Artigo Otaku | A realidade do Revival de animês

Anúncio de nova série promove frisson, mas também questionamentos.

Após apresentar Orbital Era, seu mais novo filme e confirmar uma remasterização em 4K de sua obra-prima, Katsuhiro Otomo fez muitos otakus pelo mundo suspirar como em fim de coito após revelar um novo projeto de Akira. Uma série animada dentro do universo do mangá de 1982 foi anunciada durante o Anime Expo 2019, em Los Angeles (EUA). A produção ficará por conta do estúdio Sunrise (Cowboy Bebop, Gundam, Code Geass).

Ao mesmo tempo, tal anúncio promoveu um debate perspicaz entre, digamos, especialistas, que já premeditam situações de aceitação e negação do produto ainda nem comercializado puramente com base em suas experiências com o mangá e também com o animê lançado em 1988.

Depois de 30 anos do boom dos animês no ocidente, chegamos numa fase bastante assustadora aos fãs e pesquisadores do Otaku Studies. Como a onda revival pode contribuir para o fandom hoje? A resposta é: não pode! Vejamos o porquê.

Uma das alegações mais ouvidas nos últimos dez anos é que a indústria japonesa se estagnou, que os títulos não são inovadores, que se perdem em fanservice e na hipersexualização das personagens femininas etc. Nenhuma mentira, por sinal, mas o ponto de partida para vários desdobramentos.

Não consigo conceber a ideia de que a indústria aposte no revival porque as obras de 20/30 anos atrás eram superiores às de hoje. Minha ingenuidade me leva a crer que na verdade é só o fator sucesso que impulsiona um revival de um animê. Por já haver base de fãs estabelecidas a possibilidade de prejuízo é menor. O problema do revival, no entanto, é que ele se depara com a barreira do tempo. O comportamento, a cultura e a educação dos fãs da obra na sua época de auge jamais serão os mesmos 30 anos depois. Nem mesmo os fãs serão iguais.

Isso não vale apenas para animês. O revival deRei Leão, hoje muito aguardado, já foi questionado pela tópico da expressividade dos animais. Recentemente, Mulan sofreu com críticas por mudanças na questão da trilha sonora e Arielprovocou alvoroço ao apresentar uma atriz negra no papel da princesa dos mares. Se as animações da toda poderosa Disney tem seus revival colocados em xeque (para o bem ou para o mal), o que não dizer da controvertida indústria japonesa de entretenimento?

Veja você que Os Cavaleiros do Zodiaco da Netflix nem estreou ainda, mas já é polêmico porque um personagem teve o sexo mudado. Imagine agora o que se pode esperar da nova obra envolvendo Akira? Talvez muita coisa boa se consideramos o envolvimento direto de Otomo (acontecendo de fato) ou talvez uma mudança chocante, pois nesses 30 anos Otomo pode ter moldado uma nova visão de mundo e isso influenciaria o mundo da sua obra, que por si só é uma ficção distópica bastante tênue. A paixão dos fãs pode ser maculada a cada alteração (quem lembra dos tweets de J. K. Rowling?)

Akira possui seis volumes de mangá que foram brevemente adaptados em 1988. Mesmo assim foi um sucesso. É bom deixar claro que durante o anúncio no Anime Expo 2019 nada foi confirmado. O mais cogitado, no entanto, é que se trate de um reboot mesmo. Mesmo assim, nada garante que um novo projeto – mesmo um que leve ao pé da letra o mangá – obtenha o mesmo respeito, pois o quesito repertório afetivo do público é traiçoeiro.

É verdade! Por exemplo, quando Neo Genesis Evangelion foi anunciado para o catálogo da Netflix houveram muitos comentários pró e contra. Para a Netflix tanto fez como tanto faz. Agora, o animê do estúdio Gainax é dos mais relevantes do início de julho e toda hora tem alguém no Twitter ou no Reddit dando seus pitacos. O último foi sobre a redublagem nacional (realizada por contratos comerciais) bastante criticada por , VEJA SÓ, corrigir erros da primeira versão e eliminar piadas existentes só naquela versão em PT-BR.

Dito isso, a realidade do revival otaku é uma só: As empresas o fazem porque é economicamente interessante e é a alternativa que tem em mãos para reconquistar o fã que não vê mais futuro na indústria. Isso porque todo dia tem mangás e light novels sendo rejeitados nas editoras japonesas que estão atrás do novo sucesso mundial. Todavia, elas não podem deixar de alimentar seu próprio mercado e por isso não tem vergonha de usar genéricos com fórmulas repetidas. Melhor garantir a subsistência a ter que falir. Lembre-se que nem tudo são rosas e os animadores não são os mais bem pagos do mundo.

Dessa forma – não esquecendo das novas linguagens e dos novos tempos – realizadores e estúdios apostam na espinha dorsal do projeto e retiram algumas coisas, acrescentam outras… Tudo com o objetivo de gerar o marketing mais amado de todos: o feito pelo fã.

Aí, quando este membro importantíssimo para o projeto, mas completamente à parte na sua realização, tenta tomar para si responsabilidades não lhe dadas por meio de comentários e críticas, alguém de dentro da indústria vem para relembrar todo mundo como cada um deve se comportar na equação. Não é mesmo Junichi Masuda?

Até a próxima e… Sayonara!

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