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Artigo Otaku | Casos recentes do streaming na Cultura Otaku

Reflexões sobre o streaming de conteúdo otaku a partir de situações atuais.

Desde 2015 a famigerada Netflix investe em animês no seu catálogo de forma mais intensa. Com bem mais tempo, a Crunchyroll também se envolveu com esse tipo de comércio sendo até então exclusiva para este segmento. E aqui cito as duas mais populares quando se fala em streaming de animê nos dias atuais.

Às vésperas da virada de mais uma década do século XXI (o ano de 2021 já está batendo a porta!) caminhamos para a consolidação de um modelo de consumo mais eficiente entre os fãs de animês, também conhecidos como otakus.

O curioso é que os desdobramentos desse modelo de mercado em cima de um conteúdo que atravessa o globo para chegar nos computadores e smartphones de jovem ocidentais está relacionado diretamente com o comportamento dos grandes grupos de mídia da atualidade, que por sua vez se reflete no comportamento de consumo dos fãs. A fim de exemplificar esse artigo usarei dois cases como recurso. O primeiro é o caso DanMachi e o segundo é o caso My Hero Academia.

1- O caso DanMachi

A estreia de DanMachi: Arrow of the Orion no último dia 05 de julho no catálogo da Netflix é um pontapé para a discussão sobre oferta e demanda na indústria manganime. o título citado é o primeiro longa-metragem da franquia do estúdio J.C. Staff, que em abril de 2015 foi lançada em série de TV animada com 13 episódios.

Naquela época, DanMachi havia sido licenciada pela Crunchyroll e permanece em seu catálogo até então. Dois anos depois, um spin-off foi lançado (DanMachi: Sword Oratoria) e aí foi licenciado pela Amazon para o seu Prime Video. Novamente, dois anos depois, além do filme temos agora a segunda temporada da série principal, que já está confirmada para o catálogo da Crunchyroll a partir de julho.

Até um mês atrás, os fãs ficaram sem certeza de onde onde poderiam ver a sequência da série, pois as investidas da Amazon e da Netflix deixaram as negociações em aberto. Bom, ao menos era o que o público imaginava. Na verdade não havia nenhuma negociação em aberto. O mais correto a se assumir é que desde sempre o comitê de produção de DanMachi (que conta com empresas como Genco, Movix, KlorkWorx, SoftBank Creative, Showgate, MAGES., Furyu, além de Warner Bros. Japan – responsável pela distribuição – e Sentai Filmorks – responsável pelos licenciamentos -), consideram cada título um produto diferente e por isso podem vendê-los de maneira distinta. O que é o certo!

Franquia DanMachi dividi-se em três serviços de streaming no momento

Por isso nos deparamos com a série principal em um serviço de streaming, o spin-off num segundo e o longa-metragem num terceiro. Obviamente, essa divisão se dá muito em valor do interesse comercial depositado por cada uma das empresas de streaming. DanMachi: Arrow of the Orion estar na Netflix não é uma novidade, pois a empresa vem se destacando em trazer títulos do cinema japonês para o catálogo, tenham eles sido exibidos ou não nos Estados Unidos. No caso do filme em questão há mais uma curiosidade: o fato de ele ser lançado no cinema americano só no dia 23 de julho, dezoito dias depois de estrear no catálogo da Netflix.

A Crunchyroll vem de uma outra pegada e parece que ainda não encara apostar nos títulos longa-metragem para seu catálogo. A grande surpresa aqui é ter “perdido” para a Amazon o licenciamento do spin-off DanMachi: Sword Oratoria. Entre aspas mesmo, porque no frigir dos ovos a empresa não saiu perdendo. Esse spin-off não foi dos mais queridos pelo público amargando uma popularidade ranqueada na casa dos 499, enquanto a 1ª temporada da série principal figura no 59º lugar do ranking do My Anime List.

Esses dados nos permitem aferir ainda que a trajetória mais curta e o catálogo ainda pequeno do Amazon Prime Video, no quesito animês, ainda não atraem o público. Essa pouca repercussão se reflete na baixa popularidade do animê e no fato de que a cada dia que passa mais e mais otakus vão perdendo um pouco da sua essência “raíz” de buscar títulos em fansubers e speedsubers. A indústria agradece.

