A política e a religião em Final Fantasy X e X-2





28/06/2019 - Atualizado às 19:06


Regido por temas sociais, Final Fantasy X (2001) e a sua sequência, Final Fantasy X-2 (2003), traçam um paralelo com a realidade e enraízam-se nos conflitos mais obscuros da humanidade. Enquanto o primeiro arquiteta uma aventura trágica no entorno de uma poderosa entidade religiosa com dogmas e restrições conservadoras, o segundo se desdobra em conflitos ideológicos entre diferentes grupos políticos, que ameaçam e sinalizam o início de uma guerra civil.

Ao contrário de Final Fantasy XV, que se autodenomina uma fantasia inspirada na realidade, mas não concretiza, em jogabilidade e história, um terço do seu próprio slogan, Final Fantasy X e X-2 atiçam tópicos delicados em uma época silenciosa e incomum para tais discussões, ainda mais no universo eletrônico.

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Um grupo de indivíduos da raça Al Bhed

Aliás, raro ver, no início dos anos 2000, jogos que retratassem o preconceito, a corrupção e divisões sociais, como visto na polarização entre a raça Al Bhed e as demais de Spira, mundo aos quais os jogos se passam. Este grupo, o único por sinal que não segue os rituais e costumes da teocracia instalada pela Yevon, possui as suas próprias crenças, hábitos, vestimentas, além de uma língua própria. Também apropriarem-se das máquinas, que são terminalmente proibidas em Spira, para benefícios diversos. Por distanciar-se absurdamente dos costumes ditos como certos, os Al Bhed são odiados e menosprezados pelas demais raças, e o Final Fantasy X deixa tudo isso em clara evidência através de desconfortáveis diálogos e conflitos.

Remetendo aos nossos próprios fatos históricos, por um longo período de tempo o mundo viveu sob o aval da Igreja Católica, que liderou a sociedade de maneira similar com a sua forte doutrina e poder absoluto, principalmente no período da Idade das Trevas (476 a 1453). Outras alusões estão presentes em sua rígida política contra os avanços da ciência, alegando que a fé, e todos os seus dizeres, eram o único caminho a ser seguido. Para ambos os casos (Yevon x Catolicismo), as penalidades contra os hereges (os que não respeitavam os seus dogmas) eram severas, e as outras crenças e religiões eram simplesmente proibidas.

“Eu não acredito que eu estava viajando com uma Al Bhed! Uma pagã!” – Wakka ao descobrir que Rikku é da tribo Al Bhed.

Por outro lado, a protagonista de ambos os jogos, Yuna, surge como a personificação de um Messias e um contraponto ao tratamento “vilanesco” da religião em Final Fantasy X. Ao descobrir a corrupção e as mentiras da Yevon, a sacerdotisa, ainda que em relutância, confronta as falsas crenças e a má conduta da Igreja. Assim como Jesus também o fez contra, por exemplo, a hipocrisia dos Fariseus e as suas pregações em uma passagem retratada na Bíblia:

Não façam o que eles fazem, pois não praticam o que pregam. Mas eles mesmos não estão dispostos a levantar um só dedo para movê-los”.

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Yuna performando o ritual chamado “Sending”.

Além desse paralelo, Jesus e Yuna possuem outras particularidades em comum, como o fato da sacerdotisa caminhar sobre as águas em um determinado segmento do jogo, além das suas propriedades curativas, similares as habilidades de Jesus, vistas em várias parábolas da Bíblia.

Na verdade, o primeiro jogo em si cria diversas alusões ao Catolicismo, como a hierarquia da Yevon, que se assemelha bastante ao da Igreja Católica, em que os Mestres assumem posições similares aos dos Cardiais e o Grande Mestre, ao do Papa. Outro exemplo é a existência do grupo “Os Cruzados” no jogo, que faz associação à legião, de mesmo nome, que lutou pela Igreja Católica contra os muçulmanos durante as Cruzadas.

De todo o modo, ao fim do primeiro jogo, a Yevon é dissolvida e a verdade exposta, dando início, assim, ao período chamado de Eterna Calma, onde a paz reinaria soberana sobre os povos de Spira. Ao menos em teoria.

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A capital Bevelle pode ser considerada como o Vaticano de Spira.

Dois anos mais tarde, em Final Fantasy X-2, o mundo se encontra no meio de conflitos ideológicos, reforçados pelas divisões políticas que dominaram a população. À parte disso, novos costumes e atividades surgem, como a profissão de Caçadores de Esferas, que buscam revelar segredos e fatos históricos sobre a Spira, que até há pouco tempo eram acobertados pelas mentiras da Yevon.

Ainda que os maiores problemas do mundo tivessem sido dissolvidos nesse ponto, em uma força de imaturidade da população, que nunca soube lidar com a paz e a liberdade, conflitos facilmente evitáveis são gerados entre as facções.

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Os três novos “líderes” de Spira.

Enquanto a antiga geração, mais acomodada com a New Yevon, apontava que as mudanças de Spira estavam sendo “brutas” demais, o Youth League as abraça, junto com as máquinas, antes proibidas. No outro lado, de forma mais imparcial, a Machina League caminha rente à ideologia da raça Al Bhed, que não sofrera transformações, mas que agora são mais aceitas e menos menosprezadas pela população.

No meio disso, Yuna, que atua agora como uma Caçadora de Esferas, é vista como peça-central para os conflitos dos grupos, que buscam o seu apoio, visto a sua popularidade e recentes descobertas.

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“New Yevon…bem, tem Yevon no seu nome. Isso já diz tudo” – Rikku sobre a facção liderada por Baralai.

No fim, as diferenças, sempre tratadas como um problema universal, são postas ao lado e superadas em prol da salvação de Spira, que novamente encontra-se em ameaça. Diante deste empecilho, os grupos devem-se reunir e colocar, como prioridade, o próprio bem-estar social.

Com um cenário extremamente semelhante ao que encontramos atualmente no Brasil, o segundo título tece críticas poderosas sobre a polarização e conflitos ideológicos, algo tão recorrente em nossa história. Com poderosas mensagens, costuradas com temas de empoderamento e liberdade de expressão, título finaliza a história de Spira (até então) refletindo sobre os piores e melhores aspectos da humanidade. Aliás, enquanto abraça a cruel realidade humana, jogo trata a história com humor e uma atmosfera festiva, junto de um gameplay inspirado nas principais referências da cultura pop da época.