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Críticas

Crítica | Shiki Oriori: O Sabor da Juventude

Estreia da Netflix tem três histórias diferentes contadas na China.

Qual seria o sabor da juventude? Doce, Salgado, Amargo, Azedo ou Umami? Não sei. Vivendo minha juventude, ainda posso afirmar que cada dia ela tem um sabor diferente. Agora quanto aos seus temperos… Família, amizades e paixões são alguns dos elementos que ajudam a dar o toque especial nesse momento da vida. É sobre esse tema que as três histórias do longa-metragem Shiki Oriori: o Sabor da Juventude trata. O filme que traduzindo quer dizer “Poema de Tecelagens das Estações” – estreou no último dia 04 de agosto no catálogo de novidades da Netflix e conta com versão dublada em português pelo estúdio Vox Mundi de São Paulo.

Em cada um dos três curtas – “O macarrão de arroz”, “Nosso pequeno desfile de moda” e “Amor em Xangai” – temos vídeo-contos narrados em primeira pessoa onde as protagonistas nos levam a relembrar sua juventude em três regiões importantes da China: Hunan, Guangzhou e Xangai.

Em “O macarrão de arroz” – no original “Café da manhã ensolarado” – somos levados ao arrebatamento da nostalgia do jovem trabalhador chinês, Xiao Ming, que vive uma vida de lamentações na incansável cidade de Pequim. Entre suas idas e vindas ele sempre para para comer o Bifum San Xian, típico macarrão do tipo lámen produzido na área rural do país asiático. O macarrão lhe é especial justamente por lembrar seus bons tempos de infância ao lado da avó e a vida pacata província de Hunan. Em meio a um monólogo acentuado por lamentações, Xiao Ming nos leva a refletir justamente sobre os prazeres da vida sem preocupações. Seu apreço pelo prato típico da região revela um saudosismo cheio de sentimentos intensos ao ponto de fazer com que nós mesmo relembremos nossa infância e as alegrias e tristezas da vida de criança/adolescente. O drama conta também com tensão ao nos deparamos com uma despedida em lágrimas proporcionada pelo protagonista.

Na segunda história, “Nosso pequeno desfile de moda”, uma dupla de irmãs vivem as emoções da vida independente em meio a caótica cidade de Guangzhou as irmãs Yi Lin e Yi Lu (Lu Lu) vivem os desafios de um relacionamento familiar conduzido pela dinâmica da vida em sociedade numa cidade grande. Yi Lin, a mais velha, trabalha como modelo e é a tutora oficial da irmã, que ainda está terminando os estudos regulares. No ambiente da moda, a jovem de 25 anos sofre com a pressão existente pela política do elogio. Sempre sendo a mais perfeita e sentido o medo de deixar de ser o foco para outra garota. Enquanto isso sua irmã se foca em desenvolver uma carreira como estilista sem nem Yi Lin perceber. Tudo para retribuir a irmã pelo cuidado, mesmo este sendo torto e desleixado. Tudo fica mais difícil quando uma rival – mais jovem e mais ousada – aparece e começa a chamar os holofotes para si. Yi Lin então começa uma jornada de exageros que termina numa discussão com a irmã mais nova e seu afastamento das passarelas. O sentimento de fraternidade e a o desejo de felicidade são os tons desse drama que termina com um desfecho previsível, mas feliz. A lição deixada é a de perseverança, além da ratificação daquilo que realmente importa: as pessoas que nós amamos e que nos amam estarem sempre ao nosso lado.

Em “Amor em Xangai” somos levados aos dias de glória do charmoso subúrbio do Shikumen, na cidade de Xangai, onde um trio de amigos vive felizes numa brincadeira cheia de intensidade no final dos anos 1990. Xiao Yu, Li Mo e Pan se divertem gravando músicas e conversas entre si usando Fitas K7. Ali, em meio aos moradores do subúrbio no centro de Xangai uma paixão nasce no coração de Xiao Yu e Li Mo. Xiao Lu, uma garota querida por todos sofre em casa com os constantes abusos de seu pai, que lhe agride diariamente numa criação rígida e nada assertiva que força a garota a focar seus estudos para uma escola de renome em Pequim. Isso desperta em Li Mo o desejo de segui-la. Sua paixão, no entanto, o cega ao ponto de deixar de ouvir a mensagem que Xiao Yu gravara para ele e que poderia ter dado um sentido diferente a suas vidas ainda ali. A dureza da vida adulta e as incertezas de um coração adolescente são constantemente dispostas em contraste nesse último drama que é uma homenagem direta ao filme “5 Centímetros por Segundo” (Byosoku 5 Centimeter) longa-metragem do renomado cineasta japonês Makoto Shinkai. A homenagem, entretanto se acaba quando ao final um reencontro entre Xiao Yu e Li Mo toma caminhos diferentes do filme já citado.

A aposta da Netflix, além de ser belo visualmente e narrativamente tem outra proposta específica: o Anime Turismo, prática que vem sendo recorrente com muita intensidade entre países do Leste Asiático e já chegou a ser usado até mesmo pelo Canadá. Com as paisagens bem apresentadas em planos abertos compostos de muitas cores e formas, a China e suas três regiões turísticas (Hunan, Guangzhou e Xangai) é promovida de forma convidativa a quem assiste ao longa-metragem, que também é a apresentado a outros três elementos de muito valor para o turismo chinês: a comida, a moda e a arquitetura.

Numa produção sino-nipônica entre os estúdio chinês Haoliners e o estúdio japonês CoMix Waves (o mesmo de Your Name/Kimi no Na Wa) os diretores Li Haoling e Jiashou Yi Xiaoxing (Haoliners) e Yoshitaka Takeuchi (CoMix Waves) nos trazem não só uma publicidade bem elaborada do país asiático, mas promovem um misto de sentimentos que sim, despertam um pout-pourri de emoções dignos de receber o subtítulo vinculado aos sabores da nossa juventude, que agita o coração e mexe com o sentimento de quem tem prazer em viver feliz.

Cumprindo seu papel em partes o filme promove em nós esse êxtase de sensações que despertam intuitivamente. Seja para os apaixonados ou para aqueles que buscam uma boa história o saudosismo impregnado em cada curta-metragem leva-nos a viver também nossa própria nostalgia mesmo que nunca tenhamos posto os pés na China. Talvez esse seja o ponto mais negativo do filme, que tinha intuitos de vender ao público o interesse pelo turismo no país de Mao Tsé Tung. A sobreposição das histórias sobre os cenários acaba desfocando o propósito pensado pelos produtores. Quem ganha com isso somos nós que acompanhamos dramas lindos sem aquela certeza chata de que estão nos querendo vender um produto, uma ideologia. Um convite à catarse.

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