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Artigo Otaku | Bowsette, o Raio Japonizador e fetichização

Brincadeira na web esconde um universo de erotização.

Durante a última Nitendo Direct, no dia 13 de setembro de 2018, algo próximo de ser uma simples novidade no game New Super Mario Bros. U Deluxe Treatment levou a internet a um viral surpreendente. Tudo começou com a aparição de uma versão princesa da Toadette que se parece muito com a heroína Princesa Peach. Tal transformação é adquirida por um item (uma coroa), que permite a mudança de visual da personagem.

Foi aí que o usuário do Twitter @ayyk92 postou uma fanart onde o maior vilão da franquia, Bowser, faz uso deste mesmo item e assume uma forma feminina. Não demorou muito para a imagem cair no gosto do público que entrou na brincadeira e até mesmo batizou a pseudo-personagem de Bowsette. Estaria tudo bem se fosse apenas isso, mas o problema é que o Raio Japonizador – quando mal usado – promove a aparição de conteúdo não tão qualitativo como se acredita: o fanservice.

No linguajar otaku, Bowser virou uma waifu (wasei-eigo para a palavra em inglês wife). Conquistando muito fãs que lhe rendem homenagens em mais e mais fanarts. O caldo entorna quando essas “homenagens” deixam o campo da admiração, da diversão e entram no baile da fetichização. A expressão “Raio Japonizador”, que figura o título deste artigo, se refere a um hábito muito comum dos criadores de conteúdo daquele país em antropomorfizar animais, objetos, sentimentos e tudo o quanto mais você imaginar. Só que dentro desse ramo de “japonizar” as coisas há quem utilize isso para alimentar fetiches e também fomentar a indústria de conteúdos sexualizados.

Bowsette é somente mais uma vítima dos predadores virtuais que se apoderam do material simbólico da Cultura Pop (seja geek, otaku etc.) e transformam isso em fanservice puro e simples. No mesmo universo narrativo, King Boo foi outra vítima do “raio japonizador” e também ganhou sua forma feminina.

 

 

(A fetichização de Bowsette e Boosette são frutos do raio japonizador em personagens da Big N)

 

Essa fetichização (e por que não erotização?) desenfreada promovida pelos japoneses também invade a indústria do entretenimento de lá, que usa de artifícios iguais – ou até mais desprezíveis – para manter um diálogo com seu público formado por diversos elementos misóginos e cheios de desvios morais/sexuais. É o caso da campanha do game Omega Labyrinth Life da D3 Publisher apresentado durante a última Tokyo Game Show.

A cosplayer Miyuu Inamori foi contratada para apresentar o J-RPG (que tem como foco dungeons onde garotas seminuas tem seus seios aumentados toda vez que sobem de nível) e acabou tendo que fazer um verdadeiro serviço de fetiche para os masturbadores de plantão que a viram vestir uma calcinha no palco aberto (por cima de outra, senão seria mais ridículo ainda) e depois fazer poses sensuais e abrir todo o decote da blusa, afinal são os seios o principal destaque do fatídico jogo.

Casos de fetichização e erotização da figura feminina também estão presentes em animês. Posso citar como exemplo títulos como Akikan, onde latas de refrigerantes viram garotas, ou Kantai Collection, onde navios na verdade são garotas! Tal fetichização também se espalha pelo cenário dos games dando margem para a discussão da sexualização e inferiorização da mulher no mundo digital.

É claro que nem todo título produzido pela indústria do manganime é com esse propósito ou tão explícito nele. Exemplo é Uma Musume (onde cavalos de corrida são na verdade garotas), o que revela também uma tendência de antropomorfizar seres e propor narrativas que até são interessantes, mas que infelizmente nas mãos dos predadores virtuais podem se transformar em ero-doujinshis, os mangás hentais feitos por fãs.

 

(As Kancolle, são garotas-navios muito conhecidas pelos seus game [2013] e animê [2015], além de um grande números de doujins hentais feitos por fãs)

 

Os males dessa fetichização aberta na mídia se reflete na dificuldade do público japonês em respeitar a figura da mulher. Não é de hoje que vemos na TV e na Internet matérias que chamam a atenção para a desvalorização da mulher enquanto profissional. Casos como o da Universidade Médida de Tóquio, que alterou notas de estudantes mulheres para diminuir o número de ingressantes com a justificativa de que elas seriam profissionais pouco capacitadas ao trabalho por se casarem terão que se afastar para cuidar dos filhos, revela o lado obscuro de uma sociedade que vende em seus enlatados midiáticos uma mulher como objeto de desejo sexual e nada mais.

Mas há ainda momentos de respiro em meio a um ambiente tão tóxico. Em artigo para a Revista Cambiassu (UFMA) construo uma linha do tempo que mostra a relação da mulher com o mercado de mangás e como isso influencia também nas narrativas, que são construídas no âmbito de exaltar a mulher fugindo do vício de menosprezá-la por sua própria condição.

Figuras como Ryoko Ikeda, e sua Lady Oscar, ou as poderosas do Grupo CLAMP,  são os grande baluartes de uma luta por reconhecimento do papel feminino real. A personagem Misaki Ayusawa (Kaichou wa Maid-sama!) de Hiro Fujiwara é a representante moderna da juventude feminina nipônica que luta por seus direitos e vai contra esse processo subversivo do fetiche e da erotização de tudo.

É importante saber que dificilmente deixaremos de ver o “raio japonizador” ser usado de forma tão triste e abusiva. Espero do fundo da alma é que os otaku que leram até aqui entendam que deve haver limites para nossos fetiches. Não vou dar a ordem para parar de consumir, mas fica a reflexão sobre o assunto. Aos não-otaku defendo a ideia de que nem todo fã de Cultura Pop Japonesa está enlameado com esse cenário e que mangás e animês são muito mais que isso. No meio de tanta sujeira sempre se encontra algo de bom proveito.

 

(Em Hataraku Saibou um Glóbulo Vermelho e uma Plaqueta são representadas como uma adolescente e uma criancinha fofa)

 

O “raio japonizador”, quando bem usado, pode nos presentear com bons conteúdos como o já popular Hataraku Saibou (Cell at Work) que nos mostra o cotidiano do corpo humano com nossas células sanguíneas antropomorfizadas de forma a nos explicar quase que didaticamente como o nosso interior biológico é tão complexo.

Retomando o assunto que iniciou essa discussão… A Nintendo preferiu não comentar sobre a Bowsette, mas não descartem futuras aparições delas na franquia Super Mario de forma oficial. A Big N nunca apelou dessa forma junto aos fãs, mas tirando a fetichização da personagem, com toda certeza irá se valer dela para ganhar mais e mais adeptos ao seu universo.

Até a próxima e… Sayonara!

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