Amor, bravura e suicídio – conheça a lenda de Hua Mulan





08/07/2019 - Atualizado às 16:45


A onda de versões live-action de clássicos animados Disney tem trazido à tona uma característica, digamos, inusitada do público: o completo desconhecimento que as histórias são vagamente baseadas em contos de fadas e lendas que datam de centenas ou milhares de anos antes de receberem o véu de magia do Mickey.

Salvo – talvez – A Bela e Fera, há um verdadeiro vácuo de conhecimento com pessoas com acesso à internet e Google que ignoram, por exemplo, que Hans Christian Andersen escreveu o conto do século 19 que serviu de base para o filme A Pequena Sereia. Na versão original a sereia não tem nome, tão pouco lugar de origem, aspectos adicionados pela Disney ao colocar Ariel para viver no Caribe.

Com o trailer de Mulan, e o direcionamento do público alvo para a terra de origem da história da menina que foi para guerra para salvar seu pai idoso, arrobas ficaram em polvorosa com a simples informação de que existe na China, há milhares de anos, uma figura lendária chamada Hua Mulan que serviu de base para que a Disney fizesse o longa animado dos nos 1990.

As licenças artísticas criadas pela casa do Mickey também não ajudam ninguém, mas uma pequena busca no Google poderia preencher o abismo entre a magia de Hollywood e os contos originais. Para tanto, vamos contar quem foi Hu Mulan e seu pai.

Para começar precisamos fazer como o novo filme e remover o dragão. Em nenhuma das versões da lenda há elementos sobrenaturais. Vamos tirar, portanto, também a bruxa que a Disney inventou desta vez e a Fenix que ninguém mais sabe se está viva na produção.

Várias versões

A história de Mulan existe há milhares de anos e, como toda tradição oral, foi ganhando versões ao longo do tempo. Uma dessas versões se encontra no poema A Balada de Mulan, nesta seu nome é Hua Mulan significa Flor de Magnólia, um dos símbolos da China antiga.

Há ainda a versão encontrada na História dos Ming, onde o nome de família da personagem é Zhu, enquanto na História dos Qing são chamados de Wei.

Uma coisa é comum em todas as versões, a heroína se conecta com a China dos séculos 4dc a 5dc.

A Balada de Mulan parece ser a versão mais antiga da lenda, construída durante a Dinastia Wei (386dc a 557dc). Em forma escrita, o poema só passa a existir no século 6dc, sendo perdido. O acesso ao poema hoje vem do copilado de poemas e músicas reunidos Bureau de Música, uma antologia reunida por Guo Maoqian durante os séculos 11 e 12.

Durante a Dinastia Ming, o dramaturgo Xu Wei escreveu a pesca “A Mulher Mulan ou A Heroína Mulan vai para a Guerra no lugar de seu pai”. A peça tem dois atos e é a mais conhecida versão da Balada de Mulan na China, tendo sido incorporada ainda no romance histórico Sui-Tang, escrito por Chu Renhuo no século 17.

Mulan vai para a Guerra

Independente das variações, a história de Mulan sempre começa quando ela estava lavando roupa e ouviu sobre o recrutamento compulsório de todos os soldados. Seu pai, o veterano aposentado Huan Hu estava na lista. Temendo pela vida de seu pai idoso, ela se disfarça de homem e vai em seu lugar para a guerra.

Há uma guerra, mas as versões não se encontram sobre quem era o inimigo, mas a história surgiu em um período que a China estava sendo invadida por tribos nômades, o que levou a batalhas e guerras que se estenderam por séculos.

Mulan vai para a batalha portando a espada de seu pai, que estava na família há séculos. Ela teria lutado por uma décadas e subido até a patente de general, mas rejeitou todas as honrarias e voltou para sua cidade natal após a Guerra para ficar reclusa.

Outro ponto que se cruza é que Mulan se apaixonou por um outro soldado, Jin Yong. O rapaz descobre que ela é uma mulher e corresponde aos sentimentos. Com o passar dos anos alguns outros soldados descobrem seu disfarce, enquanto o casal sonha em se casar e deixar o campo de batalha.

Um dia, Mulan decide que é hora de todos saberem de seu sexo e vai para a batalha em roupas femininas. A Balada conta que os companheiros a viram com ainda mais respeito e admiração.

O imperador, por outro lado, ainda não sabia do disfarce da general, mas não a desmerece, pelo contrário, presente conceder honrarias por seus feitos bravos na Guerra, mas ela declina, dizendo querer apenas um cavalo para ir para casa.

Em algumas versões da história general Mulan voltou para casa e descobriu que seu pai havia falecido há anos, o que a faz negar o papel de heroína. O conto trata ainda do que hoje chamados de estresse pós traumático, com Mulan sendo atormentada pelos anos de soldado. Ela não suporta o peso das memórias e comete suicídio.

Em outra versão ela seria vendida como concubina após voltar para casa e para evitar a prostituição tira a própria vida.

Marcos de memória

Tradicionalmente, Mulan é tida como uma das maiores heroínas da China. Além de gravuras belíssimas há também estátuas dela e de seu pai em cidades chinesas, como em Xinxiang onde a guerreira é recebida de volta ao lar pelo pai.

Até hoje não se sabe, porém, se Mulan existiu, ou se foi inventada, como várias figuras heróicas aqui do Ocidente.

Fontes: 
http://afe.easia.columbia.edu/ps/china/mulan.pdf
https://www.ancient-origins.net/history-famous-people/ballad-hua-mulan-legendary-warrior-woman-who-brought-hope-china-005084