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Artigo Otaku

Artigo Otaku | No embalo das animesongs: Os artistas brasileiros (Parte 03)

Como deve ter ficado claro em nosso segundo artigo, a relação entre o Brasil e as animesongs começou a ser construída a partir das inserções e modificações das canções originais por versões nacionais carismáticas focadas num primeiro momento na busca pela satisfação do apelo comercial e depois pela construção de uma identidade local junto aos animês fazendo uso dos arranjos e melodias que atravessavam o mundo dando-lhes letras traduzidas e adaptadas para o público infato-juvenil daqui.

Já se passaram mais de 20 anos desde o sucesso do álbum “Os Cavaleiros do Zodíaco”. Nada tão significativo quanto aquilo chegou a aparecer por aqui diretamente ligado a uma franquia. Exceção para algumas canções que ficaram na lembrança dos mais velhos, o público que passou a consumir animê pela web construiu uma relação com a Cultura Pop Japonesa em outros expoentes.

O J-Pop, como já esclarecido no primeiro artigo e em outras ocasiões aqui no VOLTS, é um produto cultural de valor comercial e simbólico muito forte para os japoneses. Acredita-se que para a manutenção do soft power do país o tema seja o quarto mais popular no mundo atrás apenas da indústria do manganime, indústria dos videogames e a tecnologia no geral.

Desdobramentos desse capital simbólico podem ser encontrados ainda hoje. A animação japonesa despertou no mundo (incluindo o Brasil) o gosto por uma sonoridade diferente – mesmo carregada de esteriótipos genéricos da indústria norte-americana – que faz do J-Pop e das animesongs um conteúdo sempre novo e dinamizado. A seguir apresentamos três exemplos desse desdobramento em nosso país:

Anime Voices Brasil

No Brasil, mesmo com o consumo da música pop japonesa in natura, na segunda metade dos anos 2000 já era possível encontrar nossos próprios astros e estrelas da animesong. Nomes como Che Leal, Rodrigo Firmo e companhia tinham tudo para despontar no ramo devido a suas participações em atrações já exibidas. Mas ao que parece todos esses artistas entenderam tardiamente que suas carreiras estavam ligadas às animesongs em algum momento. Talvez pelo preconceito formado de que “música de desenho é para criança e etc” é que os dois já citados, Lucylu, Toninho Ghizzi, Ricardo Júnior e Anísio Mello Júnior se reuniram em 2013 e formaram o grupo Anime Voices Brasil.

Com cada um deles cantando alguns temas de animês com versões nacionais, o grupo se reuniu e passou a dar versões brasileira para outros temas, que faziam a cabeça dos otaku em bom e velho japonês, mas agora em nossa língua mãe. Com pouco mais de 24 mil inscritos e um total de 22 vídeos (que nada mais são que um recorte do trabalho do grupo), o canal do grupo no YouTube reúne trechos de apresentações em Anime Encontros (eventos), versões cover exclusivas e vídeos de bastidores. Em 2017 o grupo mudou de nome e agora se chama New Question e conta com novos integrantes, mas a identificação antiga segue viva na redes social.

Assista a versão cover de Change The World da boy band japonesa V6 na interpretação do Anime Voices Brasil. A canção foi o primeiro tema de abertura do animê InuYasha:

Ricardo Cruz

Na contramão do trabalho do pessoal do Anime Voices Brasil um jovem brasileiro natural de São Paulo-SP fez sua paixão por animês e tokusatsu tornar-se o seu trabalho. Após um intercâmbio de um ano no Japão, onde cursou o 3° ano do Ensino Médio, Ricardo Schiesari Barreto Cruz, decide investir em sua carreira como otaku profissional. Valendo-se das classificações usadas pelo antropólogo brasileiro Vlad-Schüler Costa, podemos dizer que Ricardo Cruz seguiu os caminhos de performer e entrepreuner para se consagrar como o grande representante da música pop japonesa em nosso país.

Uma série de coincidências também fizeram com que Ricardo Cruz se torna-se o notável que é hoje. O primeiro tema de animê cantado por ele foi Bom Dia (no Japão: Ohayo, interpretada por Keno), que foi o tema de abertura da primeira versão de Hunter x Hunter a ser exibida por aqui. Não muito depois seu nome explodiu com Megami no Senshi ~ Pegasus Forever, o tema da segunda fase da Saga de Hades em Os Cavaleiros do Zodíaco.

