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Críticas

Crítica | Hannah Gadsby: Nanette

“Assista Nanette!” eles disseram. Assisti.

Foto: Divulgação/Netflix

“Eu preciso deixar a comédia” explica a comediante australiana Hannah Gadsby em meio ao palco de seu show de stand-up, disponível na Netflix. “A comédia me fez transformar a minha história numa piada”, ela continua (tradução livre). Escrever sobre Nanette surgiu pra mim mais como uma necessidade pessoal do que pra cumprir compromisso de agenda no glorioso site Volts. Então vou tomar a liberdade pra quebrar o protocolo da impessoalidade e escrever em primeira pessoa dessa vez, tá bem? Vamo lá.

De algum jeito, a máxima “Assista Nanette!” viralizou na internet até o ponto de envergar e virar uma recomendação meio chata. “Tá bom, cara, já entendi, vou ver essa Nanette, que saco!”. Mas vamo com calma. O primeiro ponto é: se você curte estrutura textual, esse especial é um arraso. Lésbica assumida num segmento dominado por homens hétero, Hannah Gadsby começa construindo seu discurso desfiando piadas sobre ser homossexual “Uma vez reclamaram que meu show não tinha conteúdo lésbico o bastante …Eu tava no palco o tempo todo!”, ela brinca.

A comediante segue soltando pequenas informações sobre a infância, sobre sua formação em História da Arte, sobre a carreira de stand-up. Mas entre um gracejo e outro, curiosamente, ela deixa cair alguns comentários meio amargos sobre como, por exemplo, a História da Arte é basicamente sobre ‘homens retratando mulheres nuas em poses incômodas’. E então ela alivia a tensão com o riso outra vez.

Então, olha só, em estrutura, o especial começa como um show de stand-up comum. <Pessoa em pé no palco conta piadas indiscriminadamente>. Mas o que Hannah faz, aos poucos, sem assustar a plateia, é transformar essa plataforma num espaço pra compartilhar episódios muito dolorosos sobre sua vida pessoal. Não é um mero rompante, não é uma exposição gratuita. O fato é que ela usou a carreira, ao longo de 10 anos, para sufocar feridas profundas através do humor autodepreciativo.

E o riso até parece uma solução saudável para afastar a dor, mas Gadsby confessa que, por essa via, ela jamais conseguiu superar sua não-aceitação, a vergonha de si mesma, incutida ainda na infância – sobretudo tendo crescido na Tasmânia, um ambiente de homofobia declarada, onde até 1997 o sexo gay era considerado crime. E aí, ao longo dos relatos extenuantes e incrivelmente articulados, dá pra entender o sofrimento represado da artista.

Quase sempre equilibrando tensão e alívio, ela resgata tópicos que usou no começo da fala e molda essas falas para outro contexto. Como por exemplo, com a perspectiva do Cubismo de Pablo Picasso, a quem ela declara ódio absoluto. E explica os motivos.

Apesar dos silêncios incômodos que seu discurso provoca, Gadsby abraça a necessidade pessoal de livrar-se desses não-ditos do seu passado, mas entende a importância de levar sua história a tantos que passaram e passam por situações como as que ela enfrentou sozinha, calada, achando que merecia sofrer por ser quem é. E nesse sentido, é um conteúdo bravo, poderoso, que não deve ficar restrito à comunidade LGBTQ.

O humor em Nanette não é exatamente engraçado. Pelo menos talvez não tanto para o nosso humor braza. Mas a dor que Gadsby compartilha em seu texto de gênia é universal. E vale cada minuto. …Assista Nanette!

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