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Animês e Mangás

Artigo Otaku | Conhecendo as Demografias em Mangás (Parte 02)

Nesta segunda edição falamos sobre shounen-ai, shoujo-ai e o gekigá.

Na segunda parte desta série especial de artigos sobre as demografias de mangás vamos dar continuidade ao debate sobre shounen e shoujo falando um pouco mais sobre suas derivações mercadológicas para segmentos distintos de idade e também de interesses pessoais.

Antes relembremos que o shounen se refere ao segmento editoral demográfico voltado para os meninos/adolescentes entre 12 e 18 anos com foco em narrativa formada com gêneros como aventura, sci-fi, fantasia, ação etc. dominado os elementos da jornada do herói. A revista mais famosa do segmento é a Weekly Shounen Jump que popularizou a tríade Amizade-Esforço-Vitória como o contexto básico para os shounen mangás.

Já o shoujo é a contrapartida mercadológica voltada para as meninas. Seu principal trabalho é o mangá Berusayu no Bara* (A Rosa de Versalhes) de Riyoko Ikeda, lançado entre 1972-1973 , que ajudou a popularizar as tramas carregadas de melodrama, romance e beleza (moe) para o público interessado em algo que fosse numa corrente diferente dos mangás cheios de lutas, sangue e violência. Você pode conferir mais acessando o artigo anterior no link ao final do texto.

 

 

(No yuri mangá Citrus**, temos um romance secreto entre as irmãs adotivas Mei e Yuzu)

 

Os “ai” dos mangás

Basicamente o shounen e o shoujo são feitos em perspectivas vinculadas às tradições do povo japonês. Embora bastante avançado tecnologicamente tanto na indústria quanto no ensino, o país, no entanto, ainda vive conflitos étnicos-culturais (como qualquer nação sobre a face da Terra). O soft power japonês não consegue impedir que as tradições culturais mais enraizadas – nas famílias por assim dizer – sejam desmistificadas. O que acaba levando o país a ser contraditório.

Atualmente o número envolvendo o assunto casamento no Japão são desanimadores. Em 2017, um estudo feito por uma associação de planejamento familiar do país apontou que somente 47,2% dos casais japonês chegam a ficar mais de um mês ou dois sem manter relações sexuais e não pretendem mudar isso. Outro ponto interessante é que desde 2013 a mídia internacional passou a explorar a comercialização da ideia de que os japoneses estão preferindo namorar garotas virtuais, as famosas Garotas 2D, ao invés de manter um relacionamento real. Muitas situações confluem nessa situação, mas a mais justificada delas é que os japoneses da Geração Y estão buscando meios de se livrar por completo do tradicionalismo arraigado em sua cultura ao mesmo tempo que prezam por manter padrões. Isso cria um estado onde eles libertam seus desejos por meios das fantasias vendidas pela indústria.

Nesse contexto surgem o shounen-ai e o shoujo-ai. Criado pelo fandom otaku, o termo é a forma utilizada para substituir as palavras Yaoi e Yuri, que respectivamente referem a relacionamentos homossexuais entre homens e entre mulheres. Para não associar as duas expressões e evitar uma possível crise editoral, o próprio fandom ocidental passou a se referir de forma mais distinta aos dois subgêneros. Exato! Subgêneros.

Diferente de seus originais – shounen e shoujo – que são demografias, o shounen-ai (Amor dos Meninos) e shoujo-ai (Amor das Meninas) são subgêneros vinculados à demografia. Onde tanto uma revista shounen pode publicar os dois tipos de narrativa como as revistas shoujo também.

Como forma de caracterizar os dois subgêneros os otaku passaram a fazer a seguinte referência:

1) quando a trama apresenta um plot romântico entre pessoas do mesmo sexo e o desenvolvimento é melodramático e isento de qualquer situação erótica reveladora o mangá é shounen/shoujo-ai;

2) Se essas situações não são respeitadas, ou se há um toque mais explícito de erotismo (como cenas de sexo) é yaoi/yuri;

Mesmo assim, nenhuma das duas formas é a mercadologicamente corretas. Para os editores japoneses as tramas focadas nesses plots são enquadradas como Boy’s Love (BL) ou Girl’s Love (GL). A força desses segmentos comerciais no mercado japonês de mangá é tanta que os seus fãs possuem terminologias especificas para lhes representas:

1) fujoshi – para as meninas fãs de Boy’s Love;

2) fudanshi – para meninos que curtem relacionamentos homossexuais tanto entre homens quanto entre mulheres, ou seja: Boy’s Love e Girl’s Love.