Ricardo já se desdobrava em outros segmento da Cultura Otaku no Brasil. Além de fazer parte do staff do primeiro Anime Friends, trabalhou no grupo Conrad Editora como redator para a Revista Herói. Entretanto seu sucesso veio mesmo em 2005 de uma maneira inusitada. Após o Anime Friends de 2004, quando Hironobu Kageyama e outros componentes da JAM Project estiveram por aqui, Ricardo caiu nas graças de Hironobu Kageyama que o ouviu cantar com uma banda cover na abertura de seu show.

De posse de uma demo de Ricardo, Kageyama – sem comunicá-lo – inscreveu o jovem brasileiro num concurso japonês que selecionaria a nova voz da JAM Project e o convidou para visitar o Japão durante a seleção. Ricardo não só participou como venceu o concurso e se tornou o primeiro (e até então único) estrangeiro a compor o grupo. No mesmo ano debutou com o single Meikyuu no Prisioner. Daí em diante sempre que a banda vem ao Brasil ou América Latina ele se junta ao grupo e canta diversos temas de animê, tokusatsus e games.

O sucesso na JAM Project fez com que Ricardo deslanchasse outros projetos. Fez participação no álbum Kazakami no oka kara de Kouji Wada na música SEM BARREIRAS ~Kagarenaki Jidai he, esteve em turnê entre 2016-2017 com Larissa Tássi, Ricardo Rossi e Edu Falaschi para o show Cavaleiros in Concert.

Na franquia Saint Seiya, Ricardo ainda chegou a cantar o tema Nova Geração (feat. Edu Falaschi, Larissa Tassi e Rodrigo Rossi) para Saint Seiya: Ômega. Em 2017 lançou o single Neo Tokyo, para celebrar a publicação do mangá Akira no Brasil. A canção mais uma vez trouxe a parceria entr Ricardo, Larissa e Rodrigo, que hoje formam o grupo Danger3. Já em 2018 seus trabalhos envolvem a parceria com o guitarrista Lucas Araújo no projeto Anison Lab, por onde lançou um tributo aos 30 anos de Jaspion no Brasil com a participação de Akira Kushida (cantor dos temas originais).

 

The Kira Justice

“Se Ricardo Cruz, um fã, consegiu fazer sucesso por que eu não?”. Esse deve ter sido o pensamento de dezenas de outros fãs brasileiros que encontraram no YouTube uma porta de emancipação dentro do fandom. Assim como vinham fazendo os fan singers estrangeiros como Miura Jam e Amalee, os otaku brasileiros investiram em suas carreiras. Nomes como Isís Vasconcellos (+1,4 milhões de inscritos), Ayu Brazil (+900 mil inscritos), Player Tauz (+1,7 milhões de inscritos) e tantos outros passaram a ser famosos entre os frequentadores da web e dos Anime Encontros.

Em todo estado deste país não é incomum encontrarmos as famosas “Anime Bandas” que são atrações em eventos de pequeno porte e agitam o público com suas apresentações covers de hits das animações japonesas e clássicos em português. Contudo, não há um caso de sucesso mais expressivo que The Kira Justice.

Hoje composta por dois membros – Matheus e Sarisa Lynar – a banda porto-alegrense ficou famosa no Brasil no fim da década de 2000 após lançar seus primeiros trabalhos com versões covers de animesongs no YouTube (por volta de 2007). Matheus Lynar é membro-fundador da The Kira Justice, que leva esse nome porque os membros originais eram fãs de Death Note.

A primeira formação contou com Matheus Lynar (voz e guitarra), Alice Salin (contrabaixo), Rafa Ballester (bateria). Também integrou a banda a vocalista conhecida como Flávia, que não permaneceu por muito tempo. O grupo passou por diversas fases com a saída de Flávia e a entrada de outra cantora chamada apenas de Mônica, que também saiu dando lugar para Sarisa Lynar, irmã de Matheus. Em 2009, o quarteto apresentou-se pela primeira vez no Anime Friends.

Já em 2012, Alice e Rafa deixaram a banda e foram substituídos por Guilherme Rossoni e Filipe Mimura, respectivamente. Os dois últimos também já deixaram a banda nos últimos anos ficando somente os irmãos Lynar. No auge da banda, os membros da The Kira Justice fizeram uma mini-turnê pela Argentina.