Fica também o pensamento de que a equipe de licenciamento da Crunchyroll tem um bom feeling e não perdeu tempo com um título que não caiu na graça do público e seria um investimento pouco lucrativo. Mas tudo são conjecturas.

2 – O caso My Hero Academia

Esse segundo caso diz respeito também a como o streaming coloca em xeque estruturas antigas de consumo e desafia os empresários a lhe dar com o fã.

Com três temporadas disponíveis na Crunchyroll, My Hero Academia (Boku no Hero Academia no original) caminha para sua quarta season em outubro de 2019. O que deixa muito fãs do shonnen em hype elevadíssimo. Para deixar tudo mais intenso temos o primeiro longa-metragem da franquia, My Hero Academia: 2 Heróis, confirmado para estrear em sessão única no dia 08 de agosto em diversos cinemas do Brasil.

Curiosamente, o filme é licenciado no Brasil pela distribuidora Sato Company (especializada em conteúdo asiático), repetindo o que aconteceu no ano passado com Bungo Stray Dogs: Dead Apple em 2018. A série de TV é parte integrante do catálogo da Crunchyroll e o filme distribuído pela Sato Company.

Até aí tudo bem, a mesma lógica do caso 1. O comitê de produção encara cada título como um produto comercial diferente e vende de forma separada. Vai das empresas interessadas fazer a compra da licença. Ao que parece, essa dinâmica Crunchyroll licencia a série e Sato Company os longa-metragens é válida para ambas as empresas.

My Hero Academia: 2 Heróis é atração aguardada para o segundo semestre

Contudo, o problema que entra em questão aqui é o quesito dublagem. My Hero Academia: 2 Heróis foi dublado para ser exibido nos cinemas em dois idiomas (japonês e português) e conta com um bom estúdio, o UniDub, e bom dubladores como Guilherme Briggs e Lipe Volpato, além de youtubers otaku como Leonardo Kitsune, Gabi Xavier e Vii Zedek. A proposta parece que vai ficar legal.

Só que a série de TV ainda não foi dublada, e a Crunchyroll vem trabalhando em dublagens nos últimos tempos. Se por algum acaso conseguirem licenciar a dublagem da série de TV será que usaram o mesmo cast de dubladores, o mesmo estúdio, visto que cada licenciamento prevê acordos comerciais separados? O tempo dirá.

E então?

Nos dois casos, o que se percebe é que o streaming vem modificando o comportamento da indústria de animês, pois os comitês de produção tem muito mais visibilidade comercial quanto ao licenciamento de seus títulos já que para um mesmo mercado cada título pode ser distribuído para um serviço de streaming diferente.

A questão é: como o público se encaixa nisso? Por enquanto de modo nenhum, a não ser tendo uma assinatura diferente para cada streaming se quiser consumir todos os títulos da temporada ou mesmo todos os relacionados à franquia que goste. Uma crueldade com o bolso de qualquer um!

Essas possibilidades de mercado do streaming se refletem também no licenciamento para o cinema. Os títulos chegarão muito menos na grande sala (ao menos fora dos Estados Unidos) e quando chegarem se depararão com o assunto dublagem que é muito próximo dos fãs, pelo menos de quem gosta.

Isso porque quando se faz a dublagem de um filme cuja série ainda não foi dublada, promove-se um desafio ao detentor da licença da série em propor acordos comerciais que além de não desagradar os envolvidos economicamente não desagradem os fãs, envolvido afetivamente com o título e com a marca.

Respostas para esse dilemas não brotaram do éter, no entanto. Em ambos os casos uma única coisa é certa: quanto mais se tem a noção de que o streaming está sendo a melhor solução para a indústria, mas se percebe o quanto ele se torna desafiador para a Cultura Otaku ao colocar os integrantes da tribo num balaio de gato onde quem paga tudo consome tudo e é apenas isso, um grande OK, sem méritos ou demais situações, e consome tudo o faz sem garantias de saber quando, onde, como e por que em muitos dos casos. Algo a se pensar.

Até a próxima e… Sayonara!

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Artigo Otaku | O que esperar de Saint Seiya (Parte 02)

Debate sobre os desdobramentos da franquia continuam.

