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Artigo Otaku | Fire Force e o Transtorno Pós-Traumático

Fire Force está em alta na temporada por causa de algumas polêmicas. Entretanto, temos outras coisas para falar sobre ele.

Envolto em algumas polêmicas: 1) no Brasil a questão do licenciamento pela Sato Company e como será distribuído; 2) e nos Estados Unidos o corte de cenas com fanservice envolvendo a personagem Tamaki Kotatsu no episódio 3, exibido pelo canal de TV Adult Swim no bloco Toonami, Fire Force (En En no Shouboutai no original) é um dos animês da Temporada de Verão 2019 em alta junto ao fandom.

O articulista aqui vem acompanhando casualmente a versão animada, pois não tem muito contato com a versão original em mangá por um distanciamento pessoal ao estilo narrativo de Atsushi Okubo (o autor). Tal distanciamento não é aprofundado em motivos críticos detalhados, mas está mais próximo de uma passionalidade a respeito de como o mangaká trabalha suas tramas.

Em um tweet até certo ponto despretensioso, comentei como acredito que a trama é concebida sobre o mote da loucura dentro da psicologia das personagens até aqui apresentadas. Não que isso seja um problema para mim, mas foi como uma espécie de constatação pessoal.

Felizmente, meu tweet não se perdeu em meio ao feed de meus poucos – e queridos! – seguidores, o que por sua vez gerou um debate rápido e esclarecedor que deu fôlego a este artigo que segue nas linhas abaixo.

Comentando que partindo dessa premissa da loucura, Atsushi Okubo faz algo muito similar com o que fez em Soul Eater, citei que achava meio desconexo a forma como esse elemento se constitui no shounen Fire Force motivado pelos gêneros sci-fi e dark fantasy. Antes de seguir, só para situá-lo caso tenha chegado até aqui curioso sobre este texto sem conhecer a obra ainda, Fire Force tem como sinopse a ideia de um mundo no futuro onde a manifestação repentina de um fenômeno mudou a estrutura do comportamento social humano. As pessoas agora pegam fogo a qualquer momento e se tornam em criaturas de chamas denominadas Infernais. Para combater essa anomalia há um grupo especializado de bombeiros composto por pessoas dotadas de habilidade pirocinéticas (pessoas essas que surgiram juntamente com o terrível fenômeno).

Bem aqui, quando comento que seria interessante, se não fosse desconexo, o fato de as personagens apresentarem ligeiros traços de desvios psiquiátricos, Thiago Nojirique recentemente colaborou conosco em outro artigo – lembrou-me que em Soul Eater essa loucura que eu falo [que ele substitui por insanidade] é sine qua non para que a trama do mangá se desenvolva e, é claro, seus personagens. Lembrei-me de Crona e Soul, que são personagens autoexplicativas que sofrem distintas influências da insanidade, com tal influência afetando cada um dos presentes na trama e a própria trama em si.

Legal. Mas e no caso de Fire Force? Considerando que é recorrente – mas não uma regra cabal – que mangakás (especialmente de shounens) reutilizem fórmulas narrativas para construir suas tramas e/ou personagens em novas obras, questionei-me se Atsushi Okubo não estaria fazendo justamente isso. De fato, é meio que perceptível que o mangaká tem um gosto particular por temáticas próximas ao campo da psicologia/psiquiatria [não sou o profissional qualificado para delimitar qual dos dois é o mais concreto para o autor].

Em Soul Eater, a insanidade é sim muito semelhante àquela existente para a psiquiatria, mesmo que com toda a ambientação fantasiosa existente (o que a torna resolvida dentro da trama dark fantasy). Nada a se contestar aqui. Agora em Fire Force… Será mesmo a insanidade/loucura o mote que faz a narrativa ganhar seus ares mais sombrios? Meus amigos de Twitter ajudaram-me a entender que talvez não.

