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Artigo Otaku

Artigo Otaku | No embalo das animesongs: Os artistas brasileiros (Parte 03)

Como deve ter ficado claro em nosso segundo artigo, a relação entre o Brasil e as animesongs começou a ser construída a partir das inserções e modificações das canções originais por versões nacionais carismáticas focadas num primeiro momento na busca pela satisfação do apelo comercial e depois pela construção de uma identidade local junto aos animês fazendo uso dos arranjos e melodias que atravessavam o mundo dando-lhes letras traduzidas e adaptadas para o público infato-juvenil daqui.

Já se passaram mais de 20 anos desde o sucesso do álbum “Os Cavaleiros do Zodíaco”. Nada tão significativo quanto aquilo chegou a aparecer por aqui diretamente ligado a uma franquia. Exceção para algumas canções que ficaram na lembrança dos mais velhos, o público que passou a consumir animê pela web construiu uma relação com a Cultura Pop Japonesa em outros expoentes.

O J-Pop, como já esclarecido no primeiro artigo e em outras ocasiões aqui no VOLTS, é um produto cultural de valor comercial e simbólico muito forte para os japoneses. Acredita-se que para a manutenção do soft power do país o tema seja o quarto mais popular no mundo atrás apenas da indústria do manganime, indústria dos videogames e a tecnologia no geral.

Desdobramentos desse capital simbólico podem ser encontrados ainda hoje. A animação japonesa despertou no mundo (incluindo o Brasil) o gosto por uma sonoridade diferente – mesmo carregada de esteriótipos genéricos da indústria norte-americana – que faz do J-Pop e das animesongs um conteúdo sempre novo e dinamizado. A seguir apresentamos três exemplos desse desdobramento em nosso país:

Anime Voices Brasil

No Brasil, mesmo com o consumo da música pop japonesa in natura, na segunda metade dos anos 2000 já era possível encontrar nossos próprios astros e estrelas da animesong. Nomes como Che Leal, Rodrigo Firmo e companhia tinham tudo para despontar no ramo devido a suas participações em atrações já exibidas. Mas ao que parece todos esses artistas entenderam tardiamente que suas carreiras estavam ligadas às animesongs em algum momento. Talvez pelo preconceito formado de que “música de desenho é para criança e etc” é que os dois já citados, Lucylu, Toninho Ghizzi, Ricardo Júnior e Anísio Mello Júnior se reuniram em 2013 e formaram o grupo Anime Voices Brasil.

Com cada um deles cantando alguns temas de animês com versões nacionais, o grupo se reuniu e passou a dar versões brasileira para outros temas, que faziam a cabeça dos otaku em bom e velho japonês, mas agora em nossa língua mãe. Com pouco mais de 24 mil inscritos e um total de 22 vídeos (que nada mais são que um recorte do trabalho do grupo), o canal do grupo no YouTube reúne trechos de apresentações em Anime Encontros (eventos), versões cover exclusivas e vídeos de bastidores. Em 2017 o grupo mudou de nome e agora se chama New Question e conta com novos integrantes, mas a identificação antiga segue viva na redes social.

Assista a versão cover de Change The World da boy band japonesa V6 na interpretação do Anime Voices Brasil. A canção foi o primeiro tema de abertura do animê InuYasha:

Ricardo Cruz

Na contramão do trabalho do pessoal do Anime Voices Brasil um jovem brasileiro natural de São Paulo-SP fez sua paixão por animês e tokusatsu tornar-se o seu trabalho. Após um intercâmbio de um ano no Japão, onde cursou o 3° ano do Ensino Médio, Ricardo Schiesari Barreto Cruz, decide investir em sua carreira como otaku profissional. Valendo-se das classificações usadas pelo antropólogo brasileiro Vlad-Schüler Costa, podemos dizer que Ricardo Cruz seguiu os caminhos de performer e entrepreuner para se consagrar como o grande representante da música pop japonesa em nosso país.

