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Animês e Mangás

Artigo Otaku | O Marketing Reverso do Crunchyroll

Serviço de streaming revela os animês mais assistidos da temporada.

Após quase 2/3 da Temporada de Primavera 2018 já concluída o Crunchyroll divulga em sua seção oficial de notícias (o Crunchy News) um infográfico que segundo a empresa apresenta um mapa nacional de consumo dos títulos exibidos nesse trimestre – que vai de abril até junho – oriundos da indústria de mangás e animês do Japão.

Numa breve análise do infográfico chega-se à conclusão de que MEGALOBOX – atração que faz homenagem aos 50 anos de Ashita no Joe* – ganha de forma disparada em 21 estados brasileiros no quesito preferência pelo público assinante do serviço de streaming on demand de animês. Vencendo em todos os estados das regiões Nordeste e Sudeste (as duas maiores consumidoras) o animê é apontado pela empresa como o grande favorito dos brasileiros até o momento. O segundo lugar fica para Sword Art Online Alternative: Gun Gale Online, que vence nos estados do Amapá, Tocantins, Rondônia, Mato Grosso e Santa Catarina. Fecha a lista o estado do Acre com o animê Persona 5: The Animation (Uma surpresa? Talvez…). Confira você mesmo o infográfico:

 

Bom, você deve estar se perguntando: ” Certo, o que isso significa?”. Infelizmente a minha resposta é um sonoro “NÃO SEI!”. Seria presunção e mentira dizer que o infográfico quer dizer algo mais do que simplesmente “Vejam! Os brasileiros estão amando MEGALOBOX!”. A própria matéria que traz o destaque não é mais explicativa sobre o que de fato o infográfico busca tratar. Digo, eles podem pensar “o que interessa ao meu público saber qual animê está sendo mais assistido em cada estado do país?” Bom, talvez seja para ajudar a embasar as discussões em redes sociais sobre “qual é o melhor animê da temporada” e coisas do gênero. Não obstante, o site evidencia ao fim do seu relato que animês como Shokugeki no Souma: San no Sara – Tootsuki Ressha-ren e Boku no Hero Academia Season 03, que tratam de continuações de animês, e fenômenos com Darling in the FRANXX e Black Cover, que estão em exibição desde a temporada passada, não foram considerados na pesquisa.

À exceção dos dois últimos, Shokugeki no Souma e Boku no Hero Academia são animês da Temporada de Primavera. O fato de serem narrativas de continuação não apaga o fato de que suas novas fases foram lançadas para o intervalo de tempo que compreende o segundo semestre de 2018. Dito isso, fica claro e evidente que a empresa manipula de forma descarada os dados de seus levantamentos e vende uma informação que tem pouco a ser aproveitada pela mídia. Pela mídia, pois para os fãs menos pretensiosos isso pode realmente não significar nada.

Esse método de agir do Crunchyroll não é novidade. No ano passado a empresa fez algo parecido ao divulgar os dados dos animês mais assistidos por países das Américas. À época, contudo, os dados se tratavam da Temporada de Verão e apresentaram seis títulos entre os mais vistos, conforme você pode ver no infográfico abaixo:

 

A comédia slice of life GAMERS! foi a mais assistida na América com 12 países listados (incluindo o Brasil). a comédia ecchi Hajimete no Gal figurou o primeiro lugar em 10 países e drama escolar Classroom of the Elite em 09 deles.  Os demais países dividiram-se entre outros 10 títulos diferentes. Assim, este gráfico internacional – de tal forma como o nacional – não teve nada mais esclarecedor divulgado, ou seja: não foram expressados em valores numéricos a quantidade de visualizações por região, a quantidade de assinantes por região ou mesmo uma taxa percentual que nos ajude a compreender a dimensão mais detalhada que esses dados querem exemplificar.

Sendo mais claro: Qual o impacto real desses dados? Qual é de fato o alcance do serviço de streaming? Quem é seu público majoritário? Homens ou Mulheres? Jovens ou Adultos? Qual sua faixa etária? Isso facilitaria muito entender o porquê determinado animê se destaca muito mais em relação a outros em meio a um infinidade de mais de 50 títulos comercializados por temporada com um total de mais da metade inclusos no catálogo da empresa. Esses dados nos ajudariam a pensar também se o mercado de streaming de animês está de fato consolidado ou se ainda sofre muito com os caminhos alternativos das fansubs (considerados pirataria mesmo não tendo como mérito a arrecadação financeira).

Contudo tudo isso é deixado de lado no que me parece ser uma tentativa desvairada de Marketing Reverso. Essa tendência mundial de promoção de marcas defende a ideia de que não preciso vender meu produto como o melhor do mercado, mas sim como algo necessário para meu cliente. Não preciso forcá-lo tenho que fazê-lo depender.

Numa tradução para o assunto deste artigo, o Crunchyroll trabalha com a lógica que não precisa dos números para convencer o público de seu sucesso. Ele precisa é mostrar que há receptividade do público (nesse caso do fandom) e a participação de um novo usuário nesse negócio pode influenciar a balança do destino e modificar o posicionamento dos animês (quem sabe né?). Quanto mais gente assina, mas chances eu tenho de ter outros que como eu gostam de determinada atração e assim ela figurará como a mais querida no universo do público assinante, o que para os mais sabidos nada mais é que a sensação de Reinvestimento e produção de uma Inteligência Coletiva. O resultado é uma maior receptividade do produto e de tudo aquilo o que setem a dizer sobre ele. Em teoria, a relação é mais próxima, os resultados maiores e a resistência diminuída para quase zero.

O problema desse Marketing Reverso é que na omissão proposital de dados se tem a tendência equivocada de achar que Marketing é Comunicação. Não é papel das ações de marketing fidelizar e se relacionar com o cliente. Isso cabe a área da Relações Públicas. Ao marketing cabe as estratégias de venda, e venda sem dados é sinônimo de dúvida para o comprador.

Numa analogia, ninguém compra nada quando o vendedor chega e diz “Olha, está tudo em seu lugar, mas se der problema na rebimboca da parafuseta é só vir trocar”. Consumidor prevenido não adquire produto sabendo das chances de ter peças danificadas. Se compra com a garantia de que tudo está OK. Um serviço de streaming é a mesma coisa: ninguém assina sem saber se realmente vale a pena, se tem alcance (está aí a Netflix como exemplo a ser seguido). Não que esteja dizendo que o Crunchyroll tem problemas, pelo contrário! Defendo muito a ferramenta e afirmo que nos dias atuais é a melhor opção de consumo de animês de forma oficial neste país.

A questão é: Como defender e fazer essa divulgação boca-a-boca se nem eu mesmo – que sou cliente – não sinto que a empresa confia em mim na hora de divulgar seus avanços e conquistas? Um caso a se pensar.

Até a próxima e… Sayonara!

 

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* Mangá de Ikki Kajiwara e Tetsuya Chiba publicado entre 1968 e 1973 nas páginas da revista Weekly Shonen Magazine do grupo Kodansha. Conta história do jovem Joe Yabuki, que tem um talento nato para o boxe. O mangá é um dos mais famosos no gênero “esporte” do século XX e teve diversas adaptações para animê e também para o cinema. A narrativa ficou mundialmente famosa graças a um inusitado evento. Em 1970 fãs japoneses se reuniram  nas ruas de Tóquio para realizar um funeral para Tooru Rikiishi, rival de Joe morto durante um combate. Esse é um dos acontecimentos mais marcantes da história da Cultura Otaku. Além disso, Joe Yabuki em 2006 foi eleito o 4° japonês favorito de Animês de TV numa lista de 100 candidatos.

 

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