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A bruxaria feminista de Sabrina e Charmed

Satanismo pode, mas mulher que fala aí já é demais?

Há algo de intrinsicamente errado e ignorante, pleno 2018, em desconsiderar a necessidade e, alguns podem argumentar, obviedade em ter pautas feministas em séries de bruxas. Bruxas não feministas não são bruxas, simples assim.

Mas não é preciso ir longe para encontrar chiados e murmúrios sobre a inserção de feminismo nas novas séries de bruxas que encantam a TV este ano, The Chilling Adventures of Sabrina (Netflix) e Charmed (CW).

Nas duas, releituras de séries clássicas dos anos 1990, jovens mulheres descobrem seus poderes sobrenaturais enquanto tem que lidar com abusos, perdas, amor, amizade.

Sabrina, por exemplo, funda um grupo na escola simbolicamente chamado de Wicca (a religião neo-pagã onde os praticantes fazem bruxaria e cultuam divindades predominantemente femininas) para ajudar as amigas que vinham sofrendo abusos dos colegas rapazes. Após perder os pais em um acidente, ela é criada por duas tias, duas mulheres solteiras, donas do próprio negócio e do próprio nariz.

Com a ajuda das Irmãs Estranhas, a bruxa toma para si a responsabilidade de punir os agressores de sua amiga, após a administração da escola, teoricamente responsável pela educação e bem estar dos alunos, falha miseravelmente em proteger uma estudante de sofrer abusos psicológicos e físicos dos colegas.

Em Charmed (que dispensa a confusão com o satanismo que Sabrina traz), três jovens irmãs negras descobrem, também após perderem os pais em um acidente, que são bruxas. Não há em nenhuma das suas séries gritos de “morte ao pênis”, então não há do que reclamar, não há o que temer. Ou há?

Falando em satanismo, chega a ser cômico como mesmo em uma série de TV para jovens ele possa ser mais aceito que o feminismo. Lúcifer na figura de Baphomet ( o bode) pode, mulher que fala já é demais.

Excluindo-se, para efeito de explicação, o caráter sobrenatural e religioso da bruxaria, bruxas foram, historicamente, mulheres perseguidas pela Igreja Católica, governos e sociedade por se recusarem a seguir submissas, seja por uma necessidade de curar um ente querido usando ervas, seja por ousarem falar sobre qualquer coisa que não era seu lugar enquanto ser inferior.

Ser bruxa, religiosamente ou não, é sinônimo de insubmissão e independência, duas coisas que assustam tanto em 2018 quanto assustaram no século XV. Há uma nova inquisição em curso, e novamente as mulheres que não aceitam serem inferiorizadas são alvo dela.

O coven, pense em uma célula de alguma igreja protestante, ou uma paróquia, simboliza nada menos que a solidariedade feminina para com as suas, ou mesmo os seus.

Enquanto padres exorcizavam demônios inexistentes, mulheres deram chás para crianças à beira da morte e pagaram por isso com a fogueira. Mulheres essas que, quando praticantes de ritos pagãos, usavam ervas, entoavam cânticos e chamavam pelo vendo, enquanto os homens, segundo o Professor Dr. Pau Castells Granado, da Universidade de Barcelona, eram adeptos da necromancia, causando “constrangimento” para os inquisidores, uma vez que para tal prática era necessário ser alfabetizado, coisa que apenas os sacerdotes e pessoas da elite eram.

Hoje, as que ousam denunciar os maridos agressores são relegadas ao ostracismo, as que sofrem crimes sexuais são desacreditadas. As mulheres ainda são minoria no mercado de tecnologia, ainda são a maioria dos empregados domésticos. Há mais de 5 milhões de crianças cujo pai nem sequer registrou, criadas por suas mães e avós, acusadas de criarem lares disfuncionais por políticos hipócritas.

Então sim, precisamos de bruxas feministas na TV, em histórias dirigidas ao público jovem. A maior magia que Sabrina e as Charmed podem fazer pelo público é mostrar que mulheres podem ser protagonistas de suas próprias histórias e tomar nas mãos a narrativa que querem para o mundo.

Logo, sempre que pensar “mas porque há feminismo nessa história de bruxas” lembre-se das aulas de História, que mesmo superficialmente, ensinaram que as mulheres foram, ao longo do tempo, caladas ou mortas, por ousarem existir fora das paredes da casa do pai ou do marido.

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