Artigo Otaku | Fire Force e o Transtorno Pós-Traumático

Artigo Otaku | Fire Force e o Transtorno Pós-Traumático

Envolto em algumas polêmicas: 1) no Brasil a questão do licenciamento pela Sato Company e como será distribuído; 2) e nos Estados Unidos o corte de cenas com fanservice envolvendo a personagem Tamaki Kotatsu no episódio 3, exibido pelo canal de TV Adult Swim no bloco Toonami, Fire Force (En En no Shouboutai no original) é um dos animês da Temporada de Verão 2019 em alta junto ao fandom.

O articulista aqui vem acompanhando casualmente a versão animada, pois não tem muito contato com a versão original em mangá por um distanciamento pessoal ao estilo narrativo de Atsushi Okubo (o autor). Tal distanciamento não é aprofundado em motivos críticos detalhados, mas está mais próximo de uma passionalidade a respeito de como o mangaká trabalha suas tramas.

Em um tweet até certo ponto despretensioso, comentei como acredito que a trama é concebida sobre o mote da loucura dentro da psicologia das personagens até aqui apresentadas. Não que isso seja um problema para mim, mas foi como uma espécie de constatação pessoal.

Felizmente, meu tweet não se perdeu em meio ao feed de meus poucos – e queridos! – seguidores, o que por sua vez gerou um debate rápido e esclarecedor que deu fôlego a este artigo que segue nas linhas abaixo.

Comentando que partindo dessa premissa da loucura, Atsushi Okubo faz algo muito similar com o que fez em Soul Eater, citei que achava meio desconexo a forma como esse elemento se constitui no shounen Fire Force motivado pelos gêneros sci-fi e dark fantasy. Antes de seguir, só para situá-lo caso tenha chegado até aqui curioso sobre este texto sem conhecer a obra ainda, Fire Force tem como sinopse a ideia de um mundo no futuro onde a manifestação repentina de um fenômeno mudou a estrutura do comportamento social humano. As pessoas agora pegam fogo a qualquer momento e se tornam em criaturas de chamas denominadas Infernais. Para combater essa anomalia há um grupo especializado de bombeiros composto por pessoas dotadas de habilidade pirocinéticas (pessoas essas que surgiram juntamente com o terrível fenômeno).

Bem aqui, quando comento que seria interessante, se não fosse desconexo, o fato de as personagens apresentarem ligeiros traços de desvios psiquiátricos, Thiago Nojirique recentemente colaborou conosco em outro artigo – lembrou-me que em Soul Eater essa loucura que eu falo [que ele substitui por insanidade] é sine qua non para que a trama do mangá se desenvolva e, é claro, seus personagens. Lembrei-me de Crona e Soul, que são personagens autoexplicativas que sofrem distintas influências da insanidade, com tal influência afetando cada um dos presentes na trama e a própria trama em si.

Legal. Mas e no caso de Fire Force? Considerando que é recorrente – mas não uma regra cabal – que mangakás (especialmente de shounens) reutilizem fórmulas narrativas para construir suas tramas e/ou personagens em novas obras, questionei-me se Atsushi Okubo não estaria fazendo justamente isso. De fato, é meio que perceptível que o mangaká tem um gosto particular por temáticas próximas ao campo da psicologia/psiquiatria [não sou o profissional qualificado para delimitar qual dos dois é o mais concreto para o autor].

Em Soul Eater, a insanidade é sim muito semelhante àquela existente para a psiquiatria, mesmo que com toda a ambientação fantasiosa existente (o que a torna resolvida dentro da trama dark fantasy). Nada a se contestar aqui. Agora em Fire Force… Será mesmo a insanidade/loucura o mote que faz a narrativa ganhar seus ares mais sombrios? Meus amigos de Twitter ajudaram-me a entender que talvez não.

Para Fire Force, esse mote não é a insanidade (embora ela esteja lá), mas sim transtornos relacionados a traumas e estressores. Quem acompanha a trama sabe que todas as personagens carregam consigo algum fato/lembrança ocasionado pelas combustões instantâneas que influenciam diretamente em seus objetivos pessoais e características comportamentais. É o caso do protagonista Shinra Kusakabe, que viu sua mãe e irmão mais novo morrer em um incêndio supostamente causado por uma combustão instantânea. Fora esse fato, Shinra foi ignorado pela família por apresentar um sorriso medonho (que lhe rende o apelido de Diabo) quando deveria chorar a morte de seus entes queridos. O problema é que Shinra sente a morte deles. Contudo, por causa da sua constituição facial e o choque do ocorrido, parece que ele está sorrindo. Isso se tornou recorrente a ele quando tenso, entusiasmado e qualquer outra sensação, mesmo depois de crescido.

