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The Handmaid’s Tale perdeu o limite da violência gráfica

‘Esposas, submetam-se aos seus maridos’, Efésios 5:22

Um dos maiores cuidados na hora de se tratar as várias formas de violência contra a mulher em The Handmaid’s Tale é, segundo os produtores, não transformar as cenas em pornografia, mas essa linha pode ter sido trespassada no episódio Women’s Work, o oitavo da segunda temporada.

Aqui mesmo no Volts já defendemos as escolhas narrativas da série em relação à obra original, afinal, cada instalação é uma obra independente, mas não desta vez.

Em determinado momento, após um episódio inteiro construído na relação estranha entre Serena e June, e nas qualidades profissionais das mulheres que foram tolhidas pelo regime, o Comandante volta para casa e pune a esposa por ter usado seu nome em documentos que ele não tinha conhecimento. Com a ajuda da aia, Serena Joy, a arquiteta primeva do regime que terminou por lhe extirpar a voz, simula a assinatura do marido e redige documentos salvando a pele da casa Waterford do escrutínio do Comandante Cushing.

Em um mundo menos estranho, Serena receberia um agradecimento do marido que, inválido em uma cama de hospital, não cumpriu com o seu papel enquanto “senhor do lar” em proteger aqueles sob sua guarda. Não em Gilead.

Na cena em questão, dirigida por Kari Skogland, Fred ordena que Serene e Offred compareçam em seu gabinete. Lá, ele retira a Bíblia da estante e abre em Efésios 5:22 e 1 João 1:9, passagens que pregam a submissão da esposa ao marido, assim como se submeteriam ao próprio Criador, e a retificação dos erros pro meio da confissão e do arrependimento. É interessante notar que o que se segue na passagem bíblica em nenhum momento manda que os maridos agridam as esposas, a menos que “santificar e limpar com a água da Palavra” seja entendido como cena grotesca mostrada em The Handmaid’s Tale, e que infelizmente é a realidade de milhares de lares, cristãos ou não.

Seguindo a mesma lógica da “cerimônia”, o estupro mensal das aias sancionado pelo Estado, Fred exige que Serena se apoie no espaldar de uma cadeira e arreie as costas e o quadril para que ele lhe flagele as nádegas. A câmera não corta de imediato para a face de June, ainda espelhando a cena da cerimônia, é mostrado Serena sendo espancada com um cinto pelo marido, para só então o som do espancamento ecoar nos ouvidos na aia perplexa e impotente, como a audiência.

São minutos de encolhimento que o expectador tem de enfrentar: Serena é agredida, depois aparece no quarto sozinha, tirando a roupa dolorosamente e vendo no espelho as marcas no corpo deixadas pelo cinto do marido.

Não havia, até o momento, na segunda temporada nenhuma cena que equivalesse à cerimônia, e não havia uma única pessoa sentindo falta de algo assim. Todo o conceito é condizente com Gilead, não nos enganemos, mas não havia necessidade alguma da explicitação.

Ao contrário da cerimônia, onde a câmera foca em uma Offred em estado latente, quase extra-corpóreo, onde os pensamentos dão por vezes vazão ao quase cômico desejo de que Fred termine logo o que está fazendo, a cena da agressão à Serena é completamente sentida, internalizada, sofrida, ecoa na audiência como ecoa nos ouvidos de Offred.

A posição em que a esposa se põe para que o marido a agrida é sexual, é ridiculamente fetichista, é tudo que THT não poderia ser.

Para coroar a desgraça, Offred oferece ajuda à Serena, que recusa. Com isso, a aia vai até a porta do gabinete de Fred jogar com o desejo nojento que ele sente por ela. Em seguida, ela se prostra ao chão sobre a estrela de Gilead. Penitência que a audiência teve de compartilhar.

Serena, como já mostrado, é uma mulher forte, de opinião firme, inteligente e extremamente capaz, que casou com um homem fraco e que usou sua inteligência à serviço de uma revolução sangrenta em nome de Deus e do patriarcado. Agora, ela não apenas se submete ideologicamente, mas fisicamente ao marido, afinal “esposas, submetam-se aos seus maridos”, diz Efésios, “pois o homem é a cabeça da esposa”.

Não queremos, entretanto, em nenhum momento diminuir a importância e a qualidade de THT, mas nem tudo é perfeito, e foram apenas 18 episódios para que Bruce Miller e equipe errassem a mão.

The Handmaid’s Tale está em exibição no Hulu.

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