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Críticas

Crítica | Hereditário

Temos o terror do ano? Temos o terror do ano.

Foto: Divulgação

Uma observação: Para os espectadores mais sensíveis, este texto pode entregar detalhes não exatamente cruciais da trama, mas que de repente, nunca se sabe, podem ser considerados spoilers. Então, venha com amor – e por sua conta & risco.

Quando se fala em lobisomem, vampiro, monstro do pântano e mula-sem-cabeça, a parada é mais tranquila por que a gente sabe que essas criaturas foram inventadas para o entretenimento. Mas quando se trata do DEMÔNIO a coisa muda de figura já que a cultura ocidental fez a gente acreditar no sobrenatural (ou pelo menos desconfiar dele) e na possível existência do capiroto e seus amiguinhos. Mesmo assim, a abordagem do sobrenatural em filmes de terror é já bastante gasta… e é justamente isso que torna o trabalho de Hereditário (Hereditary, 2018) ainda mais louvável. Vamo nessa.

O primeiro ponto é que a trama do filme de Ari Aster se confunde em gênero com um drama caseiro – o terror que vai se instalando aos poucos gira em torno dos moradores dessa casa lidando com a recente morte da matriarca da família. E o roteiro, também de Aster, espalha inúmeras ‘pistas falsas’ enquanto explora os detalhes da narrativa. Já na abertura, o conceito de casinha de boneca é uma distração que interessa e intriga. Muitas vezes, inclusive, há truques com as proporções da casa. É escala real ou uma miniatura? Estamos vendo uma representação ou a realidade de fato?

Essa dubiedade se estende por todo o filme, já que é difícil discernir se estamos acompanhando fenômenos paranormais ou apenas manifestações literais de transtornos psicológicos decorrentes do luto. Nesse sentido, Hereditário respeita um dos ingredientes fundamentais do gênero: a sugestão. O desconhecido assusta. O não saber deixa a plateia atenta. E não é por acaso que muitas cenas arrancam risadas do público. Não por se tratar de um “Terrir”, como Sam Raimi fez em “Arraste-me para o Inferno” (2009). É que o riso é o desvio mais fácil pra aliviar a tensão.

A personalidade dos membros da casa é outra fonte de ambiguidade, algo que confunde ao lidar com o passado cáustico e a propensão ao sonambulismo da protagonista Annie (Toni Collete, fantástica) o comportamento mórbido da filha Charlie (Milly Shapiro), o ceticismo do marido Steve (Gabriel Byrne) e o isolamento do adolescente Peter (Alex Wolff). Tudo é material pra montar teorias.

Mas Hereditário não se limita apenas ao campo da sugestão. É um projeto estético muito arrojado que produz cenas difíceis de esquecer, mas não se utiliza com gratuidade do recurso dos sustos fáceis com barulho repentino. Preparação e consequência não são instantâneos e passageiros – eles vêm através de um espiral agonizante de acontecimentos. E a cena do surto de Peter na sala de aula, um ambiente iluminado e diante de todos os outros alunos e professor, é desesperadora. Sem jump-scare, sem escuridão, sem música alta.

Como se trata essencialmente de um drama de família, a gente tende a se importar muito com o que acontece aos personagens e isso se mostra fundamental ao longo da trama. Outro ponto corajoso do filme é que não parte dele a necessidade de esmiuçar as informações para o público. Isso é muito importante: Hereditário não vai te deixar completamente perdido, com um final frustrante e inconsistente, mas também não vai te pegar pela mão pra explicar detalhes.

E isso é a marca de um projeto que respeita a inteligência de quem assiste. É pra sair da sessão juntando as peças, mas também totalmente aterrorizado. E aí, vamo lá: se vier um terror melhor que esse até o fim do ano, estamos muito no lucro. Vai quebrando, Senhor…

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