Shinra Kusakabe, o protagonista, é marcado por um TEPT decorrente de acontecimento de sua infância. No animê ele é o exemplo de alguém que convive com o TEPT e busca diagnosticá-lo a partir de relações interpessoais mais concretas.

Na literatura especializada, esses transtornos são classificados como: Transtorno de Estresse Agudo (TEA) e Transtorno de Estresse Pós-Traumático (TEPT). O primeiro relaciona-se ao fato de a vítima ainda sentir-se muito envolvida pelo ocorrido, mesmo após um período máximo de 30 dias, recuando de situações, estando sempre tenso e com pensamentos que recorrem ao ato violento sofrido/presenciado. Passado esse período de 30 dias o quadro pode evoluir para a segunda ocasião. No geral, quando chega nisso, existem três tipos de situações: revivência, evitação e hipervigilância.

Com meu olhar sobre Shinra, chego a dizer que ele vive a revivência, que por sua vez se caracteriza como:

“Pensamentos recorrentes e intrusivos, que causam sofrimento, com conteúdo relacionado ao evento (imagens, pensamentos ou percepções). Esses podem também se apresentar sob a forma de sonhos vívidos. Algumas vezes o indivíduo pode passar a agir ou sentir como se o evento estivesse acontecendo novamente, na realidade, ele sente como se estivesse de volta à cena, também chamado flashback. Todas essas revivências causam intenso sofrimento psicológico, devido à exposição aos sinais internos ou externos que simbolizam ou se assemelhem aos eventos”.

MELLO, Marcelo Feijó de; SERAFIM, Paula Maria. Transtorno de estresse agudo e pós-traumático. In: SMAD, Rev. Eletrônica Saúde Mental Álcool Drog. (Ed. port.) vol.6 no.spe Ribeirão Preto nov. 2010.

Claramente a revivência que percebo presente na obra não chega a ser tão viva como se imagina ao ler a descrição, mas está lá de forma sutil, como é comum ao jeito de Atsushi Okubo narrar.

A questão, no entanto, é que os traumas das personagens de Fire Force servem como gatilhos. Sim, gatilhos, pois a questão dos traumas é uma das muitas subtramas da narrativa. E nesse caso há a possibilidade de tal gatilho ser a porta de entrada da vítima para um processo de insanidade [Destaco que a palavra ideal é insanidade mesmo, pois loucura não é comumente aceito por todos os usuários da literatura especializada].

A personagem Princess Hibana é um exemplo bem significativo de como isso se retrata em Fire Force. Seu trauma de infância decorrido da combustão instantânea não só se prolongou como moldou suas bases cognitivas em relação a si mesma e ao mundo exterior. Todavia, é importante dizer que isso não obrigatoriamente caracteriza-se como mau-caratismo e sim num sistema de defesa desenvolvido, muitas vezes, porque há falta de acompanhamento dedicado para a vítima.

Princess Hinana também sofre com o TEPT, mas deixou-se dominar por ele. Um dos agravantes da vítima com TEPT é sucumbir a desvios psiquiátricos causadores de insanidade, por exemplo.

Pensando nisso, concluo esse artigo de tiro curto dizendo ao leitor que mudei um pouco meu olhar sobre as personagens de Fire Force. Realmente não são loucas como disse no tweet que deu vida ao texto. Algumas apresentam características de insanidade? Apresentam, mas não como em Soul Eater (pelo menos não até onde sei!). Pode ser que, para além das possíveis intervenções do Transtorno de Estresse Pós-Traumático, haja certos níveis de excentricidade (que se estenderia em outras discussões sobre a representação da excentricidade em mangás e animês).

Já sobre Atsushi Okubo, não sei se ele – ou alguém próximo – sofreu com traumas na infância ou com qualquer outra situação que tenha relação com a psiquê. O que sei é que ele tenta, do seu jeito, tornar tal assunto bem presente em seu público. Talvez aqui encaixe a minha queixa com ele. Faz de maneira tão sutil, tão diluída, que acaba se perdendo em discussões que por sua vez acentuam mais seus defeitos que suas qualidades enquanto mangaká.

E assim, Fire Force segue sendo tema de debate otaku não por seu diálogo com fatores comportamentais clínicos do ser humano e sim porque Atushi Okubo (no mangá) e o estúdio David Production (animê) enfatizam muito mais a sexualização abusiva da figura feminina num tempo onde tal prática não passa sem ter comentários críticos repercutindo.

Até a próxima e… Sayonara!

Relacionadas