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Artigo Otaku

Artigo Otaku | No embalo das animesongs: o Subgênero e os Covers (Parte 01)

Popular, as animesongs são um substrato de acontecimentos que envolve a indústria de animês.

Exatamente uma semana atrás o staff da Maru Division (detentora das marcas Anime Friends e Ressaca Friends) anunciava a vinda da cantora pop Konomi Suzuki pela primeira vez ao Brasil. A artista, que é reconhecida como uma das divas do J-Pop dos últimos tempos é também carinhosamente querida por alguns como a “Rainha das Animesongs”. Isso porque em sua carreira de apenas sete anos (iniciou os trabalhos em 2011) ela já soma mais de 20 canções entre temas de abertura, encerramento e inserções.

Desde 2003 a presença de artistas japoneses em solo brasileiro passou a ser comum no eixo Rio-São Paulo graças a eventos como o Anime Friends, e depois ganhou outras cidades como Porto Alegre, Brasília, Recife e Fortaleza. Essa aproximação muito influenciada pelas animesongs (ou anisongs, anisons), canções presentes em OST das animações japonesas – os animês – que são bastante popular por aqui, como já se sabe.

Essa presença dos astros e estrelas da Música Pop Japonesa (o J-Pop) é marca registrada da indústria do manganime. Num grande fomento de mercado os comitês de produção fecham parcerias com gravadoras para a comercialização da trilha sonora das animações e isso inclui também as vinhetas de abertura e encerramento, que dão lugar a verdadeiros clipes com cenas fanservice das personagens da trama. Tudo isso embalado pelos hits de cantores, cantoras e bandas que se destacam no cenário fonográfico do momento.

Levando em consideração que a indústria fonográfica japonesa é a segunda maior do mundo, as agências musicais sempre buscaram meios de capitalizar seus produtos. O animê é um substrato disso. Não é incomum cantores estreantes debutarem com canções-tema em animês, artistas famosos lançarem singles em animações de destaque na programação de TV nipônica e a assim se consagrarem mundo a fora.

Isso justifica o frisson que o anúncio de Konomi Suzuki no Brasil promoveu nas redes sociais de muitos otaku nos últimos dias. Mais ainda: isso justifica a propagação do J-Pop – e seus subgêneros – para muitos outros países e cenários. Já comentei essa globalização do J-Pop em outros momentos aqui mesmo no VOLTS. Só que também é importante destacar o apelo que esse conteúdo ganha ao ponto de proporcionar a criação de um conteúdo original, que por vezes é consagrado e outras rechaçado.

(Em apresentação no Japão, Komoni Suzuki intepreta Days of Dash, primeiro grande sucesso da carreira com animesongs. Canção é o tema de abertura do animê Sakurasou no Pet na Kanojo de 2012)

 

Karaokês, Artistas e Subgênero

Não é novidade que todo fã de animê é sedento por aprender a cantar as músicas de suas atrações favoritas (mesmo não sabendo nada de japonês) e acabam entrando num universo novo. Começa com os karaokês – que no caso se refere às romanização dos kanjis que aparecem junto aos clipes (quase como uma legenda) impulsionando todos a cantar sem precisar saber falar a língua original. Esses karaokês são frutos das incansáveis fansubs, que fazem todo o processo de preparar o animê para o fã. É óbvio que a ideia do karaokê é originada no Japão. Por lá não são raros os casos onde as aberturas e encerramentos de animês contam com karaokês originais em kanjis e furiganas, tudo num processo de marketing que auxilia na divulgação dos propensos hits musicais.

Tal trabalho de comercialização transformou o animesong não apenas numa classificação, mas num verdadeiro subgênero musical no Japão. Há cantores de J-Pop, há cantores de J-Pop que cantam animesongs e há apenas cantores dedicados às animesongs. Casos clássicos são Hironobu Kageyama, Masaaki Endoh e Akira Kushida – que se dedicaram também às tokusatsusongs e – a exceção de Kushida – se organizaram para formar a JAM Project. Essa é a atualmente a maior referência sobre a produção de animesongs no Japão que se tem notícia.

