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Artigo Otaku | O Mangá Digital chegou para ficar

Prática de consumo pode ser a saída para editoras e fãs escaparem dos dilemas da crise de mercado.

Fazendo a vistoria rotineira nas livrarias virtuais que sou cliente fixo, percebo o quão difícil é mensurar a realidade do comércio de mangás no Brasil atualmente. Talvez isso esteja muito relacionado à maneira como eu consumo (o que de já caracteriza que tal realidade varia por pessoa). Mas a verdade é que uma pergunta cabal toma conta não só de mim, como de todo o meu círculo social de conhecidos e amigos colecionadores de quadrinhos japoneses: A era do mangá digital [oficial] chegou para ficar?

Começo esse assunto fazendo um parêntese a um acontecimento recente. A aproximação do fim do mangá The Seven Deadly Sins (Nanatsu no Taizai, no original), de Suzuki Nakaba, refletiu-se num interesse mais do que momentâneo de muitos leitores que buscaram consumir os capítulos de desfecho da obra publicada desde 2012 nas páginas da Weekly Shounen Magazine da editora Kodansha.

Publicado no Brasil pela Editora JBC, o mangá foi alvo em 2017 de uma polêmica. Trata-se da ação que a editora brasileira moveu contra sites de scanlators que distribuíam o título ilegalmente. A pedido da JBC, o mangá – e outros títulos licenciados – foram suspensos nestes sites. Inevitavelmente, muitas scans continuaram a traduzir os capítulos que eram publicados no Japão.

Após isso, chegamos em 2019 e a editora – que vem investindo pesado em distribuição de mangás em formato digital – embarca no relativo sucesso da publicação simultânea dos capítulos de Edens Zero (outro mangá da Kodansha publicado na mesma revista) e aproveita a reta final de The Seven Deadly Sins para disponibilizar seus capítulos avulsos. Iniciando ainda fevereiro com o Capítulo 264, já publica simultaneamente com a edição japonesa e nesta semana lançou o Capítulo 308 [a segunda parte do epílogo da trama].

Edições físicas de The Seven Deadly Sins publicadas no Brasil pela Editora JBC

Com preço convidativo de R$2,90 o usuário de Kindle da Amazon tem a experiência de ler o capítulo do mangá recém-publicado de forma legalizada, contribuindo com autor, distribuidores, licenciadores e a indústria como um todo. Eticamente certo. Na ponta do lápis é um gasto que não aparenta ser muito caro. Como a média é de 4 capítulos por mês [exceções meses com 5 semanas ou com uma das semanas puladas por questões logísticas] o consumidor gasta algo em torno de R$11,60 mensais.

Essa questão de preço coloca em xeque questões puramente pragmáticas ao leitor. Se ele é o leitor ávido, opta por esse método de consumo. Se for o leitor apreciador, pode esperar pela compilação de três/quatro meses de capítulos em um tomo que chega a custar os mesmo R$11,60 na versão e-book ou R$17,90 na versão impressa. Ainda sobre a versão e-book, ela pode sair mais barata ainda aos usuários do Kindle Unlimited (consultando regras de uso do serviço).

Merchandising totalmente gratuito à parte, o que se quer comentar aqui é que de imediato foi possível perceber um atraso significativo na atividade das scanlators nacionais a respeito da obra. Talvez fazendo valer o ideário de que é “feito de fã para fã” e “não venda ou alugue”, evitando assim outro desgaste junto à Editora JBC, o que se vê é que alguns dos portais de scans e speedscans comuns ao público otaku brasileiro estão “atrasados” com o material relativo à The Seven Deadly Sins.

Numa consulta rápida a alguns dos mais acessados sites de scans  na web brasileira, percebe-se que desde 10 de fevereiro de 2019 (quando do lançamento do Capítulo 300) não há mais scans do mangá sendo traduzido para o português brasileiro (PT-BR). Levando em consideração que haviam três grupos de scanlator alimentando esses sites com o mangá, chegamos a conclusão que as equipes optaram por interromper suas atividades junto ao título agora que ele é publicado de forma oficial no Brasil também em capítulos simultâneos. Um único site de speedscans segue trazendo os capítulos recentes, mas em espanhol.

