Connect with us

Animês e Mangás

Artigo Otaku | Conhecendo as Demografias em Mangás (Parte 01)

A primeira edição desse especial destaca as classificações de shounen e shoujo.

Na semana que correu, um debate já batido tomou conta dos principais espaços de discussão da comunidade otaku brasileira na web. Blogs famosos entre os usuários da rede de computadores comentaram as informações divulgadas no último Planet Time, o web show semanal do grupo Panini Brasil onde são divulgadas o checklist e as novidades do selo Planet Mangás, que publica os quadrinhos japoneses em nosso país.

O apresentador Vitor resenhou em 2min19s os três novos título do catálogo da editora: Black Cover, Avenger Nine e Re:Zero. Até aí tudo normal no mercado editorial de quadrinhos e mangás brasileiro se não fosse por uma situação bastante peculiar levantada no blog Mais de Oito Mil: os três são títulos de mangás shounens anunciados pela mesma editora que duas semanas atrás divulgava informações sobre adequações em títulos já existentes em seu catálogo que também são, adivinhem: shounens!

Na postagem, o blog destaca que ao anunciar três títulos do mesmo segmento demográfico a Panini acaba caindo na esparrela de ignorar a variedade de conteúdo para seu público consumidor. Tomando como base um comentário de seguidor nas redes sociais, o blog relembra que a mesma editora em breve encerrará quatro títulos que se encaixam em diferentes demografias e gêneros, entre eles Lovely Complex (shoujo & lovely comedy) e Arakawa Under the Brigde (seinen & comedy).

Ambos os títulos são de demografias diferentes e com temática que vão além da aventura e da ação atingindo uma parcela maior de público considerando tanto leitores adolescentes e mais maduros quanto meninos e meninas. A crítica feita é contundente: serão publicados mais shounens quando nem mesmo os shounens já existentes no catálogo passam por boa fase. É o caso de The Testamente of Sister New Devil (ecchi harém) que trabalha o universo shounen de ação e aventura com um toque de erotismo exacerbado.

O mesmo vale para as demais editoras. A predominância do shounen sobre outras demografias como shoujo, seinen, josei, kodomo e até mesmo o seijin (popularmente conhecido como hentai) no mercado brasileiro de quadrinhos cria um olhar dúbio sobre o comportamento de editores e consumidores. Será que o público – em sua grande maioria – consome mesmo só o shounen e as demais demografias são ignoradas, ou será que os editores ainda não entendem o público e apostam em conteúdo já comum aliado à pressão encontrada no licenciamento de títulos junto às editoras nipônicas acabando por não conseguir manter variedade nas prateleiras de lojas e livrarias especializadas no segmento? Não vou responder isso aqui. Não detenho argumentos válidos o suficiente para chegar a um denominador comum.

No entanto, todo esse prelúdio foi para que o leitor possa se inteirar do debate que movimenta as discussões mais rotineira da comunidade brasileira e assim passarmos ao assunto título desse artigo: Você conhece as demografias de mangás?

Bom, se é um iniciante nesse mundo (ou um total desconhecedor) essa é a oportunidade de compreender em definitivo a diferença entre Demografia e Gênero nos mangás. Agora, se você é velha guarda no assunto e mesmo assim fica confuso essa é a oportunidade de corrigir vícios e se inteirar em definitivo ao tema.

Numa série quatro artigos ao longo do mês de março detalharemos – à luz de uma discussão histórico e acadêmica – as principais demografias que movimentam o mercado japonês de mangá e influenciam diretamente nos demais mercados internacionais quando se trata de licenciamento.

 

(Da direita para esquerda: Capa da edição #06 de 2017 e Capa da edição dupla #04-05 de 2017 da revista Weekly Shounen Jump, a mais famosa revista de mangás do Japão e ícone do segmento demográfico shounen para o mundo)

 

Demografia vs. Gênero

Para iniciar o assunto é bom que fique claro que há uma diferença lógica entre as duas nomenclaturas. É comum numa conversa ouvir alguém dizer que “leu um mangá do gênero shounen”. Quem faz essa afirmação quer demonstrar que conhece os termos orientais para classificação dos quadrinhos, mas comete um erro terrível ao confundir as coisas.

É correto afirmar que Gênero – quando se trata de mangás – não se refere às distinções fisiológicas como masculino ou feminimo, por exemplo,  mas sim às classificações literárias  a qual se pode atribuir uma narrativa indo desde da notícia ao thriller/horror em explicação geral. A Demografia, no entanto, é o expoente que diferencia quando uma narrativa é produzida pensada em um público etário específico.

Em sua obra Mangá – O poder dos quadrinhos japoneses, Sonia Bide Luyten, destaca que o comércio de quadrinhos no país asiático é baseado na divisão das faixas etárias e do público existindo revistas dedicadas ao consumidor infantil (kodomo ou shogaku), adolescente masculino (shounen) e feminino (shoujo), além do público adulto masculino (seinen) e feminino (josei). É claro que essas divisões não limitam ao consumidor ter acesso a qualquer uma das demografias citadas, mas isso ajuda a criar um vínculo entre modelos narrativos e o público-alvo.

Essa divisão, no entanto, só começou a se formar no início do século XX com um olhar mercadológico do grupo Kodansha Soten. Até então os mangás tinham temáticas definidas que atraiam mais meninos e outras que atraiam mais meninas, no entanto não existia uma divisão comercial. Em JAPOP – O Poder da Cultura Pop Japonesa, Cristiane A. Sato nos apresenta detalhadamente como e porque o shounen e o shoujo foram formulados e deram início a atual fase das demografias de mangás. Segundo a autora, buscando uma efervescência do consumo por parte do público jovem japonês a Kodansha implementou um sistema editorial onde passou a reunir as histórias voltadas para meninos em uma revista exclusiva e anos depois aplicou o mesmo sistema para o público feminino reunindo nos semanais páginas e páginas dos quadrinhos com anúncios de itens da moda, material escolar, música e etc.

