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Críticas

Crítica | Ilha dos Cachorros

Stop-motion primoroso, política, Japão e muita fofura

Foto: Divulgação

O nono filme do diretor Wes Anderson resgata a técnica artesanal do stop-motion pra misturar política, Japão… e fofura. E a despeito da precisão cirúrgica na composição dos quadros e escolhas de plano, Anderson não esquece a mensagem. Ao mesmo tempo em que é divertido observar o primor da técnica adotada ali, também é um prazer investigar as referências e o estilo perfeccionista-quase-maluco do diretor. Vamo lá.

Os problemas enfrentados pelos cães em Ilha dos Cachorros (Isle of Dogs, 2018) podem remeter, fica a critério da sua imaginação, a eventos de grande revelo histórico como o projeto de extermínio nazista na Segunda Guerra ou mais longe, com os surtos epidêmicos que dizimavam populações na Idade Média… Também dá pra pensar no Muro de Berlim dividindo a Alemanha durante a Guerra Fria – não tão longe da proposta dos muros de Trump ou até atualmente, com a crise imigratória que castiga regiões da Europa.

Todos esses episódios têm eixos em comum, mas mais importante que definir o ‘pano de fundo’ é observar que o filme sempre vai buscar o ponto de vista dos excluídos numa história cujos protagonistas são cachorrinhos falantes e que, mesmo assim, nunca deixa de se levar a sério. Se isso não é um barato, me diga você.

Ao mesmo tempo, não dá pra ignorar que nos filmes de Wes Anderson há quase sempre uma linha muito frágil separando o apuro estético do conteúdo. Às vezes é difícil manter o foco. Aqui há uma bricolagem de referências declaradas e não declaradas, como ao Cinema Japonês dos anos 50 e 60 (especialmente Kurosawa); há uma confluência muito interessante entre o analógico e a alta-tecnologia com sensores de radiofrequência de um lado e micro-mísseis teleguiados de outro.

A barreira do idioma, mantido aqui entre japonês e inglês, também é uma escolha interessante que aumenta o fosso entre opressores e oprimidos. A estética do Cool Japan que Sofia Coppola aplicou em Encontros e Desencontros (2003) também faz as vezes aqui em forma de letreiros não traduzidos, figurinos impecáveis e intervenções de animação em 2D que lembram qualquer coisa entre Akira e Astroboy.

Em Ilha dos Cachorros aparentemente a obsessão de Anderson pela centralidade dos enquadramentos, pelos travellings e plongés nunca esteve tão atacada. E compensa por sequências como a do sushi (que levou oito meses pra ficar pronta), pelos mínimos detalhes dos pêlos dos cães ao vento ou nas cenas de pancadaria onde os personagens ficam envoltos numa nuvem de “poeira”, como nos desenhos dos Looney Tunes. É uma fofura muito bem calculada.

Some-se a isso o elenco estrelado, com destaques para Bryan Cranston, Edward Norton, Greta Gerwig e Frances McDormand. Se há quem profetize o fim do stop-motion enquanto técnica de animação, Ilha dos Cachorros tá aí pra fazer frente na resistência! Viva os Doguinhos!

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