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Críticas

The Last Ceremony, o episódio mais atual de The Handmaid’s Tale

Jamais antes uma série de TV teve um timing tão preciso com o mundo real.

Hulu

Em 1984, ano icônico para a ficção especulativa, Margaret Atwood começou a escrever um conto de admoestação que, aos moldes do livro de George Orwell, começaria a fazer mais sentido à cada década que passa. The Handmaid’s Tale, ou O Conto da Aia, foi publicado um ano depois e em 2018 além da admoestação ainda é tratado como manual de instrução.

Atwood jamais escondeu que baseou o plot de seu romance, hoje um pináculo da ficção científica, distopia, ficção especulativa e ficção feminista, em de momentos reais da história, de como mulheres são tratadas em várias partes do mundo, mas ninguém pode duvidar que ela jamais esperou que a atual administração dos Estados Unidos fosse usar seus escritos como modelo de política.

Com o episódio desta semana – The Last Ceremony –  The Handmaid’s Tale, que adapta na TV o romance de Atwood, se aproximou de forma jamais vista da realidade, com um timing (infelizmente) perfeito, a série conversa cara a cara com a política de tolerância – ou humanidade – zero de Trump em separar crianças de suas famílias nas fronteiras americanas.

O episódio 10, dirigido por Jeremy Podeswa (conhecido diretor de Game of Thrones), que também dirigiu Smart Power, o nono, foi uma roleta russa de insanidades, primor técnico, cinematografia impecável e simbolismos, provando que é possível fazer a tal “arte na TV”, ter audiência e impactar a vida real dessa audiência, tudo ao mesmo tempo.

The Last Ceremony começa com uma cold-open de Emily sendo submetida à uma das cerimônias mais cruéis que Gilead poderia perpetrar, o estupro sancionado pelo Estado, enquanto ela narra que tem de encarar tudo como se não estivesse lá, como se fosse um “trabalho” onde sua alma deixa o corpo, sua consciência se recusa a presenciar o próprio sofrimento.

No supermercado, que voltou aos moldes de antes do atentado, quase um céu de mercearia, June sente contrações e fala com uma Emily zumbi que ainda há esperança. Levada para casa, a aia e os Waterford se preparam para aquela que poderia ser a última cerimônia de June na casa, o show de parto preparado por Tia Lydia e a pantomima do mesmo preparado pelas esposas. Serena é como a virgem imaculada, etérea, um simulacro de mãe, enquanto June é uma deusa fértil, sentada em um quarto luxuoso cheia de vida. Não é desta vez que o bebê chega.

Servidos de ira, talvez o pior dos sete Pecados Capitais, Serena e Ford perpetram a real última cerimônia de June na casa, na cama em que horas antes a aia achou que se sentaria pela última vez para das à luz. Como um espelho cruel, tudo que se vê são trevas; no quarto na penumbra Serena prende June enquanto Fred estupra a aia grávida de forma violenta “para induzir o parto”.

Reclamamos da cena da punição de Serena, mas o estupro violento de June é sem dúvidas a cena mais pesada de THT até agora. Ecoando o pensamento de Emily, June não consegue se desligar do próprio corpo, ela grita, luta para não ser abusada e fica presente o tempo todo em que Fred e Serena a violentam.

Como “recompensa” June é levada para ver Hannah, sua filha com Luke, em uma casa abandonada. Hannah leva um tempo para reconhecer a mãe, mas quando a reconhece pergunta algumas das questões mais doloridas que uma mãe pode ouvir de um filho: por que você não me procurou? Por que não lutou mais forte por mim?. Ao ver a barriga de June, Hannah entende que ela também não poderá ficar com o segundo bebê.

Hulu / John Moore / Getty Images

Em uma das entrevistas, a roteirista Yahlin Chang disse que em sua pesquisa sobre famílias separadas descobriu que as mães não fazem expressões de sofrimento antes de deixar os filhos e repetem que tudo ficará bem para que o trauma da criança não seja ainda maior, é involuntário, mães fazem isso instintivamente. Foi o que vimos June fazer com Hannah, foi o que vimos as mães da América Latina fazerem com seus filhos nas fotos registradas da separação de crianças na fronteira dos Estados Unidos.

Os gritos de Hannah de “mamãe” são aterradoramente semelhantes aos das crianças em um dos campos de concentração americanos. A expressão de Hannah ao não reconhecer June e depois questionar como a mãe não lutou mais forte para não serem separadas, acreditem, será bem pior na vida real, se é que um dia todas as 2 mil crianças serão entregues às famílias. O mundo real, assim como o mundo de THT, cruzou os braços, enquanto crianças são vítimas de crimes sistematizados pelo estado, em pleno século XXI, à luz no dia, sob olhos de todos e no país da liberdade.

June fica sozinha no meio do nada depois que outros guardas aparecem e atiram em Nick que não soube explicar o que fazia na casa abandonada. A aia de vermelho é Chapeuzinho, perdida na floresta negra que é toda a política de Gilead e do mundo real.

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