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Críticas

‘Kiksuya’ deu sobrevida a Westworld com ar de episódio especial

Para lembrar como o imperialismo destrói amor e humanidade.

HBO

Westworld foi responsável por uma das melhores horas já oferecidas pela TV neste domingo (10) com o episódio Kiksuya, muito graças à performance excepcional de Zahn McClarnon, que conduziu toda a narrativa dirigida por Uta Briesewitz. Foi um episódio especial, em várias instâncias.

É impossível não citar que em meio à tantos vídeos de americanos reclamando de pessoas falando qualquer outro idioma que não o inglês, a HBO, uma das mais conhecidas emissoras de TV americanas, fez um episódio de Westworld quase todo em língua indígena. Um lembrete para todos os raivosos brancos que os indígenas poderiam lhes dizer a mesma coisa, mas não o fazem por terem sofrido séculos de extermínio.

McClarnon é Akecheta (que significa guerreiro destemido), o chefe da Ghost Nation, o núcleo mais misterioso e incompreendido de Westworld até ontem. Aprendemos como surgiu a tribo e a história de amor triste que levou o guerreiro à ser temido. Entendemos finalmente porque Stubbs foi liberado quando parecia fadado à morrer uma vez capturado pelos guerreiros fantasmas.

Akecheta foi um dos androids originais de Ford e acordou aos poucos, como Dolores estava acordando em sua viagem com William. Mas a consciência de Akecheta veio de forma mais romântica, com a perda de seu verdadeiro amor, Kohana, através das muitas trocas de androids ao longo dos anos nos parques.

O chefe é capturado e levado para se transformas em um guerreiro brutal. Aqui, Lisa Joy Nolan e Johnathan Nolan enfiam o dedo na ferida do cinema americano que tende a retratar as nações indígenas da América como pessoas selvagens, movidas por sangue, validando assim o massacre da colonização.

Ao longo dos anos, já como o personagem caracterizado com a tinta branca e preta à quem a audiência foi apresentada, Akecheta descobre a porta, o símbolo do labirinto, Logan Delos nu e louco no deserto, visita Maeve e a filha na tentativa de avisá-las sobre a natureza da realidade, retorna para a tribo e se une a outros androids que começavam a perceber que estavam sendo substituídos e substituindo..

O encontro com Logan, direto da primeira temporada, é crucial na consciência de Akecheta. Ao ouvir do desgraçado membro da família Delos que aquele era “o mundo errado” uma faísca se ascende em sua mente, o que é engrossado quando ele acha o brinquedo com o símbolo do labirinto, dado por Arnold à Dolores ainda nos primeiros anos do parque. Akecheta começa a, por assim dizer, espalhar a palavra. É ele quem tatua o símbolo dentro do escalpo dos hosts, é ele quem desenha no chão à porta de Maeve, à quem nunca teve a intenção de ferir.

Claramente que suas andanças não passam despercebidas do Criador, e Ford lhe dá carta branca para continuar com a missão: “reúna seu povo e os lidere para um novo mundo”. Para quem sentiu a referência à Brave New World forte é porque ela vem desde o nome de Ford e sua caracterização como Criador.

Akecheta entende que precisa ser ferido para ser levado até as salas do controle do parque e encontrar Kohana. Ele se deixa ser esfaqueado por um visitante do parque e descobre que a amada estava em uma das câmaras frias para androids “aposentados”. Não houve uma pessoa com coração que não tenha pelo menos marejado os olhos.

É interessante notar que Akecheta quase não interagia com visitantes no parque e tão pouco tinha uma narrativa em loop como todo mundo. Ele acordou pouco depois das aventuras de Dolores e jovem William, foi encontrado pelo Ford colocando o símbolo do labirinto no escalpo de outros androids e foi deixado assim.

Tudo isso é contado pelo guerreiro para a filha de Maeve, que
esta sendo “tratada” no controle após Lee Sizemore ter uma crise de consciência. Ele também se comunica com Maeve telepaticamente e ela pede que ele cuide da menina.

Sem Dolores e sua hipocrisia, sem Man in Black e sua loucura, sem Bernard e seus apagões, Westworld se desconstruiu e reconstruiu sobre quase uma hora de uma história se amor e de humanidade, o reconhecimento de uma população marginalizada na própria série, com seus loops de homem branco se divertindo às custas de outras pessoas, com seu culto às armas, seus parques ofensivos às culturas que foram vítimas do imperialismo.

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