Connect with us

Animês e Mangás

Artigo Otaku | A cartada final dos animês na TV aberta brasileira

O último anúncio feito pelo Crunhcyroll nos leva a discussão.

Ninguém neste país é mais qualificada para falar sobre o histórico da animação japonesa na TV aberta brasileira do que a jornalista e analista de cultura Sandra Monte. Em 2010, ao lançar seu livro A Presença do Animê na TV Brasileira, a jornalista baseada em São Paulo traça uma linha do tempo significativa para quem busca entender o quão longe chegaram as animações vinda do outro lado do mundo nas grades de programação das emissoras de TV nacionais e assim compreender que não se trata apenas de um consumo esporádico e incomum.

O primeiro animê exibido no Brasil, que se tem registro, foi O Oitavo Homem. A jornalista considera como dado a página de programação de TV de uma edição do jornal O Estado de São Paulo, em 1968. O animê estreou sozinho na grade da TV Globo no dia 24 de setembro daquele ano. Sandra é categórica ao lembrar que em 1968 ainda não existia uma rede de televisão montada no país e que o guia jornalístico registrava a programação em São Paulo e não para o país inteiro. Se em alguma outra praça [lê-se aqui Rio de Janeiro] ou mesmo outra emissora fez alguma exibição anteriormente a esse dado, isso ainda não foi encontrado. Mas se considerarmos que a animação japonesa só ganhou seus primeiros status comerciais nos anos 1960, encarar o Oitavo Homem como o primeiro animê no Brasil não é um erro.

De lá para cá, redes de TV se revezaram na apresentação desse fenômeno midiático-cultural no país. Algumas não mais existentes como: TV Excelsior (Marine Boy), TV Tupi (Kimba, o leão branco; A Princesa e o Cavaleiro e etc.) e TV Manchete (responsável pela febre dos animês com Os Cavaleiros do Zodíaco em 1994). Outras ainda no ar como: SBT (Dragon Ball; Guerreiras Mágicas de Rayearth e etc.), Record TV (Pokémon; Sailor Moon R e etc.), Rede Bandeirantes (Akira; Dragon Ball Z e etc.), Rede Globo (Digimon; Yu-Gi-Oh! e etc.), Rede TV (Fullmetal Alchemist; Hunter x Hunter e etc.) e a mais recente nessa empreitada, Rede Brasil (Os Cavaleiros do Zodíaco e Dragon Ball Z) além de outras tantas TVs menores e canais por assinatura.

De 1994 – data do boom dos animês com a TV Manchete – até 2002/2005 quando o SBT, última das grandes emissoras, diminuiu quase que totalmente a exibição de animação japonesa em sua grade a pergunta que se fez foi: Ainda resta espaço para os desenhos exportados do Japão em nossa TV aberta? Sim, existe, mas muitos entraves se apresentam no caminho.

 

(Capa do livro da jornalista Sandra Monte / Fonte: Livraria Cultura)

 

Tudo ficou mais difícil após diversas investidas de regulamentar proibições de publicidade e propaganda infantil em TV aberta. Em 2001, o então deputado federal, Luís Carlos Hauly (PSDB-PR) apresentou o Projeto de Lei n°5291, que prevê emenda a Constituição Federal no Artigo 37 da Lei n°8.078, de 11 de setembro de 1980, que “dispõe sobre a proteção do consumidor e dá outras providências”. O PL 5921/2001 buscava a regulamentação e proibição de circulação de publicidade infantil em TV aberta. Em linhas gerais, isso significa a restrição de publicizar produtos e ideais que influenciem diretamente o comportamento de jovens enquanto consumidores não dependentes de si financeiramente. Dez anos depois o deputado federal Marcelo Matos (PDT-RJ) apresentou novo Projeto de Lei que busca restringir a publicidade infantil em uma faixa de hora específica na programação de TV aberta. O PL 702/2011 prevê alteração à Lei n°8.069 de 13 de julho de 1990 que “dispõe do Estatuto da Criança e do Adolescente” buscando a alteração e restrição da propaganda de produtos infantis entre os horários de 7h às 22h em emissoras de TV aberta.

Entre vitórias e derrotas e as muitas incertezas que os Projetos de Leis deixaram para membros do mercado publicitário, as emissoras de TV optaram por diminuir sua exibição de animações e, por consequência, da publicidade/propaganda especializada. O golpe veio em 01 de agosto de 2015 quando a TV Globinho, o último bloco infantil da Rede Globo de Televisão (RGT) saiu do ar dando lugar ao programa É de Casa! nos sábados. Antes, perdeu seu espaço semanal para o talk show Encontro com Fátima Bernades em 23 de junho de 2012.

