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Animês e Mangás

Artigo Otaku | Conhecendo as Demografias em Mangás (Parte 03)

Nesta terceira matéria falamos sobre o kodomo mangá e as obras hentai.

Após falarmos sobre as demografias mais imponentes no mercado de quadrinhos japoneses (o shounen e o shoujo) e também desmembrar suas variações e explicar como a indústria se adapta ao envelhecimento do seu público (o seinen e o josei) chegou a hora de falar da última demografia especificada pelos editoras nipônicas e na sequência comentar sobre alguns dos principais gêneros temáticos que movimentam o estilo mangá.

Só para evitarmos confusões – caso essa seja sua primeira leitura da nossa série especial sobe demografias em mangás – nós já explicamos aqui que o mercado japonês de quadrinhos se baseia (até os dias de hoje) num sistema de distribuição que considera a faixa etária e o gênero sexual dos seus leitores. Dessa forma, dentro do mercado de revistas de entretenimento, os mangás podem ser classificados como shounen (para meninos), shoujo (para meninas), seinen (para jovens adultos) e josei (para jovens adultas). As duas primeiras numa faixa de idade entre 12 e 18 anos; as duas últimas para uma faixa de idade entre 18-34 anos, mas sem um limite de idade imutável.

 

(Ícone pop japonês, Doreamon é símbolo do kodomo mangá)

 

O mangá infantil

Mas e quem ainda não completou 12 anos? Como as crianças interagem com esse elemento cultural nacional? Bom, é meio que óbvio que para existir uma relação confortável entre os leitores adolescentes e os mangás eles precisem ter seus primeiros contatos com o gênero literário desde muito novos.

Há duas formas de comercializar mangás para um público etário entre 07 e 12 anos de idade. No geral, uma está relacionada à demografia em questão – que no caso vem a se chamar kodomo – e a outra está diretamente ligada ao que se pretende ofertar de conteúdo a esse público – no caso vem a se chamar shogaku -. E qual é de fato a diferença.

Literalmente “crianças” o termo kodomo é usado para definir as tramas infantis que abordam situações que podem ser do cotidiano ou fantasia e cujo o principal objetivo é passar um ensinamento ou lição de moral. Entre as histórias mais famosas da demografia estão o doce de feijão herói, Anpanman, e o gato-robô, Doreamon, que são os principais expoentes desse grupo de mangás para o Japão e o exterior. Esse último ganhou um status superior ao ser utilizado pelas políticas de soft power japonês para promoção de sua cultura e comércio. Em 2008, o Ministério de Relações Exteriores do Japão nomeou o Doreamon com o primeiro “embaixador dos animês” do país.

Doreamon originalmente foi publicado pela editora Shogakukan em seis semanários diferentes buscando atingir o maior público possível entre as crianças. São elas: Yoiko (boas crianças), Youchien (infantário), Shogaku Ichinensei (1ª série), Shogaku Yonnensei (4ª série), Shogaku Gonensei (5ª série) e Shogatsu Rokunensei (6ª série), todas entre 1969 e 1973. Já em 1977 a revista CoroCoro Comics passa a publicar as histórias do gato-robô.

Por falar em CoroCoro… Atualmente essa é a revista da demografia kodomo mais famosa no mundo. Isso por causa de um franquia em específico: Pokémon. Embora Pokémon seja uma franquia de características shounen e tendo nascido no games e depois ganhado as demais mídias, é a CoroCoro Comics que atualiza o mundo com as novidades da Nintendo para a franquia dos monstros de bolsos, o que faz  revista de publicação mensal ser adquirida não só por crianças, mas por marmanjões de todas as idades.

Como você pode perceber, antes de ser publicado na CoroCoro Comics (que foi criada para esse fim) Doreamon passou por várias revistas que tinham segmento de público específicos. Essas são as revistas shogaku. O termo em japonês significa “escola primária”, no caso a primeira etapa de formação educacional dos nipônicos.

De acordo com Sonia Bide Luyten (2012) as revistas shogaku também podem ser chamadas de revistas didáticas, que por sua vez “auxiliam a criança no desenvolvimento escolar sem a proposta rígida dos livros e, apesar de se dedicarem ao ensino, pertencem a editoras comerciais sem relacionamento com entidades educacionais do governo japonês”. Caso da Shogakukan, que carrega no nome sua origem como editora voltada primeiramente ao mercado educativo, mas que com o tempo se aventurou pelo entretenimento até se tornar uma das gigantes do mercado fundando as suas subsidiárias (hoje editoras independentes, mas parte do grupo Hitotsubashi) as editoras Sueisha (shounen e shoujo) e Hakusensha (shoujo, seinen e josei).

