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Artigo Otaku | A Biologia Pokémon (Parte 01) – Tipos, vantagens e desvantagens

Presente no universo dos games, a Biologia Pokémon é um mix de narrativa e mecânicas.

Após um longo período de reclusa em uma caverna escura e úmida chamada procrastinação (Mentira! Estava gozando de merecidas férias como todo trabalhador brasileiro merece e tem direito.) volto a dar prosseguimento aos nossos artigos semanais que dialogam com a Cultura Otaku aqui no VOLTS.

Foi justamente nesse meu momento de relaxamento que me deparei com um tema interessante. Você leitor que trabalha ou que pretende trabalhar um dia assuma algo importante para sua vida: “Você pode até de afastar do trabalho, mas ele não largará você”. Entenda que isso não é ruim, só tome cuidado para não ser abusivo/excessivo. Pois bem, no grupo de trabalho do VOLTS em um app de mensagens efervesceu um debate oportuno. O novo filme da franquia Pokémon tinha seu novo trailer divulgado. As apresentações destacaram a Região Jotho e o pokémon lendário Lugia. Daí um debate generalizado tomou proporções rápidas quando…

 

“Lugia eh um Pokémon menino ou menina ou tem dos dois sexos?” (sic)

“Tem os dois”

“Obrigadx. [segundos depois] Olha Fulanx. Me disseram q por Lugia ser lendário não tem sexo” (sic)

“Q q tem a ver, mermã?” (sic)

“Vc errou. Vc me disse q tinha dos dois, e não tem eh nenhum” (sic)

“Dirculpa” (sic)

“Está tudo bem [segundos depois] …e ainda q tem voz feminina, logo: eh a Roberta Close dos Pokémon” (sic)

 

Após esse diálogo revelador sobre os bastidores do VOLTS – reproduzido sem devida autorização prévia, mas protegendo as identidades de nossos respectivos colegas de trabalho – vamos aos fatos. Primeiro defendendo a honra da ilustríssima Roberta Close (primeira transsexual a posar para a capa da edição brasileira da Revista PlayBoy), brincadeira a parte não se pode comparar a ícone da moda trans com o pokémon lendário [quem fez a comparação sabia disso, logo não se ofenda].

Lugia, pokémon de n° 249 da Pokédex, na verdade trata-se de espécime sem gênero (genderless) e provavelmente assexuado [discussão a ser aprofundada nos próximos artigos], mas com possível aptidão de se reproduzir, como se fica comprovado nos episódios 220 e 221 (The Mistery is History e A Parent Trapped!) da série de TV exibidos em 2001 no Japão onde um bebê Lugia e seu progenitor/progenitora aparecem reunidos. Na versão ocidentalizada assumiu-se que se tratava de um “papai” Lugia, mas a informação dos jogos da franquia desmentem a caracterização por gênero desse pokémon.

 

Genderless, Lugia foi o pivô de um debate sadio e revelador para alguns

 

Tal observação levou o grupo do VOLTS a se deparar com um fato: Existe uma Biologia do Mundo Pokémon bem elaborada pela franquia, mas por vezes muito confusa para os não iniciados ou seguidores dela. Nas linhas a seguir e nos próximos artigos especiais falaremos um pouco mais sobre.

Neste primeiro artigo falaremos um pouco mais sobre Tipos de Pokémon, um assunto “mais fácil” e importante para quem busca entender jogabilidade e características dos pokémon.

 

Os Tipos Pokémon

Em 2018 a franquia Pokémon conta com um total de dezoito tipos biológicos que auxiliam o público a diferenciar cada um “monstros de bolso”. São Eles: Normal (Normal), Fire (Fogo), Grass (Grama), Water (Água), Eletric (Elétrico) Rock (Pedra), Ground (Solo), Psychic (Psíquico), Ghost (Fantasma) Poison (Venenoso), Fight (Lutador), Flying (Voador), Bug (Inseto), Ice (Gelo), Dragon (Dragão), Dark (Sombrio/Noturno), Steel (Aço) e Fairy (Fada).

Cada um desses dezoito tipos reference diretamente a características físicas, habilidades ou ecossistema onde habitam não obrigatoriamente respeitando essas condições. Por se tratar de um jogo de RPG [eletrônico], essa divisão em categorias busca auxiliar o jogador/treinador a elaborar estratégias de batalhas ou se especializar num esquema de batalhas e treinos, além claro, como também afinidades.