Esse contexto nos leva a pensar sobre os próximos passos do comércio de mangá digital no país. Com seu segundo mangá com capítulos simultâneos no mercado de publicação digital, a Editora JBC larga na frente de suas concorrentes e embarca numa tendência já comum para países como Coreia do Sul e Estados Unidos.

Bom também é destacar, antes de seguir com o raciocínio, que os grupos de scans são cientes de que o que fazem é ilegal. Tanto que começam a demostrar sinais de mudanças ao depararmos com a atitude tomada. Em suas próprias redes e páginas estiveram orientando seguidores a adquirir as versões oficiais do produto.

E aqui chegamos ao ponto-chave desse artigo: o futuro do mercado digital de mangás. A publicação de mangás digitais iniciada pela JBC no Brasil não só era um sonho antigo da empresa, que cogitou no passado a ter seu próprio serviço chamado Henshin Drive e ainda não tirou do papel, como traduz o lugar atual do mercado internacional.

Poster promocional do app MANGA PLUS by Shueisha

Importante destacar que tanto Edens Zero quanto The Seven Deadly Sins pertencem a uma empresa (Kodansha) e por isso a JBC conseguiu lançá-los de forma simultânea com rapidez. A editora japonesa vem investindo nisso a algum tempo em países asiáticos e agora também atua na Europa e nas Américas, em poucas nações. Quem toma caminho parecido é a Shueisha, casa da famosa revista Weekly Shounen Jump, que no início do ano lançou o app MANGA PLUS para iOS e Android.

Reunindo cerca de 50 títulos das revistas Weekly Shounen Jump, Weekly Shounen + e Jump Square, o serviço gratuito traz capítulos e volumes já lançados de mangás antigos e atuais da editora em inglês e mais recentemente em espanhol. Infelizmente não há planos próximos para novos idiomas como o português.

Tanto o aplicativo da Shueisha, quanto a Kodansha e seus licenciamentos, revelam a nova tendência do mercado internacional de mangás; na verdade duas:

A primeira diz respeito aos formatos de consumo. É nítido que a cultura do scans   já mostrou aos japoneses que ler mangá online é aceito pelo público. Há anos vem fazendo isso! Inicia-se agora uma campanha de conscientização deste mesmo público de que se é preciso pagar para consumir, pois assim incentiva autores, editores e etc. Num proselitismo que no fundo carrega a mensagem das grandes corporações sobre lucrar em cima daquilo que me pertence por direito.

Já a segunda tendência é a de separação em definitivo dos públicos que consomem o mangá dentro e fora do Japão entre leitores casuais, leitores aficionados e colecionadores. Isso porque na contramão do mercado digital, as publicações impressas sofrem – em alguns países ocidentais, vide América Latina – com a crise econômica que afeta editoras e distribuidores [o caso do Brasil] ao mesmo tempo em que se foca em produzir material com o objetivo de estampar prateleiras e não apenas pela leitura instantânea.

Entende-se por leitor causal aquele que lê alguns poucos mangás e não tem interesse em colecionar por isso apenas o uso de scans já lhe é suficiente; leitor aficionado aquele que lê muitos mangás (sem número definido, mas acima de cinco) e por questões econômicas e/ou logísticas não pode comprar todos então divide-se entre comprar alguns títulos e acompanhar outros somente por scans; e colecionador sendo aquele que não apenas é aficionado como coleciona seus títulos em grande quantidade e de forma sistemática bastante afetiva sobre elementos não só narrativos como gráficos e editoriais.

Um dilema duro vivido por indústria e fãs nos dias atuais em nosso país onde alguns produtores investem em qualidade e por consequência aumentam seus preços, e outros que aumentam seus preços sem apresentar qualidade. Nesta gangorra fica o leitor/colecionador, que tem que reajustar orçamentos em intervalos curtíssimos de meses ou optar por se endividar ou abdicar de colecionar um título em detrimento de outros.

