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Críticas

Crítica | Eu, Tonya

Cinebiografia não convencional é uma ótima comédia de erros.

Foto: Divulgação

Com uma abordagem diferente, Eu, Tonya (I, Tonya, 2017) poderia se tornar facilmente num dramalhão sinistro. Mas ciente da força tragicômica da trajetória de Tonya Harding (Margot Robbie), gênia inconteste da patinação americana, o diretor Craig Gillespie transforma o que poderia ser mais uma cinebiografia formulaica em uma narrativa não-convencional para o gênero  – e o resultado é praticamente uma comédia de erros.

Reencenando depoimentos dos personagens reais envolvidos na sucessão de equívocos que sugaram a carreira da patinadora para o buraco, o filme ganha uma aura de documentário fake (os tal dos mockumentary). E só assim consegue arrancar o peso que outro diretor daria a Jeff, personagem de Sebastian Stan, ex-marido da protagonista. Um sujeito sem o menor escrúpulo, abusador, violento, patético. As cenas de enfrentamentos físicos entre os dois só são suportáveis pela leveza (que não ignora a gravidade) impressa pela narrativa.

O mesmo pode ser dito da mãe vivida maravilhosamente por Allison Janney. Hilária de maneira involuntária, a mulher, ao mesmo tempo apoiadora e inimiga mortal da filha, é basicamente a mãe de Rapunzel em Enrolados (2010) – só que sem a fixação pela juventude, fumante inveterada que é.

De outro lado, o roteiro de Steven Rogers também não hesita em carregar seu texto com tintas ficcionais, abraçando com gosto o potencial de entretenimento que a história guarda. Nesse sentido Eu, Tonya é um filme de muito fácil absorção. Abusando do recurso de quebra da quarta parede (que é quando os personagens olham diretamente para a câmera; aqui fazendo comentários marotos para o público) o filme também relativiza a premissa da “versão real dos fatos” para mostrar que, dependendo da perspectiva, tudo muda.

Correndo por fora, a trilha sonora foi buscar pérolas que ao mesmo tempo em que ajudam a sublinhar a atmosfera dos anos 90, oferecem alguns respiros entre os desdobramentos da trama. É o caso da ótima “The Chain” (Fletwood Mac) ou “Devil Woman” (Cliff Richard). Chega mais, Spotify!

E é muito interessante que embora a abordagem não pareça levar a história tão a sério, jamais a banaliza. E faz com que nos preocupemos de verdade com o destino da personagem, metida num rocambole de vacilos do começo ao fim. É culpa da abordagem também que alguns efeitos questionáveis (maquiagem de envelhecimento, perucas…) sejam relevados. De todo modo, a trajetória de Tonya Harding tem força própria – mas poderia ter sido escrita por Dias Gomes, fácil. Cada um com a sua verdade. Keep skating!

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