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Coluna Tayna Abreu

A humanidade aprisionada em um trem fadado ao desastre: conheça a história de Snowpiercer

Nova série da Netflix adaptará obra francesa de SciFi Le Transperceneige

Existem histórias seminais em determinados gêneros e formatos, e um dos mais badalados e quase que completamente dominado pelo britânico Alan Moore é o de distopia em quadrinhos. Watchmen e V de Vingança tem uma companheira menos famosa que poderia fazer uma trinca como a já reconhecida 1984-Brave New World-Handmaid’s Tale no romance em prosa: Le Transperceneige, HQ de 1984 – que ano!- dos franceses Jacques Lob, Benjamin Legrand e Jean-Marc Rochette.

A história conta a luta pela vida dos 3 mil humanos restantes na face da Terra após uma segunda Era do Gelo ter sido posta em curso com um desastre bélico. Diferente de todas as histórias semelhantes, as pessoas não vagam pela terra, mas estão todas presas dentro de uma locomotiva que circunda o planeta sem nunca parar.

Lob usou a divisão do trem em vagões para construir a sua metáfora sobre a luta de classes. Nos vagões da frente, a elite, nos traseiros, os trabalhadores. Na frente, luxo e loucura, na traseira pobreza e subserviência.

“A grande força dessa história, eu acho, é que não é apenas uma graphic novel de ficção científica, mas sim uma fábula filosófica atemporal”, declarou Jean-Marc Rochette, à época da primeira tradução do original para inglês, apenas em 2014.

O trem, com exatos mil e um vagões, pertence à um magnata, Wilford, que assume uma aura quase que divina sobre os passageiros, assim como o misticismo de que a máquina precisa que as classes continuem divididas da forma que são para continuar rodando o mundo.

Entre os temas que despendem do central, o rígido controle populacional, principalmente através da natalidade restrita dos pobres e a divinização de figuras de poder. O pequeno espaço é outro ponto a ser sempre considerado ao se deparar com essa narrativa, ricos e pobres, independente do modo como passam seus dias, vivem presos em um espaço apertado e fadado.

“Acho que a predição mais visionária de Jacques Lob foi a desigualdade entre os pobres e ricos em um espaço confinado. Porque agora o mundo se tornou pequeno, como um trem. As pessoas mais pobres do Sudão estão separadas por apenas seis horas de viagem de avião das pessoas mais ricas da Europa, um pouco como seis minúsculos vagões de trem”, explicou Rochette, em entrevista ao The Verge.

Para que já viu o filme Snowpiercer com John Hurt, Tilda Swinton, Edd Rarris e Chirs Evans, sabe do que se trata. Esse longa de 2014, dirigido por Bong Joon-ho é vagamente baseado na história francesa. Nele, Evans e Hurt comandam um audacioso levante popular para por fim às diferenças gritantes de tratamento entre os passageiros de classes diferentes.

No longa, uma nova face do tormento é aplicada: quem garante que a locomotiva não desncarrilhe são aos mãozinhas dos filhos da classe miserável. Trabalho infantil, aliás, que anda longe de ser um assunto distópico, com mais 152 milhões de crianças submetidas à exploração laboral em todo o mundo.

Quase 40 após a sua publicação, Le Transperceneige encontra ecos assombrosos aqui mesmo no Brasil de 2019, com uma população repleta de fanáticos por um salvador, pobreza extrema e uma elite política que defende a mão de obra infantil e não considera as costelas do pobre à mostra como exemplo de passar fome.

Le Transperceneige ganhará mais uma adaptação, pela TBS e Netflix, com estreia marcada para 2020. Na trama, o trem está há apenas sete anos em movimento, mas o confinamento de todos e as condições subumanas dispensadas aos pobres acende o pavio da primeira, mas não última rebelião popular dentro do pequeno mundo de metal.

A histórica começa 6 anos 9 meses e 26 dias após o início da viagem supostamente interminável das últimas três mil pessoas vivas na Terra. A temperatura no mundo externo ao trem é de -119º. A estrutura social do trem é sustentada na força bruta e ideológica dos pilares: Trabalho, Honra e Ordem. Enquanto o trem se sustenta com Carência (dos pobres), Velocidade (do maquinário) e Ganância (dos ricos).