Fatos expostos, fica claro que o mangá digital chegou para ficar. Prático, relativamente barato e instantâneo, o futuro da leitura de mangás pela tela do dispositivo móvel ou do computador é uma realidade que transcende o habitual recurso do scan para se tornar um mercado de verdade. O benefício se apresenta inicialmente como algo único dos envolvidos na produção, mas o fã deve encarar-se como recebedor de benefícios também, pois a normalização de rotina de consumo deste novo formato aponta aos investidores japoneses que há sim fluxo de conteúdo no Brasil. Por sua vez, isso se traduz em novas obras, desdobramentos midiáticos e itens diversos chegando por aqui de forma simultânea (ou ao menos quase isso) que no Japão, Estados Unidos e outros grande centros, assim eliminando aquele sentimento de esquecimento muitas vezes existente dentro do fandom.

Divulgação da versão e-book da light novel Overload publicada pela Editora JBC

Ratificando isso, a JBC prova que anda em expertise com seus contatos do outro lado do mundo e licenciou também uma light novel. No início de 2019 a editora publicou em formato e-book a light novel Overload de Kugane Maruyama, que ganhou destaque após três temporadas animadas entre 2017 e 2018. Publicando a versão digital primeiro que a impressa – que deve ganhar as estantes virtuais e físicas das livrarias até o fim do primeiro semestre – a empresa só deixa claro que não se trata mais de uma aposta, e sim de uma evolução nas práticas de consumo desse tipo de conteúdo dentro do nicho.

Se as scans vão acabar, isso não se fala. Se os preços serão justos, isso será discutido aos poucos. O certo é que agora não há mais desculpas para não se ler mangá. Se antes o problema era ser “de trás para frente”, agora nem isso mais é. O que nos leva a discussões para um outro artigo.

Até a próxima e… Sayonara!

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Artigo Otaku | Pray for KyoAni

No momento de dor, lembramos um pouco sobre o estúdio e desejamos força aos familiares e fãs

Me é custoso escrever esse texto. Ao lado de Madhouse, MAPPA, Ufotable e A1-Pictures, o estúdio Kyoto Animation é um dos meus preferidos. Nos últimos anos, trabalhando títulos como Koe no Katashi (A Voz do Silêncio, no Brasil) e Violet Evergarden, o KyoAni – como carinhosamente chamamos – vem mostrando ao mundo uma linguagem única para a equação qualidade na animação + narrativas bem desenvolvidas + posicionamento de marca bem feito = afeição dos fãs.

Infelizmente, na manhã desta quinta-feira (18) parte dessa trajetória foi maculada pelas chamas. O atentado provocado por um homem de 41 anos, ainda não identificado pelas autoridades locais, tomou a vida de 33 profissionais do estúdio situado no distrito de Uji, Prefeitura de Quioto.

Vídeo produzido pelo site de notícias FNN Prime, que acompanha o caso

Ao incendiar o principal estúdio do grupo KyoAni, que no momento tinha cerca de 70 funcionários dentro, o indivíduo deu início a uma pausa no magnífico trabalho daqueles profissionais que caminhavam de forma tão majestosa dentro da indústria de animês mesmo sem ser das mais gigantes no quesito financeiro.

Criada em 1981 pelo casal Hideaki e Yoko Hatta, a empresa é conhecida entre admiradores da Cultura Otaku por ser uma das poucas do ramo a dar mais oportunidades a animadoras e diretoras em papéis de destaque em suas produções, além de promover condições de trabalho mais qualificadas para seus profissionais. Algo que nos dia de hoje é muito criticado por participantes dentro e fora da indústria, que amarga situações de tempo de serviços prologados mal remunerados e sem prever boas condições mentais aos envolvidos.

O trabalho promovido pelo Kyoto Animation é dos mais exemplares. Além de se preocuparem com seus funcionários, o estúdio oferece-lhes desde o treinamento/formação em uma escola própria para animadores, além de outros espaços de trabalho, como é o caso do estúdio Animation Do que serve como empresa subsidiária.

Tudo isso contribuiu para a formação de uma imagem única dentro da indústria e do fandom: a de uma empresa que prima pela qualidade em seu processo criativo e sempre entrega animações de beleza indiscutíveis.

Alguns dos personagens da KyoAni em arte promocional de evento realizado em 2017

Seja nos dramas já citados ou em comédia simples, mas bem propostas, como em Amagi Brilliant Park, Musaigen no Phantom World e Kobayashi-san Chi no Maid Dragon. Citando algumas das mais recentes pelas quais me apaixonei.