Um mês atrás, quando do lançamento do servidor brasileiro de Saint Seiya Awakening: Knights of Zodiac, iniciei uma explanação a respeito dos desdobramentos existentes dentro da franquia iniciada na década de 1980 do século passado pelo criticado Masami Kurumada. Na etapa inicial dessa discussão trouxe como exemplos os cases envolvendo os spin-offs Episode G e Soul of Gold.

A título de informação, não estou mais jogando o mobile game dos Santos de Atena porque, embora seja muito bom, requer muito tempo para a sua apreciação tanto no modo história quanto nos eventos paralelos decorrente de um MMO. Estou num momento da vida onde partidas fechadas e rapidamente executáveis pedem minha atenção e se encaixam em meu tempo (oi para a turma que joga comigo Mario Kart Tour e Call of Duty Mobile).

Como prometido, nessa parte final da discussão apresentarei como os desdobramentos midiáticos da franquia se relacionam com o fandom de maneira a ainda alimentá-la.

Novos nichos… Mas as mesmas situações (?)

Em 2012, quatro anos após a conclusão da Saga de Hades em sua versão para home video, a Toei Animation viu uma oportunidade de reformular o universo narrativo de Masami Kurumada a partir de dois eixos que podemos considerar importantes: o afetivo e o comercial (esse bem mais válido). Nascia assim Saint Seiya Ômega, animação dirigida por Morio Hatano, mas sem nenhuma participação direta de Kurumada (que apenas era creditado como responsável pelo conceito original).

Vale ressaltar que um anos antes havia sido exibido na TV japonesa um outro spin-off da franquia. Saint Seiya: The Lost Canvas, baseado no mangá de Shiori Teshigori, era uma prequela focada na Guerra Santa do século XVII (ou seja, a anterior ao da história clássica) animada pelo estúdio TMS Entertaiment. Inspirado no trabalho de Kurumada, The Lost Canvas – por ser bem produzido e bem desenhado – conquistou o público sedento por novidades na franquia e abafou a sequência da trama pensada pelo autor original. É preciso lembrar que Saint Seiya: Next Dimension (a sequela canônica) foi iniciada em abril de 2006 enquanto The Lost Canvas (o spin-off não-canônico) quatro meses depois.

Odisseu de Serpentário é um grande enigma na trama lenta de Next Dimension

Esse racha simbólico na estrutura narrativa proposta por Shiori Teshigori dividiu o fandom de tal forma que Next Dimension passou a ser subvalorizado, mesmo sendo a continuação oficial. Sua volta aos palcos de aceitação se deu recente em 2018 com a aparição do 13º Cavaleiro de Ouro, Odisseu de Serpentário. Um acréscimo bem elaborado pelo mestre Kurumada, diga-se de passagem. Já aos fãs de The Lost Canvas, o mangá – já finalizado – rendeu uma série side story (prequela do spin-off), mas a terceira temporada da animação nunca sairá do papel. Aceitem!

Voltemos ao Ômega. É nessa onda de spin-off bem aceitos que Ômega surge na tentativa de dialogar com um novo público. Enquanto o Next Dimension se focava ainda nos eventos do passado e nada mais havia apresentado sobre o futuro, a animação de Morio Hatano propôs então uma mudança de perspectiva ao apresentar os novos Cavaleiros de Atena do Século XXI e alterar alguns conceitos (mesmo que depois tivesse que retomar alguns de volta) quando abdicou-se então das Pandora’s Box, que guardavam as armaduras sagradas, pelas Coth’s Stone (Joia de Armadura, na dublagem nacional). Mudou também o design das próprias armaduras que ganharam um visual menos medieval para assumir as forma de uma roupa spandex a la Super Sentai/Power Rangers. Essas mudanças foram prontamente rejeitadas por uma boa parte do fandom e talvez – não posso afirmar! – isso tenha sido levado em consideração na segunda fase da animação quando as armaduras voltaram ao conceito clássico.

A mudança mais significativa em Ômega foi a inserção de uma protagonista combatente dentro do grupo principal. Diferente de Saori Kido/Atena na trama clássica, a protagonista Yuna de Águia não era apenas uma donzela em perigo, mas sim uma amazona da ordem dos cavaleiros com forte presença no roteiro e aceitação do público. Seu diferencial estava justamente na abolição da máscara, que em narrativas passadas era justificada por diversos momentos. Anteriormente, raras exceções foram feitas junto à personagem Shaina de Ofiúco. Essa representação feminina foi intensificada com as personagens Sônia de Escorpião e as irmãs Paradox e Integra de Gêmeos, ampliando mais ainda a ideia das amazonas sem máscara.