A nova versão será protagonizada por Dave Diggs, como Layron Well, o líder da classe popular e Jeniffer Connelly, como Melanie Cavill, uma das funcionárias de prestígio do trem. Diggs é vencedor de um Tonny Awards e Connelly de um Oscar.

Josh Friedman é o criador da série, que conta ainda com o diretor do filme de 2014 em uma das vagas de produtor executivo. A adaptação de Friedman tira Le Transperceneige do limbo da TNT onde esteve por anos sem encontrar saída.

Snowpiercer está, inclusive, renovada para a segunda temporada. Nela, Steven Ogg será Pike, “um volátil líder de gang, rival de Lyton (Diggs) que está mais interessado em caos do que em revolução”.

No Brasil, a história pode ser lida também na versão em português, O PerfuraNeve, traduzida por Daniel Lühmann e publicada pela Editora Aleph em 2015.

Tayna Abreu é jornalista de entretenimento e também fala sobre ficção especulativa em seu IGTV @oftay_ 

Coluna Tayna Abreu

Review | Hernan Diaz, Dolly Alderton e os livros de fevereiro de 2020

‘In the Distance’ e ‘Everything I Know About Love’ estão entre os livros comentados.

Hernan Diaz, Dolly Alderton e os livros de fevereiro de 2020 (Foto: Tayna Abreu/Volts)

O mês de fevereiro foi bem menos produtivo que janeiro em leituras, mas nem por isso menos agradável. In The Distance e Everything I Know About Love são um dos livros mais comentados em língua inglesa no ano passado e estavam na minha lista por algum tempo, o primeiro pelo desafio de contar uma história de isolamento sem ser chato e o segundo por Dolly Alderton ser uma das jornalistas de cotidiano mais sagazes da geração millennial.

In the Distance, Hernan Diaz

Talvez a narrativa mais evocativa que já li em toda minha vida. Hernan Diaz consegue convergir todo o sentimento de solidão, desafios e espalhar isso por uma paisagem desoladora e vasta do Oeste americano em In the Distance. 

Häkan, um imigrante sueco, se perde de seu irmão em um entreposto antes de chegar ao oeste dos Estados Unidos. Ele parte então sozinho em uma jornada de amadurecimento como poucas. 

Há toda uma exploração de moral secular, identidade, companheirismo, língua e personagens do imaginário do Velho Oeste, como os colonos, os cientistas, os fora da lei, os ricos excêntricos… Mas tudo com uma maturidade e beleza ímpares. 

É impressionante como uma história essencialmente sobre solidão possa permanecer com a gente depois de ler.

Everything I Know About Love, Dolly Alderton

Primeiro livro da jornalista britânica Dolly Alderton, EIKAL é um relato vívido e reconhecível de todos e para a segunda leva de millennials, mais precisamente mulheres, aquelas que foram adolescentes nos anos 2000. 

Alderton fala do amor enquanto conceito, focando no amor das paqueras e no puro amor da amizade. É a história de amadurecimento de alguém que já nasceu velha, que abusou de álcool e drogas para se sentir adulta quando ainda criança e adolescente.

Há uma linha narrativa, contida no título, onde ela explora tudo que sabe sobre o amor em diferentes fases da vida. Essa linha leva a uma série inesgotável de anedotas e comentários sociais ácidos, típicos de Alderton e que seus ouvintes do podcast The High Low vão reconhecer. 

Talvez um único problema seja como Dolly romantiza por alguns parágrafos o consumo de drogas e álcool, este desde a infância, para logo em seguida tecer um comentário cínico e áspero sobre seus momentos sem freio. 

Todo o texto é hilário, por vezes depreciativo, típico de humor britânico, mas também muito doce e amoroso, principalmente quando fala de sua melhor amiga, e muito perspicaz.

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Coluna Tayna Abreu

Review | Livros de Janeiro de 2020

Obras de Philip Pullman e N.K. Jemisin estão entre os livros comentados

Nesta coluna mensal, eu, Tayna Abreu, venho falar com vocês sobre livros! Ensaiamos aqui no Volts algumas reviews de livros que foram bem aceitas (obrigada!), assim, entendemos que poderíamos expandir essa editoria como uma coluna, pessoal e com texto leve, mas – pretendemos – sempre informativo.

