundo.

Nesta semana repercute o relatório divulgado pelo site de gestão financeira Title Max que aponta as 25 maiores franquias de entretenimento do mundo em termos de arrecadação monetária. Um total de 11 itens foram levados em consideração nessa avaliação, que apontou a marca japonesa Pokémon como a maior de todos os tempos reunindo uma receita de US$ 92,1 bilhões.

Talvez você possa se surpreender ao ver o quão valiosa é a marca japonesa que tem a captação de recursos distribuídos entre merchandise, videogames, trading card game, comics/mangás, bilheteria de cinema e entretenimento em casa (homevideo e streaming). Mas se há espanto aqui é porque de fato não conhece ou reconhece a relevância de Pokémon para toda uma geração.

Ao observarmos o TOP 05 desse relatório percebe-se de imediato que Pokémon é a marca mais nova. Criada em 1996 por Satoshi Tajiri, Ken Sugimori e Junichi Masuda (Game Freak) e lançado pela Nintendo, o game que se desmembrou em uma narrativa cross-media de largo alcance surpreende por dialogar com diversos públicos em diferentes níveis de interação.

Dentre as produções recentes da franquia, Pokémon GO é o jogo mais interativo já apresentado pela The Pokémon Company.

Desde as animações, os campeonatos, os colecionáveis até os surpreendentes jogadores de Pokémon GO. Surpreendentes sim, pois você às vezes se espanta ao descobrir que um amigo próximo joga o mobile game mesmo não dando aquela pinta de ser fã da franquia.

Mas se fosse apenas o fato de Pokémon estar em primeiro que espantou a web encerraria esse artigo aqui. Ainda entre esses cinco primeiros outra marca de origem japonesa se destaca. Ocupando a segunda opção, Hello Kitty (Sanrio) acumula US$ 80 bilhões e deixa para trás Winnie The Pool, Mickey Mouse e Star Wars, todas da Walt Disney Company.

Uma olhada mais cautelosa pelo relatório aponta mais oito marcas oriundas do Japão entre as 25+. São elas: Anpanman, Mario, Shounen Jump, Gundam, Dragon Ball, Hokuto no Ken (Fist of the North Star), One Piece e Yu-Gi-Oh!.

As demais franquias são em sua maioria produtos da Walt Disney Company. Um total de sete pertencem a outras empresas famosas como DC Comics, Marvel Comics, Sony Pictures, Warner Bros. e Hasbro sendo que em algumas ocasiões uma mesma franquia tem seus produtos licenciados por diferentes empresas por questões de contrato comercial.

Foquemos-nos nas dez marcas originalmente japonesas que figuram nessa lista. A de menor expressão econômica entre elas, Yu-Gi-Oh!, é baseada no mangá de Kazuki Takahashi e tem seus direitos de mídia distribuídos entre a editora Sueisha (mangá original) e a empresa de entretenimento Konami (TCG, videogames e colecionáveis). Com tudo isso, arrecadou cerca de US$ 19,8 bilhões, sendo que quase 60% disso vem do Trading Card Game (TCG) que tem o campeonato mundial mais popular do mundo e, a cada seis meses, realiza a atualização dos cromos disponíveis em jogo com boosters, limitações nas regras e realização de torneios regionais e continentais classificatórios.

Relatório aponta as 25 franquias de entretenimento de maior valor arrecadado e chama a atenção para o domínio Disney e de mídias japonesas.
(Fonte: titlemax.com)

Essa globalização visível em franquias como Pokémon e Yu-Gi-Oh! são um retrato do Cool Japan. Desde de 1986, a agenda política do Japão busca apostar nas “medias arts” como ferramentas de internacionalização do mercado do país a fim de fugir das constantes estagnações econômicas vividas desde o pós-Segunda Guerra. A ideia defendida era que quanto mais se popularizavam os produtos advindos da mídia de entretenimento local mais o público exterior se interessaria em investir no país, seja de forma individual por meio do comércio e turismo ou de forma coletiva com conglomerados de mídia investindo no produto local para exportação em massa.