Yuna de Águia tirando a máscara e indo contra uma tradição da ordem dos cavaleiros

Mesmo assim, Ômega não se tornou uma febre entre os fãs e divide bem a fanbase (de forma desbalanceada entre prós e contra), mas mostrou aos responsáveis pela franquia que a proposta de ressignificar sempre rende. Nisso temos em 2014 o longa-metragem em 3DCG, Legend of Sanctuary, que propõe uma releitura do clássico de Masami Kurumada com armaduras quase num conceito steampunk com elementos como dogtags substituindo as Pandora’s Box (não completamente) para as armaduras de bronze e quadros para as armaduras de ouro. Esse reboot nos cinemas deixou a desejar em muitos pontos da narrativa, mas deixou claro que era sim possível isso acontecer em um formato que não fosse o 2D. Não obstante, temos hoje Knights of the Zodiac da Netflix, que trabalha um formato em 3D para o novo reboot da franquia.

O design das armaduras em Legend of Sancturary foi uma boa aquisição ao universo da franquia

Entre os desdobramentos já ocorridos e aqui ainda não comentados, Santia Shô, de Chimaki Kuori, que em mangá tem a proposta de ser um retcom para eventos entre a Batalha das Doze Casas e a Saga de Poseidon inserindo de forma mais intensa a figura das meninas no universo de Saint Seiya: as santias, guerreiras de Atena que não obrigatoriamente são como as amazonas e que por isso não precisam abster de sua feminilidade (não usam máscaras). Confesso que para mim Saintia Shô é a melhor produção da franquia nos últimos anos. O que se há de lamentar é apenas a péssima adaptação animada apresentada pela Toei em 2018 (não dá nem para elogiar!).

O belo character design de Chinaki Kuori foi completamente destruído na adaptação para TV

Vendo tudo isso, a questão que norteia esse artigo pede por uma resposta. O que esperar? Basicamente, a narrativa de Saint Seiya é muito simples e não há mas espaço para inovações. Sempre haverá um gosto de mais do mesmo. É difícil encarar Saint Seiya como uma franquia aberta a um universo compartilhado como acontece com a Fate Series da Type Moon, por exemplo, embora o Episode G: Assassin mostre que eu possa estar errado.

Nossas esperanças estão depositadas no que o Next Dimension ainda nos reserva. A conclusão dos eventos do século XVII e as possibilidades apresentadas para o presente (século XX) com um Seiya de Pégaso em coma sendo perseguido pelos Olimpianos é o que ainda sustentam um hype já desgastado. As citações de Zeus ao longo da franquia e a aparição de Ártemis e Cronos (tomando como base o mangá) nos levam a novas batalhas que podem um dia ganhar forma.

Talvez, numa carência disso, a adaptação de outros spin-off seguem sendo o alvo assim como os reboots em execução. Uma boa pedida seria adaptar a light novel Gigantomaquia, que conta sobre a batalha contra Tifão e os Gigas, ou mesmo um dia rolar uma prequela com as batalhas dos tempos mitológicos (viagem minha aqui!).

Por sorte, independente do que vier, os fãs de Saint Seiya sempre se contentam com pouco. Haja vista a boa recepção dada ao lançamento da animação clássica remasterizada em HD no catálogo da Netflix recentemente. Como eu disse antes, se consigo valorizar o meu comercial com a alimentação do afetivo dos fãs para mim já está valendo. Por isso, não fique se preocupando com o quê esperar. Apenas curta e continue sentido o cosmo emanar.

Até a próxima e… Sayonara!

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Artigo Otaku | O que esperar de Saint Seiya (Parte 01)

Você está jogando o mobile game Saint Seiya Awakening: Knights of the Zodiac? Bom, se você é fã da franquia merece dar uma chance ao jogo apenas para experimentar um passatempo com bom design de personagens, cut scenes e trilha sonora referente à animação clássica de 1986.

Como pode ter percebido, eu estou jogando. Recém chegado ao Brasil tanto para Android quanto iOS, o mobile RPG reúne elementos da história principal com a jogabilidade do gênero de forma a proporcionar uma boa relação com o jogador.

