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Coluna Tayna Abreu

Amor, bravura e suicídio – conheça a lenda de Hua Mulan

Heroína se conecta com a tradição chinesa e anda longe de um conto de fadas

A onda de versões live-action de clássicos animados Disney tem trazido à tona uma característica, digamos, inusitada do público: o completo desconhecimento que as histórias são vagamente baseadas em contos de fadas e lendas que datam de centenas ou milhares de anos antes de receberem o véu de magia do Mickey.

Salvo – talvez – A Bela e Fera, há um verdadeiro vácuo de conhecimento com pessoas com acesso à internet e Google que ignoram, por exemplo, que Hans Christian Andersen escreveu o conto do século 19 que serviu de base para o filme A Pequena Sereia. Na versão original a sereia não tem nome, tão pouco lugar de origem, aspectos adicionados pela Disney ao colocar Ariel para viver no Caribe.

Com o trailer de Mulan, e o direcionamento do público alvo para a terra de origem da história da menina que foi para guerra para salvar seu pai idoso, arrobas ficaram em polvorosa com a simples informação de que existe na China, há milhares de anos, uma figura lendária chamada Hua Mulan que serviu de base para que a Disney fizesse o longa animado dos nos 1990.

As licenças artísticas criadas pela casa do Mickey também não ajudam ninguém, mas uma pequena busca no Google poderia preencher o abismo entre a magia de Hollywood e os contos originais. Para tanto, vamos contar quem foi Hu Mulan e seu pai.

Para começar precisamos fazer como o novo filme e remover o dragão. Em nenhuma das versões da lenda há elementos sobrenaturais. Vamos tirar, portanto, também a bruxa que a Disney inventou desta vez e a Fenix que ninguém mais sabe se está viva na produção.

Várias versões

A história de Mulan existe há milhares de anos e, como toda tradição oral, foi ganhando versões ao longo do tempo. Uma dessas versões se encontra no poema A Balada de Mulan, nesta seu nome é Hua Mulan significa Flor de Magnólia, um dos símbolos da China antiga.

Há ainda a versão encontrada na História dos Ming, onde o nome de família da personagem é Zhu, enquanto na História dos Qing são chamados de Wei.

Uma coisa é comum em todas as versões, a heroína se conecta com a China dos séculos 4dc a 5dc.

A Balada de Mulan parece ser a versão mais antiga da lenda, construída durante a Dinastia Wei (386dc a 557dc). Em forma escrita, o poema só passa a existir no século 6dc, sendo perdido. O acesso ao poema hoje vem do copilado de poemas e músicas reunidos Bureau de Música, uma antologia reunida por Guo Maoqian durante os séculos 11 e 12.

Durante a Dinastia Ming, o dramaturgo Xu Wei escreveu a pesca “A Mulher Mulan ou A Heroína Mulan vai para a Guerra no lugar de seu pai”. A peça tem dois atos e é a mais conhecida versão da Balada de Mulan na China, tendo sido incorporada ainda no romance histórico Sui-Tang, escrito por Chu Renhuo no século 17.

Mulan vai para a Guerra

Independente das variações, a história de Mulan sempre começa quando ela estava lavando roupa e ouviu sobre o recrutamento compulsório de todos os soldados. Seu pai, o veterano aposentado Huan Hu estava na lista. Temendo pela vida de seu pai idoso, ela se disfarça de homem e vai em seu lugar para a guerra.

Há uma guerra, mas as versões não se encontram sobre quem era o inimigo, mas a história surgiu em um período que a China estava sendo invadida por tribos nômades, o que levou a batalhas e guerras que se estenderam por séculos.

Mulan vai para a batalha portando a espada de seu pai, que estava na família há séculos. Ela teria lutado por uma décadas e subido até a patente de general, mas rejeitou todas as honrarias e voltou para sua cidade natal após a Guerra para ficar reclusa.

Outro ponto que se cruza é que Mulan se apaixonou por um outro soldado, Jin Yong. O rapaz descobre que ela é uma mulher e corresponde aos sentimentos. Com o passar dos anos alguns outros soldados descobrem seu disfarce, enquanto o casal sonha em se casar e deixar o campo de batalha.

Um dia, Mulan decide que é hora de todos saberem de seu sexo e vai para a batalha em roupas femininas. A Balada conta que os companheiros a viram com ainda mais respeito e admiração.