Seu trabalho foi além com a criação do Kyoto Animation Awards, que premia light novels de autores estreantes e as publica (sim, eles também publicam livros!) para depois transformá-los animês. Violet Evergarden, sucesso da Netflix em 2018, produzido pelo estúdio, é a primeira light novel vencedora do concurso a ganhar nas três categorias (melhor cenário, história, ilustração).

É Pensando nisso que não dá pra imaginar o que foi perdido ali no meio do fogo. Registros, projetos e demais trabalhos pertinentes aos títulos de sucesso já citados, além de outros como: Hibike! Euphonium, Free!, K-On, Clannad, Lucky Star e Suzumiya Haruhi no Yuutsu. Que nos formaram como fãs do KyoAni.

Agora, o que dá para contabilizar é o número de mortos e feridos. Gente que saiu de suas casas pensando em produzir algo bom para nós, seus fãs, e tiveram suas missões interrompidas por um motivo que nem sabemos ainda!

Dessa forma, a hastag #PrayForKyoAni é muito mais que um lamento de melancolia pelo material perdido, o qual dependerá de árduo trabalho para se recuperar, mas sim pelas almas humanas como as nossas que deixaram em nós marcas de felicidade, amor e força de vontade para superar desafios. Nosso choro não é apenas por Tooru, Violet, Shinomiya, Hazumiya e tantas outras personagens que amamos. É também pelos familiares daqueles que nos ensinaram a amar essas waifus. Estes merecem nosso apoio com palavras gentis e de respeito.

Ações de crowdfunding promovidas por empresas parceiras e fãs – como a campanha #HelpKyotoAniHeal realizada pela Sentai Filmworks, que já reuniu mais de 900 mil dólares em menos de 24 horas – são importantes e ajudarão a empresa a se reerguer. Mas o primeiro passo que se deve dar mesmo é não deixar morrer no coração o sentimento de solidariedade com o próximo. Isso também é ser otaku.

Para os próximos anos a história do Kyoto Animation deve renascer muito mais intensa por esse sentimento que movimenta a todos desde agora. Sobre seus projetos, a empresa trabalhava recentemente na adaptação da light novel 20 Senki Denki Mokuroku (20th Century Eletricity Catalog) de Hiroshi Yuuki (texto) e Kazumi Ikeda (arte). Vencedora de menção honrosa do 8ª Kyoto Animation Awards, a obra foi publicada ano passado e teve adaptação anunciada para 2020.

Ainda em 2019, o KyoAni já tinha outros projetos para serem apresentados envolvendo a franquia Violet Evergarden: o spin-off “Eien to Jidou Shuki Ningyou“, adaptação do volume gaiden da light novel prevista para estreia no dia 06 de setembro nos cinemas japonesas. Para 2020, além do animê de 20 Senki Denki Mokuroku, o estúdio já havia confirmado o filme longa-metragem com história original de Violet Evergarden (previsto para 10 de janeiro nos cinemas japoneses), além do quinto filme da franquia Free! previsto para o terceiro semestre do ano.

Teaser de Violet Evergarden: the Movie, que chega aos cinemas japonesas ano que vem

Quanto ao fogo, parece que ele quer mesmo consumir os produtos midiáticos que alimentam nosso afetivo. Uma semana atrás, o estúdio da Warner Bros. na Inglaterra, onde foram gravados os filmes da franquia Harry Potter, também pegou fogo. Felizmente nessa ocasião não havia ninguém no lugar durante o desastre. Por isso repito: só nos resta rezar!

Até a próxima e… Sayonara!

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Artigo Otaku | Casos recentes do streaming na Cultura Otaku

Reflexões sobre o streaming de conteúdo otaku a partir de situações atuais.

Desde 2015 a famigerada Netflix investe em animês no seu catálogo de forma mais intensa. Com bem mais tempo, a Crunchyroll também se envolveu com esse tipo de comércio sendo até então exclusiva para este segmento. E aqui cito as duas mais populares quando se fala em streaming de animê nos dias atuais.

Às vésperas da virada de mais uma década do século XXI (o ano de 2021 já está batendo a porta!) caminhamos para a consolidação de um modelo de consumo mais eficiente entre os fãs de animês, também conhecidos como otakus.