Já sabemos que isso, de alguma maneira, deu muito certo. O relatório da TitleMax só prova isso. Ninguém no mundo, em valores de mercado, compete de forma tão intensa com a mídia estadunidense como o Japão. É óbvio que se somarmos todas os acumulados de marcas Disney apresentados no relatório, a empresa do camundongo facilmente triplica seu valor de mercado diante da franquia dos monstrinhos de bolso. A Walt Disney Company está em outro patamar comercial seja para o bem ou para o mal.

Esse interesse do Japão em ser conhecido pelas marcas originadas por lá é o mote do Cool Japan, que busca apresentar o país como superpotência cultural. Em 1997, inspirado nos pensamentos do professor de Harvard, Joseph Nye, a nação deu um pontapé para debater as ações de influência política através de conteúdos culturais e ideológicos materializando assim o soft power japonês, que conhecemos como Cool Japan, com diversos projetos que buscavam evidenciar a força midiática do entretenimento local.

Contudo, é em 2004 que esse Cool Japan ganha novas proporções após a implantação do Programa Estratégico de Propriedade Intelectual (IPSP) que ficou responsável por desenvolver ações que popularizassem o mercado local para o mundo de forma efetiva. Vieram daí ações como: o International Manga Awards, concurso de talentos aberto para não-japoneses, e a nomeação de personagens famosos da indústria manganime para cargos simbólicos de embaixadores do país (Astro Boy como embaixador da Defesa, Doreamon como embaixador dos Animês e Hello Kitty como embaixatriz do Turismo).

Em 2008, Doreamon foi nomeado Embaixador do Animês numa ação promocional do Cool Japan. Na foto: Masashiro Komura, ex-ministro de Relações Exteriores (esquerda), Doreamon (centro) e Nobita Nobi (direita). Foto: divulgação.

Mesmo com o bom desempenho do Cool Japan, não se pode afirmar que ele por si só é o reflexo da presença de dez franquias nipônicas entre as 25+. A exceção de Pokémon, Hello Kitty, Mario, Dragon Ball e Yu-Gi-Oh!, todas as demais marcas tem um apelo comercial no ocidente relativamente menor (o que levou o relatório a ser , de forma absurda e equivocada, questionado por alguns membros do fandom otaku).

Franquias como Anpanman tem seu faturamento advindo quase que exclusivamente de merchandise. Só que esses valores amplamente são advindos do próprio Japão, onde a série é sucesso absoluto entre crianças de até 12 anos. Algo bem parecido acontece com Mobile Suit Gundam, embora esse seja um pouco mais popular fora do Japão.

Querendo ou não, o consumidor ocidental ainda tem acesso limitado a muitos itens e produtos pertencentes as franquias japonesas, que dividem seu público entre os dois mercados e atua com conteúdo exclusivo para os dois nichos. Pokémon, a franquia título desse artigo é prova disso.

Quando do seu lançamento em 1996 os japoneses puderam contar com Pokémon Red & Pokémon Green, enquanto o ocidente, em 1998, jogou Pokémon Red & Pokémon Blue. Uma versão exclusiva para o Japão com o Venusaur na capa e uma versão diferente para o ocidente com o Blastoise na capa. E aqui há sabedoria! Talvez esse seja um dos motivos que popularizaram tanto Charizard, tornando-o o segundo mais amado da franquia.

O certo – se é que há – é que o entretenimento japonês deixou a muito tempo de ser algo de nicho hardcore. É de senso comum que muita coisa boa (simbólica e economicamente) vem de lá. Todavia, é impossível afirmar também que não exista muita resistência a esses conteúdos – por diversos fatores que prolongariam mais esse texto – e talvez por isso há quem fique chocado ao ver mídias japonesas tendo tanto retorno monetário. O mercado é intenso meu amigo! Ele não se importa com o que o consumidor pensa sobre as mídias (pelo menos não na esfera que você imagina). Se o produto é potencialmente rentável e as brechas existentes nas relações internacionais tornando-o vendável (sem macular características culturais, sociopolíticas e religiosas do outro ao ponto de gerar crise) toda e qualquer franquia pode ser bem sucedida.