O imperador, por outro lado, ainda não sabia do disfarce da general, mas não a desmerece, pelo contrário, presente conceder honrarias por seus feitos bravos na Guerra, mas ela declina, dizendo querer apenas um cavalo para ir para casa.

Em algumas versões da história general Mulan voltou para casa e descobriu que seu pai havia falecido há anos, o que a faz negar o papel de heroína. O conto trata ainda do que hoje chamados de estresse pós traumático, com Mulan sendo atormentada pelos anos de soldado. Ela não suporta o peso das memórias e comete suicídio.

Em outra versão ela seria vendida como concubina após voltar para casa e para evitar a prostituição tira a própria vida.

Marcos de memória

Tradicionalmente, Mulan é tida como uma das maiores heroínas da China. Além de gravuras belíssimas há também estátuas dela e de seu pai em cidades chinesas, como em Xinxiang onde a guerreira é recebida de volta ao lar pelo pai.

Até hoje não se sabe, porém, se Mulan existiu, ou se foi inventada, como várias figuras heróicas aqui do Ocidente.

Fontes: 
http://afe.easia.columbia.edu/ps/china/mulan.pdf
https://www.ancient-origins.net/history-famous-people/ballad-hua-mulan-legendary-warrior-woman-who-brought-hope-china-005084
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Coluna Tayna Abreu

Relação entre Margaret Atwood e série The Handmaid’s Tale é pura simbiose

Ao ler The Testaments, o novo livro de Margaret Atowood, onde a escritora volta a explorar o regime fundamentalista totalitário protestante de Gilead, após ter visto toda a terceira temporada de The Handmaid’s Tale, série do Hulu que adapta o romance homônimo publicado em 1985, torna-se perceptível que a mão da canadense ainda é tão presente na narrativa derivada já tão distante do original, quanto era na primeira temporada, com cenas retiradas do livro.

Mas Atwood e sua relação com The Handmaid’s Tale é algo de fresco na dança entre romancistas e as dramatizações de seus livros, precisamente quando se trata de ficção especulativa, indo muito além da ocasional participação especial. A escritora da liberdade e se inspira na obra derivada. É um ciclo completo como raras vezes se vê.

Em sua mais recente edição, a revista The Gentlewoman traz uma extensa entrevista com Margaret Atwood, que estampa a capa, onde são abordados inúmeros temas concernentes à vida e carreira da escritora octogenária. Em dois parágrafos há um isight sobre como se dá a relação simbiotica entre criador e criatura: Atwood orientou Bruce Miller,showrunner e principal roteirista de The Handmaid’s Tale, enquanto escrevia seu novo livro, e levou aspectos da série para dentro de seu novo testamento.

Diferente de quando uma obra derivada expande o texto, ou o surpassa, o trabalho foi simultâneo. Mas diferente de escritores mão de ferrro, Miller teve liberdade em explorar as linhas gerais que lhe foram dadas. Pelo menos na maior parte.

O nome de Nicole, segunda filha de June foi uma exigência inegociável de Atwood, assim como também a salvaguarda da vida de alguns personagens, não expecificados na entrevista. “Eu disse que tinha que ser Nicole”, certificou a escritora.

Atwood para The Gentlewoman, por Alasdair McLellan

Das telas, Atwood tomou grande inspiração na performace de Ann Dowd como Aunt Lydia para dar mais profundidade à personagem. É em grande parte pelo excelente trabalho de Dowd como a matriarca das Tias que Lydia ganhou um episódio com seu passado na tv e o poder de narradora em The Testaments. Para os leitores dos dois livros e expectadores da série, é possível perceber exatamente até onde vai a mão de Atwood e onde começa a liberdade de Miller. Um balanço perfeito, mesmo quem não concorda com interferências de autores em projetos derivados, como eu, deve concordar.

“Fui inspirada pela performace de Ann Dowd, que deu à Aunt Lydia mais dimensões que ela tinha no livro original”, contou Atwood. Dowd inclusive foi chamada para reprisar a personaem no  audiobook do novo romance profético. 

The Testaments foi lançado – com toda pompa de um prestigiado romance literário encontrando o frisson de uma saga popular – no último dia 10 de setembro, após um ferrenho esquema de segurança e confidencialidade para manter a surpresa, é um dos favoritos para ganhar o Booker Prize 2019 e já best-seller em todo o mundo.