Uma série de coincidências também fizeram com que Ricardo Cruz se torna-se o notável que é hoje. O primeiro tema de animê cantado por ele foi Bom Dia (no Japão: Ohayo, interpretada por Keno), que foi o tema de abertura da primeira versão de Hunter x Hunter a ser exibida por aqui. Não muito depois seu nome explodiu com Megami no Senshi ~ Pegasus Forever, o tema da segunda fase da Saga de Hades em Os Cavaleiros do Zodíaco.

Ricardo já se desdobrava em outros segmento da Cultura Otaku no Brasil. Além de fazer parte do staff do primeiro Anime Friends, trabalhou no grupo Conrad Editora como redator para a Revista Herói. Entretanto seu sucesso veio mesmo em 2005 de uma maneira inusitada. Após o Anime Friends de 2004, quando Hironobu Kageyama e outros componentes da JAM Project estiveram por aqui, Ricardo caiu nas graças de Hironobu Kageyama que o ouviu cantar com uma banda cover na abertura de seu show.

De posse de uma demo de Ricardo, Kageyama – sem comunicá-lo – inscreveu o jovem brasileiro num concurso japonês que selecionaria a nova voz da JAM Project e o convidou para visitar o Japão durante a seleção. Ricardo não só participou como venceu o concurso e se tornou o primeiro (e até então único) estrangeiro a compor o grupo. No mesmo ano debutou com o single Meikyuu no Prisioner. Daí em diante sempre que a banda vem ao Brasil ou América Latina ele se junta ao grupo e canta diversos temas de animê, tokusatsus e games.

O sucesso na JAM Project fez com que Ricardo deslanchasse outros projetos. Fez participação no álbum Kazakami no oka kara de Kouji Wada na música SEM BARREIRAS ~Kagarenaki Jidai he, esteve em turnê entre 2016-2017 com Larissa Tássi, Ricardo Rossi e Edu Falaschi para o show Cavaleiros in Concert.

Na franquia Saint Seiya, Ricardo ainda chegou a cantar o tema Nova Geração (feat. Edu Falaschi, Larissa Tassi e Rodrigo Rossi) para Saint Seiya: Ômega. Em 2017 lançou o single Neo Tokyo, para celebrar a publicação do mangá Akira no Brasil. A canção mais uma vez trouxe a parceria entr Ricardo, Larissa e Rodrigo, que hoje formam o grupo Danger3. Já em 2018 seus trabalhos envolvem a parceria com o guitarrista Lucas Araújo no projeto Anison Lab, por onde lançou um tributo aos 30 anos de Jaspion no Brasil com a participação de Akira Kushida (cantor dos temas originais).

 

The Kira Justice

“Se Ricardo Cruz, um fã, consegiu fazer sucesso por que eu não?”. Esse deve ter sido o pensamento de dezenas de outros fãs brasileiros que encontraram no YouTube uma porta de emancipação dentro do fandom. Assim como vinham fazendo os fan singers estrangeiros como Miura Jam e Amalee, os otaku brasileiros investiram em suas carreiras. Nomes como Isís Vasconcellos (+1,4 milhões de inscritos), Ayu Brazil (+900 mil inscritos), Player Tauz (+1,7 milhões de inscritos) e tantos outros passaram a ser famosos entre os frequentadores da web e dos Anime Encontros.

Em todo estado deste país não é incomum encontrarmos as famosas “Anime Bandas” que são atrações em eventos de pequeno porte e agitam o público com suas apresentações covers de hits das animações japonesas e clássicos em português. Contudo, não há um caso de sucesso mais expressivo que The Kira Justice.

Hoje composta por dois membros – Matheus e Sarisa Lynar – a banda porto-alegrense ficou famosa no Brasil no fim da década de 2000 após lançar seus primeiros trabalhos com versões covers de animesongs no YouTube (por volta de 2007). Matheus Lynar é membro-fundador da The Kira Justice, que leva esse nome porque os membros originais eram fãs de Death Note.