Recentemente também a Netflix Brasil inseriu em seu catálogo a aclamada Saga de Hades completa com seus três capítulos (Santuário, Inferno e Elísios) realimentando o hype para a chegada da versão clássica e seus 114 episódios, que deveria ter ocorrido em agosto, mas já foi confirmado para 15 de outubro próximo. Isso sem falar do reboot feito pela própria Netflix que deve ter a segunda parte da primeira temporada disponibilizada até o final do ano (segundo rumores).

Tudo isso acaba que construindo um debate acerca da relevância de Saint Seiya para a indústria de entretenimento e perguntas sobre o que ainda se pode esperar.

(Teaser de pré-registro do mobile game Saint Seiya: Awakening)

Uma franquia tão longeva quanto essa certamente tem pontos fortes e fracos dividindo a opinião do público. Para Saint Seiya isso é muito notório quando se fala na composição desse público, que conta com fãs na média dos 40 e 30 anos (os mais antigos) e outros com 20 a 10 anos (incluindo os mais recentes). Ainda nessa composição há aqueles que se encaixam no fandom otaku e há aqueles que não se consideram/fazem parte deste nicho.

Assim, temos quem considere Saint Seiya – que por aqui ficou conhecido como Os Cavaleiros do Zodíaco – algo que chega ao ponto de ser tosco devido a problemas no roteiro, psicologia das personagens, estética de traços etc. Temos também quem tome a trama como uma obra-prima da mídia mangá/quadrinhos e que isso se repete em seus desdobramentos midiáticos.

Reconheço (correndo o risco de ter minha carteirinha de otaku confiscada) que faço parte do segundo grupo e amo a obra com muita paixão. Só que (em minha defesa) sou crítico o suficiente para observar o quão deficiente é a narrativa criada por Masami Kurumada em 1985 (data do mangá original). É nesse raciocínio que entramos na seara a respeito do que esperar. Antes recapitulemos o que já feito.

Em 3DCG, Knights of the Zodiac é o reboot mais recente que a franquia recebeu. (Fonte: Netflix)

Os desdobramentos de Saint Seiya e o público

Desde 2008, quando do lançamento da última parte do OVA (Original Video Animation) da Saga de Hades, os fãs se perguntavam qual seria o destino da franquia. Já existiam possibilidades. Em 2004, o longa-metragem Prólogo do Céu abriu as porteiras para uma possível batalha contra os Olimpianos. Desenvolvido a partir dos rascunhos do que viria a se tornar dois anos depois na prequel-sequel do mangá original denominada “Next Dimension”, o filme quase colocou em risco a conclusão da Saga de Hades, que só rolou quatro anos depois com qualidade inferior ao que havia sido feito nos seus treze primeiros episódios (Capítulo – Santuário).

O que se sabe é que o resultado final do filme não teria agradado algumas pessoas – entre elas o próprio Masami Kurumada -, mas a mensagem que ficou era de que para a Toei Animation já não havia mais prioridade para a franquia no estúdio, o que seria algo natural dado o passar do tempo. Saint Seiya era bem sucedido, mas nunca foi o maior campeão de vendas na indústria (num contexto local e mundial com exceções como França, Brasil e México, por exemplo).

Entre os fãs, muito se especulou que o Episode G pudesse ganhar sua versão em animê. Spin-off publicado desde 2002 (em 20 volumes no momento), o mangá desenhado por Megumi Okada tem traço destoante demais do que havia feito Masami Kurumada e Shingo Araki (na versão animê) com a história principal.

Arte com os design andrógino de Saint Seiya: Episode G e os Cavaleiros de Ouro do séc. XX. Narrativa mais densa e proposta de traço alternativo cativa os fãs, mas nunca foi adaptada em outras mídias (Arte: Megumi Okada / Revista Champion Red Ichigo)

Mesmo não virando animê, o Episode G tornou-se um material muito particular aos fãs mais aficionados pelos Cavaleiros de Ouro e rendeu mais duas publicações: Episode G- Volume 0: Aiolos, uma prequel; e Episode G ~Assassin~, que é uma sequel alternativa aos eventos do mangá original pós-Hades. Esse último foi iniciado em 2014 e terminou recentemente em agosto de 2019 confirmando o retorno de seu antecessor à publicação.