O curioso é que os desdobramentos desse modelo de mercado em cima de um conteúdo que atravessa o globo para chegar nos computadores e smartphones de jovem ocidentais está relacionado diretamente com o comportamento dos grandes grupos de mídia da atualidade, que por sua vez se reflete no comportamento de consumo dos fãs. A fim de exemplificar esse artigo usarei dois cases como recurso. O primeiro é o caso DanMachi e o segundo é o caso My Hero Academia.

1- O caso DanMachi

A estreia de DanMachi: Arrow of the Orion no último dia 05 de julho no catálogo da Netflix é um pontapé para a discussão sobre oferta e demanda na indústria manganime. o título citado é o primeiro longa-metragem da franquia do estúdio J.C. Staff, que em abril de 2015 foi lançada em série de TV animada com 13 episódios.

Naquela época, DanMachi havia sido licenciada pela Crunchyroll e permanece em seu catálogo até então. Dois anos depois, um spin-off foi lançado (DanMachi: Sword Oratoria) e aí foi licenciado pela Amazon para o seu Prime Video. Novamente, dois anos depois, além do filme temos agora a segunda temporada da série principal, que já está confirmada para o catálogo da Crunchyroll a partir de julho.

Até um mês atrás, os fãs ficaram sem certeza de onde onde poderiam ver a sequência da série, pois as investidas da Amazon e da Netflix deixaram as negociações em aberto. Bom, ao menos era o que o público imaginava. Na verdade não havia nenhuma negociação em aberto. O mais correto a se assumir é que desde sempre o comitê de produção de DanMachi (que conta com empresas como Genco, Movix, KlorkWorx, SoftBank Creative, Showgate, MAGES., Furyu, além de Warner Bros. Japan – responsável pela distribuição – e Sentai Filmorks – responsável pelos licenciamentos -), consideram cada título um produto diferente e por isso podem vendê-los de maneira distinta. O que é o certo!

Franquia DanMachi dividi-se em três serviços de streaming no momento

Por isso nos deparamos com a série principal em um serviço de streaming, o spin-off num segundo e o longa-metragem num terceiro. Obviamente, essa divisão se dá muito em valor do interesse comercial depositado por cada uma das empresas de streaming. DanMachi: Arrow of the Orion estar na Netflix não é uma novidade, pois a empresa vem se destacando em trazer títulos do cinema japonês para o catálogo, tenham eles sido exibidos ou não nos Estados Unidos. No caso do filme em questão há mais uma curiosidade: o fato de ele ser lançado no cinema americano só no dia 23 de julho, dezoito dias depois de estrear no catálogo da Netflix.

A Crunchyroll vem de uma outra pegada e parece que ainda não encara apostar nos títulos longa-metragem para seu catálogo. A grande surpresa aqui é ter “perdido” para a Amazon o licenciamento do spin-off DanMachi: Sword Oratoria. Entre aspas mesmo, porque no frigir dos ovos a empresa não saiu perdendo. Esse spin-off não foi dos mais queridos pelo público amargando uma popularidade ranqueada na casa dos 499, enquanto a 1ª temporada da série principal figura no 59º lugar do ranking do My Anime List.

Esses dados nos permitem aferir ainda que a trajetória mais curta e o catálogo ainda pequeno do Amazon Prime Video, no quesito animês, ainda não atraem o público. Essa pouca repercussão se reflete na baixa popularidade do animê e no fato de que a cada dia que passa mais e mais otakus vão perdendo um pouco da sua essência “raíz” de buscar títulos em fansubers e speedsubers. A indústria agradece.

Fica também o pensamento de que a equipe de licenciamento da Crunchyroll tem um bom feeling e não perdeu tempo com um título que não caiu na graça do público e seria um investimento pouco lucrativo. Mas tudo são conjecturas.

2 – O caso My Hero Academia

Esse segundo caso diz respeito também a como o streaming coloca em xeque estruturas antigas de consumo e desafia os empresários a lhe dar com o fã.

Com três temporadas disponíveis na Crunchyroll, My Hero Academia (Boku no Hero Academia no original) caminha para sua quarta season em outubro de 2019. O que deixa muito fãs do shonnen em hype elevadíssimo. Para deixar tudo mais intenso temos o primeiro longa-metragem da franquia, My Hero Academia: 2 Heróis, confirmado para estrear em sessão única no dia 08 de agosto em diversos cinemas do Brasil.

