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Críticas

Crítica | Lady Bird: É Hora de Voar

Filme de Greta Gerwig mostra, com doçura, que amadurecer é assustador

Foto: Divulgação

O maior trunfo deste Lady Bird: É Hora de Voar (Lady Bird, 2017) é conseguir uma abordagem fresca para um tema surradíssimo como é o coming-of-age (o período divisor de águas onde deixamos de ser crias de casa para virarmos adultos. Alô Toy Story 3!). Mas o american indie da temporada também oferece outros acertos. Simbora.

Dirigido com graça por Greta Gerwig (protagonista de “Frances Ha”, 2012) o filme usa uma montagem que não se demora muito nos planos, dando uma sensação de quase-urgência, como alguém que folheia um velho álbum de fotos e é tomado por flashes de memória. O fato de a história se passar em 2002, era ainda analógica, intensifica essa sensação.

Sendo assim, em breves 94 minutos, é surpreendente que se consiga profundidade o bastante para explorar a contento cada um dos personagens que surgem em tela. É o caso do amigo-crush interpretado por Lucas Hedges, que com poucas falas consegue traduzir a agonia/pressão de ter que se comportar como alguém que não é. O mesmo acontece com a melhor amiga Julie (Beanie Feldstein), o segundo interesse romântico, Kyle (Timothée Chalament) e a amiga-ostentação Jenna (Odeya Rush). Cada um deles traz um universo particular complexo que, apesar da pouca exposição, conseguem ser bem lidos e compreendidos em seus dramas – desvia raspando do caminho fácil do clichê.

Seja como for, a premissa “escolha de carreira + necessidade de provar-se a si e aos outros” facilita o trabalho porque provoca identificação instantânea. Todos nós, em menor ou maior escala, já encaramos esse monstro de bilhões de cabeças que é buscar sua própria identidade, se entender enquanto adulto e tocar essa carga pesada de corresponder aos investimentos e expectativas dos pais. E é justamente quando o filme volta sua atenção à relação entre mãe e filha – Laurie Metcalf e Saoirse Ronan (ambas indicadas ao Oscar) – que a mágica acontece.

O roteiro redondinho de Greta oferece micro-informações que denotam o amor que as duas nutrem mutuamente, mas que em geral são incapazes de exprimir. E aí cresce a sensação de ser incompreendido numa idade onde tudo é superlativo – mas ao entender um pouco as duas, ao público só resta a agonia inútil de torcer para que as personagens sejam capazes de se entender – e se você já teve uns arranca-rabos com a patroa, vai se encontrar na situação.

Por fim, Lady Bird é um filme muito bonitinho, honesto e assertivo em suas proposições – e se beneficia do fluxo de identificações com o publico para passar sua mensagem. O simples é difícil. E crescer, meus amigos, é assustador.

 

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