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Artigo Otaku | No Game No Life, fantasia e diversidade em ação

Marcando o retorno do Artigo Otaku ao VOLTS após um longo mês de férias, resolvi destacar aqui uma leitura recente que fiz. Não muito dias atrás conclui a leitura da light novel No Game No Life – Practical War Game. A obra é um gaiden (termo japonês para definir as histórias paralelas, side stories), que reúne quatro narrativas pertencentes ao universo canônico da série principal criada pelo nipo-brasileiro Thiago Lucas Furukawa, o Yuu Kamiya.

Acompanho No Game No Life (NGNL para os mais íntimos) desde 2013, quando das notícias de sua adaptação para animação. Ainda não tinha tido a oportunidade de ler a obra escrita pelo filho de brasileiro descendentes de japoneses que fez o retorno às origens dos ancestrais ainda na juventude e aproveitou a convivência para desenvolver suas criações como mangaká e escritor. Em 2014 seu – até então – maior sucesso foi adaptado pelo estúdio Madhouse em uma série de 12 episódios, que apresentava-nos ao mundo de Disboard e aos irmãos gamers Kuuhaku, Sora e Shiro, que se encontram num reino fantástico após jogarem uma partida de xadrez com uma divindade desconhecida.

Tal adaptação reunia somente os três primeiros volumes da light novel e isso despertou o interesse de muitos fãs. Em 2014 o mundo otaku vivia já a febre do Isekai (viagem à outro mundo) com uma intensidade nunca antes vistas por amantes de mangás e animês. Esse relativo sucesso garantiu a Yuu Kamiya não só o reconhecimento mundial (e no Brasil) como também lhe colocou num cenário de destaque entre grandes autores dos últimos tempos. Sua obra hoje em dia conta com um spin-off (No Game No Life Desu!), adaptação em mangá e um filme de longa-metragem (No Game No Life Zero, que é a adaptação do volume 06 da light novel).

Falei tudo isso para poder me ater ao ponto chave desse artigo: fantasia e diversidade. Numa trama que é bem mais sombria do que aparenta ser graças aos seus alívios cômicos em excesso muitas vezes amparados pelo ecchi (conteúdo de conotação erótica), NGNL se completa ao abordar a fantasia com elfos, fadas, deuses e dragões colocando-os não apenas como seres místicos, mas carregando-os de personas humanas autoritárias, racistas, xenofóbicas etc. Todas as características mais abjetas que a raça humana desenvolveu ao longo das eras.

Vindos de uma guerra sanguinolenta e duradoura, dezesseis dessas raças hostis hoje convivem sobre o julgo de uma lei sagrada que os impede de se matar, mas que acaba por somente mascarar o ódio e o preconceito existente entre cada um dos exceeds (as raças de Disboard). Nesse contexto pesado, Yuu Kamiya é excepcional ao debater a liberdade de expressão e de direitos.

 

(Nina – a esquerda – e Sink – a direita – são exemplos de diversidade na obra de Yuu Kamiya. Fonte: No Game No Life – Practical War Game)

 

Com uma camisa onde se lê “E amo a humanidade”, o protagonista Sora revela todo o peso narrativo que o autor aposta. Yuu Kamiya faz um desabafo sobre a podridão do mundo – e dos humanos – e o quanto ele ainda tem o que mudar para se tonar um lugar melhor para todos. Em Practical War Game isso é perceptível na figura da raça élfica que escraviza os imanities (humanidade) e os trata como seres inferiores a animais. Só que em meio a todo esse cenário hostil é a amizade entre Fiel Nirvalen e Crammy Bell, uma elfa e uma imanity – que apresenta uma luz para a reconstrução de um pensamento de convivência entre as raças.

O exemplo anterior é importante também para mostrar a preocupação de Yuu Kamiya com outros temas importantes como o amor e a diversidade. Fiel e Crammy vivem um relacionamento ainda incerto que vai para além de mestre-serva ou amigas. A elfa é apaixonada pela garota e não mede esforços para conquistá-la (mesmo que em alguns momentos se fazendo valer de métodos abusivos). Tal perfil é quase como uma herança maldita de sua ancestral Sink Nirvalen, que no passado do mundo – quando a guerra sangrenta era o mote de vida de todos – literalmente abusava sexualmente de Nina Kuraiv, que ela julgava ser uma garota elfa. Um ledo engano. Nina na verdade é um elfo.

Sink não parece ser uma personagem que mereça ser lembrada, já que assume posição tão vil de abusadora. No entanto é ela mesmo que melhor exprime seu amor ao revelar que não importava se Nina fosse menina ou menino. Ela o amava, ainda sem saber o real significado desse sentimento. Mesmo assim, volto a afirmar, que não se deve considerá-la como o melhor exemplo de alguém que ama.

Essa aplicação da diversidade num mundo de fantasia parece bom e até comum nos dias de hoje, mas Yuu Kamiya faz com uma naturalidade surreal ao ponto de que o leitor até mesmo espera que algo do tipo seja revelado ao longo da trama. Cheio de fetiches, o autor acaba nos revelando muito do seu “eu” e assim conquista uma legião de fãs que anseiam pelo fim da história em um mundo onde tudo se é resolvido com jogos.

Até a próxima e… Sayonara!