E Pokémon é bem isso! Um retrato de todo o interesse do Cool Japan, a franquia se desenvolve em múltiplos segmentos atendendo assim um gama maior de possíveis consumidores, num esquema de engajamento e popularidade como um bom hit deve ser. Fazendo todo mundo desejar um dia ir ao arquipélago asiático para viver tudo isso mais de perto. Bem, os Jogos Olímpicos Tóquio 2020 vem vindo aí!

Até a próxima e… Sayonara!

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Artigo Otaku | Mais um feito dos Sete Pecados Capitais

Mangá foi eleito pelo público como o “Livro do Ano” no Google Play.

Na última terça-feira (03) foram divulgados os resultados do Google Play Choice Awards 2019, uma premiação promovida pela Google junto aos usuários da sua loja oficial de aplicativos que define – em voto popular – os melhores do ano em quatro categorias: App, Game, Filme e Livro.

Entre os vencedores do ano destaque para Avengers: Endgame na categoria Melhor Filme. Nas categorias Melhor App o vencedor foi Dollify (app de criação de caricaturas) e em Melhor Jogo o vencedor foi Call of Duty Mobile. Na quarta e última categoria, Melhor Livro, uma surpresa chamou a atenção de todos.

O público que votou indicou o volume 30 do mangá The Seven Deadly Sins (Nanatsu no Taizai, no original) como o grande campeão do ano.

A partir dessa situação o breve artigo reflete agora sobre as consequências disso. Embora de início há quem defenda uma certa jocosidade por parte dos eleitores do prêmio (a qual não descarto), se faz mister dizer também que há nisso um prognóstico do que se esperar para o mercado.

Contextualizando o vencedor, o que se pode dizer é que The Seven Deadly Sins vol.30 foi publicado digitalmente no ocidente em 2019 (um anos depois do seu lançamento no Japão em 2018). No Brasil, o título é publicado tanto no formato físico quanto no digital pela JBC Editora. Aqui, vale ressaltar, além dos volumes compilados ainda podemos consumir os capítulos simultaneamente com o lançamento no Japão também no formato digital.

O volume em questão abrange os capítulos 241 a 249 incluindo dois extras. Seus principais ato são: o duelo entre o Rei dos Gigantes, Drole, e o Rei das Fadas, Gloxínia, contra o demônio Chandler; Meliodas e os poderes dos Dez Mandamentos e a verdadeira forma de Merlin. Até é um volume interessante, mas bem mediano num olhar mais apurado. The Seven Deadly Sins vem tomando a bastante tempo um caminho arrastado e pouco empolgante (na reta final melhorou um pouco, mas bem pouco mesmo!), o que nos leva a questionar a escolha do título para vencedor em Melhor Livro do Google Play Choice Awards.

Fonte: Google Play Choice Awards 2019

Não tenho dados, e nem é de meu interesse no momento refletir sobre eles, mas o que nos leva a crer é que a presença do mangá no formato digital não é uma aventura sem fundamento. Há público, e esse público responde colocando-o no mais alto lugar do pódio de uma premiação simbólica, mas de repercussão.

Ainda em novembro, a Japan House em São Paulo-SP, em virtude de sua exposição “Isto é Mangá” realizou algumas palestras com foco no tema onde profissionais de diversos setores da indústria editorial envolvidos com esse universo puderam falar abertamente com o público sobre isso. Uma dessas palestras focou justamente no assunto dos mangás digitais e reuniu representantes da própria JBC, além de Kobo Rakuten (empresa especializada em livros e leitores digitais) e BookWire (especializada em marketing e distribuição de livros digitais).

Conforme o relato feito pelo blog Mais de Oito Mil, entre os muitos assuntos levantados figuraram temas como “combate à pirataria” com os palestrantes lembrando que uma cultura de leitura do digital já existe entre fãs de mangás (os scanlators) e que o foco é pensar em como tornar o hábito de fazer isso por vias legais deve ser melhor pensado e aproveitado pelos licenciadores e editores. Outro tema é o que diz respeito a “desterritorialização dos espaços de venda” ao tornar mais prático e acessível a leitura digital do mangá, visto que para a indústria existe uma crise de mercado quando se fala de distribuição e material para confecção de versões físicas (o que está nos levando para um boom das edições de luxo, outra pauta importante que deve ser questionada, mas não aqui).