A primeira formação contou com Matheus Lynar (voz e guitarra), Alice Salin (contrabaixo), Rafa Ballester (bateria). Também integrou a banda a vocalista conhecida como Flávia, que não permaneceu por muito tempo. O grupo passou por diversas fases com a saída de Flávia e a entrada de outra cantora chamada apenas de Mônica, que também saiu dando lugar para Sarisa Lynar, irmã de Matheus. Em 2009, o quarteto apresentou-se pela primeira vez no Anime Friends.

Já em 2012, Alice e Rafa deixaram a banda e foram substituídos por Guilherme Rossoni e Filipe Mimura, respectivamente. Os dois últimos também já deixaram a banda nos últimos anos ficando somente os irmãos Lynar. No auge da banda, os membros da The Kira Justice fizeram uma mini-turnê pela Argentina.

Nos dias atuais o trabalho da The Kira Justice com animesongs vem sendo colocado em segundo plano pelos novos anseios de Matheus Lynar, líder do grupo, mas fica na memória de todos os fãs de animesongs que o empenho de fã pode sim render bons frutos. Em  2014 a banda obteve seu maior hit com seu cover da canção Unravel (by Toru Kitajima) que lhes rendeu 6,9 milhões de visualizações.

 

E chega ao fim nossa incursão pelo fenômeno animesong. Seja no ambiente competitivo da indústria fonográfica nipônica ou nos porões virtuais da América Latina, o gênero musical se tornou algo presente não só na vida dos otaku, mas na de milhares de pessoas que passaram a ter contato mais e mais aguçado com as músicas asiáticas como um todo.

Fazer sucesso como Ricardo Cruz, ser nostálgico como Mário Lúcio de Freitas ou frenesi como The Kira Justice ao que parece não se trata de apenas golpe de sorte. Há talento envolvido e também o saber aproveitar as boas ondas promovidas pela presença dos animês no Brasil a partir do soft power japonês.

 

Pode parecer difícil ao leitor compreender como essa história de soft power. A expressão, que vem das Relações Internacionais, defende o poder de convencimento de um corpo político (nações, blocos econômicos) sobre outro a partir da apresentação de sua influências culturais e/ou ideológicas. Para o caso específico aqui tratado a expressão também pode assumir o sentido de Cool Japan (Japão Legal), que seria a estratégia do Ministério de Relações Exteriores do Japão de reerguer a economia do país atraindo investidores e consumidores para os seus produtos após um forte período de recessão econômica.

É interessante perceber que essa busca por ter sua cultura – e no caso as mídias – compartilhada com outros povos reflete-se numa construção de tribo sociais sólidas fora do local de origem desses elementos. É o caso dos otaku. Já citamos aqui o caso dos fan singers de animesong, que fazem uso do YouTube e outras ferramentas para se autopromover e também para saciar sua relação de afeto com o produto do fandom: os animês.

Ao final dessa sequência de leituras o que espero é que seu gosto por animesongs possa ter se intensificado, justificado ou despertado. Eu sigo ouvindo as minhas aqui “E quando precisar é só dizer. Estou sempre disponível. Chama amiga que eu sou tua amiga”, como diria Kacau Gomes na canção da Kim Possible.

Até a próxima e… Sayonara!

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Artigo Otaku | Pray for KyoAni

No momento de dor, lembramos um pouco sobre o estúdio e desejamos força aos familiares e fãs

Me é custoso escrever esse texto. Ao lado de Madhouse, MAPPA, Ufotable e A1-Pictures, o estúdio Kyoto Animation é um dos meus preferidos. Nos últimos anos, trabalhando títulos como Koe no Katashi (A Voz do Silêncio, no Brasil) e Violet Evergarden, o KyoAni – como carinhosamente chamamos – vem mostrando ao mundo uma linguagem única para a equação qualidade na animação + narrativas bem desenvolvidas + posicionamento de marca bem feito = afeição dos fãs.