Para Fire Force, esse mote não é a insanidade (embora ela esteja lá), mas sim transtornos relacionados a traumas e estressores. Quem acompanha a trama sabe que todas as personagens carregam consigo algum fato/lembrança ocasionado pelas combustões instantâneas que influenciam diretamente em seus objetivos pessoais e características comportamentais. É o caso do protagonista Shinra Kusakabe, que viu sua mãe e irmão mais novo morrer em um incêndio supostamente causado por uma combustão instantânea. Fora esse fato, Shinra foi ignorado pela família por apresentar um sorriso medonho (que lhe rende o apelido de Diabo) quando deveria chorar a morte de seus entes queridos. O problema é que Shinra sente a morte deles. Contudo, por causa da sua constituição facial e o choque do ocorrido, parece que ele está sorrindo. Isso se tornou recorrente a ele quando tenso, entusiasmado e qualquer outra sensação, mesmo depois de crescido.

Shinra Kusakabe, o protagonista, é marcado por um TEPT decorrente de acontecimento de sua infância. No animê ele é o exemplo de alguém que convive com o TEPT e busca diagnosticá-lo a partir de relações interpessoais mais concretas.

Na literatura especializada, esses transtornos são classificados como: Transtorno de Estresse Agudo (TEA) e Transtorno de Estresse Pós-Traumático (TEPT). O primeiro relaciona-se ao fato de a vítima ainda sentir-se muito envolvida pelo ocorrido, mesmo após um período máximo de 30 dias, recuando de situações, estando sempre tenso e com pensamentos que recorrem ao ato violento sofrido/presenciado. Passado esse período de 30 dias o quadro pode evoluir para a segunda ocasião. No geral, quando chega nisso, existem três tipos de situações: revivência, evitação e hipervigilância.

Com meu olhar sobre Shinra, chego a dizer que ele vive a revivência, que por sua vez se caracteriza como:

“Pensamentos recorrentes e intrusivos, que causam sofrimento, com conteúdo relacionado ao evento (imagens, pensamentos ou percepções). Esses podem também se apresentar sob a forma de sonhos vívidos. Algumas vezes o indivíduo pode passar a agir ou sentir como se o evento estivesse acontecendo novamente, na realidade, ele sente como se estivesse de volta à cena, também chamado flashback. Todas essas revivências causam intenso sofrimento psicológico, devido à exposição aos sinais internos ou externos que simbolizam ou se assemelhem aos eventos”.

MELLO, Marcelo Feijó de; SERAFIM, Paula Maria. Transtorno de estresse agudo e pós-traumático. In: SMAD, Rev. Eletrônica Saúde Mental Álcool Drog. (Ed. port.) vol.6 no.spe Ribeirão Preto nov. 2010.

Claramente a revivência que percebo presente na obra não chega a ser tão viva como se imagina ao ler a descrição, mas está lá de forma sutil, como é comum ao jeito de Atsushi Okubo narrar.

A questão, no entanto, é que os traumas das personagens de Fire Force servem como gatilhos. Sim, gatilhos, pois a questão dos traumas é uma das muitas subtramas da narrativa. E nesse caso há a possibilidade de tal gatilho ser a porta de entrada da vítima para um processo de insanidade [Destaco que a palavra ideal é insanidade mesmo, pois loucura não é comumente aceito por todos os usuários da literatura especializada].

A personagem Princess Hibana é um exemplo bem significativo de como isso se retrata em Fire Force. Seu trauma de infância decorrido da combustão instantânea não só se prolongou como moldou suas bases cognitivas em relação a si mesma e ao mundo exterior. Todavia, é importante dizer que isso não obrigatoriamente caracteriza-se como mau-caratismo e sim num sistema de defesa desenvolvido, muitas vezes, porque há falta de acompanhamento dedicado para a vítima.

Princess Hinana também sofre com o TEPT, mas deixou-se dominar por ele. Um dos agravantes da vítima com TEPT é sucumbir a desvios psiquiátricos causadores de insanidade, por exemplo.

Pensando nisso, concluo esse artigo de tiro curto dizendo ao leitor que mudei um pouco meu olhar sobre as personagens de Fire Force. Realmente não são loucas como disse no tweet que deu vida ao texto. Algumas apresentam características de insanidade? Apresentam, mas não como em Soul Eater (pelo menos não até onde sei!). Pode ser que, para além das possíveis intervenções do Transtorno de Estresse Pós-Traumático, haja certos níveis de excentricidade (que se estenderia em outras discussões sobre a representação da excentricidade em mangás e animês).