Meus hábitos de leitura talvez precisem ser explicados: em 90% do tempo leio livros em inglês, de ficção especulativa – em sua maioria Fantasy e SciFi -, e de ficção literária alguns premiados ou indicados a prêmios como o Booker Prize, Women’s Booker Prize e Pulitzer Prize. Clássicos Vitorianos também são recorrentes.

Talvez deva pedir perdão de antemão por não ler, quase nunca, autores brasileiros? Perdão.

Mas se este é também o seu estilo de leitura, ou quer se aventurar nele, vem comigo!

THE SECRET COMMONWEALTH, Philip Pullman

No segundo volume da trilogia The Book of Dust, companheira de His Dark Materials, Philip Pullman resgata o caráter de confronto existente na história de Lyra Belacqua/Silvertongue.

A primeira parte de The Secret Commonwealth é despida de magia, sendo os daemons o único elemento fantástico presente, mas fantástico apenas pro leitor. Lyra e Pan estão às rusgas e se apartam após as complicações com ele testemunhar um assassinato.

Lyra, agora uma moça, estudante universitária, se entregou ao pensamento e estilo de vida racionais graças à sua frustração em ter vivido a maior aventura da vida ainda criança e o contato com dois pensadores que questionam, ainda que sem muito resultado prático, a existência de daemons e do sobrenatural.

Pantalaimon, por si próprio um ser de fora do mundo material, mas que se materializa nele, fica indignado com a perda da imaginação de sua companheira.

Os problemas de Lyra e Pan são uma mímica do conflito interno de Lyra, presa no dia a dia da faculdade após ter cruzado mundos, lutado ao lado de bruxas e ursos, e descido até o reino dos mortos, sem falar na traumatizante separação física entre os dois, que são uma só pessoa.

Novos seres mágicos aparecem na segunda parte do livro, quando a aventura finalmente é desencadeada. Ma Costa, Farder Coram, Malcolm e seus pais, Alice e a Dra. Hanna, todos personagens de La Belle Sauvage voltam a aparecer. O jovem professor é peça chave mais uma vez, sendo o elo entre os dois livros, que estão separados por 20 anos. Há ainda uma nova leva de personagens com vários níveis de relação com Lyra ou o Pó.

A Comunidade Secreta do título fala sobre a miríade de seres mágicos que permeiam o imaginário de crianças e contadores de histórias fantásticas. É o próprio gênero da Literatura Fantástica onde os livros de Pullman encontram guarita. Essa comunidade se encontra ameaçada pela ascensão do fascismo, se esgueirando por entre as fileiras da Igreja, e ameaçando não apenas a liberdade de pensamento, mas a própria existência de populações migrantes.

Pullman, mais uma vez, não se acanha em falar dos problemas do mundo real usando Lyra e cia como janelas. Seus personagens agora viajam até a Ásia Central, e os leitores ganham de presente todo um novo mundo de cultura, costumes e folclore.

The Secret Commonwealth lembra ainda que os problemas de Lyra com o todo poderoso Magisterium não foram resolvidos na primeira trilogia, e a explicação simples, se desenrola em um muito familiar conflito entre instituições acadêmicas e o lobby daqueles que defendem a perseguição ao livre pensamento.

Encantador para todos os fãs da trilogia original. Como é bom ter Lyra e Pantalaimon de volta!

THE COLLECTORS, Philip Pullman

Mais um no mundo de His Dark Materials. Desta vez um conto bem curto sobre dois colecionadores de arte que conversam em uma sala em uma universidade (claro, pois HDM). Aqui, Philip Pullman explora o mistério de um quadro e uma escultura que não se largam, mesmo às custas das vidas de compradores e colecionadores.

O conto busca mostrar como as idas e vindas entre os mundos, precisamente o mundo de Lyra e um outro muito parecido com o nosso, deixa consequências e pistas sobre a natureza do multiverso.

Vale muito a pena para leitores de His Dark Materials como um complemento, assim como os outros contos Once Upon a Time in the North e Lyra’s Oxford. Infelizmente está disponível apenas em formato digital e em inglês, já que foi primeiramente escrito para audiobook.

THE KINGDOM OF GODS, N.K. Jemisin

De todos os livros de N.K. Jemisin que já li, The Kingdom of Gods foi o que mais demorou, por vários motivos, nem todos relacionados à obra da americana. Esse é o terceiro volume da The Inheritance Trilogy, onde Jemisin coloca deuses e humanos para brigar, amar e disputar poder sobre a terra.