 

(Crying Freeman é um dos clássicos do segmento demográfico gekigá)

 

O Gekigá, o Seinen e o Josei

Na contramão dessa discussão de variações de conteúdo/gênero, as demografias de mangás também buscam atingir um público mais maduro. Em 1950, quando as principais revistas de shounen e shoujo começavam seu passo para se estabilizar como fenômenos de mercado, a indústria de quadrinhos japoneses já possuía um formato definido para o público adulto. Esse é o gekigá. Num referencial às graphic novel ocidentais, o termo foi criado por Yoshihiro Tatsumi inicialmente para dissociar seus trabalhos dos demais mangás comercializados. Isso porque a ideia do termo mangá (desenho humorado) ainda era visto como algo pejorativo por alguns artistas.

Com traços mais distintos e e a emergência de outros gêneros pouco conhecidos do público infanto-juvenil como a distopia, o steampunk, o cyberpunk, o terror/horror e o eroge (tramas adultas), muitos mangás foram publicados e enquadrados nessa classificação demográfica. São os casos de títulos como: A Lenda de Kamui (Sanpei Shirato), Golgo 13 (Takao Saito) e Akira (Katsuhiro Otomo). Mesmo assim seu maior representante é Ryoichi Ikegami, que antes de se tornar professor na Osaka University of Arts publicou os mangás Mai – Garota Sensitiva, Crying Freeman e Heat.

O gekigá, no entanto, não atendia a todo uma grande fatia de público. Com histórias mais interessantes ao público masculino a demografia passou por um período de crise ao ponto de muitas de suas obras serem consideradas shounen após sua publicações no exterior. Contudo, o que leva ao rompimento do gekigá para o surgimento das demografias seinen e josei é o próprio amadurecimento das histórias femininas. O shoujo escrito com tramas abordando situações de jovens deixando a fase da adolescência e avançando na vida adulta tanto profissionalmente como romanticamente e sem elementos de fantasia, com conflitos que vão da depressão ao adultério foi o estopim para a criação de um segmento demográfico voltado para mulheres acima de 20 anos.

Muito similar aos j-dramas (novelas japonesas) o josei (histórias para mulheres adultas) logo conquistou um grande fatia de público que vai desde mulheres donas de casas e casadas às jovens executivas do mercado de trabalho nipônico. Entre os josei destaque para obras como Honey & Clover (Chica Umino), Nodame Contabile (Tomoko Ninomiya) e Paradise Kiss (Aya Iazawa).

A fim de diferenciar, a indústria japonesa de quadrinhos passou a classificar as obras gekigás como seinen (história para homens adultos) e assim criou mais dois segmentos demográficos específicos para organizar tanto o público quanto às obras publicadas.

Se você gostou da leitura até aqui deixo um recado: mangá é uma arte cheia de muitas interpretações e desdobramentos. Para nosso terceiro artigo desta série especial falaremos mais sobre as demografias kodomo e seijin. Caso queira rever o que já foi falado anteriormente clique aqui.

Até a próxima e… Sayonara!

 

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* Na última sexta-feira (09) a Editora JBC anunciou a publicação do mangá A Rosa de Versalhes em seu web show Henshin Online! Essa é a primeira vez que a obra-prima do shoujo mangá é publicada no Brasil.

** O Shoujo-Ai/Yuri também pode ser chamado de Orange. Citrus (Saburouta) é um yuri mangá que brinca com a nomenclatura carinhosa logo no título. O animê está no catálogo de atrações do Inverno 2018 do Crunchyroll.

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Referências:

LUYTEN, Sonia Bide. Mangá: o poder dos quadrinhos japoneses. 3ª Ed. São Paulo, Hedra, 2012.

SATO, Cristiane A. Japop – o poder da cultura pop japonesa. São Paulo, NSP Hakkosha, 2007.

JBC MANGÁS. Os estilos de mangás. In: https://mangasjbc.com.br/os-estilos-de-mangas/. Acesso em: 04/03/2018

O GLOBO. Japão tem número recorde de casamentos sem sexo. In: https://oglobo.globo.com/sociedade/japao-tem-numero-recorde-de-casamentos-sem-sexo-20922252. Acesso em: 11/03/2018.

JAPONÊS DE ANIME. Fujoshi e Fudanshi: Significado. In: http://www.japonesdeanime.com.br/2016/02/fujoshi-fudanshi-significado.html. Acesso em: 11/03/2018.

QUORA. What is the difference between yuri and shoujo-ai. In: https://www.quora.com/What-is-the-difference-between-yuri-and-shoujo-ai. Acesso em: 11/03/2018.

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