Já sobre Atsushi Okubo, não sei se ele – ou alguém próximo – sofreu com traumas na infância ou com qualquer outra situação que tenha relação com a psiquê. O que sei é que ele tenta, do seu jeito, tornar tal assunto bem presente em seu público. Talvez aqui encaixe a minha queixa com ele. Faz de maneira tão sutil, tão diluída, que acaba se perdendo em discussões que por sua vez acentuam mais seus defeitos que suas qualidades enquanto mangaká.

E assim, Fire Force segue sendo tema de debate otaku não por seu diálogo com fatores comportamentais clínicos do ser humano e sim porque Atushi Okubo (no mangá) e o estúdio David Production (animê) enfatizam muito mais a sexualização abusiva da figura feminina num tempo onde tal prática não passa sem ter comentários críticos repercutindo.

Até a próxima e… Sayonara!

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Artigo Otaku | Mais um feito dos Sete Pecados Capitais

Mangá foi eleito pelo público como o “Livro do Ano” no Google Play.

Na última terça-feira (03) foram divulgados os resultados do Google Play Choice Awards 2019, uma premiação promovida pela Google junto aos usuários da sua loja oficial de aplicativos que define – em voto popular – os melhores do ano em quatro categorias: App, Game, Filme e Livro.

Entre os vencedores do ano destaque para Avengers: Endgame na categoria Melhor Filme. Nas categorias Melhor App o vencedor foi Dollify (app de criação de caricaturas) e em Melhor Jogo o vencedor foi Call of Duty Mobile. Na quarta e última categoria, Melhor Livro, uma surpresa chamou a atenção de todos.

O público que votou indicou o volume 30 do mangá The Seven Deadly Sins (Nanatsu no Taizai, no original) como o grande campeão do ano.

A partir dessa situação o breve artigo reflete agora sobre as consequências disso. Embora de início há quem defenda uma certa jocosidade por parte dos eleitores do prêmio (a qual não descarto), se faz mister dizer também que há nisso um prognóstico do que se esperar para o mercado.

Contextualizando o vencedor, o que se pode dizer é que The Seven Deadly Sins vol.30 foi publicado digitalmente no ocidente em 2019 (um anos depois do seu lançamento no Japão em 2018). No Brasil, o título é publicado tanto no formato físico quanto no digital pela JBC Editora. Aqui, vale ressaltar, além dos volumes compilados ainda podemos consumir os capítulos simultaneamente com o lançamento no Japão também no formato digital.

O volume em questão abrange os capítulos 241 a 249 incluindo dois extras. Seus principais ato são: o duelo entre o Rei dos Gigantes, Drole, e o Rei das Fadas, Gloxínia, contra o demônio Chandler; Meliodas e os poderes dos Dez Mandamentos e a verdadeira forma de Merlin. Até é um volume interessante, mas bem mediano num olhar mais apurado. The Seven Deadly Sins vem tomando a bastante tempo um caminho arrastado e pouco empolgante (na reta final melhorou um pouco, mas bem pouco mesmo!), o que nos leva a questionar a escolha do título para vencedor em Melhor Livro do Google Play Choice Awards.

Fonte: Google Play Choice Awards 2019

Não tenho dados, e nem é de meu interesse no momento refletir sobre eles, mas o que nos leva a crer é que a presença do mangá no formato digital não é uma aventura sem fundamento. Há público, e esse público responde colocando-o no mais alto lugar do pódio de uma premiação simbólica, mas de repercussão.

Ainda em novembro, a Japan House em São Paulo-SP, em virtude de sua exposição “Isto é Mangá” realizou algumas palestras com foco no tema onde profissionais de diversos setores da indústria editorial envolvidos com esse universo puderam falar abertamente com o público sobre isso. Uma dessas palestras focou justamente no assunto dos mangás digitais e reuniu representantes da própria JBC, além de Kobo Rakuten (empresa especializada em livros e leitores digitais) e BookWire (especializada em marketing e distribuição de livros digitais).