Dito isso, a aposta no mercado digital de mangás é uma realidade tão presente que The Seven Deadly Sins vence em popularidade justamente por atingir um público de fato interessado no conteúdo e no formato. É lógico que esse conteúdo pode – e será – questionado pelo próprio público, mas com o passar dos tempos poderemos ver mangás considerados de alto nível vencendo em outras ocasiões. Tudo depende do binômio investimento do mercado + aceitação do público quanto ao desapego com o físico.

Assim, seja para o bem ou para o mal, os sete pecados capitais deixam seu nome marcado por mais esse feito: agora fora do Reino da Liones.

Até a próxima e… Sayonara!

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Artigo Otaku | O que esperar de Saint Seiya (Parte 02)

Debate sobre os desdobramentos da franquia continuam.

Um mês atrás, quando do lançamento do servidor brasileiro de Saint Seiya Awakening: Knights of Zodiac, iniciei uma explanação a respeito dos desdobramentos existentes dentro da franquia iniciada na década de 1980 do século passado pelo criticado Masami Kurumada. Na etapa inicial dessa discussão trouxe como exemplos os cases envolvendo os spin-offs Episode G e Soul of Gold.

A título de informação, não estou mais jogando o mobile game dos Santos de Atena porque, embora seja muito bom, requer muito tempo para a sua apreciação tanto no modo história quanto nos eventos paralelos decorrente de um MMO. Estou num momento da vida onde partidas fechadas e rapidamente executáveis pedem minha atenção e se encaixam em meu tempo (oi para a turma que joga comigo Mario Kart Tour e Call of Duty Mobile).

Como prometido, nessa parte final da discussão apresentarei como os desdobramentos midiáticos da franquia se relacionam com o fandom de maneira a ainda alimentá-la.

Novos nichos… Mas as mesmas situações (?)

Em 2012, quatro anos após a conclusão da Saga de Hades em sua versão para home video, a Toei Animation viu uma oportunidade de reformular o universo narrativo de Masami Kurumada a partir de dois eixos que podemos considerar importantes: o afetivo e o comercial (esse bem mais válido). Nascia assim Saint Seiya Ômega, animação dirigida por Morio Hatano, mas sem nenhuma participação direta de Kurumada (que apenas era creditado como responsável pelo conceito original).

Vale ressaltar que um anos antes havia sido exibido na TV japonesa um outro spin-off da franquia. Saint Seiya: The Lost Canvas, baseado no mangá de Shiori Teshigori, era uma prequela focada na Guerra Santa do século XVII (ou seja, a anterior ao da história clássica) animada pelo estúdio TMS Entertaiment. Inspirado no trabalho de Kurumada, The Lost Canvas – por ser bem produzido e bem desenhado – conquistou o público sedento por novidades na franquia e abafou a sequência da trama pensada pelo autor original. É preciso lembrar que Saint Seiya: Next Dimension (a sequela canônica) foi iniciada em abril de 2006 enquanto The Lost Canvas (o spin-off não-canônico) quatro meses depois.

Odisseu de Serpentário é um grande enigma na trama lenta de Next Dimension

Esse racha simbólico na estrutura narrativa proposta por Shiori Teshigori dividiu o fandom de tal forma que Next Dimension passou a ser subvalorizado, mesmo sendo a continuação oficial. Sua volta aos palcos de aceitação se deu recente em 2018 com a aparição do 13º Cavaleiro de Ouro, Odisseu de Serpentário. Um acréscimo bem elaborado pelo mestre Kurumada, diga-se de passagem. Já aos fãs de The Lost Canvas, o mangá – já finalizado – rendeu uma série side story (prequela do spin-off), mas a terceira temporada da animação nunca sairá do papel. Aceitem!