Criada em 1996, a franquia estreou com os jogos Red e Green (Red e Blue no Ocidente) com 151 pokémon jogáveis divididos em quinze tipos. Na segunda geração de jogos (Silver e Gold) foram introduzidos mais pokémon e também dois novos tipos (Dark e Steel) e somente na sexta geração (X e Y) foi introduzido o Fairy-type, assim como mais pokémon ao longo do passar dos anos ou readequando a classificação de outros [como é o caso de Clefairy, que antes era apenas Normal e hoje também é Fada].

Em um RPG é essencial o sistema de A’n’D (Advantages and Disadvantages, em português Vantagens e Desvantagens). No ambiente eletrônico essa premissa se mantém. Em Pokémon são os tipos a caraterística de jogabilidade responsável por determinar isso. Em resumo, o tipo do Pokémon influencia seu desempenho durante uma batalha. Peguemos por exemplo os iniciais da região de Kanto (1ª Geração):

 

O esquema usado para os Staters Pokémon se mantém o mesmo ao longo dos anos. Em alguns spin-offs são substituidos por Pikachu e Eevee.

 

Bulbasaur (Grass-type), Squirtle (Water-type) e Charmander (Fire-type), apresentam o esquema A’n’D baseado no conceito de jogabilidade Tactical Rock-Paper-Scissors (Tática Pedra-Papel-Tesoura) onde sempre um terá vantagem sobre o outro. O Fogo consome a vegetação, que se alimenta de água, que por sua vez apaga o fogo.

Mantendo a proposta do RPG, Pokémon absorve outro dois sistemas táticos muito conhecidos: Western (sistema Europeu) e Eastern (sistema Asiático). Baseado no esquema dos elementos – onde sempre haverá um mais forte que o outro (Strengths and Weaknesses, em português Forças e Fraquezas), onde tipos podem coexistir ou se conflitarem (Hostile and Friendly, em português Hostil e Amigável), ou mesmo terem condições iguais (True Neutral, sem tradução adaptada para português) onde os poderes se equivalem e se opõem em mesmo nível.

Nessa organização bastante complexa, o jogo – e toda a franquia – ganham uma variedade de habilidades e movimentos [Habilitys and Moves, a ser explicado em outro artigo], ecossistemas – que podem interferir no desempenho dos monstrinhos – e pontuações.

 

Danos (Damages)

Dotados de um HP (Hit Points, em português Pontos de Vida), cada pokémon tem sua duração em batalha terminada assim que tais pontos são “zerados”. Para que isso aconteça é preciso que um golpe seja efetivo, super-efetivo ou crítico (Effetive, Super Effetive and Critical Hits). A melhor maneira de se fazer isso é combinando corretamente os tipos pokémon que se enfrentaram. Traduzindo: Se um Pokémon Elétrico (Eletric-type) atacar um Pokémon Fogo (Fire-type) o valor de dano a ser computado é multiplicado por um (1x). Isso se constitui ataque efetivo, pois aflige o adversário. Se esse mesmo Pokémon Elétrico atacar um Pokémon Água teremos então um dano computado super-efetivo, pois é multiplicado por dois (2x). Agora, se esse Pokémon Elétrico atacar um Pokémon Grama teremos uma nova situação: a de resistência (Resistance), que tem o valor de dano computado e dividido ao meio (1/2x).

 

Tabela de Strengths and Weaknesses dos tipos pokémon. A esquerda os tipos em ataque e acima os tipos em defesa. Fonte: Bulbapedia

 

Nesse esquema de Forças e Fraquezas ainda impera a imunidade (Immunity) onde não há dano (0x) indicando que um determinado tipo não afeta outro [Ex.: Ghost (Fantasma) é imune a ataques Normal (Normal)]. Detalhe: embora em muitas vezes isso leve em consideração as características físicas não é uma regra absoluta.

O ataque crítico (Critical Hit) acontecerá em duas específicas condições: 1) o movimento utilizado é de efeito crítico e leva ao desmaio [derrota] imediato; 2) o dano infligido ao pokémon adversário é multiplicado por quatro (4x). Para que a segunda condição aconteça um pokémon deve ter dois tipos diferentes.

