Connect with us

HQ's

Especial | Mercado Editorial de HQs: suas crises e algumas histórias

Ano de 2018 vem sendo destaque pelo agrave da crise editoral no mercado de quadrinhos.

Um turbilhão de postagens negativas sobre o mercado editoral brasileiro vem ganhando fôlego nos últimos dias nos principais portais e blogs da internet. Até mesmo nas redes sociais esse tipo de notícia vem chamando a atenção pela reação de muitas personagens e entidades envolvidas. No Facebook, o selo Mythos HQs  (da Mythos Editora) informou no último dia 07 de agosto que por questões técnicas deixará de seus títulos juntos às lojas Saraiva, Geek, Cultura e Fnac.

A editora não explicou seus motivos, mas o que se pode apurar até o momento é que problemas nos repasses dos valores por material distribuído e vendido por essas empresas não estariam chegando à Mythos. Nenhuma das lojas se posicionou oficialmente sobre o assunto até então. Confira abaixo a postagem feita pela editora:

 

(Postagem feita pela Mythos HQs onde justifica mudanças na distribuição de seus produtos aos seguidores. Fonte: Facebook)

 

Movimento parecido – só que com o fornecimento de e-books – foi feito pela Bookwire cerca de um mês atrás, quando deixou de distribuir seus produtos nas plataformas virtuais das livrarias Saraiva e Cultura. O motivo seria o mesmo: o não pagamento pelas vendas de seus livros. Na época só a Saraiva havia respondido e comunicou que estava trabalhando para regularizar sua situação. A livraria passa por uma crise financeira e ameaça fechar as portas.

Em outras situações tão obscuras quanto as já citadas, tivemos como destaque da última semana a confirmação de que a Editora Abril irá encerrar atividades de diversos setores da empresa. Isso inclui também as equipes de periódicos famosos como Mundo Estranho e Elle. No caso do mercado de quadrinhos isso ficou mais evidente no início do ano quando a principal parceria em cenário nacional – com a Disney – foi encerrada após 68 anos de estrada.

Junta-se a isso a crise na distribuição de conteúdos em bancas e livrarias no país que é monopolizado pela Total (fusão entre Total, Dinap e Chinaglia), que já levou outra grande editora  (Panini) a buscar caminhos pouco ortodoxos para manter sua comercialização sem afetar o público consumidor. A constante alta do dólar que afeta a taxa de importação de papel para a confecção de livros e quadrinhos é outro problema. Um processo bizarro se consideramos que o Brasil é um dos maiores exportadores de celulose do mundo. A cidade de Imperatriz, no Maranhão, possui uma das principais fábricas do segmento (a quinta no ranking de produção) e se junta aos estados de Mato Grosso do Sul, Espírito Santo e Rio Grande do Sul como outros polos importantes de produção da matéria-prima no país.

Mesmo assim tudo fica difícil e leva aos profissionais e proprietários de editoras brasileiras irem diretamente às redes para desculpar-se e justificar-se com os fãs pelo aumento quase que mensal nos preços dos novos volumes ou na demora pela liberação de material, o que leva os checklists a serem mais e mais escassos a cada dia. Júnior Fonseca, Proprietário e Editor-Chefe, da NewPOP Editora (especializada em mangás e light novels) é um desses profissionais que usa a rede para se manifestar. Entre os consumidores de mangás também há o conhecimento de que Beth Kodama (Panini / Planet Mangás) é outro nome famoso que usa as redes sociais para socializar suas dores com o público numa espécie de ritual de Pilatos onde “lavam as mãos” para tirar de sobre si a culpa pelo que vem acontecendo.

 

 

(Júnior Fonseca, Editor-Chefe da NewPOP, faz desabafo em perfil nas redes sociais. Fonte: Facebook)

 

Recentemente eu mesmo disse aqui no VOLTS que o Mercado Brasileiro de Mangás finalmente deu certo. Conclusão alcançada após ver os anúncios de novos título no Anime Friends 2018. Não só como crítico, mas como consumidor, pude ver como esse cenário cresceu e se desenvolveu. Contudo ele não depende – infelizmente – só de si e de bons anúncios para se manter. Uma série de outros fatores levam o mercado editoral brasileiro a dar sinais não mais de estagnação, mas de uma crise emergencial duradoura e com ares de gravidade altíssima que afeta toda a estrutura de Produção-Circulação/Distribuição-Consumo.