Curiosamente, o filme é licenciado no Brasil pela distribuidora Sato Company (especializada em conteúdo asiático), repetindo o que aconteceu no ano passado com Bungo Stray Dogs: Dead Apple em 2018. A série de TV é parte integrante do catálogo da Crunchyroll e o filme distribuído pela Sato Company.

Até aí tudo bem, a mesma lógica do caso 1. O comitê de produção encara cada título como um produto comercial diferente e vende de forma separada. Vai das empresas interessadas fazer a compra da licença. Ao que parece, essa dinâmica Crunchyroll licencia a série e Sato Company os longa-metragens é válida para ambas as empresas.

My Hero Academia: 2 Heróis é atração aguardada para o segundo semestre

Contudo, o problema que entra em questão aqui é o quesito dublagem. My Hero Academia: 2 Heróis foi dublado para ser exibido nos cinemas em dois idiomas (japonês e português) e conta com um bom estúdio, o UniDub, e bom dubladores como Guilherme Briggs e Lipe Volpato, além de youtubers otaku como Leonardo Kitsune, Gabi Xavier e Vii Zedek. A proposta parece que vai ficar legal.

Só que a série de TV ainda não foi dublada, e a Crunchyroll vem trabalhando em dublagens nos últimos tempos. Se por algum acaso conseguirem licenciar a dublagem da série de TV será que usaram o mesmo cast de dubladores, o mesmo estúdio, visto que cada licenciamento prevê acordos comerciais separados? O tempo dirá.

E então?

Nos dois casos, o que se percebe é que o streaming vem modificando o comportamento da indústria de animês, pois os comitês de produção tem muito mais visibilidade comercial quanto ao licenciamento de seus títulos já que para um mesmo mercado cada título pode ser distribuído para um serviço de streaming diferente.

A questão é: como o público se encaixa nisso? Por enquanto de modo nenhum, a não ser tendo uma assinatura diferente para cada streaming se quiser consumir todos os títulos da temporada ou mesmo todos os relacionados à franquia que goste. Uma crueldade com o bolso de qualquer um!

Essas possibilidades de mercado do streaming se refletem também no licenciamento para o cinema. Os títulos chegarão muito menos na grande sala (ao menos fora dos Estados Unidos) e quando chegarem se depararão com o assunto dublagem que é muito próximo dos fãs, pelo menos de quem gosta.

Isso porque quando se faz a dublagem de um filme cuja série ainda não foi dublada, promove-se um desafio ao detentor da licença da série em propor acordos comerciais que além de não desagradar os envolvidos economicamente não desagradem os fãs, envolvido afetivamente com o título e com a marca.

Respostas para esse dilemas não brotaram do éter, no entanto. Em ambos os casos uma única coisa é certa: quanto mais se tem a noção de que o streaming está sendo a melhor solução para a indústria, mas se percebe o quanto ele se torna desafiador para a Cultura Otaku ao colocar os integrantes da tribo num balaio de gato onde quem paga tudo consome tudo e é apenas isso, um grande OK, sem méritos ou demais situações, e consome tudo o faz sem garantias de saber quando, onde, como e por que em muitos dos casos. Algo a se pensar.

Até a próxima e… Sayonara!

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Artigo Otaku | A realidade do Revival de animês

Anúncio de nova série promove frisson, mas também questionamentos.

Após apresentar Orbital Era, seu mais novo filme e confirmar uma remasterização em 4K de sua obra-prima, Katsuhiro Otomo fez muitos otakus pelo mundo suspirar como em fim de coito após revelar um novo projeto de Akira. Uma série animada dentro do universo do mangá de 1982 foi anunciada durante o Anime Expo 2019, em Los Angeles (EUA). A produção ficará por conta do estúdio Sunrise (Cowboy Bebop, Gundam, Code Geass).

Ao mesmo tempo, tal anúncio promoveu um debate perspicaz entre, digamos, especialistas, que já premeditam situações de aceitação e negação do produto ainda nem comercializado puramente com base em suas experiências com o mangá e também com o animê lançado em 1988.

Depois de 30 anos do boom dos animês no ocidente, chegamos numa fase bastante assustadora aos fãs e pesquisadores do Otaku Studies. Como a onda revival pode contribuir para o fandom hoje? A resposta é: não pode! Vejamos o porquê.