Tayna Abreu é jornalista de entretenimento e também fala sobre ficção especulativa em seu IGTV @oftay_ 

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Coluna Tayna Abreu

Fire & Blood | Como será o novo spinoff de Game of Thrones

Segundo a imprensa americana, a HBO teria dado sinal verde para mais um spinoff de Game of Thrones, desta vez focado na Casa Targaryen, os ancestrais de Daenerys. Apesar de não haver ainda confirmação oficial da emissora, as informações dão conta de que o spinoff contará a história de três séculos da Dinastia Targaryen, com criação de George R R Martin, o pai do Mundo de Gelo e Fogo, e Ryan Condal.

A editora de TV do Deadline, Nellie Andreeva, escreveu que  a nova produção terá roteiro de Condal, e que não é um sexto spinoff, um a mais que a quantidade que já havia sido anunciada pela HBO, mas uma nova roupagem em um que já estava sendo desenvolvido pelo roteirista Bryan Cogman, cujo trabalho foi essencial em Game of Thrones, antes de ser reprovado por David Benioff e DB Weiss, showrunner da série mãe, e Cogman ir trabalhar em Senhor dos Anéis da Amazon. O que parece é que com Benioff, Weiss e Cogman fora da HBO, a casa resolveu pegar o projeto do lixo e dar uma olhada com mais carinho.

Em maio, Martin disse que três dos cinco spinoff estão em produção ou pré-produção e que tudo está indo bem. O primeiro deles, Bloodmoon, estrelado por Naomi Campbell, teve o piloto finalizado ainda em agosto e está sob avaliação da chefia de séries.

Capa da primeira edição americana de Fire & Blood, de George R.R. Martin

Bom, o novo spinoff, será baseado na duologia Fire & Blood, cujo primeiro tomo foi publicado por Martin em 2018 e possivelmente será batizado como homônimo da fonte, que já carrega toda a simbologia e poder sonoro necessários para condensar o reinado dos dragões.

Fire & Blood é uma narrativa extensa e que mímica a forma clássica de contar a História das Elites, passando pelos 300 anos de reinado dos Targaryen em Westeros, começando com a Conquista de Aegon e suas irmãs/esposas e terminando, no segundo volume ainda não publicado, com o golpe da aliança Stark-Baratheon-Arryn que destronou o Rei Louco Aerys e levou à morte do príncipe herdeiro Rhaegar na Batalha do Tridente, de onde Robert Baratheon saiu vitorioso, com o assento no Trono de Ferro e a mão de Cersei Lannister, filha do último Lorde a entrar na aliança que traiu os Targaryen.

No meio desses dois eventos, uma procissão de reis de nome repetido, muito incesto, loucura, eugenia e racismo; um reino por vezes em paz e em muitas delas sangrando. Alguns reis inúteis, outros memoráveis por serem também cruéis, roubo de ovos de dragão, um desafio à Teologia de Exceção – criada para legitimar o poder Targaryen mesmo na Fé dos Sete – e duas guerras civis que racharam a casa e dizimaram seus dragões. 

Mas quais são os eventos com mais chances de serem retratados na série? Bom, primeiro é preciso considerar que esse, como todos os outros spinoff de GoT, não deverão ter muitas temporadas, talvez apenas uma ou duas, a depender a extensão dos eventos e da forma como serão contados.

Pelo menos cinco grandes eventos podem- e devem – ser recortados, e se divididos em uma série de 10 episódios de uma hora cada, poderão ter o tratamento de filmes de duas horas, o que pode ser um ótimo tempo para contar cada um, ainda que não de forma minuciosa.

A conquista de Aegon, sem dúvida alguma, é o lugar para começar. O momento em que o dragão ousou sair de seu pequeno domínio insular em Pedra do Dragão e dominar o continente de Westeros, comportando ainda as Guerras de Conquista de Dorne, o reino que jamais se entregou, mas que foi anexado por casamento.

O segundo grande momento é um dos mais famosos, e dá nome também ao quinto, e até agora último livro publicado nas Crônicas de Gelo e Fogo, a Dança dos Dragões, a primeira guerra civil que manchou a terra e os ares com sangue de dragões das duas espécies.

As Rebeliões Blackfyre são um terceiro grande momento da história da Casa Targaryen, onde a própria legitimidade dos reis de cabelos prata foi desafiada por seus irmãos e primos bastardos.