Não é incomum que um pokémon tenha tipos diferentes – é mais incomum ter apenas um tipo, os chamados Pure-types – e essas combinações podem levar em consideração estrutura física e estética dos pokémon. Há casos comuns como Water/Ice e Normal/Flying; casos populares como Fire/Fight e Rock/Steel; ou casos incomuns como o de Volcarona, que é Fire/Water, e popularmente conhecido como o “Pokémon Vapor”.

 

Volcanion é o primeiro e único pokémon a apresentar os tipos Fire e Water juntos

 

Conhecer esse esquema completo [ver tabela acima] ajuda ao jogador/treinador na hora de equipar o move set (lista de movimentos) que um pokémon pode aprender. Isso porque mesmo não tendo um determinado tipo um pokémon pode aprender esse movimentos. É o caso de pokémon com tipo Grama (Grass-type) que pode aprender o movimento Sunny Day (Dia Ensolarado), que é do tipo Fogo (Fire-type) a fim de aumentar seu poder de ataque ao usar movimentos como Solar Beam (Raio Solar) e Solar Blade (Lâmina Solar), ambos Grass-type.

O certo é que entender o funcionamento dos tipos para a jogabilidade nos ajudam a entender também o contexto narrativo da franquia. São muitos tipos (dezoito) para não só apresentar possibilidades das mais diversas em batalha, mas para determinar o apreço do jogador/fã ao universo criado, que detém variedade de biomas, espécies e estruturas naturais ou artificiais.

Vindos do espaço (Clefairy e Deoxys) ou criados por humanos (Porygon e Mewtwo), o certo é que por esses tipos que se pode identificar cada monstro. É como a nossa classificação de “Reinos” para os seres vivos, só que não tão estruturada, bem mais confusa e aberta a constantes adequações.

Até a próxima e… Sayonara!

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Artigo Otaku | Mais um feito dos Sete Pecados Capitais

Mangá foi eleito pelo público como o “Livro do Ano” no Google Play.

Na última terça-feira (03) foram divulgados os resultados do Google Play Choice Awards 2019, uma premiação promovida pela Google junto aos usuários da sua loja oficial de aplicativos que define – em voto popular – os melhores do ano em quatro categorias: App, Game, Filme e Livro.

Entre os vencedores do ano destaque para Avengers: Endgame na categoria Melhor Filme. Nas categorias Melhor App o vencedor foi Dollify (app de criação de caricaturas) e em Melhor Jogo o vencedor foi Call of Duty Mobile. Na quarta e última categoria, Melhor Livro, uma surpresa chamou a atenção de todos.

O público que votou indicou o volume 30 do mangá The Seven Deadly Sins (Nanatsu no Taizai, no original) como o grande campeão do ano.

A partir dessa situação o breve artigo reflete agora sobre as consequências disso. Embora de início há quem defenda uma certa jocosidade por parte dos eleitores do prêmio (a qual não descarto), se faz mister dizer também que há nisso um prognóstico do que se esperar para o mercado.

Contextualizando o vencedor, o que se pode dizer é que The Seven Deadly Sins vol.30 foi publicado digitalmente no ocidente em 2019 (um anos depois do seu lançamento no Japão em 2018). No Brasil, o título é publicado tanto no formato físico quanto no digital pela JBC Editora. Aqui, vale ressaltar, além dos volumes compilados ainda podemos consumir os capítulos simultaneamente com o lançamento no Japão também no formato digital.

O volume em questão abrange os capítulos 241 a 249 incluindo dois extras. Seus principais ato são: o duelo entre o Rei dos Gigantes, Drole, e o Rei das Fadas, Gloxínia, contra o demônio Chandler; Meliodas e os poderes dos Dez Mandamentos e a verdadeira forma de Merlin. Até é um volume interessante, mas bem mediano num olhar mais apurado. The Seven Deadly Sins vem tomando a bastante tempo um caminho arrastado e pouco empolgante (na reta final melhorou um pouco, mas bem pouco mesmo!), o que nos leva a questionar a escolha do título para vencedor em Melhor Livro do Google Play Choice Awards.

Fonte: Google Play Choice Awards 2019

Não tenho dados, e nem é de meu interesse no momento refletir sobre eles, mas o que nos leva a crer é que a presença do mangá no formato digital não é uma aventura sem fundamento. Há público, e esse público responde colocando-o no mais alto lugar do pódio de uma premiação simbólica, mas de repercussão.