Conforme o relato feito pelo blog Mais de Oito Mil, entre os muitos assuntos levantados figuraram temas como “combate à pirataria” com os palestrantes lembrando que uma cultura de leitura do digital já existe entre fãs de mangás (os scanlators) e que o foco é pensar em como tornar o hábito de fazer isso por vias legais deve ser melhor pensado e aproveitado pelos licenciadores e editores. Outro tema é o que diz respeito a “desterritorialização dos espaços de venda” ao tornar mais prático e acessível a leitura digital do mangá, visto que para a indústria existe uma crise de mercado quando se fala de distribuição e material para confecção de versões físicas (o que está nos levando para um boom das edições de luxo, outra pauta importante que deve ser questionada, mas não aqui).

Dito isso, a aposta no mercado digital de mangás é uma realidade tão presente que The Seven Deadly Sins vence em popularidade justamente por atingir um público de fato interessado no conteúdo e no formato. É lógico que esse conteúdo pode – e será – questionado pelo próprio público, mas com o passar dos tempos poderemos ver mangás considerados de alto nível vencendo em outras ocasiões. Tudo depende do binômio investimento do mercado + aceitação do público quanto ao desapego com o físico.

Assim, seja para o bem ou para o mal, os sete pecados capitais deixam seu nome marcado por mais esse feito: agora fora do Reino da Liones.

Até a próxima e… Sayonara!

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Artigo Otaku | O que esperar de Saint Seiya (Parte 02)

Debate sobre os desdobramentos da franquia continuam.

Um mês atrás, quando do lançamento do servidor brasileiro de Saint Seiya Awakening: Knights of Zodiac, iniciei uma explanação a respeito dos desdobramentos existentes dentro da franquia iniciada na década de 1980 do século passado pelo criticado Masami Kurumada. Na etapa inicial dessa discussão trouxe como exemplos os cases envolvendo os spin-offs Episode G e Soul of Gold.

A título de informação, não estou mais jogando o mobile game dos Santos de Atena porque, embora seja muito bom, requer muito tempo para a sua apreciação tanto no modo história quanto nos eventos paralelos decorrente de um MMO. Estou num momento da vida onde partidas fechadas e rapidamente executáveis pedem minha atenção e se encaixam em meu tempo (oi para a turma que joga comigo Mario Kart Tour e Call of Duty Mobile).

Como prometido, nessa parte final da discussão apresentarei como os desdobramentos midiáticos da franquia se relacionam com o fandom de maneira a ainda alimentá-la.

Novos nichos… Mas as mesmas situações (?)

Em 2012, quatro anos após a conclusão da Saga de Hades em sua versão para home video, a Toei Animation viu uma oportunidade de reformular o universo narrativo de Masami Kurumada a partir de dois eixos que podemos considerar importantes: o afetivo e o comercial (esse bem mais válido). Nascia assim Saint Seiya Ômega, animação dirigida por Morio Hatano, mas sem nenhuma participação direta de Kurumada (que apenas era creditado como responsável pelo conceito original).

Vale ressaltar que um anos antes havia sido exibido na TV japonesa um outro spin-off da franquia. Saint Seiya: The Lost Canvas, baseado no mangá de Shiori Teshigori, era uma prequela focada na Guerra Santa do século XVII (ou seja, a anterior ao da história clássica) animada pelo estúdio TMS Entertaiment. Inspirado no trabalho de Kurumada, The Lost Canvas – por ser bem produzido e bem desenhado – conquistou o público sedento por novidades na franquia e abafou a sequência da trama pensada pelo autor original. É preciso lembrar que Saint Seiya: Next Dimension (a sequela canônica) foi iniciada em abril de 2006 enquanto The Lost Canvas (o spin-off não-canônico) quatro meses depois.

Odisseu de Serpentário é um grande enigma na trama lenta de Next Dimension

Esse racha simbólico na estrutura narrativa proposta por Shiori Teshigori dividiu o fandom de tal forma que Next Dimension passou a ser subvalorizado, mesmo sendo a continuação oficial. Sua volta aos palcos de aceitação se deu recente em 2018 com a aparição do 13º Cavaleiro de Ouro, Odisseu de Serpentário. Um acréscimo bem elaborado pelo mestre Kurumada, diga-se de passagem. Já aos fãs de The Lost Canvas, o mangá – já finalizado – rendeu uma série side story (prequela do spin-off), mas a terceira temporada da animação nunca sairá do papel. Aceitem!

