Artigo Otaku

Artigo Otaku | Eterna paixão por katanas (Parte 01)

A paixão por espadas e espadachins é algo muito comum em diversas sociedades. Na maioria dos casos envolve histórias palacianas ou de cavalaria.

No outro extremo do mundo, as espadas – chamadas katanas – e os espadachins – os samurais – também tornaram-se parte do folclore mundial que alimenta narrativas a respeito de combates incríveis decididos na habilidade, na sorte e às vezes na artimanha (que o diga o lendário Musashi Miyamoto em seu duelo épico contra Kojiro Sasaki, vencido com uma espada de madeira feita de um remo escondido pelo rival sob a areia).

A forma como essa história é contada hoje deixa dúvidas entre o real e o ficcional. Muitos estudiosos acreditam que de fato houve um duelo entre os dois lendários samurais, mas que seu desenvolvimento foi menos glorioso que o retratado nas lendas e contos populares.

Musashi e seus alunos teriam assassinado Kojiro em prol de livrar o bushidô (caminho do guerreiro) de alguma técnica ameaçadora como o Tsubame Gaeshi [Rasante da Andorinha] oriundo do estilo de luta do derrotado. Assim, o estilo de luta com duas espadas de Musashi foi o que se perpetuou nos dias atuais dando forma ao que conhecemos como kenjutsu e kendô.

Ganryujima, o fatídico duelo entre Musashi e Kojiro. Autor não indetificado.

Esse fascínio por katanas e samurais presente na tradição popular tanto na História quanto no Folclore nipônico desdobrou-se em elemento midiático no início do século XX. Sendo mais preciso, no fim da Era Taisho (1912-1926) os primeiros trabalhos midiáticos envolvendo mangás, animês e cinema conquistavam o público japonês. Muito inspirado no Teatro Kabuki, as tramas com elementos históricos (jidaigeki) envolvendo lutas com espadas (kengeki) inseriam no vocabulário do mundo termos como samurai, ronin, shogun e katana.

Nascia assim o Chambara-Eiga (Filme de Samurai), gênero cinematográfico legitimamente japonês que ajudou a popularizar no resto do globo a imagem idealizada de justiceiros especialistas no combate de espadas, que primavam pela honra no campo de batalha. O pontapé inicial veio com Orochi (1925) de Buntarou Futagawa. Já na era seguinte, a Showa, títulos como: Os 47 Ronins (1941), de Kenji Mizoguchi, e Rashomon (1950), de Akira Kurosawa, juntaram-se a outros que ajudaram a consolidar o gênero dentro e fora do arquipélago.

Cena de Orochi (1925) por Buntarou Futagawa
Cena de Rashomon (1950) dirigido por Akira Kurosawa

Esse processo tem como principal representante o diretor Akira Kurosawa. Tendo talento para chamar a atenção dos amantes da sétima arte no ocidente, Kurosawa alimentou a imagem do samurai como um herói humanizado sujeito aos paradigmas morais e imorais do feudalismo japonês e reconstruiu as narrativas palacianas e de guerra provocando o imaginário do telespectador com dramas não fantasiosos como nas narrativas medievais europeias.

O Chambara-Eiga passa por um período de pouco prestígio durante a Segunda Guerra Mundial, mas volta a ser relembrado pelo mundo em 1954 com Os Sete Samurais de Akira Kurosawa, que retrata o embate de sete guerreiros pela proteção de um pobre vilarejo acuado por bandidos. Este filme se tornou um ícone mundial e key inspiration para muitos outros roteiros em Hollywood, com destaque para sua primeira adaptação Sete Homens e Um Destino (The Magnificient Seven) dirigido em 1960 por Jhon Sturges.

Até a sua morte em 1998, Kurosawa emplacou mais seis longa-metragens do gênero passeando entre o cinema P&B até as cores. São eles: Trono Manchado de Sangue (1957), A Fortaleza Escondida (1958), Yonjimbo (1961), Sanjuro (1962), Kagemusha – A Sombra do Samurai (1980) e Ran (1985). Importante destacar que desta lista: “Ran” é uma adaptação de Rei Lear de William Shakespeare; “Kagemusha” foi nomeado para o OScar de Melhor Filme Estrangeiro; e “A Fortaleza Escondida” é o key inspiration para a saga Star Wars de George Lucas.

Cena de Os Sete Samurais (1954) por Akira Kurosawa
Cena de A Fortaleza Escondida (1958) por Akira Kurosawa
Cena de Kagemusha (1980) por Akira Kurosawa

Para além de Kurosawa, Hiroshi Inagaki contribuiu com sua Trilogia do Samurai (1954-1956), Masaki Kobayashi com Harakiri (1962), e Kon Ichikawa com 47 Ronins (1994), numa nova leitura do Incidente de Ako. Este mesmo filme de Ichikawa inspirou um filme americano de mesmo nome estrelado por Keanu Reeves em 2013.

Ao longo dos anos a paixão por filme de samurai conquistou o mundo e inspirou diversas outras histórias nas mais diversas mídias. Junto dos samurai, os ninjas também conquistaram seu público e popularizaram por muitas gerações o mais tradicional do estilo de vida nipônico, embora muitas vezes romantizado demais.

Essa paixão, obviamente, também deixou raízes em mangás e animês. Com muitos dos mangakás inspirados por Akira Kurosawa e contemporâneos, ainda é comum encontramos mangás que adaptam suas histórias no período feudal japonês ou trazem ao contexto do presente essas personagens simbólicas.

É o caso de Rorouni Kenshin (Samurai X, no Brasil) que entre 2012 e 2014 ganhou sua própria trilogia no cinema live-action dirigida por Keishi Ohtomo. Trilogia que entre os fãs do mundo inteiro é respeitada como a melhor adaptação de mangá/animê já feita até então.

Cena de Rorouni Kenshin (2012) por Keishi Ohtomo.

Percebe-se então que mesmo agora a paixão que temos pelas katanas se perpetua e não dá indícios de morte. O Chambara-Eiga é só um movimento dentro desta relação. Representando o mundo dos samurais num estado puro, mas não completamente real, pois a corrupção existente dentro do universo dos samurais é uma verdadeira mancha na cultura japonesa, ao mesmo tempo que é peça fundamental para sua formação como sociedade.

Nós, do outro lado da narrativa – os estrangeiros – só enxergamo-os como heróis muito devido ao empacotado midiático ofertado nas últimas gerações. Não que isso seja um real problema a primeira vista, contudo é necessário sim saber que esse samurai, figura romantizada, por muitas vezes cumpria papel não só de justiça, mas de tirano sobre a égide da falácia de honra em seu discursos.

As katanas, armas invejadas e idolatradas por muitos como representação da força, não são apenas símbolo de vitória e poder. Também são sinônimo de morte, solidão e terror.

Esse posicionamento pode ser presenciado em obras como Lobo Solitário e Dororo, onde o ronin – samurai sem senhor – é o ponto de fuga para ilustrar a boa índole que essas personagens históricas diziam defender. Mas isso é assunto para um segundo artigo.

Até a próxima e… Sayonara!