Nos dias atuais o trabalho da The Kira Justice com animesongs vem sendo colocado em segundo plano pelos novos anseios de Matheus Lynar, líder do grupo, mas fica na memória de todos os fãs de animesongs que o empenho de fã pode sim render bons frutos. Em  2014 a banda obteve seu maior hit com seu cover da canção Unravel (by Toru Kitajima) que lhes rendeu 6,9 milhões de visualizações.

 

E chega ao fim nossa incursão pelo fenômeno animesong. Seja no ambiente competitivo da indústria fonográfica nipônica ou nos porões virtuais da América Latina, o gênero musical se tornou algo presente não só na vida dos otaku, mas na de milhares de pessoas que passaram a ter contato mais e mais aguçado com as músicas asiáticas como um todo.

Fazer sucesso como Ricardo Cruz, ser nostálgico como Mário Lúcio de Freitas ou frenesi como The Kira Justice ao que parece não se trata de apenas golpe de sorte. Há talento envolvido e também o saber aproveitar as boas ondas promovidas pela presença dos animês no Brasil a partir do soft power japonês.

 

Pode parecer difícil ao leitor compreender como essa história de soft power. A expressão, que vem das Relações Internacionais, defende o poder de convencimento de um corpo político (nações, blocos econômicos) sobre outro a partir da apresentação de sua influências culturais e/ou ideológicas. Para o caso específico aqui tratado a expressão também pode assumir o sentido de Cool Japan (Japão Legal), que seria a estratégia do Ministério de Relações Exteriores do Japão de reerguer a economia do país atraindo investidores e consumidores para os seus produtos após um forte período de recessão econômica.

É interessante perceber que essa busca por ter sua cultura – e no caso as mídias – compartilhada com outros povos reflete-se numa construção de tribo sociais sólidas fora do local de origem desses elementos. É o caso dos otaku. Já citamos aqui o caso dos fan singers de animesong, que fazem uso do YouTube e outras ferramentas para se autopromover e também para saciar sua relação de afeto com o produto do fandom: os animês.

Ao final dessa sequência de leituras o que espero é que seu gosto por animesongs possa ter se intensificado, justificado ou despertado. Eu sigo ouvindo as minhas aqui “E quando precisar é só dizer. Estou sempre disponível. Chama amiga que eu sou tua amiga”, como diria Kacau Gomes na canção da Kim Possible.

Até a próxima e… Sayonara!

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Artigo Otaku | Do Otaku Ocidental (II)

Relembramos dois estigmas do passado que refletem o quanto o otaku é estigmatizado.

Sabe, eu acho grupos de trabalho no WhatsApp as piores coisas da Terra. Muita informação descontinuada, memes (alguns legais!), memória do celular sempre cheia de lixo eletrônico… Enfim! Uma confusão. Obviamente um mal necessário.

Dentro desse grande número de grupos de WhatsApp que eu faço parte um me anima bastante (além do da equipe VOLTS, é claro): o do grupo de amigos otaku. Um grupo de pouco mais de onze participantes – o que é um bom número – que se reuniram originalmente em outro projeto. Cada um com suas peculiaridades, gostos, interesses, mas sempre dialogando em conjunto sobre um mesmo tema: Cultura Otaku.

Sou audacioso ao dizer que quase se trata de uma comunidade virtual bem ativa, mesmo que às vezes fiquemos muito mais que três semanas sem trocar uma única mensagem sequer. Mas basta algo bombar ou virar polêmica no meio otaku… E aí estamos nós conversando.

O otaku-zoku (a tribo otaku) se organiza sempre assim, em grupos pequenos ou grandes para alimentar seu desejo por curtir mangás e animês, como o de se sentir parte de algo maior. Obras como Otaku no Video e Geshiken, que retratam o modo de olhar a comunidade otaku tradicional (japonesa) são inspirações para o otaku ocidental, que busca compartilhar de bons momentos juntos a outro de sua mesma “espécie”.

Nesta segunda parte da série de artigos “Do Otaku Ocidental” relembro duas situações que criaram estigmas sobre a comunidade otaku no Japão e no Brasil e nos ajuda entender o quanto hoje estamos “evoluídos” em termo de comunidade.