Voltemos ao Ômega. É nessa onda de spin-off bem aceitos que Ômega surge na tentativa de dialogar com um novo público. Enquanto o Next Dimension se focava ainda nos eventos do passado e nada mais havia apresentado sobre o futuro, a animação de Morio Hatano propôs então uma mudança de perspectiva ao apresentar os novos Cavaleiros de Atena do Século XXI e alterar alguns conceitos (mesmo que depois tivesse que retomar alguns de volta) quando abdicou-se então das Pandora’s Box, que guardavam as armaduras sagradas, pelas Coth’s Stone (Joia de Armadura, na dublagem nacional). Mudou também o design das próprias armaduras que ganharam um visual menos medieval para assumir as forma de uma roupa spandex a la Super Sentai/Power Rangers. Essas mudanças foram prontamente rejeitadas por uma boa parte do fandom e talvez – não posso afirmar! – isso tenha sido levado em consideração na segunda fase da animação quando as armaduras voltaram ao conceito clássico.

A mudança mais significativa em Ômega foi a inserção de uma protagonista combatente dentro do grupo principal. Diferente de Saori Kido/Atena na trama clássica, a protagonista Yuna de Águia não era apenas uma donzela em perigo, mas sim uma amazona da ordem dos cavaleiros com forte presença no roteiro e aceitação do público. Seu diferencial estava justamente na abolição da máscara, que em narrativas passadas era justificada por diversos momentos. Anteriormente, raras exceções foram feitas junto à personagem Shaina de Ofiúco. Essa representação feminina foi intensificada com as personagens Sônia de Escorpião e as irmãs Paradox e Integra de Gêmeos, ampliando mais ainda a ideia das amazonas sem máscara.

Yuna de Águia tirando a máscara e indo contra uma tradição da ordem dos cavaleiros

Mesmo assim, Ômega não se tornou uma febre entre os fãs e divide bem a fanbase (de forma desbalanceada entre prós e contra), mas mostrou aos responsáveis pela franquia que a proposta de ressignificar sempre rende. Nisso temos em 2014 o longa-metragem em 3DCG, Legend of Sanctuary, que propõe uma releitura do clássico de Masami Kurumada com armaduras quase num conceito steampunk com elementos como dogtags substituindo as Pandora’s Box (não completamente) para as armaduras de bronze e quadros para as armaduras de ouro. Esse reboot nos cinemas deixou a desejar em muitos pontos da narrativa, mas deixou claro que era sim possível isso acontecer em um formato que não fosse o 2D. Não obstante, temos hoje Knights of the Zodiac da Netflix, que trabalha um formato em 3D para o novo reboot da franquia.

O design das armaduras em Legend of Sancturary foi uma boa aquisição ao universo da franquia

Entre os desdobramentos já ocorridos e aqui ainda não comentados, Santia Shô, de Chimaki Kuori, que em mangá tem a proposta de ser um retcom para eventos entre a Batalha das Doze Casas e a Saga de Poseidon inserindo de forma mais intensa a figura das meninas no universo de Saint Seiya: as santias, guerreiras de Atena que não obrigatoriamente são como as amazonas e que por isso não precisam abster de sua feminilidade (não usam máscaras). Confesso que para mim Saintia Shô é a melhor produção da franquia nos últimos anos. O que se há de lamentar é apenas a péssima adaptação animada apresentada pela Toei em 2018 (não dá nem para elogiar!).

O belo character design de Chinaki Kuori foi completamente destruído na adaptação para TV

Vendo tudo isso, a questão que norteia esse artigo pede por uma resposta. O que esperar? Basicamente, a narrativa de Saint Seiya é muito simples e não há mas espaço para inovações. Sempre haverá um gosto de mais do mesmo. É difícil encarar Saint Seiya como uma franquia aberta a um universo compartilhado como acontece com a Fate Series da Type Moon, por exemplo, embora o Episode G: Assassin mostre que eu possa estar errado.

