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Artigo Otaku

Artigo Otaku | No embalo das animesongs: Os artistas brasileiros (Parte 03)

Como deve ter ficado claro em nosso segundo artigo, a relação entre o Brasil e as animesongs começou a ser construída a partir das inserções e modificações das canções originais por versões nacionais carismáticas focadas num primeiro momento na busca pela satisfação do apelo comercial e depois pela construção de uma identidade local junto aos animês fazendo uso dos arranjos e melodias que atravessavam o mundo dando-lhes letras traduzidas e adaptadas para o público infato-juvenil daqui.

Já se passaram mais de 20 anos desde o sucesso do álbum “Os Cavaleiros do Zodíaco”. Nada tão significativo quanto aquilo chegou a aparecer por aqui diretamente ligado a uma franquia. Exceção para algumas canções que ficaram na lembrança dos mais velhos, o público que passou a consumir animê pela web construiu uma relação com a Cultura Pop Japonesa em outros expoentes.

O J-Pop, como já esclarecido no primeiro artigo e em outras ocasiões aqui no VOLTS, é um produto cultural de valor comercial e simbólico muito forte para os japoneses. Acredita-se que para a manutenção do soft power do país o tema seja o quarto mais popular no mundo atrás apenas da indústria do manganime, indústria dos videogames e a tecnologia no geral.

Desdobramentos desse capital simbólico podem ser encontrados ainda hoje. A animação japonesa despertou no mundo (incluindo o Brasil) o gosto por uma sonoridade diferente – mesmo carregada de esteriótipos genéricos da indústria norte-americana – que faz do J-Pop e das animesongs um conteúdo sempre novo e dinamizado. A seguir apresentamos três exemplos desse desdobramento em nosso país:

Anime Voices Brasil

No Brasil, mesmo com o consumo da música pop japonesa in natura, na segunda metade dos anos 2000 já era possível encontrar nossos próprios astros e estrelas da animesong. Nomes como Che Leal, Rodrigo Firmo e companhia tinham tudo para despontar no ramo devido a suas participações em atrações já exibidas. Mas ao que parece todos esses artistas entenderam tardiamente que suas carreiras estavam ligadas às animesongs em algum momento. Talvez pelo preconceito formado de que “música de desenho é para criança e etc” é que os dois já citados, Lucylu, Toninho Ghizzi, Ricardo Júnior e Anísio Mello Júnior se reuniram em 2013 e formaram o grupo Anime Voices Brasil.

Com cada um deles cantando alguns temas de animês com versões nacionais, o grupo se reuniu e passou a dar versões brasileira para outros temas, que faziam a cabeça dos otaku em bom e velho japonês, mas agora em nossa língua mãe. Com pouco mais de 24 mil inscritos e um total de 22 vídeos (que nada mais são que um recorte do trabalho do grupo), o canal do grupo no YouTube reúne trechos de apresentações em Anime Encontros (eventos), versões cover exclusivas e vídeos de bastidores. Em 2017 o grupo mudou de nome e agora se chama New Question e conta com novos integrantes, mas a identificação antiga segue viva na redes social.

Assista a versão cover de Change The World da boy band japonesa V6 na interpretação do Anime Voices Brasil. A canção foi o primeiro tema de abertura do animê InuYasha:

Ricardo Cruz

Na contramão do trabalho do pessoal do Anime Voices Brasil um jovem brasileiro natural de São Paulo-SP fez sua paixão por animês e tokusatsu tornar-se o seu trabalho. Após um intercâmbio de um ano no Japão, onde cursou o 3° ano do Ensino Médio, Ricardo Schiesari Barreto Cruz, decide investir em sua carreira como otaku profissional. Valendo-se das classificações usadas pelo antropólogo brasileiro Vlad-Schüler Costa, podemos dizer que Ricardo Cruz seguiu os caminhos de performer e entrepreuner para se consagrar como o grande representante da música pop japonesa em nosso país.

Uma série de coincidências também fizeram com que Ricardo Cruz se torna-se o notável que é hoje. O primeiro tema de animê cantado por ele foi Bom Dia (no Japão: Ohayo, interpretada por Keno), que foi o tema de abertura da primeira versão de Hunter x Hunter a ser exibida por aqui. Não muito depois seu nome explodiu com Megami no Senshi ~ Pegasus Forever, o tema da segunda fase da Saga de Hades em Os Cavaleiros do Zodíaco.

Ricardo já se desdobrava em outros segmento da Cultura Otaku no Brasil. Além de fazer parte do staff do primeiro Anime Friends, trabalhou no grupo Conrad Editora como redator para a Revista Herói. Entretanto seu sucesso veio mesmo em 2005 de uma maneira inusitada. Após o Anime Friends de 2004, quando Hironobu Kageyama e outros componentes da JAM Project estiveram por aqui, Ricardo caiu nas graças de Hironobu Kageyama que o ouviu cantar com uma banda cover na abertura de seu show.

De posse de uma demo de Ricardo, Kageyama – sem comunicá-lo – inscreveu o jovem brasileiro num concurso japonês que selecionaria a nova voz da JAM Project e o convidou para visitar o Japão durante a seleção. Ricardo não só participou como venceu o concurso e se tornou o primeiro (e até então único) estrangeiro a compor o grupo. No mesmo ano debutou com o single Meikyuu no Prisioner. Daí em diante sempre que a banda vem ao Brasil ou América Latina ele se junta ao grupo e canta diversos temas de animê, tokusatsus e games.