Infelizmente, na manhã desta quinta-feira (18) parte dessa trajetória foi maculada pelas chamas. O atentado provocado por um homem de 41 anos, ainda não identificado pelas autoridades locais, tomou a vida de 33 profissionais do estúdio situado no distrito de Uji, Prefeitura de Quioto.

Vídeo produzido pelo site de notícias FNN Prime, que acompanha o caso

Ao incendiar o principal estúdio do grupo KyoAni, que no momento tinha cerca de 70 funcionários dentro, o indivíduo deu início a uma pausa no magnífico trabalho daqueles profissionais que caminhavam de forma tão majestosa dentro da indústria de animês mesmo sem ser das mais gigantes no quesito financeiro.

Criada em 1981 pelo casal Hideaki e Yoko Hatta, a empresa é conhecida entre admiradores da Cultura Otaku por ser uma das poucas do ramo a dar mais oportunidades a animadoras e diretoras em papéis de destaque em suas produções, além de promover condições de trabalho mais qualificadas para seus profissionais. Algo que nos dia de hoje é muito criticado por participantes dentro e fora da indústria, que amarga situações de tempo de serviços prologados mal remunerados e sem prever boas condições mentais aos envolvidos.

O trabalho promovido pelo Kyoto Animation é dos mais exemplares. Além de se preocuparem com seus funcionários, o estúdio oferece-lhes desde o treinamento/formação em uma escola própria para animadores, além de outros espaços de trabalho, como é o caso do estúdio Animation Do que serve como empresa subsidiária.

Tudo isso contribuiu para a formação de uma imagem única dentro da indústria e do fandom: a de uma empresa que prima pela qualidade em seu processo criativo e sempre entrega animações de beleza indiscutíveis.

Alguns dos personagens da KyoAni em arte promocional de evento realizado em 2017

Seja nos dramas já citados ou em comédia simples, mas bem propostas, como em Amagi Brilliant Park, Musaigen no Phantom World e Kobayashi-san Chi no Maid Dragon. Citando algumas das mais recentes pelas quais me apaixonei.

Seu trabalho foi além com a criação do Kyoto Animation Awards, que premia light novels de autores estreantes e as publica (sim, eles também publicam livros!) para depois transformá-los animês. Violet Evergarden, sucesso da Netflix em 2018, produzido pelo estúdio, é a primeira light novel vencedora do concurso a ganhar nas três categorias (melhor cenário, história, ilustração).

É Pensando nisso que não dá pra imaginar o que foi perdido ali no meio do fogo. Registros, projetos e demais trabalhos pertinentes aos títulos de sucesso já citados, além de outros como: Hibike! Euphonium, Free!, K-On, Clannad, Lucky Star e Suzumiya Haruhi no Yuutsu. Que nos formaram como fãs do KyoAni.

Agora, o que dá para contabilizar é o número de mortos e feridos. Gente que saiu de suas casas pensando em produzir algo bom para nós, seus fãs, e tiveram suas missões interrompidas por um motivo que nem sabemos ainda!

Dessa forma, a hastag #PrayForKyoAni é muito mais que um lamento de melancolia pelo material perdido, o qual dependerá de árduo trabalho para se recuperar, mas sim pelas almas humanas como as nossas que deixaram em nós marcas de felicidade, amor e força de vontade para superar desafios. Nosso choro não é apenas por Tooru, Violet, Shinomiya, Hazumiya e tantas outras personagens que amamos. É também pelos familiares daqueles que nos ensinaram a amar essas waifus. Estes merecem nosso apoio com palavras gentis e de respeito.