Como os dois volumes anteriores, a história foca na relação dos deuses, agora ex-escravos, e seus antigos captores, o clã Arameri, que detém o poder sobre os mil reinos que fazem o mundo.

Aqui é Sieth, o mais jovem dos mais antigos deuses (sim, é isso), quem toma de conta da narração. Mais uma vez a autora questiona o ideal de divindade, relações de poder entre dominadores e dominados, relações familiares estranhas chegando, finalmente, a queda de uma dinastia de milhares de anos.

A falta de lapidação é perdoável se levado em consideração que esta é a primeira trilogia daquela que viria a escrever The Broken Earth e ganhar três Hugo Awards consecutivos por esse trabalho. Jemisin já dava em Inheritance sinais que iria sacudir as fundações do SFF e muitas das ideias presentes são possíveis de reconhecer em seus trabalhos mais recentes.

Ainda há uma novela no mesmo mundo, The Awakened Kingdom, com uma narração intragável de um deus recém nascido, e Shades in Shadow, uma coleção com três contos no mesmo mundo. Me recusei a terminar a novela, não quero estragar Jemisin em meu coração, e nos contos ainda não pus os olhos.

MINHA IRMÃ, A SERIAL KILLER, Oyinkan Braithwaite

Um dos livros mais comentados de 2019, Minha Irmã, a Serial Killer (My Sister The Serial Killer, longlisted do Man Booker Prize 2019) é uma comédia de humor sombrio – e o debut da nigeriana Oyinkan Braithwaite – sobre duas irmãs em Lagos: Korede e Ayoola. A mais velha é uma enfermeira meticulosa, em vias de ser promovida à chefia do corpo de enfermagem do hospital; e a mais nova é a querida de todos, amigável, sedutora, mas também serial killer. Ayola mata os namorados enquanto Korede limpa as cenas dos crimes.

MYSTSK recorre fortemente à trope das irmãs diferentes onde sempre a mais séria e reclusa é quem narra a história onde o agente de transformações é a sua complementar. E claro, à do o crush que se apaixona por sua irmã mais interessante e vê em você apenas uma amiga.

A história lida com traumas da infância, violência doméstica, a cumplicidade entre irmãs, enquanto investiga e subverte as dinâmicas de poder entre homens e mulheres. É bem curto e de leitura fácil e cativante, apesar do tema pesado. É possível pensar que o livro é um thriller, que há uma investigação policial dos assassinatos, mas longe disso. Já se sabe quem é o autor dos crimes quando a história abre e nunca a narrativa se demora nos pormenores desse ato.

Todas as cenas onde alguém morre são distantes, como que sendo gradativamente apagadas pelo arsenal de limpeza e olho clínico de Korede. Posteriormente ela se lembra dos mortos, mas quase nunca do grotesco de suas mortes.

REBECCA, Daphne du Maurier

Um clássico que mímica os romances góticos, conta a história de uma jovem inexperiente que casa com um homem de meia idade de forma súbita em uma viagem e vai morar com ela na casa ancestral da família em Cornwall, na zona rural da Inglaterra.

Lá ela começa a ser assombrada pela lembrança da primeira esposa, Rebecca, que aparentemente era perfeita. Não há nada que a narradora sem nome faça que chegue aos pés da antiga senhora de Winter, ao ponto de ela simplesmente nem tentar imprimir suas vontades no governar da casa.

A narrativa é brilhante e consegue comprimir toda a insegurança e desejos reprimidos da nova esposa. É possível sentir o que ela sente, às vezes por páginas e páginas de divagações e perceber que Rebecca é parte intrínseca de Manderly, a casa ancestral dos de Winter, e como essa presença sufoca a narradora e alimenta o ódio da governanta sobre sua nova senhora.

O final é maravilhoso, apesar do twist ser bem óbvio, a forma como é feito e as ramificações dele são excelentes.

THE WELL-FAVORED MAN, Elizabeth Willey

O primeiro volume da Kingdom of Argylle Trilogy, uma saga barroca que mescla modernidade, medievo e lendas gregas em uma salada que por vezes torna difícil colocar foco em que cenário conceber enquanto a trama se desenvolve.