Chutando de forma generosa, há 15 anos quando se falasse em otaku no Japão o que se vinha à tona em muitos momentos era o caso Miyasaki. Não me refiro ao famoso cineasta Hayao Miyazaki e sim ao assassino Tsutomu Miyazaki, que em 1989 foi preso após ser acusado de molestar uma criança de cinco anos. Para a polícia confessou outros quatro crimes semelhantes com morte das meninas. Em 2008 foi condenado à morte por enforcamento.

Tsutomu colecionava mangás e fotografias. Na visão japonesa: um otaku. Seus crimes e sua vida pessoal o apelidaram de “Assassino Otaku”. Um olhar de reprovação moral caiu sobre todos que se encaixassem ou apresentassem com o nome da tribo social.

Para a polícia havia uma relação comportamental direta entre os gostos do “Monstro de Saitama”, outro de seus codinomes midiáticos, e seus crimes. Isso devido ao modo como ele praticava os assassinatos, que envolviam mutilações e necrofilia. Tsutomu era apaixonado por filmes de terror também e em sua casa foram achados muitos VHS do gênero.

Esse olhar que maculou a figura dos otaku comentada por Akio Nakamori num período tão próximo se espalhou também para outras comunidades e nações.

Diferente dos países asiáticos onde a visão religiosa politeísta predomina e não exerce influência sobre as práticas de consumo das pessoas, no Ocidente ser otaku tornou-se uma tarefa de extrema dificuldade no início do século XXI. Nos primeiros momentos do século atual e da geração millennial tudo o que passava na TV tinha que ter um selo de aprovação religioso de pais, responsáveis e “especialistas”.

Talvez, no Brasil, o exemplo mais clássico desse impacto cultural entre a mídia pop japonesa e a tradição judaico-cristã ocidental tenha sido com as cartas de Yu-Gi-Oh! Em 2003, Gilberto Barros, na segunda fase do programa Boa Noite Brasil, realizou quatro programas focados em condenar o que ele chamou de “baralho do demônio”.

O grande dia da denúncia foi na quinta-feira (05 de junho de 2003), quando reunindo uma espécie de “tribunal”, Gilberto Barros contou com a presença de um teólogo como advogado de acusação, um organizador de eventos de cardgame no papel de advogado de defesa, além de um psicólogo e um juiz da Vara da Infância e Juventude que poderiam muito bem ser interpretados como o júri popular.

Como a salada ainda poderia ser melhor, além do ataque ao TCG houve também o momento palestrinha sobre Dragon Ball Z. Usando um trecho do filme “A Árvore do Poder”, que na época foi exibido em algumas sessões de cinema do país, o apresentador tentou construir um factoide sobre como o animê influenciava os filhos a desobedecer os pais.

Anos depois, Giberto afirmou em diversas entrevistas que na época não sabia direito do que se tratava Yu-Gi-Oh! e disse que apenas seguiu a pauta do programa. Engraçado pensar nisso quando se recorda que o Grupo Bandeirantes – responsável pelo show noturno – também é famoso por ter exibido diversos animês, inclusive Dragon Ball Z. Rindo, se pode dizer que o ataque foi mais um recalque para com a Globo (exibidora de Yu-Gi-Oh! na época) do que uma preocupação com os filhos dos outros.

Parando agora para encarar o quanto a comunidade otaku teve que aturar ao longo dos anos até ser reconhecida como tribo social midiaticamente forte, eu tenho que ceder e dizer que realmente vale mesmo muito manter contato com outros otaku através do WhatsApp.

O otaku ocidental, além de ter que lhe dar com os dilemas deixados pelo passado agora também tem que conviver com as construções narrativas duvidosas de membros da própria tribo, que embora busque viver em sociedade de forma amigável ainda é submetida aos conflitos de ideais e interesses de cada um. Assim, persiste o questionamento:

E você, já sabe que tipo de otaku é?

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Artigo Otaku | Do Otaku Ocidental (I)

Este é o primeiro de uma série de artigos sobre a comunidade otaku ocidental atual.

O espaço destinado pelo VOLTS para reflexões sobre a Cultura Otaku torna bem estimulante o pensar sobre essa tribo social em cada novo artigo. A série que se inicia aqui é um ensaio para debater justamente como nós – os otaku – estamos organizados hoje.

Há 36 anos, o jornalista e crítico social japonês Akio Nakamori trazia ao seu povo a definição moderna para o termo otaku.