Os fãs dos Cavaleiros de Ouro, que ficarão ainda por algum tempo sem poder ver como ficaria a batalha dos Santos Dourados contra os Doze Titãs, tiveram suas esperanças maltratadas em 2015 quando da estreia do ONA (Original Net Animation) Saint Seiya: Soul of Gold, que veio como um spin-off da Saga de Hades onde os Cavaleiros de Ouro mortos no Muro das Lamentações vão para nas terras gélidas de Asgard (numa clara referência ao emblemático filler Saga de Asgard da série clássica) e combatem as intenções malignas do deus nórdico Loki.

Cena em Soul of Gold que fez a animação alvo de muitas críticas pelo péssimo trabalho de finalização no character design. Abaixo a mesma cena foi refeita em um review do episódio seguinte e traz algumas melhorias, mas ainda deixa desejar. (Fonte: cavzodiaco.com.br)

Embalada pela vontade de vender action figures (bonecos!), a Bandai Tamashii Nations – que detém os direito de imagens da franquia para linha de colecionáveis – lançou em 2014 (durante a CCXP) a linha de action figure com as 12 Armaduras de Ouro em sua forma divina e ainda fez apresentação do primeiro episódio do animê, que seria a peça de publicidade dos bonecos. Sem dúvida uma linha de colecionáveis que mexe com o coração dos mais apaixonados pela franquia.

Já não se pode dizer o mesmo do animê, onde a Toei Animation trouxe uma animação muito aquém do que vinha sendo aplicado nas demais produções da franquia, como é o caso de Saint Seiya: Ômega (falaremos dele na parte 02!). Com design de personagem questionável, erros de proporção e finalização, a série, que poderia ficar para a posteridade como algo memorável, veio a se tornar uma das chacotas do mundo otaku.

Muito outras chacotas ainda existem na franquia, que nesse período apresentou potenciais produtos de sucesso que por alguma razão não deslancham na aceitação do público geral ou do fandom especializado. O que não quer dizer que não haja coisas boas e valor simbólico entre os tantos desmembramentos já realizados e aqueles que poderão vir a existir. Assunto para a segunda parte deste artigo especial.

E você: já sentiu o cosmo?

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Artigo Otaku | O que muda com a vitória de Ash

A vitória veio. Mas e agora? Essa é a verdadeira questão a ser respondida

Há várias formas de se responder essa pergunta.

Uma delas é uma que corre pela tangente devido ao nosso pouco (ou nenhum!) poder de decisão dentro da Toei Animation para definir como a série de TV que está há 22 anos no ar irá se comportar. Dito isso o que se pode formalizar aqui é que não sabemos o que pode mudar.

Não sabemos, porque é um mistério de verdade. No primeiro dia de setembro descobrimos que a nova temporada da série de TV, que comumente estreia concomitantemente ao lançamento da nova geração da franquia nos jogos (Sword & Shield), pretende retomar elementos das gerações anteriores tendo até mesmo seu logo oficial em japonês retornado ao modelo da primeira temporada em 1997.

Intensifica esse hype sobre o que aguardar na nova fase da animação a vitória de Ash Ketchum em uma Liga Pokémon. Por longo desse tempo todo, nos acostumamos a vê-lo ralando duro para chegar à liga e no final não ser recompensado com a vitória. Há quem cogite que finalmente irão aposentar a personagem, pois afinal de contas o seu plot finalmente foi alcançado. Eu duvido! Antes, vamos recapitular sua jornada.

Dos seis torneios anteriores a Alola, somente a Conferência do Planalto Índigo (Liga Pokémon de Kanto), na primeira temporada, tinha um hype menor em termos de expectativa do público pelo vencedor. Isso porque Ash era um iniciante (ficou no Top 16). Nem fazia sentido ele ganhar.

Já em Johto, na Conferência de Prata, tivemos algumas reviravoltas absurdas. Ash era um treinador melhor do que havia sido na liga anterior e até mesmo já havia conquistado um campeonato de menor expressão como a Liga Laranja. Após uma árdua batalha contra Gary Carvalho – e uma vitória – somos surpreendidos por um participante vindo da Região Hoen com pokémon desconhecidos pelo protagonista até então, que acaba caindo assim nas Quartas-de-Final (Top 08).

