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Animês e Mangás

Artigo Otaku | Em memória de Isao Takahata (1935-2018)

Diretor morreu aos 82 anos, celebrado como um mestre da Animação.

Das – até então – poucas memórias valiosas construídas por mim relacionadas ao Cinema e a Animação Japonesa, o dia em que assisti Kaguya-hime no Monogatari (O Conto da Princesa Kaguya) é dos mais emblemáticos que me recordo. O ano era 2014 e me encontrava num Cine Praia Grande literalmente vazio numa sessão de 16h de uma quarta-feira (cuja data não me lembro no momento).

O famoso cinema ludovicense dentro das dependências do Centro de Criatividade Odylo Costa Filho, na Praia Grande, realizava mais uma mostra de animação japonesa [diga-se de filmes do Studio Ghibli] e naquela quarta-feira em específico o filme de Isao Takahata foi exibido somente para mim. Um sonho de todo amante de cinema é ter a sala e a telona só para si. Esse sonho eu já realizei.

A exibição nada ortodoxa de uma cópia legendada não-oficial do longa-metragem era o de menos. Decidi que veria o filme, pois como apreciador da animação japonesa me intrigava ver um traço tão destoante daquele popularizado pela obras de Hayao Miyazaki, amigo e sócio de Isao Takahata.

Não é por ocasião da data ou qualquer outro motivo (pois pessoas próximas a mim já me ouviram dizer isso), mas Kaguya-hime no Monogatari é sem sombra de dúvida o melhor filme já feito pelo famoso estúdio japonês. Que me perdoem os fãs de Hayao Miyazaki, os fã de Sen to Chihiro no Kamikakushi (A Viagem de Chihiro) ou mesmo os fãs de qualquer outra obra do Studio Ghibli. Mas Isao Takahata soube, de forma magistral, recontar O Conto do Cortador de Bambu – narrativa popular japonesa oriunda do século X – em um misto de magia, sentimentos e estética impecáveis. Muito desse sucesso se deve também ao magnífico trabalho de Joe Hisaishi na trilha sonora, é claro, mas – nessa reta final dos anos dourados do estúdio – nada será tão emblemático para este que vos escreve quanto aquele filme, naquela circunstância.

Todo esse momento de uma quase crônica é a forma que escolhi para abordar da maneira mais virtuosa a notícia da morte do mestre Isao Takahata, de 82 anos, que nos pegou de surpresa na tarde desta quinta-feira (05). Formado em Literatura Francesa pela Universidade de Tóquio, o japonês enveredou cedo pelos caminhos do cinema de animação. Natural de Ise, foi conterrâneo e contemporâneo de outro grande nome do cinema nipônico, Kon Ichikawa, mas acabou seguindo pelos caminhos da animação, que graças à Osamu Tezuka dava passos largos no cenário de arte e entretenimento do país.

Nos anos 1960 ingressou no grandioso estúdio Toei Animation e logo em 1962 teve seu primeiro grande desafio como diretor-assistente em Wanpaku Ouji to Orochi (Susano e o Dragão de Oito Cabeças) um tele-filme animado baseado em um mito japonês relatado na obra Nihon Shoki (História do Japão Antigo). Em 1963 foi produtor em Oukami Shounen Ken (Ken, o Menino Lobo), animê para TV que contou com Hayao Miyazaki entre os muitos animadores. Aquele era o primeiro projeto com a participação do recém formado Miyazaki dentro da indústria de animês e o pontapé para um longeva e lucrativa amizade.

 

(Hayao Miyazaki e Isao Takahata, uma amizade de longa data e muito sucesso)

 

Em 1965, a Toei Animation deu início à produção de Tayou no Ouji: Horusu no Daibouken (O Príncipe do Sol: A grande aventura de Hórus). Ao lado de Miyazaki e de outro grande animador, Yasou Otsuka, o jovem Isao Takahata dirigiu seu primeiro filme numa busca por competir com as animações de TV que esvaziavam as salas de cinemas japoneses. Executando um forte trabalho na animação e no roteiro, o filme só foi lançado em 1968. Depois desse sucesso, em 1972, já no estúdio A-Pro, dirigiu o média-metragem Panda Kopanda (As aventuras de Panda e seus amigos), que contou com o primeiro roteiro integral do amigo Hayao Miyazaki.