Só que o mercado percebe que as animesongs atraem público consumidor e trabalha o marketing de seus artistas inserindo-os no subgênero. Nomes como Man With a Mission, FLOW, LiSA e a própria Konomi Suzuki são inseridos no mercado de animesongs a fim de bombar como hit fora do contexto local ganhando o mundo.

Há também casos contrários onde compositores se destacam pelas suas produções em OST de animê. Yuki Kajiura, Seiji Yokoyama (in memorian) e Hirouyki Sawano são exemplos de profissionais que se tornaram famosos por suas contribuições para as animesongs. Este último é atualmente um dos mais aclamados pela mídia japonesa e se destaca por fazer uso de seus temas de animê para promover seu projeto musical SawanoHiroyuki[nZk], que reúne cantores multinacionais (Japão, Filipinas, Taiwan, Estados Unidos, Alemanha e Brasil) para criar uma espécie de linguagem universal para o J-Pop e as animesongs como um todo.

(THE HERO, tema de abertura de One Punch-Man é um dos principais sucessos do JAM Project, que reúne os principais nomes das animesongs)

 

Popularidade no Mundo e os Covers

Essa modernização, se podemos dizer assim, permitiu que as animesongs se tornassem parte do soft power japonês. Já não é mais estranho você conhecer alguém que consome J-Pop. Isso porque em algum momento essa pessoa teve contato com as animesongs e assim acabou expandindo seus horizontes de consumo. Talvez isso tenha ajudado também na popularização do Hallyu, a onda coreana, e o K-Pop (não tenho como confirmar!) e faça o mesmo com outros segmentos de pop e rock advindos do sudeste da Ásia.

O certo é que no Ocidente, animesong também é sinal de cover. Sim, regravações daquelas canções que despertam o interesse pelo segmento musical oriental. Esses covers podem ser tanto tributos quanto adaptações para outros idiomas. Para ilustrar posso citar casos de renome como o álbum cover com os temas de Attack on Titan (Shingeki no Kyojin, no original) lançado em 2018 pela banda holandesa de symphonic rock EPICA, que faz um tributo à banda Linked Horizon e a ambientação sonora que suas músicas atribuem ao animê.

Casos a parte como esse – onde um grupo famoso faz o cover – temos um grande dinamismo de web famosos (antes anônimos) que começaram divulgando suas versões em serviços como YouTube e chegaram a se profissionalizar cantando em eventos e convenções que reúnem fãs otaku.

Destaque para os youtubers Miura Jam (+82 mil de seguidores), Amalee (+1,2 milhão de seguidores), Raon Lee (+2,6 milhões de seguidores) e PelleK (+2,9 milhões de seguidores) que estão entre os mais ouvidos das redes. Alguns deles até já são presenças garantidas em serviços streaming como Deezer e Spotify.

O que eles fazem não nada de tão extraordinário, apenas fazem uso de um bom marketing – montado em cima dos sucessos das animesongs – para atrair seguidores que se encantam com as performances, cenários e pós-produção dedicada aos seus vídeos reunindo assim duas das três carreiras morais dos otaku defendidas pelo antropólogo brasileiro Vlad Schüler Costa: o performer, que seria aquele que se destaca realizando uma atividade prezada por outros otaku, e o entrepreneur, que seria aquele que utiliza-se de sua condição enquanto otaku para convergir para uma carreira profissional.

(Parceria entre o americano Pellek e a sul-coreana Reon Lee rende muitos frutos no Youtube. No vídeo eles cantam a nova versão de Soldier Dream, tema de Saint Seiya imortalizado na voz de Hironobu Kageyama)

 

Com deu para perceber, esse assunto não é algo obscuro como se imagina. Falar de animesongs é falar de reconstrução afetiva de fãs, mas mais ainda é falar de consumo. O fenômeno animesong embala todo um mercado dentro e fora do Japão. Um subgênero musical que serve tanto para inserir ou revitalizar artistas na corrida por um lugar ao sol na competitiva indústria fonográfica japonesa, como age no papel de ferramenta de soft power para a divulgação do estilo japonês de ser pop também no segmento musical.

Diferente de tudo, as animesongs também conquistaram os brasileiros. Na segunda parte deste artigo falaremos mais sobre isso destacando o impacto desse produto na comunidade otaku local.

Até a próxima e… Sayonara!

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