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Artigo Otaku

Artigo Otaku | No embalo das animesongs: O fenômeno no Brasil (Parte 02)

Como bons fãs tivemos nossa própria origem na hora de consumir as animesongs.

Na primeira parte desse artigo destaquei o conceito prático de animesong e apresentei sua disseminação no Japão e no mundo –  e a forma com ele se relaciona com os  otaku na hora de transformarem tal produto como parte de sua carreira de fã -.

Para este segundo momento faz-se necessário também afunilar a abordagem do tema no Brasil. Possuindo a maior colônia de japonês fora de seu país natal, o território brasileiro entrou em contato com diversas nuances da cultura nipônica desde elementos mais tradicionais/folclóricos ao pop. A música não foi diferente. No Estado de São Paulo, onde se concentra a maior parte da comunidade japonesa no Brasil, os clubes de karaokês e os festivais de Música Enka fazem da musicalidade oriental traço forte da região Sudeste.

Entretanto, diferente do que se imagina, a relação brasileira com as animesongs não nasce inicialmente com as animesongs “de fato” e “de direito” fazendo o uso das terminologias da área judicial para ilustrar a sentença. Conforme defendem pesquisadores da área como Cristiane A. Sato (JAPOP: o poder da Cultura Pop Japonesa, 2007) e Sandra Monte (A presença do animê na TV brasileira, 2010), o contato inicial do brasileiro com as animesongs foi compartilhado em duas situações:

1) Os VHS que eram enviados do Japão para cá com gravações dos programas exibidos na TV eram distribuídos entre as comunidades de descendentes, que por sua vez faziam isso chegar a amigos próximos;

2) Algumas séries tokusatsu que eram exibidas na TV aberta continham os temas originais;

O mesmo não acontecia com os animês. Para essas produções duas opções eram utilizadas no tocante às canções-tema: ou eram cortadas ou eram adaptadas. Não era incomum as poucas séries de animê exibidas terem suas aberturas substituídas por vinhetas curtas ou acabarem recebendo uma nova abertura (muitas vezes devido ao distribuidor ocidental que também adotava essa mesma estratégia).

Só nos anos 1990 é que essa cultura começou a mudar. Em 1994, quando da estreia de Os Cavaleiros do Zodíaco, um tema de abertura inédito foi introduzido na série. A franquia com animação feita pela Toei Animation havia sido licenciada e distribuída a partir de um representante ocidental. Assim, quando a Samtoy decidiu fazer a venda dos bonecos articulados da série produzidos pela Bandai trouxe o material animado com dublagem e adaptação de texto feitos na Espanha.

Foram essas adaptações de texto espanhol que levaram a versão dublada da Gota Mágica a ser satirizada (mas nem por isso não amada!) ao trazer nomes de personagens e golpes trocados, frases sem contexto e um tema de abertura em nada compatível com o original Pegasus Fantasy, do grupo de J-Rock MAKE-UP, que fazia relativo sucesso nas paradas nipônicas entre o fim dos anos 1980 e início dos anos 1990.

“Os Guardiões do Universo”, o tema que você ouve acima, é por sua vez a versão brasileira da versão francesa original do tema de abertura do animê. Por aqui foi interpretado por Sarah Regina com o backing vocal de Mario Lúcio de Freitas, o dono da Gota Mágica. Dublador e músico, Mário Lúcio acabou ficando responsável por fazer a trilha sonora nacional da animação. Da mesma forma que fizeram na França, ele produziu uma canção na nossa língua materna e esta foi a utilizada pelas primeiras exibições feita na extinta TV Manchete.

O tema acabou também sendo o estopim para a canção Força Astral, que foi inserida como parte da trilha sonora do animê junto a mais sete canções inéditas feitas por Mário Lúcio e que foram compiladas em um álbum lançado em 1995 com 12 faixas (sendo quatro delas instrumentais/playbacks). Sarah Regina, a título de curiosidade, é esposa de Mário Lúcio com quem teve três filhos, Karina, Rodrigo e Felipe: os interpretes de “Força Astral” eRap do Zodíaco” (saca só que viagem!).

Mas a música que se tornou mais popular do álbum foi “Os Cavaleiros do Zodíaco” interpretada pelos jovens Larissa e William. A canção-título do álbum – lançado em CD, K7 e Vinil – foi muito tocada em festas de aniversários entre 1995 e 1997, além de dar as caras em programas como o Xou da Xuxa na Rede Globo. O álbum Os Cavaleiros do Zodíaco vendeu mais de 700 mil cópias e ganhou Disco de Ouro, Platina  Platina Duplo. Um sucesso!

