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Críticas

Crítica | Pequena Grande Vida

Falta de foco marca a primeira M.NightShyamalizada de Alexander Payne

Pequena Grande Vida (Downsizing, 2017) parece uma versão adulta de Querida Encolhi as Crianças (1989) clássico da Disney dos anos 80 onde Rick Moranis, um inventor de garagem, cria uma máquina encolhedora que acidentalmente transforma seus filhos e os do vizinho em seres do tamanho de uma formiga. Aqui, o conceito é amadurecido pra imaginar um futuro ultra-tecnológico onde a ciência é capaz de encolher indivíduos a fim de, entre outros quetais, prover a sustentabilidade do planeta – humanos em miniatura agridem o planeta em miniatura. Vai vendo.

Mas longe de uma ficção científica cabeçuda de ensaio futurista, o filme do maravilhoso Alexander Payne, na real, não escapa do pastiche. A graça, às vezes involuntária, muito presente principalmente na primeira metade do filme (e a trilha sonora de Rolfe Kent, parceiro recorrente de Payne, está lá pra reforçar essa intenção) interfere um pouco no nosso processo de comprar o argumento. O ridículo e até mesmo o efeito de desproporcionalidade são recursos comuns de comédia que aqui provocam um certo entrave pra se levar a trama a sério. Tá, então é uma comédia. Tem a hilária Kristen Wiig, tem musiquinha jocosa de fundo. É uma comédia? Não.

O que ocorre é que o filme, ao passo que vai desenvolvendo sua narrativa, muda de rumo bruscamente partindo de uma comédia de ficção científica para o que talvez seja um ensaio sobre os hábitos de consumo da nossa sociedade e o trato que damos aos recursos não renováveis do planeta. Mais tarde, o roteiro de Alexander Payne e Jim Taylor dá outra guinada, dessa vez levando o discurso para a pauta das causas humanitárias. Ao transformar “LeisureTown”, a cidade onde os humanos encolhidos vivem, num microcosmo da nossa própria sociedade, com suas subdivisões e desigualdades, o filme ganha um contorno de sátira social. Meio confuso.

O que mais se sobressai nos filme de Alexander Payne é sua habilidade em equilibrar comédia e melancolia em doses perfeitas. É como se todos os filmes dele, de Eleição (1999) a Nebraska (2013), quisessem dizer “bom, é tão triste que só o que resta é sorrir”. E a melancolia é muito bem vinda quando vem disfarçada por essa nuvem de sarcasmo e riso. Mas esse casamento passa bem longe de Pequena Grande Vida. Um filme muito ambicioso, com um conceito interessantíssimo, maior orçamento da carreira, mas que soa indeciso quanto ao que realmente quer discutir, já que muda de tom várias vezes ao longo da narrativa, abandonando as retrancas no caminho.

Se o arco super inflado que procura discutir o futuro da raça humana na Terra de repente faz um recuo pra explorar o amorzinho que existe entre os personagens de Matt Damon e Hong Chau (ótima, inclusive) é que rola ali uma falta de foco mesmo. Com uma filmografia impecável, temos aqui a primeira grande M.NightShyamalizada de Alexander Payne. É aquele ditado, né? Ninguém tá livre. Vida que segue.

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