Ações de crowdfunding promovidas por empresas parceiras e fãs – como a campanha #HelpKyotoAniHeal realizada pela Sentai Filmworks, que já reuniu mais de 900 mil dólares em menos de 24 horas – são importantes e ajudarão a empresa a se reerguer. Mas o primeiro passo que se deve dar mesmo é não deixar morrer no coração o sentimento de solidariedade com o próximo. Isso também é ser otaku.

Para os próximos anos a história do Kyoto Animation deve renascer muito mais intensa por esse sentimento que movimenta a todos desde agora. Sobre seus projetos, a empresa trabalhava recentemente na adaptação da light novel 20 Senki Denki Mokuroku (20th Century Eletricity Catalog) de Hiroshi Yuuki (texto) e Kazumi Ikeda (arte). Vencedora de menção honrosa do 8ª Kyoto Animation Awards, a obra foi publicada ano passado e teve adaptação anunciada para 2020.

Ainda em 2019, o KyoAni já tinha outros projetos para serem apresentados envolvendo a franquia Violet Evergarden: o spin-off “Eien to Jidou Shuki Ningyou“, adaptação do volume gaiden da light novel prevista para estreia no dia 06 de setembro nos cinemas japonesas. Para 2020, além do animê de 20 Senki Denki Mokuroku, o estúdio já havia confirmado o filme longa-metragem com história original de Violet Evergarden (previsto para 10 de janeiro nos cinemas japoneses), além do quinto filme da franquia Free! previsto para o terceiro semestre do ano.

Teaser de Violet Evergarden: the Movie, que chega aos cinemas japonesas ano que vem

Quanto ao fogo, parece que ele quer mesmo consumir os produtos midiáticos que alimentam nosso afetivo. Uma semana atrás, o estúdio da Warner Bros. na Inglaterra, onde foram gravados os filmes da franquia Harry Potter, também pegou fogo. Felizmente nessa ocasião não havia ninguém no lugar durante o desastre. Por isso repito: só nos resta rezar!

Até a próxima e… Sayonara!

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Artigo Otaku | Casos recentes do streaming na Cultura Otaku

Reflexões sobre o streaming de conteúdo otaku a partir de situações atuais.

Desde 2015 a famigerada Netflix investe em animês no seu catálogo de forma mais intensa. Com bem mais tempo, a Crunchyroll também se envolveu com esse tipo de comércio sendo até então exclusiva para este segmento. E aqui cito as duas mais populares quando se fala em streaming de animê nos dias atuais.

Às vésperas da virada de mais uma década do século XXI (o ano de 2021 já está batendo a porta!) caminhamos para a consolidação de um modelo de consumo mais eficiente entre os fãs de animês, também conhecidos como otakus.

O curioso é que os desdobramentos desse modelo de mercado em cima de um conteúdo que atravessa o globo para chegar nos computadores e smartphones de jovem ocidentais está relacionado diretamente com o comportamento dos grandes grupos de mídia da atualidade, que por sua vez se reflete no comportamento de consumo dos fãs. A fim de exemplificar esse artigo usarei dois cases como recurso. O primeiro é o caso DanMachi e o segundo é o caso My Hero Academia.

1- O caso DanMachi

A estreia de DanMachi: Arrow of the Orion no último dia 05 de julho no catálogo da Netflix é um pontapé para a discussão sobre oferta e demanda na indústria manganime. o título citado é o primeiro longa-metragem da franquia do estúdio J.C. Staff, que em abril de 2015 foi lançada em série de TV animada com 13 episódios.

Naquela época, DanMachi havia sido licenciada pela Crunchyroll e permanece em seu catálogo até então. Dois anos depois, um spin-off foi lançado (DanMachi: Sword Oratoria) e aí foi licenciado pela Amazon para o seu Prime Video. Novamente, dois anos depois, além do filme temos agora a segunda temporada da série principal, que já está confirmada para o catálogo da Crunchyroll a partir de julho.