O sucesso na JAM Project fez com que Ricardo deslanchasse outros projetos. Fez participação no álbum Kazakami no oka kara de Kouji Wada na música SEM BARREIRAS ~Kagarenaki Jidai he, esteve em turnê entre 2016-2017 com Larissa Tássi, Ricardo Rossi e Edu Falaschi para o show Cavaleiros in Concert.

Na franquia Saint Seiya, Ricardo ainda chegou a cantar o tema Nova Geração (feat. Edu Falaschi, Larissa Tassi e Rodrigo Rossi) para Saint Seiya: Ômega. Em 2017 lançou o single Neo Tokyo, para celebrar a publicação do mangá Akira no Brasil. A canção mais uma vez trouxe a parceria entr Ricardo, Larissa e Rodrigo, que hoje formam o grupo Danger3. Já em 2018 seus trabalhos envolvem a parceria com o guitarrista Lucas Araújo no projeto Anison Lab, por onde lançou um tributo aos 30 anos de Jaspion no Brasil com a participação de Akira Kushida (cantor dos temas originais).

 

The Kira Justice

“Se Ricardo Cruz, um fã, consegiu fazer sucesso por que eu não?”. Esse deve ter sido o pensamento de dezenas de outros fãs brasileiros que encontraram no YouTube uma porta de emancipação dentro do fandom. Assim como vinham fazendo os fan singers estrangeiros como Miura Jam e Amalee, os otaku brasileiros investiram em suas carreiras. Nomes como Isís Vasconcellos (+1,4 milhões de inscritos), Ayu Brazil (+900 mil inscritos), Player Tauz (+1,7 milhões de inscritos) e tantos outros passaram a ser famosos entre os frequentadores da web e dos Anime Encontros.

Em todo estado deste país não é incomum encontrarmos as famosas “Anime Bandas” que são atrações em eventos de pequeno porte e agitam o público com suas apresentações covers de hits das animações japonesas e clássicos em português. Contudo, não há um caso de sucesso mais expressivo que The Kira Justice.

Hoje composta por dois membros – Matheus e Sarisa Lynar – a banda porto-alegrense ficou famosa no Brasil no fim da década de 2000 após lançar seus primeiros trabalhos com versões covers de animesongs no YouTube (por volta de 2007). Matheus Lynar é membro-fundador da The Kira Justice, que leva esse nome porque os membros originais eram fãs de Death Note.

A primeira formação contou com Matheus Lynar (voz e guitarra), Alice Salin (contrabaixo), Rafa Ballester (bateria). Também integrou a banda a vocalista conhecida como Flávia, que não permaneceu por muito tempo. O grupo passou por diversas fases com a saída de Flávia e a entrada de outra cantora chamada apenas de Mônica, que também saiu dando lugar para Sarisa Lynar, irmã de Matheus. Em 2009, o quarteto apresentou-se pela primeira vez no Anime Friends.

Já em 2012, Alice e Rafa deixaram a banda e foram substituídos por Guilherme Rossoni e Filipe Mimura, respectivamente. Os dois últimos também já deixaram a banda nos últimos anos ficando somente os irmãos Lynar. No auge da banda, os membros da The Kira Justice fizeram uma mini-turnê pela Argentina.

Nos dias atuais o trabalho da The Kira Justice com animesongs vem sendo colocado em segundo plano pelos novos anseios de Matheus Lynar, líder do grupo, mas fica na memória de todos os fãs de animesongs que o empenho de fã pode sim render bons frutos. Em  2014 a banda obteve seu maior hit com seu cover da canção Unravel (by Toru Kitajima) que lhes rendeu 6,9 milhões de visualizações.

 

E chega ao fim nossa incursão pelo fenômeno animesong. Seja no ambiente competitivo da indústria fonográfica nipônica ou nos porões virtuais da América Latina, o gênero musical se tornou algo presente não só na vida dos otaku, mas na de milhares de pessoas que passaram a ter contato mais e mais aguçado com as músicas asiáticas como um todo.

Fazer sucesso como Ricardo Cruz, ser nostálgico como Mário Lúcio de Freitas ou frenesi como The Kira Justice ao que parece não se trata de apenas golpe de sorte. Há talento envolvido e também o saber aproveitar as boas ondas promovidas pela presença dos animês no Brasil a partir do soft power japonês.

 

Pode parecer difícil ao leitor compreender como essa história de soft power. A expressão, que vem das Relações Internacionais, defende o poder de convencimento de um corpo político (nações, blocos econômicos) sobre outro a partir da apresentação de sua influências culturais e/ou ideológicas. Para o caso específico aqui tratado a expressão também pode assumir o sentido de Cool Japan (Japão Legal), que seria a estratégia do Ministério de Relações Exteriores do Japão de reerguer a economia do país atraindo investidores e consumidores para os seus produtos após um forte período de recessão econômica.

É interessante perceber que essa busca por ter sua cultura – e no caso as mídias – compartilhada com outros povos reflete-se numa construção de tribo sociais sólidas fora do local de origem desses elementos. É o caso dos otaku. Já citamos aqui o caso dos fan singers de animesong, que fazem uso do YouTube e outras ferramentas para se autopromover e também para saciar sua relação de afeto com o produto do fandom: os animês.

Ao final dessa sequência de leituras o que espero é que seu gosto por animesongs possa ter se intensificado, justificado ou despertado. Eu sigo ouvindo as minhas aqui “E quando precisar é só dizer. Estou sempre disponível. Chama amiga que eu sou tua amiga”, como diria Kacau Gomes na canção da Kim Possible.

Até a próxima e… Sayonara!

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