Voltemos ao Ômega. É nessa onda de spin-off bem aceitos que Ômega surge na tentativa de dialogar com um novo público. Enquanto o Next Dimension se focava ainda nos eventos do passado e nada mais havia apresentado sobre o futuro, a animação de Morio Hatano propôs então uma mudança de perspectiva ao apresentar os novos Cavaleiros de Atena do Século XXI e alterar alguns conceitos (mesmo que depois tivesse que retomar alguns de volta) quando abdicou-se então das Pandora’s Box, que guardavam as armaduras sagradas, pelas Coth’s Stone (Joia de Armadura, na dublagem nacional). Mudou também o design das próprias armaduras que ganharam um visual menos medieval para assumir as forma de uma roupa spandex a la Super Sentai/Power Rangers. Essas mudanças foram prontamente rejeitadas por uma boa parte do fandom e talvez – não posso afirmar! – isso tenha sido levado em consideração na segunda fase da animação quando as armaduras voltaram ao conceito clássico.

A mudança mais significativa em Ômega foi a inserção de uma protagonista combatente dentro do grupo principal. Diferente de Saori Kido/Atena na trama clássica, a protagonista Yuna de Águia não era apenas uma donzela em perigo, mas sim uma amazona da ordem dos cavaleiros com forte presença no roteiro e aceitação do público. Seu diferencial estava justamente na abolição da máscara, que em narrativas passadas era justificada por diversos momentos. Anteriormente, raras exceções foram feitas junto à personagem Shaina de Ofiúco. Essa representação feminina foi intensificada com as personagens Sônia de Escorpião e as irmãs Paradox e Integra de Gêmeos, ampliando mais ainda a ideia das amazonas sem máscara.

Yuna de Águia tirando a máscara e indo contra uma tradição da ordem dos cavaleiros

Mesmo assim, Ômega não se tornou uma febre entre os fãs e divide bem a fanbase (de forma desbalanceada entre prós e contra), mas mostrou aos responsáveis pela franquia que a proposta de ressignificar sempre rende. Nisso temos em 2014 o longa-metragem em 3DCG, Legend of Sanctuary, que propõe uma releitura do clássico de Masami Kurumada com armaduras quase num conceito steampunk com elementos como dogtags substituindo as Pandora’s Box (não completamente) para as armaduras de bronze e quadros para as armaduras de ouro. Esse reboot nos cinemas deixou a desejar em muitos pontos da narrativa, mas deixou claro que era sim possível isso acontecer em um formato que não fosse o 2D. Não obstante, temos hoje Knights of the Zodiac da Netflix, que trabalha um formato em 3D para o novo reboot da franquia.

O design das armaduras em Legend of Sancturary foi uma boa aquisição ao universo da franquia

Entre os desdobramentos já ocorridos e aqui ainda não comentados, Santia Shô, de Chimaki Kuori, que em mangá tem a proposta de ser um retcom para eventos entre a Batalha das Doze Casas e a Saga de Poseidon inserindo de forma mais intensa a figura das meninas no universo de Saint Seiya: as santias, guerreiras de Atena que não obrigatoriamente são como as amazonas e que por isso não precisam abster de sua feminilidade (não usam máscaras). Confesso que para mim Saintia Shô é a melhor produção da franquia nos últimos anos. O que se há de lamentar é apenas a péssima adaptação animada apresentada pela Toei em 2018 (não dá nem para elogiar!).

O belo character design de Chinaki Kuori foi completamente destruído na adaptação para TV

Vendo tudo isso, a questão que norteia esse artigo pede por uma resposta. O que esperar? Basicamente, a narrativa de Saint Seiya é muito simples e não há mas espaço para inovações. Sempre haverá um gosto de mais do mesmo. É difícil encarar Saint Seiya como uma franquia aberta a um universo compartilhado como acontece com a Fate Series da Type Moon, por exemplo, embora o Episode G: Assassin mostre que eu possa estar errado.