Satírico, Nakamori retratou em textos publicados na revista adulta Manga Burikko comentários pouco atraentes a respeito dos fãs de animações e quadrinhos em auge no seu país naquela época, tais como Yamato Battleship, Gundam e até mesmo o clássico Castelo Cagliostro. A crítica do jornalista buscava retratar como na sociedade japonesa dos anos 1980 estavam se organizando movimentos de pessoas em torno de elementos midiáticos ficcionais de forma intensa e – aos olhos dele – desequilibrada.

Trazendo à tona o pronome em desuso para “você”, Nakamori reuniu os mania, nekura-zoku e byouki em um único grande grupo a fim de comentar sobre suas aventuras diante da Comiket (a maior convenção otaku do Japão). A pergunta chave do texto mais popular dos “Estudos de Otaku” (Otaku no Kenkyu), como ficaram conhecidos seus artigos, é:

“Então, que tipo de otaku és tu?”

De lá para cá muita coisa mudou – e muitas nem tanto – e o termo carregado de deboche e mal recebido inicialmente tornou-se o título perfeito para definir o fã da indústria do manganime japonês. Está certo que ainda hoje há quem tenha controvérsias sobre ser chamado de otaku, mas já é uso comum para milhões de pessoas, para a mídia.

Hoje já trabalhamos com definições diferentes. Há o otaku tradicional, nascido no Japão, e há o otaku ocidental… Otaku ocidental? Pois é, a globalização permitiu que o otakuway saísse do arquipélago no Oceano Pacífico e conquistasse diversos rincões do planeta.

É esse otaku ocidental que vem ajudando a pautar a indústria que tanto aprecia. Será isso realmente a verdade? Um olhar mais profundo faz crer que há um jogo ilusório entre produtores e consumidores onde ambos alegam dizer ter um bom relacionamento e controle sobre aquilo que chamam de cultura (a Cultura Otaku), quando na verdade somente um lado da corda detém o legítimo controle. Eu nem preciso dizer qual não é?

Ao longo desta série debateremos sobre como a visão ocidental impacta o entretenimento japonês e como ele se organiza diante da multifacetada comunidade otaku que se criou nessas mais de três décadas passadas.

Para dialogar com os dois grupos de otaku – o tradicional e o ocidental – a mídia japonesa vem se organizando em uma vertiginosa formação de combate onde o consumidor é inserido dentro do centro do campo de batalha, numa mentirosa sensação de espaço, ao mesmo tempo que é cercado pelos flancos pelas inúmeras diretrizes e fetiches e advindos das noções de mercado da indústria.

Esse embate se intensifica e envolve outras entidades e pessoas que buscam manter a sociabilidade e a moralidade alinhadas, algo que no mundo dos otaku às vezes parece estar perdido. Enquanto a ONU apresenta novas diretrizes que buscam eliminar qualquer indício de sexualização infantil em conteúdos de entretenimento, tais como animações, nunca se viu tanto conteúdo inapropriado sendo produzido e disseminado pela indústria e pelos fãs.

Quando outros discutem a falta de representatividade femininas em jogos o que vemos, ouvimos e lemos são ataques carregados de ódio ao formadores de opinião que tentam alertar seu seguidores que machismo é errado e compromete o bem estar social; que alimentá-lo no entretenimento é concordar com ele no mundo real.

Ao passo que todos falam em promover a Cultura Otaku, mas ninguém quer admitir que por mais importante que tenham sido (e ainda sejam!) scans e subs não são caminhos legais para isso.

Resumindo, o otaku ocidental é isso: retalhos de hipocrisia. Mas nada de espanto! A sociedade é assim também.Jean-Jacques Rousseau uma vez disse que o homem seria bom por natureza e que a sociedade o corrompeu. O ícone da filosofia iluminista ao falar sobre a moral criou um argumento ainda hoje muito sustentado (com ressalvas!) de que o perigo está na forma como nos organizamos em conjunto.

Entretanto neste artigo sou capaz de afirmar que Nietzsche tinha motivos para discordar do pensador. Isso porque se a sociedade existe é a motivação está no ser humano que se reúne, portanto ela [a sociedade] não corrompe o homem e sim nasce corrompida pelo próprio criador que imprime nela suas ambições.