Até um mês atrás, os fãs ficaram sem certeza de onde onde poderiam ver a sequência da série, pois as investidas da Amazon e da Netflix deixaram as negociações em aberto. Bom, ao menos era o que o público imaginava. Na verdade não havia nenhuma negociação em aberto. O mais correto a se assumir é que desde sempre o comitê de produção de DanMachi (que conta com empresas como Genco, Movix, KlorkWorx, SoftBank Creative, Showgate, MAGES., Furyu, além de Warner Bros. Japan – responsável pela distribuição – e Sentai Filmorks – responsável pelos licenciamentos -), consideram cada título um produto diferente e por isso podem vendê-los de maneira distinta. O que é o certo!

Franquia DanMachi dividi-se em três serviços de streaming no momento

Por isso nos deparamos com a série principal em um serviço de streaming, o spin-off num segundo e o longa-metragem num terceiro. Obviamente, essa divisão se dá muito em valor do interesse comercial depositado por cada uma das empresas de streaming. DanMachi: Arrow of the Orion estar na Netflix não é uma novidade, pois a empresa vem se destacando em trazer títulos do cinema japonês para o catálogo, tenham eles sido exibidos ou não nos Estados Unidos. No caso do filme em questão há mais uma curiosidade: o fato de ele ser lançado no cinema americano só no dia 23 de julho, dezoito dias depois de estrear no catálogo da Netflix.

A Crunchyroll vem de uma outra pegada e parece que ainda não encara apostar nos títulos longa-metragem para seu catálogo. A grande surpresa aqui é ter “perdido” para a Amazon o licenciamento do spin-off DanMachi: Sword Oratoria. Entre aspas mesmo, porque no frigir dos ovos a empresa não saiu perdendo. Esse spin-off não foi dos mais queridos pelo público amargando uma popularidade ranqueada na casa dos 499, enquanto a 1ª temporada da série principal figura no 59º lugar do ranking do My Anime List.

Esses dados nos permitem aferir ainda que a trajetória mais curta e o catálogo ainda pequeno do Amazon Prime Video, no quesito animês, ainda não atraem o público. Essa pouca repercussão se reflete na baixa popularidade do animê e no fato de que a cada dia que passa mais e mais otakus vão perdendo um pouco da sua essência “raíz” de buscar títulos em fansubers e speedsubers. A indústria agradece.

Fica também o pensamento de que a equipe de licenciamento da Crunchyroll tem um bom feeling e não perdeu tempo com um título que não caiu na graça do público e seria um investimento pouco lucrativo. Mas tudo são conjecturas.

2 – O caso My Hero Academia

Esse segundo caso diz respeito também a como o streaming coloca em xeque estruturas antigas de consumo e desafia os empresários a lhe dar com o fã.

Com três temporadas disponíveis na Crunchyroll, My Hero Academia (Boku no Hero Academia no original) caminha para sua quarta season em outubro de 2019. O que deixa muito fãs do shonnen em hype elevadíssimo. Para deixar tudo mais intenso temos o primeiro longa-metragem da franquia, My Hero Academia: 2 Heróis, confirmado para estrear em sessão única no dia 08 de agosto em diversos cinemas do Brasil.

Curiosamente, o filme é licenciado no Brasil pela distribuidora Sato Company (especializada em conteúdo asiático), repetindo o que aconteceu no ano passado com Bungo Stray Dogs: Dead Apple em 2018. A série de TV é parte integrante do catálogo da Crunchyroll e o filme distribuído pela Sato Company.

Até aí tudo bem, a mesma lógica do caso 1. O comitê de produção encara cada título como um produto comercial diferente e vende de forma separada. Vai das empresas interessadas fazer a compra da licença. Ao que parece, essa dinâmica Crunchyroll licencia a série e Sato Company os longa-metragens é válida para ambas as empresas.