Nossas esperanças estão depositadas no que o Next Dimension ainda nos reserva. A conclusão dos eventos do século XVII e as possibilidades apresentadas para o presente (século XX) com um Seiya de Pégaso em coma sendo perseguido pelos Olimpianos é o que ainda sustentam um hype já desgastado. As citações de Zeus ao longo da franquia e a aparição de Ártemis e Cronos (tomando como base o mangá) nos levam a novas batalhas que podem um dia ganhar forma.

Talvez, numa carência disso, a adaptação de outros spin-off seguem sendo o alvo assim como os reboots em execução. Uma boa pedida seria adaptar a light novel Gigantomaquia, que conta sobre a batalha contra Tifão e os Gigas, ou mesmo um dia rolar uma prequela com as batalhas dos tempos mitológicos (viagem minha aqui!).

Por sorte, independente do que vier, os fãs de Saint Seiya sempre se contentam com pouco. Haja vista a boa recepção dada ao lançamento da animação clássica remasterizada em HD no catálogo da Netflix recentemente. Como eu disse antes, se consigo valorizar o meu comercial com a alimentação do afetivo dos fãs para mim já está valendo. Por isso, não fique se preocupando com o quê esperar. Apenas curta e continue sentido o cosmo emanar.

Até a próxima e… Sayonara!

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Artigo Otaku | O que esperar de Saint Seiya (Parte 01)

Você está jogando o mobile game Saint Seiya Awakening: Knights of the Zodiac? Bom, se você é fã da franquia merece dar uma chance ao jogo apenas para experimentar um passatempo com bom design de personagens, cut scenes e trilha sonora referente à animação clássica de 1986.

Como pode ter percebido, eu estou jogando. Recém chegado ao Brasil tanto para Android quanto iOS, o mobile RPG reúne elementos da história principal com a jogabilidade do gênero de forma a proporcionar uma boa relação com o jogador.

Recentemente também a Netflix Brasil inseriu em seu catálogo a aclamada Saga de Hades completa com seus três capítulos (Santuário, Inferno e Elísios) realimentando o hype para a chegada da versão clássica e seus 114 episódios, que deveria ter ocorrido em agosto, mas já foi confirmado para 15 de outubro próximo. Isso sem falar do reboot feito pela própria Netflix que deve ter a segunda parte da primeira temporada disponibilizada até o final do ano (segundo rumores).

Tudo isso acaba que construindo um debate acerca da relevância de Saint Seiya para a indústria de entretenimento e perguntas sobre o que ainda se pode esperar.

(Teaser de pré-registro do mobile game Saint Seiya: Awakening)

Uma franquia tão longeva quanto essa certamente tem pontos fortes e fracos dividindo a opinião do público. Para Saint Seiya isso é muito notório quando se fala na composição desse público, que conta com fãs na média dos 40 e 30 anos (os mais antigos) e outros com 20 a 10 anos (incluindo os mais recentes). Ainda nessa composição há aqueles que se encaixam no fandom otaku e há aqueles que não se consideram/fazem parte deste nicho.

Assim, temos quem considere Saint Seiya – que por aqui ficou conhecido como Os Cavaleiros do Zodíaco – algo que chega ao ponto de ser tosco devido a problemas no roteiro, psicologia das personagens, estética de traços etc. Temos também quem tome a trama como uma obra-prima da mídia mangá/quadrinhos e que isso se repete em seus desdobramentos midiáticos.

Reconheço (correndo o risco de ter minha carteirinha de otaku confiscada) que faço parte do segundo grupo e amo a obra com muita paixão. Só que (em minha defesa) sou crítico o suficiente para observar o quão deficiente é a narrativa criada por Masami Kurumada em 1985 (data do mangá original). É nesse raciocínio que entramos na seara a respeito do que esperar. Antes recapitulemos o que já feito.

Em 3DCG, Knights of the Zodiac é o reboot mais recente que a franquia recebeu. (Fonte: Netflix)

Os desdobramentos de Saint Seiya e o público

Desde 2008, quando do lançamento da última parte do OVA (Original Video Animation) da Saga de Hades, os fãs se perguntavam qual seria o destino da franquia. Já existiam possibilidades. Em 2004, o longa-metragem Prólogo do Céu abriu as porteiras para uma possível batalha contra os Olimpianos. Desenvolvido a partir dos rascunhos do que viria a se tornar dois anos depois na prequel-sequel do mangá original denominada “Next Dimension”, o filme quase colocou em risco a conclusão da Saga de Hades, que só rolou quatro anos depois com qualidade inferior ao que havia sido feito nos seus treze primeiros episódios (Capítulo – Santuário).

