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Entre o retrocesso e a igualdade: As lutas sociais em Detroit Become Human

‘Detroit’ incorpora, retrata e reflete sobre temas sociais e revoluções históricas da humanidade.

Foto: Sony Entertainment

Em se tratando de igualdade, minorias e preconceito, uma coisa que a história nos ensinou é que o homem, até então, não aprendeu com os seus erros do passado, pelo menos, não completamente. Digo, sim, obviamente houve muitos avanços e conquistas em revoluções históricas, mas ao mesmo tempo em que tudo isso se expande, ainda sobra espaço para a regressão, em que alguns insistem em permanecer. Diante a isso, Detroit: Become Human reflete e critica estes aspectos de maneira singular, pois, ainda que ambientado em um cenário futurista, ele consegue retratar todo este ciclo social, em que o homem aprende e regrede simultaneamente.

Parte disso vêm das claras evoluções tecnológicas apresentadas em jogo, todas muito bem detalhadas por sinal, a sua grandeza é justamente não deixar escapar as pequenas nuances e singularidades, desde os seus sistemas de tráfegos inteligentes, aspiradores de pó automatizados, revistas digitais até os carros com piloto automático e animais cibernéticos. Claro, não devemos nos esquecer do mais essencial: os magníficos androides, que apresentam responsabilidade, inteligência, eficiência e são os pontos centrais da trama do jogo.

O mundo de Detroit é alimentado substancialmente por estes seres hiper-realistas, tudo funciona através de suas forças-tarefas. Para qualquer responsabilidade social que você puder imaginar, os androides estão lá, à sombra do homem, para realizar qualquer atividade, se não estão efetivamente e em primeiro plano, eles estão apoiando ou auxiliando de alguma forma. Como exemplo, eles são secretários, babás, faxineiros, até mesmo “garotos(as) de programas”. A ideia principal é que eles existem para suprir todo o trabalho humano, tudo para que as pessoas aliviem a sua carga de trabalho. De inicio tudo funciona perfeitamente, contudo, problemas começaram a surgir.

Primeiramente, deve-se ressaltar que a classe dos androides são comumente tratados como lixo e recebem frequentes insultos de seus donos. Para grande parcela dos humanos, eles são apenas máquinas ou objetos e isso é motivo suficiente para desprezá-los e depreciá-los, como muito se vê em cena.

Com o aumento do desemprego (devido à substituição da mão de obra dos humanos pelos androides), este ódio se alavancou ainda mais e como se não fosse o bastante (para a percepção humana), os androides, pouco a pouco, começam a ganhar uma espécie de independência, vontade própria, anseios, instintos de sobrevivência e até mesmo sentimentos.

Visto isso, voltemos ao início do artigo, ao ciclo de erros e acertos do homem. Isto vem de frente ao ponto chave da trama, em que: os androides, antes utilizados como mão de obra para quase toda tarefa humana, ganham independência e logo requisitam liberdade, autonomia e direitos civis por meio de uma nova revolução comandada por um dos protagonistas androides.

O mais importante sobre o jogo é que, acima de todos os seus grandiosos aspectos técnicos e de jogabilidade, ele também apresenta, em sua trama, essas simbologias e representações de grande impacto social, oras envoltos de pensamentos e reflexões históricas, como a escravidão e revoluções em prol da liberdade e igualdade, oras retratos das problemáticas sociais atuais, entre elas: o preconceito às minorias. Tudo isso, claro, em um futuro cercado e dominado pela tecnologia.

Na minha perspectiva, foi fácil, por exemplo, sentir a opressão (junto com o personagem) por algo que estava além do meu controle, ou, melhor dizendo, isto surgia justamente pela “raça” que o meu personagem, em tela, era: um androide. Assim, representações de intolerância emergiam diversas vezes, aliás, como previamente dito, muitos sujeitos presentes no jogo demonstravam aversão a eles, culpando-os, usando-os e até os violentando publicamente. Tais cenas representavam essa esfera social oriundo de um novo preconceito focado em uma nova raça, mas que exibiam os mesmos erros e agraves das antigas.

Durante o curso do jogo, por exemplo, manifestações e passeatas tornam-se componentes essenciais da trama de Detroit, todos bem alinhados à realidade escrita na história, pois tratam-se de ações recorrentes de grupos minoritários que requisitam os seus direitos, como o caso do movimento sufragista. Desse modo, esses atos retornam em Detroit para indicar as mesmas alegorias sociais, reforçando, também, as ligações entre o passado e futuro apontados neste artigo.

Indo para outro caso, em um dos segmentos do jogo, é possível presenciar um diálogo entre Rose, uma mulher negra, com Kara, uma androide, sobre os problemas raciais que ambas possuem em comum:

Como se não bastasse, esse problema é reforçado por outra representação histórica que é exibida por meio da segregação dos espaços no ônibus, que nitidamente nos remete a segregação racial nos espaços públicos, ocorrida nos EUA na década de 60. Os fatos são semelhantes, pois assim como naquela época, há um local específico para as minorias nesse meio de transporte: no final do corredor. Aqui, além desse peculiar aspecto, trata-se de uma área delimitada e sem qualquer assento. Os humanos, claro, sentam-se confortáveis mais a frente.

Mas, calma… Nem tudo está perdido, pois, ao mesmo tempo em que todos esses agraves cíclicos da humanidade são nos apresentado, a crítica e o aprendizado sobre empatia e tolerância também jazem aqui, pois, estamos em controle de uma raça que sofre o que muitos outros já sentiram e, assim, é fácil compreender sobre os agraves que estes enfrentam diariamente: a falta de justiça, igualdade ou empatia, assim como a opressão e o preconceito emitidos pelos demais.

Estamos sobre o comando de algo proveniente do futuro, mas que reflete sobre as minorias atuais e passadas.  E aqui temos o poder de transformar esse cenário, o poder de quebrar esse ciclo vicioso e aprender com ele.

Em minha própria experiência, eu me recordava de antigos aprendizados acerca de revoluções e lutas históricas. Através disso, tentei analisar os seus erros e acertos, já que possuía intenções de construir uma nova revolução em busca da liberdade que se encaminhasse longe das falhas cometidas no passado. Ao mesmo tempo, eu aprendia (e sentia na pele) sobre como é difícil lutar pela igualdade.

Visto tudo isso, fiquem com a música cantada pelos androides em um dos curtas lançados pela Quantic Dream, “Luther”, que retrata a perseverança, resistência e empatia, um hino contra a opressão. A sua versão original é uma canção gospel popular, que reflete as mesmas mensagens.

 

 

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