My Hero Academia: 2 Heróis é atração aguardada para o segundo semestre

Contudo, o problema que entra em questão aqui é o quesito dublagem. My Hero Academia: 2 Heróis foi dublado para ser exibido nos cinemas em dois idiomas (japonês e português) e conta com um bom estúdio, o UniDub, e bom dubladores como Guilherme Briggs e Lipe Volpato, além de youtubers otaku como Leonardo Kitsune, Gabi Xavier e Vii Zedek. A proposta parece que vai ficar legal.

Só que a série de TV ainda não foi dublada, e a Crunchyroll vem trabalhando em dublagens nos últimos tempos. Se por algum acaso conseguirem licenciar a dublagem da série de TV será que usaram o mesmo cast de dubladores, o mesmo estúdio, visto que cada licenciamento prevê acordos comerciais separados? O tempo dirá.

E então?

Nos dois casos, o que se percebe é que o streaming vem modificando o comportamento da indústria de animês, pois os comitês de produção tem muito mais visibilidade comercial quanto ao licenciamento de seus títulos já que para um mesmo mercado cada título pode ser distribuído para um serviço de streaming diferente.

A questão é: como o público se encaixa nisso? Por enquanto de modo nenhum, a não ser tendo uma assinatura diferente para cada streaming se quiser consumir todos os títulos da temporada ou mesmo todos os relacionados à franquia que goste. Uma crueldade com o bolso de qualquer um!

Essas possibilidades de mercado do streaming se refletem também no licenciamento para o cinema. Os títulos chegarão muito menos na grande sala (ao menos fora dos Estados Unidos) e quando chegarem se depararão com o assunto dublagem que é muito próximo dos fãs, pelo menos de quem gosta.

Isso porque quando se faz a dublagem de um filme cuja série ainda não foi dublada, promove-se um desafio ao detentor da licença da série em propor acordos comerciais que além de não desagradar os envolvidos economicamente não desagradem os fãs, envolvido afetivamente com o título e com a marca.

Respostas para esse dilemas não brotaram do éter, no entanto. Em ambos os casos uma única coisa é certa: quanto mais se tem a noção de que o streaming está sendo a melhor solução para a indústria, mas se percebe o quanto ele se torna desafiador para a Cultura Otaku ao colocar os integrantes da tribo num balaio de gato onde quem paga tudo consome tudo e é apenas isso, um grande OK, sem méritos ou demais situações, e consome tudo o faz sem garantias de saber quando, onde, como e por que em muitos dos casos. Algo a se pensar.

Até a próxima e… Sayonara!

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Artigo Otaku | A realidade do Revival de animês

Anúncio de nova série promove frisson, mas também questionamentos.

Após apresentar Orbital Era, seu mais novo filme e confirmar uma remasterização em 4K de sua obra-prima, Katsuhiro Otomo fez muitos otakus pelo mundo suspirar como em fim de coito após revelar um novo projeto de Akira. Uma série animada dentro do universo do mangá de 1982 foi anunciada durante o Anime Expo 2019, em Los Angeles (EUA). A produção ficará por conta do estúdio Sunrise (Cowboy Bebop, Gundam, Code Geass).

Ao mesmo tempo, tal anúncio promoveu um debate perspicaz entre, digamos, especialistas, que já premeditam situações de aceitação e negação do produto ainda nem comercializado puramente com base em suas experiências com o mangá e também com o animê lançado em 1988.

Depois de 30 anos do boom dos animês no ocidente, chegamos numa fase bastante assustadora aos fãs e pesquisadores do Otaku Studies. Como a onda revival pode contribuir para o fandom hoje? A resposta é: não pode! Vejamos o porquê.

Uma das alegações mais ouvidas nos últimos dez anos é que a indústria japonesa se estagnou, que os títulos não são inovadores, que se perdem em fanservice e na hipersexualização das personagens femininas etc. Nenhuma mentira, por sinal, mas o ponto de partida para vários desdobramentos.