Mário Lúcio de Freitas ainda ficaria responsável por outro álbum de animê no Brasil: Guerreiras Mágicas de Rayearth. O álbum foi inspirado no animê homônimo exibido pelo SBT em 1996. O tema de abertura “Guerreiras Mágicas” contou novamente com a pequena Larissa. A canção mais uma vez fugia do original japonês Yuzurenai Negai interpretado na voz da inoxidável Naomi Tamura e mesmo assim cativou o público.

O álbum contou com canções interpretadas por Larissa (já sem William) e Sarah Regina, além de backing vocal composto por Fabíola Pires, Fátima Regina, Marize Rezende, Silmara Rezende, Nair de Candia, Cláudia Ferrete, Cristiane Firmo e Karina de Freitas.

Daí por diante já estava enraizado no público brasileiro de televisão que consumia desenhos animados japoneses (crianças e adolescentes) a proto-cultura dos temas de abertura e encerramento. Não era ainda nada comparado ao fenômeno animesong do qual já falamos, mas se encaminhava para isso.

Temas como “Fantástica Aventura” (Dragon Ball) nos revelou Anísio Mello Júnior que anos mais tarde seria responsável também por Temos a Força / We Gotta Power (Dragon Ball Z). Outros nomes de talento que apareceram foram Rodrigo Firmo (intérprete de Cha-La Head Cha-La em Dragon Ball Z) e Che Leal, conhecido por inúmeros temas de animê dentre eles Soldier Dream, a segunda abertura de Os Cavaleiros do Zodíaco após a segunda dublagem feita pela Álamo.

Voltando a falar em Os Cavaleiros do Zodíaco… Foi com a sua segunda dublagem que pudemos ter contato com as versões brasileiras dos temas japoneses.  Edu Falaschi – na época vocalista do grupo de power metal Angra – cantou os tema de abertura, “Pegasus Fantasy”, e de encerramento,Blue Forever, respeitando a pegada metaleira do J-Rock do grupo MAKE-UP.

Antes de essa fase musical que envolvia animês e televisão encerrar ainda tivemos diversas passagens interessantes de artistas nacionais pelo segmento. Casos destaque são Eliana e Angélica. Nos anos 2000 a disputa Pokémon vs. Digimon se intensificou por aqui. Restou às emissoras envolvidas se aproveitar das animesongs também na hora de brigar pela audiência.

Em 1999, na Record, Eliana faria a propaganda do Game Boy de forma quase velada (o console aparecia em poucos segundos de vídeo) e também da promoção mais amada feita por uma marca de refrigerante (saudades Caçulinha Pokémon!) durante seu matinal infantil na grade da emissora juntamente com seu videoclipe “A Força do Mestre.

Rivalizando loiras com loiras coube a Globo, no ano seguinte Angélica estrelaria o tema de abertura de Digimon com a versão brasileira do “Digi-Rap (canção norte-americana da série) que ficou em nossas memórias, mas que privou muitos por muito tempo de conhecer o hino otaku chamado “Butterfly interpretado por Kouji Wada (que hoje descansa no Senhor).

Os laços entre TV e animês foram ficando cada vez menos intensos. Em 2003, quando da exibição de Naruto no SBT, o animê do ninja loiro já não contava com tema de abertura cantado. Uma trilha (made in USA) era o tema que substituía R.O.C.K.S (by Hound Dog) a primeira abertura do animê.

Obviamente ainda tivemos algumas outras canções sendo interpretadas por artistas locais, mas o pouco interesse em exibir desenhos japoneses refletia-se na pouca produção de material fonográfico. Antes de um intervalo considerável nesse mercado, Os Cavaleiros do Zodíaco ainda voltariam a ser destaque mais uma vez com sua Saga de Hades e aí Larissa – agora Larissa Tássi – voltaria a cantar uma abertura: Pelo Mundo”, versão adaptada deChikyuugi”, e Sob o Mesmo Céu Azul”, versão adaptada de Kimi to Onaji Aozora’, ambas por Yumi Matsuzawa.

Nomes como Ricardo Cruz e Rodrigo Rossi também apareceriam nesse momento e ajudariam a manter viva a paixão pelas músicas de animês. Mas a pergunta que fica é: E como que se deu o consumo das versões japonesas? Bom, em nosso terceiro e último artigo a resposta para esse questionamento.

Até a próxima e… Sayonara!

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