Uma das alegações mais ouvidas nos últimos dez anos é que a indústria japonesa se estagnou, que os títulos não são inovadores, que se perdem em fanservice e na hipersexualização das personagens femininas etc. Nenhuma mentira, por sinal, mas o ponto de partida para vários desdobramentos.

Não consigo conceber a ideia de que a indústria aposte no revival porque as obras de 20/30 anos atrás eram superiores às de hoje. Minha ingenuidade me leva a crer que na verdade é só o fator sucesso que impulsiona um revival de um animê. Por já haver base de fãs estabelecidas a possibilidade de prejuízo é menor. O problema do revival, no entanto, é que ele se depara com a barreira do tempo. O comportamento, a cultura e a educação dos fãs da obra na sua época de auge jamais serão os mesmos 30 anos depois. Nem mesmo os fãs serão iguais.

Isso não vale apenas para animês. O revival de Rei Leão, hoje muito aguardado, já foi questionado pela tópico da expressividade dos animais. Recentemente, Mulan sofreu com críticas por mudanças na questão da trilha sonora e Ariel provocou alvoroço ao apresentar uma atriz negra no papel da princesa dos mares. Se as animações da toda poderosa Disney tem seus revival colocados em xeque (para o bem ou para o mal), o que não dizer da controvertida indústria japonesa de entretenimento?

Veja você que Os Cavaleiros do Zodiaco da Netflix nem estreou ainda, mas já é polêmico porque um personagem teve o sexo mudado. Imagine agora o que se pode esperar da nova obra envolvendo Akira? Talvez muita coisa boa se consideramos o envolvimento direto de Otomo (acontecendo de fato) ou talvez uma mudança chocante, pois nesses 30 anos Otomo pode ter moldado uma nova visão de mundo e isso influenciaria o mundo da sua obra, que por si só é uma ficção distópica bastante tênue. A paixão dos fãs pode ser maculada a cada alteração (quem lembra dos tweets de J. K. Rowling?)

Akira possui seis volumes de mangá que foram brevemente adaptados em 1988. Mesmo assim foi um sucesso. É bom deixar claro que durante o anúncio no Anime Expo 2019 nada foi confirmado. O mais cogitado, no entanto, é que se trate de um reboot mesmo. Mesmo assim, nada garante que um novo projeto – mesmo um que leve ao pé da letra o mangá – obtenha o mesmo respeito, pois o quesito repertório afetivo do público é traiçoeiro.

É verdade! Por exemplo, quando Neo Genesis Evangelion foi anunciado para o catálogo da Netflix houveram muitos comentários pró e contra. Para a Netflix tanto fez como tanto faz. Agora, o animê do estúdio Gainax é dos mais relevantes do início de julho e toda hora tem alguém no Twitter ou no Reddit dando seus pitacos. O último foi sobre a redublagem nacional (realizada por contratos comerciais) bastante criticada por , VEJA SÓ, corrigir erros da primeira versão e eliminar piadas existentes só naquela versão em PT-BR.

Dito isso, a realidade do revival otaku é uma só: As empresas o fazem porque é economicamente interessante e é a alternativa que tem em mãos para reconquistar o fã que não vê mais futuro na indústria. Isso porque todo dia tem mangás e light novels sendo rejeitados nas editoras japonesas que estão atrás do novo sucesso mundial. Todavia, elas não podem deixar de alimentar seu próprio mercado e por isso não tem vergonha de usar genéricos com fórmulas repetidas. Melhor garantir a subsistência a ter que falir. Lembre-se que nem tudo são rosas e os animadores não são os mais bem pagos do mundo.

Dessa forma – não esquecendo das novas linguagens e dos novos tempos – realizadores e estúdios apostam na espinha dorsal do projeto e retiram algumas coisas, acrescentam outras… Tudo com o objetivo de gerar o marketing mais amado de todos: o feito pelo fã.

Aí, quando este membro importantíssimo para o projeto, mas completamente à parte na sua realização, tenta tomar para si responsabilidades não lhe dadas por meio de comentários e críticas, alguém de dentro da indústria vem para relembrar todo mundo como cada um deve se comportar na equação. Não é mesmo Junichi Masuda?

Até a próxima e… Sayonara!

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