Mas será que é tempo apenas de alardear os males que se aproximam? Não é o caso de vermos exemplos positivos de manutenção e desenvolvimento de nosso mercado de quadrinhos, mangás, livros e etc? Foi pensando nisso que a equipe VOLTS aproveitou sua visita ao SANA 2018 para conferir como está o comércio de produtos do gênero no Nordeste do país. Entre algumas pouquíssimas bancas especializadas com estandes espalhados pelo Centro de Eventos do Ceará (com uma da Panini e uma da JBC inclusas nesse cenário), nos deparamos com a loja Revistas & Cia, de Fortaleza-CE, que nos recebeu para um bate-papo muito esclarecedor sobre o assunto.

 

Nos bastidores de uma Revistaria

Lá estava eu, no primeiro dia de SANA 2018, aguardando o início da principal atração do palco principal: Akira Kushida. Enquanto isso circulava pelo Centro de Eventos do Ceará a procura de mais alguma atração que merece um clique para ser divulgado ao longo de nossa cobertura. Como consumidor aproveitei também para dar uma bisbilhotada e assim encontrar algo para levar no último dia.

A fim de agraciar minha coleção de mangás procurei algo diferente, inédito no meu acervo. Foi quando me deparei com três dos quatro exemplares da Edição Definitiva de Holy Avenger, a mais promissora HQ brasileira em estilo mangá já lançada por essas bandas. Aquilo não só chamou minha atenção como fez-me encostar no estande para consultar preço.

Enquanto nerds – provavelmente especializados em jogar RPG de Mesa – atendiam ao demais visitantes, eu fui logo tratando de perguntar a respeito do primeiro volume da saga de Marcelo Cassaro e Erika Awano, o mais difícil de encontrar no e-commerce nos dias de hoje.

Antes um pequeno parênteses. Holy Avanger é a mais famosa saga de fantasia já publicada em quadrinhos por autores brasileiros. Originalmente lançada em 42 volumes pela Editora Trama (posteriormente chamada Talismã) teve suas vendas entre 2000 e 2003. Seu sucesso foi confirmado ao vencer por duas vezes o Troféu HQ Mix em 2001 e 2002 na categoria “Revista Seriada”. Isso lhe rendeu ainda republicações em formatos especiais, uma prequela (Holy Avenger Especial), uma sequela (o RPG Tormenta) e revistas temáticas abrindo assim um universo fantástico. Vale destacar que o projeto Holy Avenger existe desde 1998 com um RPG de Mesa homônimo produzido e publicado na Revista Dragão Brasil (Editora Trama). O ápice chegou em 2007 com o sexto lugar na primeira edição do Japan International Manga Award. Em 2012 a Editora Jambô – outra grande nome do cenário de RPG no Brasil – anunciou uma publicação para colecionador encadernando todos os 42 volumes da saga original em 4 edições de capa dura com uma série de extras feitas pelos autores sobre o universo da franquia. Tratava-se dessa coleção que procurava.

Retomando ao relato… Minutos depois estava em uma sala fechada dentro do Centro de Eventos do Ceará, onde um homem sentado atrás de uma mesa anotava sem parar em planilhas de papel numa contabilidade frenética. No chão do cubículo pilhas e mais pilhas de caixas abertas com mangás e HQs das mais diversas épocas e origens. Sem querer acabei esbarrando numa pauta interessante. Após negociar a possível comprar da coleção completa da Edição Definitiva de Holy Avenger (que ele jurava ter em sua posse três edições do volume 01) parti para a entrevista.

Sílvio Amarante, 66 anos e colecionador e proprietário da Revistas & Cia, me apresentava quatro volumes em novíssimo estado de encadernados do Wolverine da década de 1990. Material considerado escasso para muitos colecionadores, mas com ele uma caixa cheia deles. As edições n°16, n°17, n°18 e n°19 dos quadrinhos do Carcaju lançadas em 1993 nunca teriam sido usadas mesmo após 25 anos de publicação. Sílvio justifica isso como um problema de distribuição de material por parte das editoras, que na época apostavam muito em bancas e acabavam não conseguindo recolher todo o material espalhado pelo Brasil dando eles como extraviados ou perdidos.