Ainda em novembro, a Japan House em São Paulo-SP, em virtude de sua exposição “Isto é Mangá” realizou algumas palestras com foco no tema onde profissionais de diversos setores da indústria editorial envolvidos com esse universo puderam falar abertamente com o público sobre isso. Uma dessas palestras focou justamente no assunto dos mangás digitais e reuniu representantes da própria JBC, além de Kobo Rakuten (empresa especializada em livros e leitores digitais) e BookWire (especializada em marketing e distribuição de livros digitais).

Conforme o relato feito pelo blog Mais de Oito Mil, entre os muitos assuntos levantados figuraram temas como “combate à pirataria” com os palestrantes lembrando que uma cultura de leitura do digital já existe entre fãs de mangás (os scanlators) e que o foco é pensar em como tornar o hábito de fazer isso por vias legais deve ser melhor pensado e aproveitado pelos licenciadores e editores. Outro tema é o que diz respeito a “desterritorialização dos espaços de venda” ao tornar mais prático e acessível a leitura digital do mangá, visto que para a indústria existe uma crise de mercado quando se fala de distribuição e material para confecção de versões físicas (o que está nos levando para um boom das edições de luxo, outra pauta importante que deve ser questionada, mas não aqui).

Dito isso, a aposta no mercado digital de mangás é uma realidade tão presente que The Seven Deadly Sins vence em popularidade justamente por atingir um público de fato interessado no conteúdo e no formato. É lógico que esse conteúdo pode – e será – questionado pelo próprio público, mas com o passar dos tempos poderemos ver mangás considerados de alto nível vencendo em outras ocasiões. Tudo depende do binômio investimento do mercado + aceitação do público quanto ao desapego com o físico.

Assim, seja para o bem ou para o mal, os sete pecados capitais deixam seu nome marcado por mais esse feito: agora fora do Reino da Liones.

Até a próxima e… Sayonara!

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Artigo Otaku | O que esperar de Saint Seiya (Parte 02)

Debate sobre os desdobramentos da franquia continuam.

Um mês atrás, quando do lançamento do servidor brasileiro de Saint Seiya Awakening: Knights of Zodiac, iniciei uma explanação a respeito dos desdobramentos existentes dentro da franquia iniciada na década de 1980 do século passado pelo criticado Masami Kurumada. Na etapa inicial dessa discussão trouxe como exemplos os cases envolvendo os spin-offs Episode G e Soul of Gold.

A título de informação, não estou mais jogando o mobile game dos Santos de Atena porque, embora seja muito bom, requer muito tempo para a sua apreciação tanto no modo história quanto nos eventos paralelos decorrente de um MMO. Estou num momento da vida onde partidas fechadas e rapidamente executáveis pedem minha atenção e se encaixam em meu tempo (oi para a turma que joga comigo Mario Kart Tour e Call of Duty Mobile).

Como prometido, nessa parte final da discussão apresentarei como os desdobramentos midiáticos da franquia se relacionam com o fandom de maneira a ainda alimentá-la.

Novos nichos… Mas as mesmas situações (?)

Em 2012, quatro anos após a conclusão da Saga de Hades em sua versão para home video, a Toei Animation viu uma oportunidade de reformular o universo narrativo de Masami Kurumada a partir de dois eixos que podemos considerar importantes: o afetivo e o comercial (esse bem mais válido). Nascia assim Saint Seiya Ômega, animação dirigida por Morio Hatano, mas sem nenhuma participação direta de Kurumada (que apenas era creditado como responsável pelo conceito original).

Vale ressaltar que um anos antes havia sido exibido na TV japonesa um outro spin-off da franquia. Saint Seiya: The Lost Canvas, baseado no mangá de Shiori Teshigori, era uma prequela focada na Guerra Santa do século XVII (ou seja, a anterior ao da história clássica) animada pelo estúdio TMS Entertaiment. Inspirado no trabalho de Kurumada, The Lost Canvas – por ser bem produzido e bem desenhado – conquistou o público sedento por novidades na franquia e abafou a sequência da trama pensada pelo autor original. É preciso lembrar que Saint Seiya: Next Dimension (a sequela canônica) foi iniciada em abril de 2006 enquanto The Lost Canvas (o spin-off não-canônico) quatro meses depois.