A Tragédia de Solarestival é o próximo evento importante, se não pela duração, mas pelas consequências diretas e indiretas, tanto materiais quanto na formação do comportamento de um dos príncipes Targaryen mais famosos.

Por último, a queda dos Senhores de Dragões no golpe de estado dado pela aliança de casas vassalas, conhecida como a Rebelião de Robert, ou a Guerra do Usurpador, com sua última e mais famosa batalha deixando rubis da armadura e das veias de Rhaegar Targaryen por todo o Tridente. 

Tayna Abreu é jornalista de entretenimento e também fala sobre ficção especulativa em seu IGTV @oftay_ 

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Coluna Tayna Abreu

Crítica | Carnival Row – S1 (Prime Video)

Série é uma admoestação sobre imperialismo recorrendo mais à didática que à arte de contar histórias.

A nova série de Fantasy do Amazon Prime, Carnival Row, e uma empreitada dos produtores Travis Beacham e René Echevarria, através da Lionsgate, convergindo em oito episódios uma combinação de Romance Vitoriano – de terror e de exploração -, Police Noir e Fantasy.

Em sua premissa, as consequências da invasão de uma terra recém descoberta por duas nações imperialistas, a República de Burgue e o Pact. Com a tomada das terras do reino feérico de Anoun, criaturas antes tidas apenas como fruto da imaginação humana se tornam refugiados na capital de Burgue, uma mímica da Londres Vitoriana.

As tensões entre as populações humanas e feéricas se acirram quando um – segundo – assassino em série deixa um rastro de sangue de homens e fada. Amarrando tudo, o romance entre um investigador de polícia, Philo, (Orlando Bloom) e uma fada, Vignette (Cara Delevigne) interrompido pela guerra.

É inevitável não comparar Carnival Row com Penny Dreadful, ambas fantasias neo-vitorianas, que flertam com o steampunk. Mas enquanto a série do Starz bebia apenas dos clássicos romances de terror do século XIX, Carnival Row traz um escopo muito mais variado de referências, tais como Shakespeare e a mitologia judaica.

Um ponto a se considerar sobre a série do Prime é a completa falta de sutileza, seja em repetir um foreshadowing à exaustão seja em como trabalha seu subtexto, se é que se pode chamar de subtexto a forma como fala sobre temas do mundo real.

A produção é digna, nada espetacular, mas não se envergonha do que tem a oferecer. Suas cenas mais no escuro são as que menos demandam efeitos especiais, estranhamente. Fadas voam à luz do dia e kobolds atuam no equivalente daquele mundo à um teatro de marionetes de rua. Mais especificamente pode-se apontar as asas das fadas (que certamente não aguentariam seu peso na vida real) e os pucks (uma espécie de Minotauro retirada de Sonho de uma Noite de Verão) como os pontos fortes na caracterização do povo feérico.

É preciso notar o excelente, e diversificado, elenco de Carnival Row. São ótimas as atuações das estrelas Orlando Bloom, Tamzine Merchant, Jared Harris e Indira Varma. É apenas uma pena que, tomando novamente Penny Dreadful como norte, Cara Delevigne ande longe de ser uma Eva Green.

O romance policial é o gênero que leva as coisas para frente, e de uma forma muito acertada, apesar dos foreshadowings excessivos. Os plot twists são até bem amarrados, deixando ainda um bom espaço para um segundo ato – com cara de nazismo -, que esperamos seja confirmado em breve.

No quesito bizarrice, notamos Philo (Bloom) sendo ordenhado por uma bruxa idosa. É só isso mesmo.

Carnival Row é, em resumo, uma admoestação sobre imperialismo, colonialismo, racismo, fundamentalismo religioso e imigração que usa uma miríade de personagens feéricos como metáfora. O faz de uma forma extremamente didática, mesmo em detrimento de qualquer poética, não perdendo apenas a capacidade de entreter.

No entanto, longe de ser uma mancha na série, isso nos faz questionar se em um mundo onde fã de Star Wars e Pink Floyd é também acólito de figuras totalitaristas, a subjetividade artística seja algo superestimado quando se precisa de discursos efetivos.

Tayna Abreu é jornalista de entretenimento e também fala sobre ficção especulativa em seu IGTV @oftay_ 

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