Artigo Otaku | Nem Thanos é páreo para a indústria ‘Manganime’





06/05/2018 - Atualizado às 19:47


“Eu não quero ir” – Peter Parker/ Homem-Aranha (Tom Holland)

Talvez a frase mais marcante do filme dirigido pelos irmãos Russo possa ser colocada em um novo contexto. Imagine não apenas Peter Parker, mas sim o grande protagonista Thanos expressando seu sentimento diante do susto sofrido no Japão na semana que passou.  Para ele não seria difícil. De posse da Joia do Tempo qual não seria suas possibilidades de ver o que o futuro lhes reservaria na Terra do Sol Nascente? Infelizmente tudo não passa de ficção e Thanos nem deva se importar com isso. Mas a Marvel Studios talvez sim, e quem sabe não estivesse preparada para o chocante resultado da sua primeira semana de Vingadores: Guerra Infinita nos cinemas nipônicos.

Em notícia publicada no último dia 03 de maio, o site de cultura pop oriental JBox atualizou os dados da bilheteria nacional japonesa da última semana de abril (data da estreia mundial do novo longa-metragem da Marvel).

Numa rara ocasião, o blockbuster sucesso no mundo inteiro ficou apenas em segundo lugar a frente de Jogador N°1, que estava em sua segunda semana em cartaz por lá. Completaram a lista ainda: Crayon Shin-chan Explosion! Kung Fu Boys ~ Lucky Night Taste (4° lugar em sua 3ª semana), Viva! A vida é uma festa! (5° lugar em sua 7ª semana), Tonari no Kaibutsu-kun (6° lugar em sua estreia), Inuyashiki (7° lugar em sua 2ª semana), Marmalade Boy (8° lugar em sua estreia), O Poderoso Chefinho (9° lugar em sua 6ª semana) e Jumandi – Bem vindo à selva! (10° lugar em sua 4ª semana).

O filme que desbancou Vingadores: Guerra Infinita foi Dectetive Conan: Zero the Enfocer, o 22° filme da franquia Detective Conan que – acreditem! – estava em sua terceira semana de exibição.

Isso pega de surpresa qualquer fã do sucesso da Marvel Studios né? Para um filme que estreou quebrando recordes de bilheteria em diversos locais, ficar atrás de um longa-metragem de animação japonesa na sua semana de estreia me parece algo muito aterrador. Para o filme que em 11 dias ultrapassou a marca de 1 bilhão de dólares de arrecadação (superando em um dia Star Wars: O Despertar da Força e entrando para um seleto grupo de outras 34 produções a alcançar a marca) o feito, ao que parece, não foi o suficiente para torná-lo algo totalmente querido por todos.

Isso só nos leva a crer o quão difundida é a indústria do manganime (mangás e animês). O sucesso de Vingadores: Guerra Infinita é transparente para todos, mesmo assim deixa a desejar quando se pensa no cenário japonês. Por lá, o filme alcançou na semana de estreia 9.075.979 milhões de dólares ficando em 48° lugar entre as maiores estreias do país entre todos os anos. À sua frente o sucesso de 2016, Kimi no Na Wa (Your Name) com 9.137.933 milhões de dólares e logo atrás As Crônicas de Nárnia: o Leão, a Feiticeira e o Guarda-Roupa com 8.917.824 milhões de dólares. Mais uma vez atrás de outro animê, o filme dos Irmãos Russo sofre com a força de um conteúdo dotado de aparato mercadológico próprio e aceitação cultural mais do que elevada.

A indústria de mangás e animês, o manganime, se articula desde meados dos anos 1960 para construir uma base sólida de existência. Nem mesmo a recessão japonesa do fim dos anos 1990 ou a crise criativa dos estúdios de animação são elementos que levem a produção de animação no país a esmorecer. A figura de personagens populares também é outro ponto importante a ser discutido. Tanto Detective Conan como Crayon Shin-chan são franquias já mais do que consolidadas na história editorial, da TV e do cinema nipônico.

Detective Conan, por exemplo, em 2018 celebrou seus 24 anos de existência desde o primeiro mangá publicado em 1994. Com mais de 90 volumes publicados e um animê ainda em exibição contando com mais de 900 episódios já produzidos, desde 1996, a franquia chegou ao seu 22° filme sem problemas comerciais e nem se importou com o blockbuster dos heróis mais badalados do momento. O algoz de Vingadores: Guerra Infinita, para piorar mais ainda as coisas, foi bem melhor que o filme ocidental em sua semana de estreia. Segundo dados do site Box Office Mojo, Detective Conan: Zero the Enforcer é atualmente a 21ª melhor estreia do cinema japonês com arrecadação inicial de 12.071.118 milhões de dólares.

Aqui, no entanto, uma informação um tanto desanimadora para os fãs da Marvel. Antes de “Zero the Enforcer” os vinte filmes com melhores estreias na história do cinema japonês incluem apenas três outras animações: One Piece – Filme Z (4° lugar / 16.681.502 milhões de dólares), Rebuild of Evangelion 3.0 (13° lugar / 14.147.695 milhões de dólares) e Howl’s Moving Castle (15° lugar / 13.998.152 milhões de dólares). Além desse animês só mais um filme live-action japonês ocupa o TOP 20, Rookies: Sotsugyô (18° lugar /12.703.775 milhões de dólares). Fora esses, todo os demais são produções hollywoodianas.

Encabeça a lista japonesa o fenômeno Star Wars: Episódio III – A Vingança dos Sith (18.975.503 milhões de dólares), Matrix Reloaded (18.677.181 milhões de dólares) e Harry Potter e a Ordem da Fênix (16.952.890 milhões de dólares). Fecha o TOP 05 Harry Potter e a Câmara Secreta (16.676.912 milhões de dólares).

Essa série de dados que apresentei nas linhas acima nos ajudam a chegar numa conclusão: mesmo os japoneses também são apaixonados pela cinematografia internacional – principalmente a de ficção científica e fantasia -, mas na hora de jogar as cartas na mesa entre seu heróis do cotidiano midiático e os superpoderosos guerreiros dos quadrinhos norte-americano os heróis japoneses levam a melhor. Thanos é um inimigo poderoso e assustador, mas nem mesmo ele é capaz de subverter uma lógica de consumo baseada numa enraização cultural de um media mix complexo e avassalador que só os japoneses são capazes de manter: o manganime. E olha que a Marvel Studios contou com apoio de alguns heróis japoneses para divulgar o filme por lá.

Até o fim desse artigo ainda não haviam sido atualizados os dados referentes à bilheteria japonesa dos últimos dias, mas fico imaginando se não teremos outra surpresa. No último dia 05 estreou por lá o sexto e último filme da saga Digimon Adventure Tri. Intitulado Bokura no Mirai (Nosso Futuro) o longa-metragem fecha uma narrativa de quatro anos de duração e com toda certeza vai ser hit nas bilheterias daquele país. Te cuida Marvel!

Até a próxima… Sayonara!