O que se sabe é que o resultado final do filme não teria agradado algumas pessoas – entre elas o próprio Masami Kurumada -, mas a mensagem que ficou era de que para a Toei Animation já não havia mais prioridade para a franquia no estúdio, o que seria algo natural dado o passar do tempo. Saint Seiya era bem sucedido, mas nunca foi o maior campeão de vendas na indústria (num contexto local e mundial com exceções como França, Brasil e México, por exemplo).

Entre os fãs, muito se especulou que o Episode G pudesse ganhar sua versão em animê. Spin-off publicado desde 2002 (em 20 volumes no momento), o mangá desenhado por Megumi Okada tem traço destoante demais do que havia feito Masami Kurumada e Shingo Araki (na versão animê) com a história principal.

Arte com os design andrógino de Saint Seiya: Episode G e os Cavaleiros de Ouro do séc. XX. Narrativa mais densa e proposta de traço alternativo cativa os fãs, mas nunca foi adaptada em outras mídias (Arte: Megumi Okada / Revista Champion Red Ichigo)

Mesmo não virando animê, o Episode G tornou-se um material muito particular aos fãs mais aficionados pelos Cavaleiros de Ouro e rendeu mais duas publicações: Episode G- Volume 0: Aiolos, uma prequel; e Episode G ~Assassin~, que é uma sequel alternativa aos eventos do mangá original pós-Hades. Esse último foi iniciado em 2014 e terminou recentemente em agosto de 2019 confirmando o retorno de seu antecessor à publicação.

Os fãs dos Cavaleiros de Ouro, que ficarão ainda por algum tempo sem poder ver como ficaria a batalha dos Santos Dourados contra os Doze Titãs, tiveram suas esperanças maltratadas em 2015 quando da estreia do ONA (Original Net Animation) Saint Seiya: Soul of Gold, que veio como um spin-off da Saga de Hades onde os Cavaleiros de Ouro mortos no Muro das Lamentações vão para nas terras gélidas de Asgard (numa clara referência ao emblemático filler Saga de Asgard da série clássica) e combatem as intenções malignas do deus nórdico Loki.

Cena em Soul of Gold que fez a animação alvo de muitas críticas pelo péssimo trabalho de finalização no character design. Abaixo a mesma cena foi refeita em um review do episódio seguinte e traz algumas melhorias, mas ainda deixa desejar. (Fonte: cavzodiaco.com.br)

Embalada pela vontade de vender action figures (bonecos!), a Bandai Tamashii Nations – que detém os direito de imagens da franquia para linha de colecionáveis – lançou em 2014 (durante a CCXP) a linha de action figure com as 12 Armaduras de Ouro em sua forma divina e ainda fez apresentação do primeiro episódio do animê, que seria a peça de publicidade dos bonecos. Sem dúvida uma linha de colecionáveis que mexe com o coração dos mais apaixonados pela franquia.

Já não se pode dizer o mesmo do animê, onde a Toei Animation trouxe uma animação muito aquém do que vinha sendo aplicado nas demais produções da franquia, como é o caso de Saint Seiya: Ômega (falaremos dele na parte 02!). Com design de personagem questionável, erros de proporção e finalização, a série, que poderia ficar para a posteridade como algo memorável, veio a se tornar uma das chacotas do mundo otaku.

Muito outras chacotas ainda existem na franquia, que nesse período apresentou potenciais produtos de sucesso que por alguma razão não deslancham na aceitação do público geral ou do fandom especializado. O que não quer dizer que não haja coisas boas e valor simbólico entre os tantos desmembramentos já realizados e aqueles que poderão vir a existir. Assunto para a segunda parte deste artigo especial.

E você: já sentiu o cosmo?

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