Odisseu de Serpentário é um grande enigma na trama lenta de Next Dimension

Esse racha simbólico na estrutura narrativa proposta por Shiori Teshigori dividiu o fandom de tal forma que Next Dimension passou a ser subvalorizado, mesmo sendo a continuação oficial. Sua volta aos palcos de aceitação se deu recente em 2018 com a aparição do 13º Cavaleiro de Ouro, Odisseu de Serpentário. Um acréscimo bem elaborado pelo mestre Kurumada, diga-se de passagem. Já aos fãs de The Lost Canvas, o mangá – já finalizado – rendeu uma série side story (prequela do spin-off), mas a terceira temporada da animação nunca sairá do papel. Aceitem!

Voltemos ao Ômega. É nessa onda de spin-off bem aceitos que Ômega surge na tentativa de dialogar com um novo público. Enquanto o Next Dimension se focava ainda nos eventos do passado e nada mais havia apresentado sobre o futuro, a animação de Morio Hatano propôs então uma mudança de perspectiva ao apresentar os novos Cavaleiros de Atena do Século XXI e alterar alguns conceitos (mesmo que depois tivesse que retomar alguns de volta) quando abdicou-se então das Pandora’s Box, que guardavam as armaduras sagradas, pelas Coth’s Stone (Joia de Armadura, na dublagem nacional). Mudou também o design das próprias armaduras que ganharam um visual menos medieval para assumir as forma de uma roupa spandex a la Super Sentai/Power Rangers. Essas mudanças foram prontamente rejeitadas por uma boa parte do fandom e talvez – não posso afirmar! – isso tenha sido levado em consideração na segunda fase da animação quando as armaduras voltaram ao conceito clássico.

A mudança mais significativa em Ômega foi a inserção de uma protagonista combatente dentro do grupo principal. Diferente de Saori Kido/Atena na trama clássica, a protagonista Yuna de Águia não era apenas uma donzela em perigo, mas sim uma amazona da ordem dos cavaleiros com forte presença no roteiro e aceitação do público. Seu diferencial estava justamente na abolição da máscara, que em narrativas passadas era justificada por diversos momentos. Anteriormente, raras exceções foram feitas junto à personagem Shaina de Ofiúco. Essa representação feminina foi intensificada com as personagens Sônia de Escorpião e as irmãs Paradox e Integra de Gêmeos, ampliando mais ainda a ideia das amazonas sem máscara.

Yuna de Águia tirando a máscara e indo contra uma tradição da ordem dos cavaleiros

Mesmo assim, Ômega não se tornou uma febre entre os fãs e divide bem a fanbase (de forma desbalanceada entre prós e contra), mas mostrou aos responsáveis pela franquia que a proposta de ressignificar sempre rende. Nisso temos em 2014 o longa-metragem em 3DCG, Legend of Sanctuary, que propõe uma releitura do clássico de Masami Kurumada com armaduras quase num conceito steampunk com elementos como dogtags substituindo as Pandora’s Box (não completamente) para as armaduras de bronze e quadros para as armaduras de ouro. Esse reboot nos cinemas deixou a desejar em muitos pontos da narrativa, mas deixou claro que era sim possível isso acontecer em um formato que não fosse o 2D. Não obstante, temos hoje Knights of the Zodiac da Netflix, que trabalha um formato em 3D para o novo reboot da franquia.

O design das armaduras em Legend of Sancturary foi uma boa aquisição ao universo da franquia

Entre os desdobramentos já ocorridos e aqui ainda não comentados, Santia Shô, de Chimaki Kuori, que em mangá tem a proposta de ser um retcom para eventos entre a Batalha das Doze Casas e a Saga de Poseidon inserindo de forma mais intensa a figura das meninas no universo de Saint Seiya: as santias, guerreiras de Atena que não obrigatoriamente são como as amazonas e que por isso não precisam abster de sua feminilidade (não usam máscaras). Confesso que para mim Saintia Shô é a melhor produção da franquia nos últimos anos. O que se há de lamentar é apenas a péssima adaptação animada apresentada pela Toei em 2018 (não dá nem para elogiar!).