 

(Cena de Túmulo dos Vagalumes, de 1988, considerado a obra-prima de Isao Takahata)

 

Nos anos pré-Ghibli os dois estiveram juntos em todos os projetos que participaram. Hayao Miyazaki, mais novo, viu seu amigo ganhar os locais de destaque mais rápido, mas ambos se ajudaram e apoiaram sempre. Em 1973, Isao dirigiu um animê para TV que foi sucesso à época: Arupusu no Shoujo Haiji (Heidi). O seriado, uma adaptação do livro Heidi da suíça Johanna Spyri, foi produzido no estúdio Zuiyo Enterprise e estreou no ano seguinte abalando a crítica ao destoar do fenômeno dos animês mecha que ganha as televisões dos japoneses. Nos anos 1980 a série foi exibida no Brasil pelo SBT. Dois anos depois Isao voltava a dirigir um novo filme. Dessa vez o emblemático Haha o Tazunete Sanzenri (Marco), baseado no livro infantil Cuore de Edmondo de Amicis.

Até a fundação do Studio Ghibli, Isao Takahata assumiu papel de produtor nas obras assinadas por Hayao Miyazaki. Em 1988 voltou a dirigir um filme mais uma vez, agora pela sua própria empresa. Hotaru no Haka (Túmulo dos Vagalumes) que é considerado pelos críticos de cinema de animação como a obra-prima do cineasta/animador – fato do qual discordo pelos motivos supracitados no início desse texto – foi um fenômeno de receptividade e chegou a ser considerado pelo famoso crítico de cinema Roger Ebert como um dos melhores filmes de guerra já feito.

Em 1991, após co-produzir diversos longa-metragens, volta a dirigir mais um filme: Omohide Poro Poro (Fragmentos de Lembranças), baseado no shoujo mangá homônimo de Hotaru Okamoto e Yuko Tone. Já em 1994 dirigi Hesei Tanuki Gaissen Pompoko (Pom Poko) inspirado no tanuki (guaxinim) personagem do folclore japonês. Seu último trabalho como diretor no século XX foi com Houhokekyo Tonari no Yamada-kun (Meus Vizinhos, os Yamadas), que foi baseado numa série de tirinhas de autoria de Hisaichi Ishii para o Asahi Shinbun – maior tabloide japonês – e se destacou justamente por trazer como arte o estilo das charges nipônicas rompendo com uma espécie de padrão visual que já havia consagrado o Studio Ghibli.

Depois disso continuou trabalhando como co-produtor de Hayao Miyazaki e outros diretores de seu estúdio em longa e curtas-metragens. Além desses trabalhos ele esteve ao lado de outros figurões da animação japonesa como Hideaki Anno (no filme Shiki-Jitsu em 2000) e com Mamoru Oshi (no filme Inosensu: Koukaku Kikoudai em 2004).

 

(Cena de O Conto da Princesa Kaguya, de 2013, seu último trabalho como diretor de animação)

 

Isao Takahata também teve participações em Ni no Kuni, um RPG eletrônico co-produzido pela Level-5 e o Studio Ghibli para Nitendo DS (com o subtítulo “O Mago Negro”) e Playstation 3 (com o subtítulo “O Mago Branco”). Em 2018, as empresas – por meio da Bandai Namco – lançaram Ni no Kuni II – Revenant Kingdom para o Playstation 4.

Desde seu último filme – Kaguya-hime no Monogatari (2013) – que lhe rendeu sua primeira e única indicação ao Oscar de Melhor Animação em 2015 atuando como diretor, Isao veio se afastando cada vez mais de suas funções no Studio Ghibli. O curioso em sua trajetória é que ele nunca havia desenhado nada antes de iniciar a carreira como diretor de animação. Talvez por isso por muitas vezes tenha passado despercebido e em segundo plano devido o brilhantismo e a popularidade de Hayao Miyazaki (que diferente dele ganhou uma estatueta), mas o que muitos esquecem é que sem ele a tão significativa carreira de seu amigo ou de seu estúdio jamais existiria.

Apaixonado por seu país e por literatura, Isao Takahata sempre procurou ressaltar o folclore de seu povo ou as leituras que lhe emocionaram na hora de produzir, animar, roteirizar e dirigir cada filme em que participou. O cineasta deixa um legado mais do que inenarrável para a história da Animação não só do Japão, mas do mundo inteiro.

Que aquela sensação de alegria que me dominou no silêncio do Cine Praia Grande ecoe por muitos e muitos anos em todos que compartilham, de já, das saudades deixadas por esse exímio mestre da arte de sensibilizar através de histórias animadas com primor e intensidade.

Até a próxima e… Sayonara!

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