Nossas esperanças estão depositadas no que o Next Dimension ainda nos reserva. A conclusão dos eventos do século XVII e as possibilidades apresentadas para o presente (século XX) com um Seiya de Pégaso em coma sendo perseguido pelos Olimpianos é o que ainda sustentam um hype já desgastado. As citações de Zeus ao longo da franquia e a aparição de Ártemis e Cronos (tomando como base o mangá) nos levam a novas batalhas que podem um dia ganhar forma.

Talvez, numa carência disso, a adaptação de outros spin-off seguem sendo o alvo assim como os reboots em execução. Uma boa pedida seria adaptar a light novel Gigantomaquia, que conta sobre a batalha contra Tifão e os Gigas, ou mesmo um dia rolar uma prequela com as batalhas dos tempos mitológicos (viagem minha aqui!).

Por sorte, independente do que vier, os fãs de Saint Seiya sempre se contentam com pouco. Haja vista a boa recepção dada ao lançamento da animação clássica remasterizada em HD no catálogo da Netflix recentemente. Como eu disse antes, se consigo valorizar o meu comercial com a alimentação do afetivo dos fãs para mim já está valendo. Por isso, não fique se preocupando com o quê esperar. Apenas curta e continue sentido o cosmo emanar.

Até a próxima e… Sayonara!

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Artigo Otaku | O que esperar de Saint Seiya (Parte 01)

Você está jogando o mobile game Saint Seiya Awakening: Knights of the Zodiac? Bom, se você é fã da franquia merece dar uma chance ao jogo apenas para experimentar um passatempo com bom design de personagens, cut scenes e trilha sonora referente à animação clássica de 1986.

Como pode ter percebido, eu estou jogando. Recém chegado ao Brasil tanto para Android quanto iOS, o mobile RPG reúne elementos da história principal com a jogabilidade do gênero de forma a proporcionar uma boa relação com o jogador.

Recentemente também a Netflix Brasil inseriu em seu catálogo a aclamada Saga de Hades completa com seus três capítulos (Santuário, Inferno e Elísios) realimentando o hype para a chegada da versão clássica e seus 114 episódios, que deveria ter ocorrido em agosto, mas já foi confirmado para 15 de outubro próximo. Isso sem falar do reboot feito pela própria Netflix que deve ter a segunda parte da primeira temporada disponibilizada até o final do ano (segundo rumores).

Tudo isso acaba que construindo um debate acerca da relevância de Saint Seiya para a indústria de entretenimento e perguntas sobre o que ainda se pode esperar.

(Teaser de pré-registro do mobile game Saint Seiya: Awakening)

Uma franquia tão longeva quanto essa certamente tem pontos fortes e fracos dividindo a opinião do público. Para Saint Seiya isso é muito notório quando se fala na composição desse público, que conta com fãs na média dos 40 e 30 anos (os mais antigos) e outros com 20 a 10 anos (incluindo os mais recentes). Ainda nessa composição há aqueles que se encaixam no fandom otaku e há aqueles que não se consideram/fazem parte deste nicho.

Assim, temos quem considere Saint Seiya – que por aqui ficou conhecido como Os Cavaleiros do Zodíaco – algo que chega ao ponto de ser tosco devido a problemas no roteiro, psicologia das personagens, estética de traços etc. Temos também quem tome a trama como uma obra-prima da mídia mangá/quadrinhos e que isso se repete em seus desdobramentos midiáticos.

Reconheço (correndo o risco de ter minha carteirinha de otaku confiscada) que faço parte do segundo grupo e amo a obra com muita paixão. Só que (em minha defesa) sou crítico o suficiente para observar o quão deficiente é a narrativa criada por Masami Kurumada em 1985 (data do mangá original). É nesse raciocínio que entramos na seara a respeito do que esperar. Antes recapitulemos o que já feito.