O belo character design de Chinaki Kuori foi completamente destruído na adaptação para TV

Vendo tudo isso, a questão que norteia esse artigo pede por uma resposta. O que esperar? Basicamente, a narrativa de Saint Seiya é muito simples e não há mas espaço para inovações. Sempre haverá um gosto de mais do mesmo. É difícil encarar Saint Seiya como uma franquia aberta a um universo compartilhado como acontece com a Fate Series da Type Moon, por exemplo, embora o Episode G: Assassin mostre que eu possa estar errado.

Nossas esperanças estão depositadas no que o Next Dimension ainda nos reserva. A conclusão dos eventos do século XVII e as possibilidades apresentadas para o presente (século XX) com um Seiya de Pégaso em coma sendo perseguido pelos Olimpianos é o que ainda sustentam um hype já desgastado. As citações de Zeus ao longo da franquia e a aparição de Ártemis e Cronos (tomando como base o mangá) nos levam a novas batalhas que podem um dia ganhar forma.

Talvez, numa carência disso, a adaptação de outros spin-off seguem sendo o alvo assim como os reboots em execução. Uma boa pedida seria adaptar a light novel Gigantomaquia, que conta sobre a batalha contra Tifão e os Gigas, ou mesmo um dia rolar uma prequela com as batalhas dos tempos mitológicos (viagem minha aqui!).

Por sorte, independente do que vier, os fãs de Saint Seiya sempre se contentam com pouco. Haja vista a boa recepção dada ao lançamento da animação clássica remasterizada em HD no catálogo da Netflix recentemente. Como eu disse antes, se consigo valorizar o meu comercial com a alimentação do afetivo dos fãs para mim já está valendo. Por isso, não fique se preocupando com o quê esperar. Apenas curta e continue sentido o cosmo emanar.

Até a próxima e… Sayonara!

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Artigo Otaku | O que esperar de Saint Seiya (Parte 01)

Você está jogando o mobile game Saint Seiya Awakening: Knights of the Zodiac? Bom, se você é fã da franquia merece dar uma chance ao jogo apenas para experimentar um passatempo com bom design de personagens, cut scenes e trilha sonora referente à animação clássica de 1986.

Como pode ter percebido, eu estou jogando. Recém chegado ao Brasil tanto para Android quanto iOS, o mobile RPG reúne elementos da história principal com a jogabilidade do gênero de forma a proporcionar uma boa relação com o jogador.

Recentemente também a Netflix Brasil inseriu em seu catálogo a aclamada Saga de Hades completa com seus três capítulos (Santuário, Inferno e Elísios) realimentando o hype para a chegada da versão clássica e seus 114 episódios, que deveria ter ocorrido em agosto, mas já foi confirmado para 15 de outubro próximo. Isso sem falar do reboot feito pela própria Netflix que deve ter a segunda parte da primeira temporada disponibilizada até o final do ano (segundo rumores).

Tudo isso acaba que construindo um debate acerca da relevância de Saint Seiya para a indústria de entretenimento e perguntas sobre o que ainda se pode esperar.

(Teaser de pré-registro do mobile game Saint Seiya: Awakening)

Uma franquia tão longeva quanto essa certamente tem pontos fortes e fracos dividindo a opinião do público. Para Saint Seiya isso é muito notório quando se fala na composição desse público, que conta com fãs na média dos 40 e 30 anos (os mais antigos) e outros com 20 a 10 anos (incluindo os mais recentes). Ainda nessa composição há aqueles que se encaixam no fandom otaku e há aqueles que não se consideram/fazem parte deste nicho.

Assim, temos quem considere Saint Seiya – que por aqui ficou conhecido como Os Cavaleiros do Zodíaco – algo que chega ao ponto de ser tosco devido a problemas no roteiro, psicologia das personagens, estética de traços etc. Temos também quem tome a trama como uma obra-prima da mídia mangá/quadrinhos e que isso se repete em seus desdobramentos midiáticos.

Reconheço (correndo o risco de ter minha carteirinha de otaku confiscada) que faço parte do segundo grupo e amo a obra com muita paixão. Só que (em minha defesa) sou crítico o suficiente para observar o quão deficiente é a narrativa criada por Masami Kurumada em 1985 (data do mangá original). É nesse raciocínio que entramos na seara a respeito do que esperar. Antes recapitulemos o que já feito.