 

(Edições de Wolverine de 1993. Após 25 anos nunca foram comercializadas. Foto: Saylon Sousa/VOLTS)

 

O colecionador falou muito emocionado sobre seu papel como mantenedor de uma cultura e citou também seu apoio aos realizadores do SANA desde a primeira edição 18 anos atrás. Sobre os quadrinhos e o mercado editorial ele comentou sobre o assunto oferta e demanda:

“Infelizmente, ou por não conhecimento ou por não valorizar suas próprias coleções, os apreciadores de quadrinhos e mangás quando vão se desfazer de suas respectivas coleções não as valorizam. O que eu quero dizer é que isso nunca foi um entrave, pois quando garoto eu já comprava revistas antigas e raras” disse ao comentar sobre a constante variação no preço de exemplares e a rotina de comentários sobre valores atribuídos a volumes mais difíceis de ser encontrados. “O quadrinho é um tipo de coleção que não foge das outras. Se ela [a revista] é rara ela é mais cara!

Sobre essa definição de revistas raras Silvio é categórico ao afirmar que só existem dois critérios que o colecionador deve considerar para reconhecer uma publicação como tal:

“Só tem duas coisas para uma revista se tornar rara: Um é o problema de tiragem, não é o problema da distribuição em si. É o problema da tiragem. O outro é quando acontece um sinistro, ou na editora ou no transporte desse material” explicou.

A fim de ilustrar sua tese Sílvio põem-nos a parte de dois casos ocorridos de mangás que se tornaram raros no Brasil:

“Cavaleiros do Zodíaco – Epsiódio G n°19. Todos os demais são raros porque hoje já estão esgotados. Se você olhar em uma loja virtual como a Comix, por exemplo, do n°11 ao n°18 qualquer um deles está numa faixa de R$59,90. Agora e o n°19? Bem, com o n° 19 aconteceu um problema muito sério na Conrad [editora responsável] e se você olhar em qualquer site tipo o Mercado Livre você não vai encontrar o n° 19 por menos de R$ 300, porque ele foi destruído!”, revelou ao citar um exemplo de sinistro.

“Outro mangá que também já foi problema de tiragem é Zettai Kareshi, uma coleção de mangá que ele vai do n°01 ao n°06. Do n°01 ao n°05 a tiragem da Conrad era de 50 mil exemplares, só que Zettai Kareshi vendia 25 mil exemplares e o resto voltava. Quando foi no último número o n°06 a tiragem da Conrad foi de 10 mil exemplares. Ora, se 25 mil pessoas compravam 15 mil pessoas no Brasil estão sem o n°06 de Zettai Kareshi em forma física [impressa]. Simples assim! É isso que faz uma revista se tornar rara”, disse Sílvio com um sorriso no rosto ao citar os problemas enfrentados por quem convive com o mercado editoral brasileiro de quadrinhos.

 

(Sílvio Amarante apresenta satisfeito revistas em ótimo estado de conservação e comercialização. Foto: Saylon Sousa/VOLTS)

 

Esses e outros exemplos compartilhados em nosso bate-papo apresentam de forma bem objetiva como crise que hoje está em eminência de estourar em um grande caos começou. Produção-Circulação/Distribuição-Consumo organizados de maneira precária e pouco assertiva levaram aos profissionais do mercado editoral a se na hora de conquistas a simpatia do cliente.

Quem aposta no cenário digital acaba encontrando alternativas para fugir da crise e mesmo assim tem que lidar com um ou outro empreendimento que não honra compromissos. Já quem atua no ramo de lojas especializadas já nem dorme direito devido ao medo causado pela catástrofe anunciada que são os Correios e Telégrafos do Brasil e suas constantes greves, além da ousada aventura de megastores como a Amazon que caminham a passos largos para se tornar titãs do mercado.

A Sílvio e sua Revista & Cia são um exemplo à parte de que ainda há pessoas com fôlego para manter esse contato de proximidade com o leitor e não se desfazer de regras de mercado importantes para o estabelecimento de um status quo. De conhecimento de seu produto, o empresário não só valoriza-o como faz questão de conservá-lo e propagá-lo como algo para além de uma cultura de consumo.

Resta ao consumidor aguardar por dias melhores afinal de contas Chorão já havia profetizado “Dias de Luta, Dias de Glória” para quem persevera. Pechinchar e ser muito mais seletivo no que adquirir para a coleção é o que se espera dos colecionadores que ainda se atrevem a enfrentar essa tormenta. E por falar em tormenta… Acabou que nem comprei o Holy Avenger. Seguindo meu próprio conselho resolvi deixar para a próxima.

Em alta agora