 

(O Segredo de Natsuki é uma das poucas obras do segmento erótico publicado no Brasil)

 

Erotismo e Sexo nos quadrinhos

Como não poderia ser diferente, o mangá também se adapta a gostos e interesses. Erroneamente encarado como uma demografia (por ser exclusivamente voltados para adultos) as revistas em quadrinhos com conteúdo erótico-pornográfico na verdade são um segmento de gênero do mercado editorial japonês.

Os seijin mangás (quadrinhos eróticos) – popularmente conhecido no ocidente como hentai mangá – são as publicações cujo o teor é primordialmente sexo e/ou situações eróticas das mais variadas possibilidades. Do romance que culmina numa bela noite de amor ao exageros do bukkake (modalidade de sexo grupal onde uma única mulher recebe a ejaculação de muitos homens, quase como um ritual), o seijin mangá é encarado como assunto delicado e pouco discutido nas rodas de otaku espalhadas por aí.

Acredita-se que o gênero é inspirado nos traços eróticos dos anos 1960-1970, que por sua vez são baseados nas representações de cotidiano do Hokusai Mangá (a obra que se diz ter inspirado todo o estilo de desenho adotado pelos japoneses e criada por Katsushika Hokusai, mas que na verdade são exemplos de arte yukio-ê).

Para dar continuidade é preciso antes explicar o equívoco cometido pelos fãs (embora esteja tão enraizado que não se mude mais isso), que é entre o uso dos termos seijin, hentai e ecchi. O termo seijin é o correto, pois é o referencial japonês para “erótico/sexual”. Já o termo hentai significa “estranho” ou “pervertido” e por muitas vezes é retratado como um tipo de ofensa. Usado para classificar que tem alguma espécie de fetiche sexual, o termo ganhou o ocidente como sinônimo de mangá com conteúdo pornográfico.

A fim de minimizar a diferença entre o sexo explícito e as situações erotizadas (que também acontecem em shounen mangás) o hentai mangá, também chamado de H-mangá, teve seu “H” extraído e convertido no ecchi (numa clara inferência da pronúncia japonesa do /eɪtʃ/ – letra “H” em inglês – mal realizada). O ecchi é o que já se chama de soft porn ou mesmo apenas uma situação erótica engraçada dentro de uma narrativa, onde as mais comuns são os protagonistas caíndo desengonçadamente e retirando as saiais das garotas ou apalpando seus seios (tudo isso sem querer!). Contudo a discussão entre as diferenças de ecchi e hentai em mangás e animês suscita novos debates sobre os limites da erotização [tema para outro artigo].

Voltando a falar do seijin mangá – quando foge do erotismo e desemboca no sexo hardcore – se pode destacar as subdivisões de conteúdo abordado por essas narrativas, que vão de sexo romântico ao grupal, netonare (traição), futanari (mulheres com orgãos genitais masculinos), furrys (com personagens antropomorfos), situações com estupro e/ou BDSM, lolicon e shotacon (pornografia infantil) ou bizarrices envolvendo monstros e tentáculos.

No Brasil o seijin/hentai mangá ganhou popularidade por meio das editoras Alto Astral, JBC e NewPOP que já publicaram títulos como Love Junkies, Futari H , Angel (publicado sem licenciamento sobre o título Japinhas Safadinhas), Impulse, Laços Proibidos, O Segredo de Natsuki entre outros, sendo que em sua maioria são comédias eróticas. No Japão o consumo desse tipo de conteúdo vem sendo combatido a cada dia, mas é muito difícil de ser encerrado, visto que o país tem uma das indústrias pornográficas mais famosas do mundo. Para minimizar a exposição de órgão sexuais as publicações oficiais são censuradas com mosaicos e tarjas, contudo os doujinshis (feito por fãs) não obedecem as leis e desenham tudo de forma explícita ganhando o interesse do público físico e/ou virtual.

Bom, esse foi nosso penúltimo percusso no assunto demografias  aqui no VOLTS. Na semana que vem finalizamos falando sobre gêneros de mangá que se destacam por demografias e que se tornaram símbolo da cultura japonesa de quadrinhos para o mundo ao ponto de conquistar outras mídias como o cinema. Para rever o que já falamos anteriormente basta clicar aqui.

Até a próxima e… Sayonara!

 

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Referências:

LUYTEN, Sonia Bide. Mangá: o poder dos quadrinhos japoneses. 3ª Ed. São Paulo, Hedra, 2012.

SATO, Cristiane A. Japop – o poder da cultura pop japonesa. São Paulo, NSP Hakkosha, 2007.

JBC MANGÁS. Os estilos de mangás. In: https://mangasjbc.com.br/os-estilos-de-mangas/. Acesso em: 04/03/2018

BBM – Biblioteca Brasileira de Mangás. Hentai. In: https://bibliotecabrasileirademangas.wordpress.com/tag/hentai/. Acesso em: 18/03/2018.

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