Com os otaku é simplesmente o mesmo. Há muita maldade no meio da tribo porque há uma forte intensão de manifestar fetiches e ambições. Numa tentativa de fuga social, o otaku replica aquilo que não pode ou não deve na realidade e constrói sobre si um castelo de cartas prestes a ruir sustentado apenas pela arrogância.

Esse é o otaku ocidental, que dialoga com os argumentos da boa sociedade e, contudo, por causa do seu fetichismo ainda não conseguiu compreender que mudanças devem ser feitas e que as críticas de Akio Nakamori ao otaku tradicional são as mesma repetidas nos dias de hoje. O que nos leva a perguntar também:

E você, já sabe que tipo de otaku é?

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Artigo Otaku | Mirai no Mirai e a obra de Mamoru Hosoda

Indicação ao Oscar 2019 é encarada como homenagem ao animador japonês.

Ofuscada pela treta envolvendo os sites de fansubs e a Crunchyroll da semana passada, deixou-se de comentar neste site a indicação de Mirai no Mirai (Mirai of the Future, no ocidente) entre os finalistas do Oscar 2019 na categoria de Melhor Filme de Animação.

Mas agora corrigimos nossa falha ao citar aqui o filme indicado e comentar sobre a obra de seu realizador: Mamoru Hosoda.

Classificando-se numa lista de mais de vinte nomes, Mirai no Mirai é o representante dos animês entre os cinco melhores filmes animados de acordo com a The Academy Awards. Além dele também figuraram na pré-lista: Liz to Aoi Tori (Liz and the Blue Bird), Yoru Wa Mijikashi Arukeyo Otome (The Night Is Short, Walk on Girl), FireWorks e
Sayonara no Asa ni Yakusoku no Hana wo Kazarou (Maquia: When the Promised Flowers Blooms).

Mirai no Mirai é um filme realizado por Mamoru Hosoda, animador e diretor japonês, que vem sendo celebrado nos últimos anos por bons filmes e trabalhos em séries de TV. O filme acompanha a história do garoto Kun, que vê sua vida mudar com a chegada da irmã mais nova, Mirai, e vai ter que lhe dar com as emoções e sensações vividas por toda criança que vive aquele ciúme infantil a cada dia e com cada descoberta.

Em Mirai no Mirai, Ko e sua irmã (vinda do futuro) tentam se aproximar a pesar das diferenças. Imagem: Mamoru Hosoda/Madhouse.

No geral, o que se pode falar sobre o filme é que ele tem um toque de sutileza bem marcante das obras produzidas por Hosoda. Intuitiva, a animação gira em torno do tema família e constrói a trama em cima de um universo lúdico que divide nossa opinião entre a simples inocência da infância ou uma recorrente interferência do sobrenatural. Somos levados a acreditar na segunda opção por se tratar de um filme de Mamoru Hosoda, que dialoga com bastante afinidade com o imaginário e o mítico.

Mais do que isso é esperar demais. Mirai no Mirai é um filme dramático e com uma mensagem bastante pertinente para os dias atuais. Diria até que é a indicação perfeita para quem vai ser pai de primeira viagem ou quer ter um bom exemplo para discutir Educação Infantil. Tecnicamente é bem elaborado com dinamismo nas animações de paisagens e personagens, além de uma coloração, efeitos e trilha sonora impecáveis. Entretanto, apenas isso (sendo repetitivo).

Essa conclusão rápida me faz dizer que o que acaba pesando na escolha do indicado nessa espécie de “cota para filmes asiáticos” na premiação está muito mais relacionada ao peso do nome do realizador/diretor. Essa é a segunda vez que Mamoru Hosoda figura entre os pré-indicados ao Oscar. Em 2011, seu filme Summer Wars ficou entre os pré-indicados e não foi finalista (naquela ocasião Toy Story 3 foi o vencedor).

Indicado, Mirai no Mirai acaba por estabelecer um importante marco para a animação japonesa na premiação mundialmente aclamada: o de ser o primeiro filme de animê não produzido pelo Studio Ghibli a figurar entre os cinco finalistas na categoria de Melhor Filme de Animação.

O realizador japonês se torna também o quinto japonês a disputar o icônico troféu na categoria. Além de Hayao Miyazaki e Isao Takahata, Hiromasa Yonebayashi (direção) e Yoshiaki Nishimura (produção) foram os outros dois com seu trabalho em Omoide no Marnie (Memórias de Marnie), que disputou no Oscar 2016. Tal filme foi também o último animê totalmente japonês a disputar o Oscar. Em 2017, La Tortue Rouge (co-produção Wild Bunch e Studio Ghibli) também chegou na última fase da premiação. No Entanto, esse filme é uma co-produção franco-belga-japonesa.