Na Conferência de Ever Grande (Liga Pokémon de Hoen) esses resultados favoráveis se converteram numa expectativa para a primeira vitória em torneios oficiais. Expectativas destruídas por um Meowth-de-Botas, onde Ash repetiu o Top 08. Dessa vez perdendo para o futuro campeão. Após isso ainda rolou uma aventura pela “Batalha da Fronteira” e mais uma vitória de Ash em competições menores/amadoras. Já na Conferência do Lírio da Ilha Valley, onde já não havia nenhum erro – para os fãs – que a vitória viria (ainda mais após a dura batalha contra o rival Paul), temos um tal Tobias com alguns pokémon míticos e lendários no time batendo de frente com Ash e vencendo a competição da Liga Pokémon de Sinnoh. Esse Tobias, eu desconfio, só pode ser um dos clientes de J, a Caçadora de Pokémon, porque ter um time com dois pokémon poderosos como Darkrai e Latios (e nem chegamos a conhecer os demais!) não me parece ser algo natural. Fanfic minha a parte, esse foi o Deus ex machina mais louco da franquia para evitar a vitória de Ash, que ficou no Top 04.

Teaser liberado em 01 de setembro de 2019 no canal oficial da franquia no Japão

É em Unova que realmente temos a certeza de que Ash nunca ganharia uma Liga Pokémon. Após um roteiro absurdo que transformou o herói em algo bem próximo de um iniciante, vimos Ash chegar somente ao Top 08 após batalhas sofríveis. Virgil, o treinador de eevolutions foi o campeão (quer fanservice melhor que esse?). Em Kalos, sem esperanças em nada, somos iludidos outra vez com uma campanha majestosa que gerou revolta nos fãs pelo mundo. Chegando em sua primeira final – e com um bom time – Ash perde de forma dura para Alain, que vence a Conferência de Lumiose e sagra-se campeão. Muitos contestam a vitória de Alain. Eu, pelo contrário, acredito que ela é que mais tem lógica na série de TV. Todos os demais vencedores até então apareceram somente quando da realização da Liga Pokémon. Alain, no entanto, aparece bem mais cedo e até mesmo é protagonista dos OVAs destinados ao tema das Mega Stones. Uma vitória construída.

Assim, chegamos a Liga Pokémon de Alola, que acontece em sua primeira edição. E aqui a frustração! Uma Liga Pokémon aberta, sem a necessidade de classificação por meio de Batalhas de Ginásio. Dessa forma, NUNCA a Liga Pokémon de Alola terá o mesmo peso e respeito que as anteriores. Mas deixa estar. Ash venceu uma liga oficial.

E agora?! O que muda? A iminência de um reboot assombra alguns e anima outros (muito mais anima que assombra, na verdade). Isso porque nos filmes da franquia já tivemos tal feito. Desde 2017, com Pokémon the Movie: I Choose You!, a história de Ash Ketchum recomeçou nos cinemas. o que parecia ser só um ato de celebração do 20 anos do animê deu lugar a uma sequência, Pokémon the Movie: The Power of Us em 2018, que deixou bem nítido que essa parece ser a tendência a ser seguida. Em 2019 só não se repetiu tal lógica porque optou-se por celebrar os 20 anos do filme Pokémon the Movie: Mewtwo Strike Back ( o primeiro!) com o remake do longa-metragem em um 3DCG chamado Mewtwo Strike Back Evolution. Para o ano que vem já se sabe que não teremos 3DCG no cinema. Tudo indica que a lógica do reboot iniciada em 2017 deve se repetir.

Dessa maneira, com um reboot que deu certo no cinema, por que não fazer o mesmo na TV? Parece promissor. Contudo, como fica a Região de Galar? Pelo teaser já apresentado sabemos que ela estará lá. Agora é aguardar pelo dia 29 de setembro, quando um trailer completo sobre a nova temporada será disponibilizado.

Agora, se me perguntarem o que muda com a vitória do Ash a minha resposta é:

NADA!

A série seguirá seu rumo independente de haver ou não mudanças na TV. Consolidada, Pokémon – agradando ou não – sempre será tema de debate entre roda de amigos e redes sociais, fazendo assim jus ao status de maior franquia de entretenimento do mundo.

Até a próxima e… Sayonara!

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