Em 3DCG, Knights of the Zodiac é o reboot mais recente que a franquia recebeu. (Fonte: Netflix)

Os desdobramentos de Saint Seiya e o público

Desde 2008, quando do lançamento da última parte do OVA (Original Video Animation) da Saga de Hades, os fãs se perguntavam qual seria o destino da franquia. Já existiam possibilidades. Em 2004, o longa-metragem Prólogo do Céu abriu as porteiras para uma possível batalha contra os Olimpianos. Desenvolvido a partir dos rascunhos do que viria a se tornar dois anos depois na prequel-sequel do mangá original denominada “Next Dimension”, o filme quase colocou em risco a conclusão da Saga de Hades, que só rolou quatro anos depois com qualidade inferior ao que havia sido feito nos seus treze primeiros episódios (Capítulo – Santuário).

O que se sabe é que o resultado final do filme não teria agradado algumas pessoas – entre elas o próprio Masami Kurumada -, mas a mensagem que ficou era de que para a Toei Animation já não havia mais prioridade para a franquia no estúdio, o que seria algo natural dado o passar do tempo. Saint Seiya era bem sucedido, mas nunca foi o maior campeão de vendas na indústria (num contexto local e mundial com exceções como França, Brasil e México, por exemplo).

Entre os fãs, muito se especulou que o Episode G pudesse ganhar sua versão em animê. Spin-off publicado desde 2002 (em 20 volumes no momento), o mangá desenhado por Megumi Okada tem traço destoante demais do que havia feito Masami Kurumada e Shingo Araki (na versão animê) com a história principal.

Arte com os design andrógino de Saint Seiya: Episode G e os Cavaleiros de Ouro do séc. XX. Narrativa mais densa e proposta de traço alternativo cativa os fãs, mas nunca foi adaptada em outras mídias (Arte: Megumi Okada / Revista Champion Red Ichigo)

Mesmo não virando animê, o Episode G tornou-se um material muito particular aos fãs mais aficionados pelos Cavaleiros de Ouro e rendeu mais duas publicações: Episode G- Volume 0: Aiolos, uma prequel; e Episode G ~Assassin~, que é uma sequel alternativa aos eventos do mangá original pós-Hades. Esse último foi iniciado em 2014 e terminou recentemente em agosto de 2019 confirmando o retorno de seu antecessor à publicação.

Os fãs dos Cavaleiros de Ouro, que ficarão ainda por algum tempo sem poder ver como ficaria a batalha dos Santos Dourados contra os Doze Titãs, tiveram suas esperanças maltratadas em 2015 quando da estreia do ONA (Original Net Animation) Saint Seiya: Soul of Gold, que veio como um spin-off da Saga de Hades onde os Cavaleiros de Ouro mortos no Muro das Lamentações vão para nas terras gélidas de Asgard (numa clara referência ao emblemático filler Saga de Asgard da série clássica) e combatem as intenções malignas do deus nórdico Loki.

Cena em Soul of Gold que fez a animação alvo de muitas críticas pelo péssimo trabalho de finalização no character design. Abaixo a mesma cena foi refeita em um review do episódio seguinte e traz algumas melhorias, mas ainda deixa desejar. (Fonte: cavzodiaco.com.br)

Embalada pela vontade de vender action figures (bonecos!), a Bandai Tamashii Nations – que detém os direito de imagens da franquia para linha de colecionáveis – lançou em 2014 (durante a CCXP) a linha de action figure com as 12 Armaduras de Ouro em sua forma divina e ainda fez apresentação do primeiro episódio do animê, que seria a peça de publicidade dos bonecos. Sem dúvida uma linha de colecionáveis que mexe com o coração dos mais apaixonados pela franquia.

Já não se pode dizer o mesmo do animê, onde a Toei Animation trouxe uma animação muito aquém do que vinha sendo aplicado nas demais produções da franquia, como é o caso de Saint Seiya: Ômega (falaremos dele na parte 02!). Com design de personagem questionável, erros de proporção e finalização, a série, que poderia ficar para a posteridade como algo memorável, veio a se tornar uma das chacotas do mundo otaku.

Muito outras chacotas ainda existem na franquia, que nesse período apresentou potenciais produtos de sucesso que por alguma razão não deslancham na aceitação do público geral ou do fandom especializado. O que não quer dizer que não haja coisas boas e valor simbólico entre os tantos desmembramentos já realizados e aqueles que poderão vir a existir. Assunto para a segunda parte deste artigo especial.

E você: já sentiu o cosmo?

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