Nos últimos três anos desde o fim da TV Globinho, com exceção de exibições esporádicas e falhas da Rede TV, a animação japonesa se restringiu à TV Fechada com canais como o Cartoon Network e Play TV. Tal diminuição influenciou também um menor desenvolvimento de projetos de dublagens desse tipo de conteúdo levando os fãs mais aguerridos a aderir definitivamente à prática otaku dos fansubs. Entre sites alternativos e disputas com os combatedores de pirataria online do terceiro milênio (inclui-se aqui Japão, Europa e Estados Unidos), a popularização do streaming on-demand tornou-se a porta de entrada de conteúdo oficial de animação nipônica no Brasil.

Graças ao Crunchyroll (start-up norte-americana nascida entre os fansubers) o consumo de animê ganhou um novo caminho para os brasileiros. É fato que por aqui ainda se consome muito pelos sites alternativos, mas o serviço começou a ganhar o respeito dos mais apaixonados pelo fenômeno. O Netflix também entrou na onda e agora já não é mais algo incomum vermos animês voltarem a ser assunto em rodas de conversas que não sejam formadas exclusivamente por quem é otaku.

A Rede Brasil (emissora sul mato-grossense com estúdios em São Paulo [?]), decidiu que era a hora de aproveitar acervos de programações antes usadas pela TV Manchete e afins e reintroduziu a animação japonesa na TV aberta brasileira. Em 2016, com licenciamento aprovado pela Toei Animation, a emissora trouxe de volta para o público Os Cavaleiros do Zodíaco e Dragon Ball Z. Clássicos! Resultado: sucesso de recepção e garantia certeira de perpetuar seu nome entre os fãs de animê. Carinhosamente chamada pela velhaguarda de “a nova TV Manchete” a emissora de pouco mais de 11 anos incluiu nessa proposta o programa Senpai TV, co-produzido com a equipe de youtubers do canal Team On, comentando não só as animações, como games e mangás publicados no Brasil. Financiando assim seus custeios com publicidade na forma de conteúdo jornalístico (mesmo que com ressalvas por parte dos mais críticos).

 

(O desejo de todo otaku é sentar na frente da TV e relaxar com um bom animê)

 

A cartada final veio agora em 2018. O Crunchyroll sempre apostou em animês e não a toa é um dos serviços de streaming on-demand mais conhecidos na atualidade. Sem o mesmo prestígio que o gigante Netflix, é claro, mas amado por diversos otaku no ocidente. De um tempo para cá ele vem investindo em co-produções de animês lá no Japão, ou seja: não basta apenas distribuir quase que em concordância com os japoneses numa clara tentativa de suprimir a pirataria, você tem que mostrar para seu público que se interessa pelo mercado e investe nele.

Mas como dizia… Em meio a uma campanha publicitária pouco proveitosa e até certo ponto criticada ao ser feita numa proposta jornalística (o que não é!), a sucursal brasileira do Crunchyroll (uma das mais novas da empresa entre seus quase 20 países atuantes) inova e sai na frente das demais ao anunciar uma permuta com a Rede Brasil. A fim de promover seu serviço de streaming e seu catálogo de animês e doramas a empresa terá a partir do próximo sábado (21) um bloco de uma hora para exibir dois animês licenciados por ela dentro da grade de programação da TV que é xodó dos otaku. Ganha a emissora ao concretizar mais ainda seu status de casa da Cultura Pop Japonesa e último reduto dos otaku na TV aberta, e ganha mais ainda o Crunchyroll ao ter seu serviço publicizado em larga escala pelo sinal digital de televisão.

Um comentário pertinente. A exibição será feita em áudio japonês com legendas em PT-BR, ou seja: sem dublagem! Sim, o serviço de streaming se especializa nesse tipo de conteúdo – que nos dias atuais são os mais procurados pelos fãs – e não faria sentido dublar se o que se quer é ofertar o catálogo de animês da plataforma online, que por sua vez é quase que majoritariamente em japonês. O Crunchyroll Brasil até já dublou alguns animês em 2017, numa clara experiência de mercado, mas ao que parece a Netflix é quem melhor soube lhe dar com esse segmento dentro de um conteúdo de nicho tão específico.

De fato e de direito essa é me parece a última possibilidade da animação japonesa existir na TV aberta do Brasil. Exclui-se aqui os já clássicos. Refiro-me a novos títulos, novos conteúdos. De um percurso antigo desde a década de 1960 ao seu prestígio em 1990 e decadência no início do século XXI, não se pode negar a influência e importância desse conteúdo midiático-cultural para a formação de um caráter artístico, jornalístico, cultural e de consumo nos milhares de jovens espalhados por este país. Os estudos de Sandra Monte são o pontapé inicial para essa discussão que hoje ultrapassa o limite das páginas de um livro e ganham as rodas de conversas nas redes sociais.

Que dê certo essa nova tentativa – são meus votos sinceros -, pois embora o streaming seja o caminho do presente e a alternativa mais dinâmica e assertiva para o consumo de animês no Brasil ou qualquer parte do mundo (mesmo no Japão!) ainda somos um país que vive pela TV e nada mais ideológico é ter espaço para tudo e todos no aparelho eletrônico que nos liga aos acontecimentos do dia.

Até a próxima e… Sayonara!

Em alta agora