The Well-Favored Man é narrado pelo jovem cabeça da família de semi-imortais que governa a província independente de Argylle, que já fez parte de um reino maior, em um mundo que é o nosso, bem diferente, mas não menos o nosso. Há dragões sentientes e grifos gigantes, a consciência de Typhon, o pai de todos os monstros na mitologia grega, mas também há engenharia genética e inteligência artificial usada como arma de guerra.

Até agora, depois de 411 páginas ainda não sei o ao certo o que é ou de onde veio a Spring/Manancial – que parece ser a fonte de poder da família dominante -, não sei como funcionam as Chaves e tenho apenas uma ideia geral de como funcionam os Caminhos. Céus, ainda não sei como uma das personagens veio a existir, se ela nasceu de chocadeira, por exemplo!

Há muito no pacote, é um cenário ambicioso que talvez se desenvolva melhor nos livros seguintes – que são prequels -, mas que carece de uma maior delimitação e mesmo explicação básica de como funciona o mundo e seu sistema de magia.

Mas, veja bem, pode ser apenas meu intelecto limitado que me impossibilitou de acompanhar direito a saga do Well-Favored Man. Em todo caso, os livros são dos anos 1990 e Willey nunca mais escreveu nada.

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Coluna Tayna Abreu

Relação entre Margaret Atwood e série The Handmaid’s Tale é pura simbiose

Ao ler The Testaments, o novo livro de Margaret Atowood, onde a escritora volta a explorar o regime fundamentalista totalitário protestante de Gilead, após ter visto toda a terceira temporada de The Handmaid’s Tale, série do Hulu que adapta o romance homônimo publicado em 1985, torna-se perceptível que a mão da canadense ainda é tão presente na narrativa derivada já tão distante do original, quanto era na primeira temporada, com cenas retiradas do livro.

Mas Atwood e sua relação com The Handmaid’s Tale é algo de fresco na dança entre romancistas e as dramatizações de seus livros, precisamente quando se trata de ficção especulativa, indo muito além da ocasional participação especial. A escritora da liberdade e se inspira na obra derivada. É um ciclo completo como raras vezes se vê.

Em sua mais recente edição, a revista The Gentlewoman traz uma extensa entrevista com Margaret Atwood, que estampa a capa, onde são abordados inúmeros temas concernentes à vida e carreira da escritora octogenária. Em dois parágrafos há um isight sobre como se dá a relação simbiotica entre criador e criatura: Atwood orientou Bruce Miller,showrunner e principal roteirista de The Handmaid’s Tale, enquanto escrevia seu novo livro, e levou aspectos da série para dentro de seu novo testamento.

Diferente de quando uma obra derivada expande o texto, ou o surpassa, o trabalho foi simultâneo. Mas diferente de escritores mão de ferrro, Miller teve liberdade em explorar as linhas gerais que lhe foram dadas. Pelo menos na maior parte.

O nome de Nicole, segunda filha de June foi uma exigência inegociável de Atwood, assim como também a salvaguarda da vida de alguns personagens, não expecificados na entrevista. “Eu disse que tinha que ser Nicole”, certificou a escritora.

Atwood para The Gentlewoman, por Alasdair McLellan

Das telas, Atwood tomou grande inspiração na performace de Ann Dowd como Aunt Lydia para dar mais profundidade à personagem. É em grande parte pelo excelente trabalho de Dowd como a matriarca das Tias que Lydia ganhou um episódio com seu passado na tv e o poder de narradora em The Testaments. Para os leitores dos dois livros e expectadores da série, é possível perceber exatamente até onde vai a mão de Atwood e onde começa a liberdade de Miller. Um balanço perfeito, mesmo quem não concorda com interferências de autores em projetos derivados, como eu, deve concordar.

“Fui inspirada pela performace de Ann Dowd, que deu à Aunt Lydia mais dimensões que ela tinha no livro original”, contou Atwood. Dowd inclusive foi chamada para reprisar a personaem no  audiobook do novo romance profético. 

The Testaments foi lançado – com toda pompa de um prestigiado romance literário encontrando o frisson de uma saga popular – no último dia 10 de setembro, após um ferrenho esquema de segurança e confidencialidade para manter a surpresa, é um dos favoritos para ganhar o Booker Prize 2019 e já best-seller em todo o mundo.

Tayna Abreu é jornalista de entretenimento e também fala sobre ficção especulativa em seu IGTV @oftay_ 

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