(Capa de uma edição da revista LaLa da editora Hakusensha destacando o mangá Natsume Yuujinchou, considerado entre os críticos como o maior sucesso do shoujo adaptado em animês desde Sailor Moon)

 

Shounen e Shoujo

Em 1914 o grupo Kodansha Soten, buscando atingir com mais afinco o mercado infanto-juvenil japonês, decidiu por compilar em uma revista comercial capítulos de diversos mangás licenciados pela editora e em publicação juntamente com o conteúdo convencional de uma magazine: notícias, anúncios publicitários, jogos e promoções. Nascia assim a Shounen Kurabu (Clube dos Meninos) que buscava atender o público infanto-juvenil entre 12 e 18 anos.

A criação da revista foi o pontapé para a assimilação cultural do segmento demográfico shounen, que se refere aos mangás voltados para meninos. Com gêneros e subgêneros literários variados como aventura, ação, comédia, ecchi (erotismo), thriller, sci-fi, esportes e romance, o shounen é o mais popular e conhecido segmento demográfico dentro e fora do Japão.

Nos dias atuais sua principal representante é a revista Weekly Shounen Jump, que é a mais famosa revista de mangás do mundo sendo publicada atualmente no Japão e nos Estados Unidos. Iniciada em 1968, a revista do grupo Sueisha veio para concorrer com outras publicações da demografia já existentes como a Shounen Magazine (Kodansha) e Shounen Sunday (Shogakukan), que desde 1959 dominavam o mercado.

A fama da revista se deu após uma pesquisa de marketing junto ao público que lhes rendeu no fim os “três pilares do shounen mangá” numa tentativa por encontrar meios de vencer a concorrência. Buscando saber o que mais tocava o coração do seu público; o que lhes era mais importante; e o que lhes fazia sentir mais feliz, a revista alcançou as seguintes respostas: Amizade, Esforço e Vitória. Os três elementos passaram a ser o plot editoral dos mangás do grupo Sueisha, que graças a isso se consolidou mundialmente com sucessos de vendas como One Piece e Dragon Ball e sucessos de afetividade com o público local e internacional como Ashita no Joe e Saint Seiya.

Já a sua contrapartida, o shoujo, tem seu processo de formação noves anos depois da primeira revista da Kodansha (em 1923) com a primeira tiragem de Shoujo Kurabu (Clube das Meninas) da mesma editora. Nos mesmos moldes da versão masculina, a revista pensada para adolescentes entre 12 e 18 anos foi o expoente para o segundo segmento demográfico mais rentável do país asiático.

O shoujo mangá, no entanto, teve uma aceitação tardia e só teve seu primeiro sucesso a nível nacional em 1953 com Ribbon no Kishi (A Princesa e o Cavaleiro) de Osamu Tesuka. Inspirado no Teatro Takarakuza o mangá abordava os gêneros aventura e romance com um olhar mais dramático e sensível. O sucesso foi tanto que rendeu três serializações: duas na Shoujo Kurabu e uma na revista Nakayoshi (também do grupo Kodansha). Ribbon no Kishi é conhecido também por popularizar a representação gráfica dos olhos gigantes comum a arte do mangá.

Todavia, o maior fenômeno do segmento demográfico é a obra de Ryoko Ikeda, Berusaiyu no Bara (A Rosa de Versalhes) que adaptou majestosamente a vida de Maria Antonieta, rainha da França, com foco numa outra protagonista: Oscar François de Jarjayes, a Lady Oscar. O mangá foi publicado inicialmente em 1972 nas páginas da revista Margaret do grupo Sueisha. Berysaiyu no Bara tornou-se o maior símbolo do shoujo mangá extrapolando a fronteira da demografia e alcançando públicos diversos dentro e fora do Japão.

Atualmente, o shoujo mangá conta com diversos títulos sucessos. Entre os mais badalados estão os fenômenos dos anos 1980 e 1990 com o grupo CLAMP, um renomado conjunto de mulheres artistas de mangá, que roteirizam e apresentam histórias cheia de elementos comuns à demografia como o romance, o moe (expressão para beleza), o drama, a comédia e a fantasia. Títulos famosos do grupo são Sakura Card Captors e Guerreiras Mágicas de Rayearth. Nos dias atuais o shoujo vive um dilema de transição entre narrativas vinculadas ao olhar conservador da sociedade nipônica sobre o papel da mulher e o olhar liberal de independência conquistada por elas seja no cenário amoroso ou profissional.

Bom, esse primeiro artigo (longo!) chega ao fim após destacar uma contextualização sobre o tema e falar um pouco do shounen e do shoujo. Nas nossas próximas discussões falaremos um pouco mais dos dois segmentos e sua relação com as demografias seinen e josei.

Até a próxima e… Sayonara!

 

—-

Referências:

LUYTEN, Sonia Bide. Mangá: o poder dos quadrinhos japoneses. 3ª Ed. São Paulo, Hedra, 2012.

SATO, Cristiane A. Japop – o poder da cultura pop japonesa. São Paulo, NSP Hakkosha, 2007.

JBC MANGÁS. Os estilos de mangás. In: https://mangasjbc.com.br/os-estilos-de-mangas/. Acesso em: 04/03/2018

SUKI DESU. As editoras e revistas japonesas de mangás. In: https://skdesu.com/as-editoras-e-revistas-japonesas-de-mangas/. Acesso em: 04/03/2018.

Em alta agora