Não consigo conceber a ideia de que a indústria aposte no revival porque as obras de 20/30 anos atrás eram superiores às de hoje. Minha ingenuidade me leva a crer que na verdade é só o fator sucesso que impulsiona um revival de um animê. Por já haver base de fãs estabelecidas a possibilidade de prejuízo é menor. O problema do revival, no entanto, é que ele se depara com a barreira do tempo. O comportamento, a cultura e a educação dos fãs da obra na sua época de auge jamais serão os mesmos 30 anos depois. Nem mesmo os fãs serão iguais.

Isso não vale apenas para animês. O revival de Rei Leão, hoje muito aguardado, já foi questionado pela tópico da expressividade dos animais. Recentemente, Mulan sofreu com críticas por mudanças na questão da trilha sonora e Ariel provocou alvoroço ao apresentar uma atriz negra no papel da princesa dos mares. Se as animações da toda poderosa Disney tem seus revival colocados em xeque (para o bem ou para o mal), o que não dizer da controvertida indústria japonesa de entretenimento?

Veja você que Os Cavaleiros do Zodiaco da Netflix nem estreou ainda, mas já é polêmico porque um personagem teve o sexo mudado. Imagine agora o que se pode esperar da nova obra envolvendo Akira? Talvez muita coisa boa se consideramos o envolvimento direto de Otomo (acontecendo de fato) ou talvez uma mudança chocante, pois nesses 30 anos Otomo pode ter moldado uma nova visão de mundo e isso influenciaria o mundo da sua obra, que por si só é uma ficção distópica bastante tênue. A paixão dos fãs pode ser maculada a cada alteração (quem lembra dos tweets de J. K. Rowling?)

Akira possui seis volumes de mangá que foram brevemente adaptados em 1988. Mesmo assim foi um sucesso. É bom deixar claro que durante o anúncio no Anime Expo 2019 nada foi confirmado. O mais cogitado, no entanto, é que se trate de um reboot mesmo. Mesmo assim, nada garante que um novo projeto – mesmo um que leve ao pé da letra o mangá – obtenha o mesmo respeito, pois o quesito repertório afetivo do público é traiçoeiro.

É verdade! Por exemplo, quando Neo Genesis Evangelion foi anunciado para o catálogo da Netflix houveram muitos comentários pró e contra. Para a Netflix tanto fez como tanto faz. Agora, o animê do estúdio Gainax é dos mais relevantes do início de julho e toda hora tem alguém no Twitter ou no Reddit dando seus pitacos. O último foi sobre a redublagem nacional (realizada por contratos comerciais) bastante criticada por , VEJA SÓ, corrigir erros da primeira versão e eliminar piadas existentes só naquela versão em PT-BR.

Dito isso, a realidade do revival otaku é uma só: As empresas o fazem porque é economicamente interessante e é a alternativa que tem em mãos para reconquistar o fã que não vê mais futuro na indústria. Isso porque todo dia tem mangás e light novels sendo rejeitados nas editoras japonesas que estão atrás do novo sucesso mundial. Todavia, elas não podem deixar de alimentar seu próprio mercado e por isso não tem vergonha de usar genéricos com fórmulas repetidas. Melhor garantir a subsistência a ter que falir. Lembre-se que nem tudo são rosas e os animadores não são os mais bem pagos do mundo.

Dessa forma – não esquecendo das novas linguagens e dos novos tempos – realizadores e estúdios apostam na espinha dorsal do projeto e retiram algumas coisas, acrescentam outras… Tudo com o objetivo de gerar o marketing mais amado de todos: o feito pelo fã.

Aí, quando este membro importantíssimo para o projeto, mas completamente à parte na sua realização, tenta tomar para si responsabilidades não lhe dadas por meio de comentários e críticas, alguém de dentro da indústria vem para relembrar todo mundo como cada um deve se comportar na equação. Não é mesmo Junichi Masuda?

Até a próxima e… Sayonara!

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