Mamoru Hosoda é ícone entre fãs otaku pelo seu trabalho com animês.


Mamoru Hosoda, 51 anos, natural da Prefeitura de Toyama, tem um dos currículos mais bem sucedidos da atualidade por contar com grandes produções em que esteve envolvido. Trabalhando tanto com séries de TV, durante sua passagem pela Toei Animation, quanto com longas-metragem desde sua chegada aos estúdios Madhouse.

Na primeira fase de sua carreira (na Toei Animation) desempenhou papel de animador, diretor e realizador de títulos famosos como Yu Yu Hakusho, Sailor Moon, Dragon Ball Z, One Piece e Digimon Adventure.

Já na Madhouse iniciou sua carreira como destaque do cinema de animação japonesa contemporânea com sucessos como Wolf Children (Crianças Lobo) e Bakemono no Ko (O Rapaz e o Monstro), filmes presentes no catálogo da Netflix há pouco tempo.

Podemos elencar seus trabalhos conforme a função exercida na seguinte lista:

Como animador

  • Slum Dunk (episódios 29 e 70);
  • Sailor Moon Stars (episódio 07);
  • Sailor Moon Super S: O Filme;
  • Ashita no Nadja (episódio 26);
  • Yu Yu Hakusho: Mekai Shito Hen – Hono no Kizuna (1995);
  • Dragon Ball Z (episódio 173);
  • Dragon Ball Z: Broly – O lendário Super Saiyajin;
  • Dragon Ball Z: Broly – A segunda vinda;
  • Dragon Ball Z: Em Busca do Poder;
  • Crying Freeman;
  • Galaxy Express 999;
Ame e Yuki são os protagonistas de Wolf Children (2012) o primeiro filme de Hosoda a abordar a família como tema central. Imagem: Mamoru Hosoda/Madhouse.

Como diretor assistente

  • Samurai Samploo (tema de abertura);
  • Ashita no Nadja (temas de abertura e encerramento; episódios 5, 12 e 26);
  • Ojamamo Doremi Dokkan (episódios 40, 49);
  • One Piece (episódio 199);
  • Superflat Monogram (curta-metragem de 2003 com parceria de Takashi Murakami);
  • Digimon Adventure: O Filme (média-metragem, 1999);
  • Digimon Adventure (episódio 21);
  • Digimon Adventure: Our War Game! (média-metragem, 2000)
Também falando de família, Bakemono no Ko é um filme com um grande desfecho que reúne o melhor do estilo de Hosoda. Imagem: Mamoru Hosoda/Madhouse.

Como diretor principal

  • Digimon Adventure: O Filme (longa-metragem, 2000) com parceria de Shigeyasu Yamauchi;
  • One Piece: Baron Omatsuri and the Secret Island (2005);
  • Toki wo Kakeru Shoujo (2006)
  • Summer Wars (2009);
  • Ookami Kodomo Ame to Yuiki (Wolf Children) (2012);
  • Bakemono no Ko (2015);
  • Mirai no Mirai (2018);

Como se pode ver, a lista de trabalhos de Mamoru Hosoda é bem produtiva e recheada de clássicos. O que consolida seu nome como mais um grande artista da animação mundial. Talvez eu esteja enganado e Mirai no Mirai tenha sido indicado por também ser um bom filme, mas é mais correto apostar que a indicação foi uma forma encontrada para homenagear o próprio japonês.

É bem difícil encarar um universo onde Mirai no Mirai tenha a chance de vencer em sua categoria quando consideramos seus concorrentes. O favorito, Homem-Aranha no Aranhaverso, dispara na frente tanto pelo modo como foi realizado quanto pela sua recepção no cinema mundial.

Mas creio que para Mamoru Hosoda, ou qualquer fã dele, o mérito maior já veio com o reconhecimento de seu trabalho. Afinal de contas, não é para qualquer um estar entre os melhores no tapete vermelho do Oscar.

Lembrando que a Premiação do Oscar 2019 acontece no próximo dia 24 de fevereiro e o VOLTS vai trazer todas as novidades diretamente nas redes sociais. Não perca!

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