Em 3DCG, Knights of the Zodiac é o reboot mais recente que a franquia recebeu. (Fonte: Netflix)

Os desdobramentos de Saint Seiya e o público

Desde 2008, quando do lançamento da última parte do OVA (Original Video Animation) da Saga de Hades, os fãs se perguntavam qual seria o destino da franquia. Já existiam possibilidades. Em 2004, o longa-metragem Prólogo do Céu abriu as porteiras para uma possível batalha contra os Olimpianos. Desenvolvido a partir dos rascunhos do que viria a se tornar dois anos depois na prequel-sequel do mangá original denominada “Next Dimension”, o filme quase colocou em risco a conclusão da Saga de Hades, que só rolou quatro anos depois com qualidade inferior ao que havia sido feito nos seus treze primeiros episódios (Capítulo – Santuário).

O que se sabe é que o resultado final do filme não teria agradado algumas pessoas – entre elas o próprio Masami Kurumada -, mas a mensagem que ficou era de que para a Toei Animation já não havia mais prioridade para a franquia no estúdio, o que seria algo natural dado o passar do tempo. Saint Seiya era bem sucedido, mas nunca foi o maior campeão de vendas na indústria (num contexto local e mundial com exceções como França, Brasil e México, por exemplo).

Entre os fãs, muito se especulou que o Episode G pudesse ganhar sua versão em animê. Spin-off publicado desde 2002 (em 20 volumes no momento), o mangá desenhado por Megumi Okada tem traço destoante demais do que havia feito Masami Kurumada e Shingo Araki (na versão animê) com a história principal.

Arte com os design andrógino de Saint Seiya: Episode G e os Cavaleiros de Ouro do séc. XX. Narrativa mais densa e proposta de traço alternativo cativa os fãs, mas nunca foi adaptada em outras mídias (Arte: Megumi Okada / Revista Champion Red Ichigo)

Mesmo não virando animê, o Episode G tornou-se um material muito particular aos fãs mais aficionados pelos Cavaleiros de Ouro e rendeu mais duas publicações: Episode G- Volume 0: Aiolos, uma prequel; e Episode G ~Assassin~, que é uma sequel alternativa aos eventos do mangá original pós-Hades. Esse último foi iniciado em 2014 e terminou recentemente em agosto de 2019 confirmando o retorno de seu antecessor à publicação.

Os fãs dos Cavaleiros de Ouro, que ficarão ainda por algum tempo sem poder ver como ficaria a batalha dos Santos Dourados contra os Doze Titãs, tiveram suas esperanças maltratadas em 2015 quando da estreia do ONA (Original Net Animation) Saint Seiya: Soul of Gold, que veio como um spin-off da Saga de Hades onde os Cavaleiros de Ouro mortos no Muro das Lamentações vão para nas terras gélidas de Asgard (numa clara referência ao emblemático filler Saga de Asgard da série clássica) e combatem as intenções malignas do deus nórdico Loki.

Cena em Soul of Gold que fez a animação alvo de muitas críticas pelo péssimo trabalho de finalização no character design. Abaixo a mesma cena foi refeita em um review do episódio seguinte e traz algumas melhorias, mas ainda deixa desejar. (Fonte: cavzodiaco.com.br)

Embalada pela vontade de vender action figures (bonecos!), a Bandai Tamashii Nations – que detém os direito de imagens da franquia para linha de colecionáveis – lançou em 2014 (durante a CCXP) a linha de action figure com as 12 Armaduras de Ouro em sua forma divina e ainda fez apresentação do primeiro episódio do animê, que seria a peça de publicidade dos bonecos. Sem dúvida uma linha de colecionáveis que mexe com o coração dos mais apaixonados pela franquia.

Já não se pode dizer o mesmo do animê, onde a Toei Animation trouxe uma animação muito aquém do que vinha sendo aplicado nas demais produções da franquia, como é o caso de Saint Seiya: Ômega (falaremos dele na parte 02!). Com design de personagem questionável, erros de proporção e finalização, a série, que poderia ficar para a posteridade como algo memorável, veio a se tornar uma das chacotas do mundo otaku.

Muito outras chacotas ainda existem na franquia, que nesse período apresentou potenciais produtos de sucesso que por alguma razão não deslancham na aceitação do público geral ou do fandom especializado. O que não quer dizer que não haja coisas boas e valor simbólico entre os tantos desmembramentos já realizados e aqueles que poderão vir a existir. Assunto para a segunda parte deste artigo especial.

E você: já sentiu o cosmo?

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